Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 17 de 25 · parte 1/3

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Não tão branca

Parte 4 : De volta ao lar

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Capítulo 1

Nova York, ao que parecia, tinha duas faces. Poderia oferecer um aspecto radiante com promessas ou um semblante abatido e ameaçador. Com suas possibilidades lisonjeiras, poderia elevar alguém ao sétimo céu ou enviá-lo às profundezas do inferno com suas negações esmagadoras. E solidão! A solidão oferecida pela grande e barulhenta cidade nunca poderia ser imaginada. Para saber, seria necessário experimentá-la.

Ao voltar do trabalho, Angela costumava estudar as pessoas nos trens, tentando adivinhar a causa que havia gravado uma determinada expressão em seus rostos, principalmente nos rostos das moças. Ela escolheu para si quatro tipos: o feliz, o indiferente, o preocupado e o solitário. Sem dúvida, sua classificação era imperfeita, mas ela nunca falhava ― pensou ― em reconhecer os sinais de solidão: um vazio de expressão, uma indiferença e um desespero penetrante. Ela se lembrou das pessoas na Union Square que espiara com tanta alegria quando viera para Nova York. Pensava neles como sendo a escória social, meros preguiçosos, inúteis. Não havia ocorrido a ela que o principal problema deles poderia ser a solidão.

O escritório ficava na 23rd Street e, muitas vezes, ao meio-dia, ela descia até a praça sombria e olhava novamente para as figuras esparramadas, meio reclinadas e abatidas. E entre eles e ela, Angela foi capaz de detectar uma conexão terrível. Ela ainda carregava seu caderno, sentava-se e fazia esboços, observando-os e anotando uma linha de vez em quando, quando aqueles olhos vagos e fixos não encontravam os dela.

Antes não teria se importado se eles a descobrissem olhando; ela teria dito com um encolher de ombros:

― Oh, eles não se importam, estão longe demais para isso.

Mas desde então sua simpatia e conhecimento aumentaram. Quão ferozmente ela teria se rebelado se alguém de um plano social superior a tivesse tomado como inspiração para um retrato!

À noite, Angela pensava em um quadro feito uma obra-prima. Era verão e as aulas na Cooper Union foram suspensas. Mas ela pretendia voltar no outono, talvez entraria no concurso de bolsa de estudos e, se fosse bem-sucedida, iria para o exterior. Mas o desejo de vagar não estava mais em ascensão. A perspectiva da Europa não parecia tão atraente agora quanto a de Nova York quando ela morava na Filadélfia. Seria bom ficar parada, enraizada; ter amigos, experiências, memórias.

*

Paulette, triunfante, havia ido com Hudson para a Rússia. Marta e Ladislas estavam passando o verão com o pessoal de Marta em Long Island. Roger caíra no limbo, mas ela não conseguia sentir sua falta; para ela, ele era o símbolo de tudo o que havia de mais fútil em sua existência, não conseguia perdoá-lo e nem a si mesma pelo ano de loucura. Se a experiência ― disse a si mesma ― tinha acabado, então deveria ser por completo.

Se tivesse se desvanecido em um brilho dourado com uma riqueza de memórias, a promessa de uma amizade poderia ser pensada; mas, como as coisas aconteceram, era uma ofensa, uma grande mancha no escudo de sua meticulosidade.

Angela gostaria que Marta a tivesse convidado para passarem os fins de semana juntas, mas a ideia aparentemente nunca lhe passou pela cabeça.

― Adeus até o outono ― ela disse alegremente.

― Sabe, estou muito feliz de ir para casa desta vez. Sempre tenho meu antigo quarto; é como começar a vida de novo. Claro que não desisti de Nova York, mas a vida parece muito mais real e durável lá. Afinal, é onde estão minhas raízes.

Suas raízes! Angela repetiu a expressão para si mesma em um tom que era totalmente invejoso. Como é maravilhoso voltar para os pais, parentes, amigos com quem nunca se perdeu o contato. A paz, a segurança, a camaradagem! Esse foi um relacionamento que ela abandonou com todos, até mesmo com Gínia. E quanto a seus outros conhecidos na Filadélfia, Henson, Butler, Kate e Agnes Hallowell... ela saíra de suas vidas tão completamente, tão casualmente, que seria impossível reestabelecer as coisas, mesmo que quisesse.

Virgínia, sem fazer esforço, parecia tomada, quase emocionada por amizades, intimidades agradáveis, mil interesses encantadores. Ela e Sara Penton, outra professora, haviam alugado um apartamento de três cômodos no último andar de uma casa na 139th Street, na “Striver’s Row”, a fileira dos lutadores, explicou Gínia. Merecido ou não o apelido, Angela achou que valeria a pena morar naquele belo quarteirão, com suas calçadas arborizadas, casas espaçosas, vizinhança graciosa. Um médico e sua esposa ocupavam os dois primeiros andares; eram pessoas idosas e bastante solitárias, pois seus dois filhos haviam se casado e ido para outras cidades. Eles praticamente adotaram Virgínia e Sara; cuidando delas quando estavam resfriadas, aconselhando-as com indulgência sobre seus visitantes. A Sra. Bradley, a esposa do médico, ocasionalmente passava vestidos para elas; em dias de tempestade, o médico as levava em seu carro até a Escola Pública 89, onde as duas lecionavam.

As duas meninas estavam cheias de intimidades, alegres reminiscências, planos comuns como se tivessem vivido juntas por anos. Segredos, apelidos, alusões enchiam a atmosfera. Angela ficou enjoada com as frases: ― Claro que você não entende isso; é apenas um disparate e demoraria muito para explicar. Além disso, você não conheceria nenhuma das pessoas.

Mesmo assim, por mais indesejável que fosse a expressão, ela não a ouvia com frequência, pois Gínia não incentivava suas visitas ao apartamento tanto quanto à pensão.

― Sara vai achar estranho se você vier com muita frequência.

― Podemos contar a ela ― Angela respondeu. ― Pedir que mantenha isso em segredo.

Mas Gínia opinou friamente que isso nunca funcionaria; era ruim confiar segredos às pessoas.

― Se você não pode manter o segredo, por que as outras pessoas deveriam? ― ela perguntou sabiamente. Sua atitude não mostrava malícia, apenas a aceitação total da posição que a irmã havia adotado anos atrás.

*

Em seus aposentos isolados no Village, sob o calor do verão, despida e desprovida de seu glamour, Angela refletia longa e frequentemente sobre seu atual modo de vida. Sua vida, ela tinha certeza, não poderia continuar indefinidamente como agora. Ainda que ela mesma não fizesse nenhum esforço, era improvável que a solidão pudesse persistir. Gínia, Angela astutamente suspeitou, soube dessa condição horrível quando ela, a irmã mais velha, a deixou tão implacavelmente para sair e brincar de aventura. Essa solidão e seu infeliz caso com Henson sem dúvida foram demais, e Gínia deliberadamente procurou mudança e distração em outro lugar. Havia camadas sobre camadas de força em Gínia e tantos propósitos e recursos quanto fosse necessário. Agora ela estava estabelecida em Nova York com amigos, emprego, segurança, levando uma vida totalmente aberta, sem segredos, sem subterfúgios, sem objetivos a serem alcançados por caminhos tortuosos.

Gínia mudou de vida e teve sucesso. Angela havia mudado a dela e encontrado dor e infelicidade. Onde estava a culpa? Não, certamente, em sua determinação de passar de uma raça para outra. Seu bom senso natural assegurou-lhe que teria sido tolice continuar vivendo como viveu na Filadélfia, constantemente, sem culpa própria, sendo colocada em posições impossíveis, sendo eternamente acusada e perseguida por não ter conseguido ser ela mesma, perdendo velhas amizades, receosa de conseguir novas. Não, a culpa não estava lá. Talvez estivesse em sua atitude para com os amigos. Ela tinha sido friamente deliberada ao usá-los? Certamente Angela planejou utilizar sua conexão com Roger, mas neste ponto não teve escrúpulos; ele havia sido pago integralmente por quaisquer vantagens que ela pretendia ganhar. Angela nem sempre foi gentil com a Srta. Powell, mas, murmurou para si mesma, sempre fui tão gentil com ela quanto ousei ser nas circunstâncias e muito, muito mais atenciosa do que qualquer um dos outros. Quanto a Anthony, Paulette e Marta, sua posição era clara. Ela ficou impressionada neste ponto ao perceber que durante sua estada de quase três anos, essas foram as únicas pessoas a quem poderia aplicar o termo amigos. Destes, Roger desistiu; a Srta. Powell se negou; Paulette foi para a Rússia. Restavam apenas Marta e Anthony. Marta estava intensamente interessada na conduta de sua própria vida em relação a Ladislas para ser uma amiga, uma amiga íntima, formidável e satisfatória, como Sara Penton parecia ser para Virgínia. Restava então apenas Anthony e sua nova conhecida, Rachel Salting.

*

Ela começou então, em sua solidão, a se aproximar de Rachel, buscando nada mais do que aquelas intimidades quase fraternas que surgem entre mulheres solitárias isoladas em suas casas nas grandes cidades e de todos os recursos naturais que tanto acrescentam à beleza e graciosidade da juventude feminina.

Se eu conseguir algo desta amizade que me beneficie, Angela pensou, acontecerá porque tem que acontecer, mas entrarei nisso com mãos limpas e coração puro — simplesmente porque gosto de Rachel.

Depois da febre e do aborrecimento da convivência com Roger, da ligeira maldade que acompanhava Paulette, da qualidade didática à espreita na casa de Marta, era encantador, até delicioso fazer amizade com aquela moça simples, inteligente e entusiasmada. Rachel, apesar de todos os seus dotes naturais, seu vasto conhecimento e seus muitos contatos, tinha a sinceridade e simplicidade absoluta de uma criança; às vezes Angela se sentia bastante sofisticada, até blasé ao lado dela. Mas na realidade eram duas crianças juntas. O breve episódio de Angela com Roger não deixou vestígios de sua natureza moral; ela estava agora tomada pela vergonha de sua indignidade; mas, além disso, não sofria. Sua soma total de conhecimento da vida havia aumentado; via os homens com um olhar diferente, era capaz de diferenciar as atitudes subjacentes às gentilezas da meia dúzia de jovens em seu escritório; ouvindo, rindo, pesando todas as suas atenções, não aceitando nenhuma. Na verdade, Angela havia perdido em certa medida o gosto pelo tipo de flerte atual. Poderia se casar algum dia, mas tudo isso ainda estava em um futuro sombrio. Enquanto isso, o presente dizia olá; materialmente ela estava mais uma vez segura, sua ambição ardente foi acalmada; ela tinha uma amiga. Era bom deixar o tempo passar um pouco.

As duas passavam as noites juntas. O noivo de Rachel, John Adams, era um vendedor ambulante e quase sempre estava fora da cidade. Quando ele estava em casa, Angela tinha o cuidado de ter um compromisso, embora Rachel lhe assegurasse, rindo e brilhando, que os dois já estavam tão acostumados um com o outro que uma terceira pessoa não precisava se sentir excluída. Ocasionalmente, os três iam durante as noites quentes de verão para Coney Island ou Far Rockaway. Mas esse passeio era mais uma provação do que uma viagem de prazer; tão lotados estavam os carros com a humanidade indefesa, tão lotadas as praias, tão apavorante a viagem de volta para casa. Felizmente, Angela ficou cara a cara um dia com Ralph Ashley, o ex-amigo de Carlotta. Desanimado, solitário, distraído, ele pediu a Angela ansiosamente que permitisse que ele ligasse de vez em quando. Ele parecia um jovem bastante estudioso e sério, que não havia conseguido descobrir as possibilidades de seus recursos interiores. Sem um conhecido ou um livro, ele estava desamparado. A autoconfiança e a inteligência de Angela pareciam oferecer um porto temporário. Aparentemente, com Carlotta fora da cidade, ele estava perdido. Por algum motivo, ele foi aceito no pequeno grupo e como ele possuía um carro que estava disposto e ansioso para compartilhar, o acordo era muito adequado.

*

Foram dias agradáveis. Muito tempo depois, Angela lembrou-se deles como um dos mais felizes que havia passado em Nova York. Em particular, gostava das horas em que ela e Rachel ficavam juntas, ocupadas com assuntos domésticos e familiares.

Elas se aconselhavam sobre moda; Angela experimentou novas receitas. No final da noite, ela trabalhava nos esboços enquanto Rachel, sentada de lado na cadeira grande, com as pernas balançando confortavelmente sobre o braço, fazia comentários e sugestões.

Rachel tinha feito cursos de arte e, numa viagem à França e à Itália, aos dezoito anos, visitou o Louvre, as Galerias Pitti e Uffizi. Tudo isso fornecia certa firmeza e autoridade às críticas que ela fazia para a evolução de sua amiga; seus comentários raramente produziram qualquer efeito em Angela, mas ambas sentiam que o conhecimento de Rachel dava um certo efeito de atmosfera artística.

Normalmente, a conversa de Rachel era sobre John e seu casamento se aproximando. Muitos anos depois, Angela poderia ter citado todos os detalhes daquele cortejo simples, quase selvagem, a consciência crescente dos dois amantes, seus medos e esperanças mútuos, seus questionamentos, garantias e seu noivado feliz. Ela sabia até o que John ganhava a cada semana, quanto ele investia, a quantia que a parcimoniosa Rachel achava que deveria ter antes que eles pudessem se casar. Antes, essa conversa, tão invariável, tão persistente, a teria entediado, mas ela era mais simpática naqueles dias; às vezes se pegava fazendo sugestões, guardando os recortes de dicas para donas de casa recolhidos dos jornais, propondo decorações para o interior de uma das casinhas feias nas quais Rachel inexplicavelmente colocara seu coração. Ela era um pouco mais velha que a amiga, tinha experiência em cuidar da casa e fazer compras com a mãe naqueles dias longínquos; arriscava-se ocasionalmente a aconselhar Rachel em suas compras raras, como se esta fosse sua própria irmã, em vez de uma conhecida casual que conhecia há menos de um ano.

Era uma existência plácida, quase ideal. Apenas um fio de preocupação percorria sua superfície, o pensamento de que Rachel e John logo se casariam e novamente Angela seria deixada em busca de um novo amigo. Com uma delas no Bronx e a outra em Greenwich Village, a comunicação frequente seria fisicamente impossível. Mas, de forma curiosa, sempre que Angela lamentava isso para a amiga, uma profunda tristeza descia sobre Rachel, que comentava sombriamente: — Há tempo suficiente para nos preocuparmos com isso; afinal de contas, pode ser que o casamento não aconteça. Nunca se sabe.

Isso era muito enigmático para Angela e, por fim, ela começou a ver o comentário como uma brincadeira, um tanto sem graça, mas ainda assim uma brincadeira.

Capítulo 2

No meio dessa serenidade, um raio caiu do céu. Rachel, que era bibliotecária, recebeu a proposta de ser bibliotecária chefe em um subúrbio distante do Brooklyn. Além disso, uma mulher rica de Butte, Montana, desejando ficar em Nova York por alguns meses e se apegando à sujeira da Jayne Street e aos inconvenientes do apartamento de Rachel, descobriu que precisava morar lá e não em outro lugar. Nenhum outro local em toda a grande cidade serviria; ela estava disposta a pagar o que fosse. A contragosto, Rachel disse um preço que secretamente considerou caríssimo, mas nada disso importava para a Sra. Denver, que estava acostumada a pagar pelo que queria. E Rachel não podia recusar, pois ambas as ofertas significavam um aumento substancial na reserva que mobiliaria a casinha marrom no Bronx. Na realidade, significava para ela uma sorte extraordinária e inesperada, cuja única falha consistia na separação forçada de sua nova amiga. Mas para Angela isso trouxe o horror de uma catástrofe, embora nem por um momento ela deixasse suspeitar de seu profundo desânimo. Depois de sua primeira exclamação involuntária de consternação, ela nunca vacilou em sua concordância total com o plano. Mas, no fundo, estava doente.

A mudança repentina exigiu muito trabalho e agitação. Rachel era tão desorganizada quanto Angela era organizada; tudo o que ela possuía tinha que ser coletado separadamente; não havia pilhas de roupas cuidadosamente dobradas para serem colocadas em baús abertos. Para começar, os próprios baús estavam cheios de itens duvidosos que precisavam ser classificados, doados ou até jogados fora. Não havia como abandonar o que sobrasse, pois o apartamento devia ser deixado habitável para a Sra. Denver.

Um pesadelo de empacotamento febril se seguiu; refeições apressadas, limpeza geral da casa. A fim de amenizar o aperto no coração, Angela mergulhou nas tarefas com grande esmero. Mas à noite, por mais cansada que estivesse com as atividades extras do dia, ela não conseguia lutar contra o desânimo doentio que a inundava em grandes ondas. Parecia que não poderia mais suportar a solidão; ela nunca poderia reunir forças para procurar novos amigos, para estabelecer novas intimidades. Angela tinha vinte e seis anos e o fato de ainda ser solitária a horrorizou. Talvez alguma maldição, como a que se lê nas lendas medievais, tivesse caído sobre ela.

Talvez eu não esteja destinada a ter amigos, ela disse a si mesma deitada de bruços nos travesseiros nas noites sufocantes de junho. E uma grande nostalgia por algo real e permanente se apoderou dela; ela gostaria de ser muito, muito jovem, segura e satisfeita na proteção da casa de seu pai ou, se isso não fosse possível, que fosse muito, muito velha.

*

Uma natureza tão forte e autoconfiante como a dela não poderia permanecer submersa por muito tempo; Angela tinha visto muitos começos ruins se converterem em finais bons. Um de seus dotes naturais mais valiosos residia em sua habilidade de se ver e de ver as dificuldades objetivamente diante de seus próprios olhos; dessa forma, ela havia resolvido mais de um problema. Na longa viagem de metrô de volta do Brooklyn, para onde acompanhara Rachel na noite da partida, ela decidiu seguir seu curso. Naquela mesma noite, felizmente, o terrível calor havia diminuído. Uma pequena brisa entrou pelas janelas abertas, movendo as cortinas brancas, até agitando alguns papéis sobre a mesa. Sobriamente, Angela começou a preparar o jantar. Pensou em correr até o antigo apartamento de Rachel e oferecer um pouco de hospitalidade à Sra. Denver. Mesmo que a nova inquilina rica não aceitasse, ela ficaria satisfeita, sem dúvida; mais cedo ou mais tarde estaria oferecendo uma retribuição de cortesias e uma nova amizade surgiria. Novamente, haveria possibilidades. Mas algo em Angela se rebelou contra tal procedimento; essas intimidades baseadas no alicerce deslizante do acaso a enojavam; ela não se prestaria a elas, nunca mais.

A partir desse dia, Angela se dedicou a estabelecer permanências.

Terminada a ceia, os pratos retirados, ela se sentou e se preparou para pensar. Ligações eram improváveis; na verdade, não havia ninguém para quem ligar, já que Ralph estava fora da cidade no fim de semana, mas a emoção desse fato a deixou impassível. Naquela noite ela cortejou a solidão.

Uma observação que a mãe costumava fazer não parava de passar por sua mente:

— Ficamos tão preocupados com o problema que é viver apenas com a própria vida, querida, que aos poucos ser negro ou não é apenas uma coisa a mais ou a menos que você tem que enfrentar.

Já fazia muito tempo que Angela não pensava em raça; outrora parecia complicar imensamente sua vida, agora parecia ter pouca importância. Mas seus pensamentos contornaram o assunto com cautela, pois ela sabia quão imensamente difícil uma vida poderia ser por causa da cor.

Mas isso ficaria em segundo plano; agora, definir uma forma de viver era o objetivo; Angela precisava definir o que queria. Companheirismo era sua principal exigência. E para isso ela estava disposta a fazer sacrifícios, abandonar, se necessário, sua querida independência, levar uma vida dupla, mover-se entre dois pares de conhecidos. Desistira da solidão, mesmo que fosse esse o caminho que a levaria à realização de uma vasta ambição, à realização das mais elevadas esperanças.

Pois bem no fundo de seu coração Angela percebeu o desejo de estar mais uma vez com Virgínia, sua irmã mais nova, de quem nunca deveria ter se afastado. Virgínia, é verdade, não demonstrou nenhum desejo especial por Angela; na verdade, ela mal parecia saber de sua existência; mas essa atitude poderia ser forçada. Angela pensou: Eu não a queria, a minha querida, e então ela se obrigou a me tirar da vida dela. Angela estava bem ciente da coragem, da indomabilidade que havia por trás da aparência infantil de Gínia, mas havia uma camada ainda mais profunda de ternura, amor e lealdade que era a verdadeira Virgínia.

Angela faria seu apelo; reconheceria sua tolice, seu egoísmo; abriria seu coração e imploraria pelo perdão de sua irmã. E então viveriam juntas, Gínia, ela e Sara Penton, se necessário; que divertido seria tudo para Sara! E mais uma vez ela conheceria a bem-aventurança e felicidade de um lar; as estabilidades de amizades escolhidas a dedo de uma determinada classe de pessoas, não amizades resultantes do mero acaso. Haveria manhãs e seus cafés abençoados, longas caminhadas; lindas noites de outono cheias de memórias tiradas desses dias de separação. Como Virgínia ficaria surpresa com as histórias de Paulette e Marta! Angela nunca mencionaria Roger. E quanto à raça, quando parecesse melhor ser negra, ela seria negra; quando fosse melhor ser branca, ela seria branca. O principal era que conheceria mais uma vez as alegrias da vida normal, de um lar; companheirismo, lealdade, segurança... a felicidade de possuir e ser possuída.

E pensar que tudo era possível e esperava por ela; era apenas questão de algumas horas, alguns quilômetros. Uma grande sensação de paz, de exaltação desceu sobre Angela. Ela quase disse: — Me levantarei e irei até meu pai.

*

Assim, no domingo, Angela se dirigiu ao apartamento da irmã na 139th Street. A Srta. Penton, ela pensou, estaria fora; ela havia ouvido, pela conversa das meninas, muitas evidências do grande carinho que Sara adquirira pela igreja, superado apenas por seu interesse pelo coral. Esse interesse foi encorajado por um membro do coral que ocasionalmente caminhava para casa com Sara a fim de discutir a arte da música. Virgínia não ia mais à igreja; domingo havia se tornado seu dia de coleta, o único dia da semana que ela devotava à sua correspondência, suas roupas e a esses misteriosos ritos de embelezamento e revitalização, como o repouso de sua saúde primorosa e exuberante. Esta seria a primeira vez em muitos meses que as irmãs estariam sozinhas juntas e foi com grande esperança que Angela, subindo os degraus de pedra marrom, tocou a campainha e perguntou por Virgínia.

A irmã dela estava, mas Sara também, e uma terceira garota, a Srta. Louise Andrews. A sala estava repleta das brincadeiras, das risadas e da leveza que pertencem à atmosfera da juventude ou à um ambiente de extrema felicidade. No meio da sala havia uma grande mala escancarada, perto de onde Gínia ergueu um rosto sorridente e radiante. Angela quase se assustou com o êxtase brilhante que irradiava dele. Sara Penton estava envolvida de forma bastante negligente em dobrar roupas; a Srta. Andrews empoleirou-se com magnífica facilidade no sofá-cama, tocou ocasionalmente uma melodia de um ukelele e emitiu comandos que ninguém ouviu.

— Olá — disse Virgínia, despreocupada. — Pode entrar. Eu estava pensando em te escrever.

— Ah. — As esperanças de Angela vibraram e pereceram. — Você não vai embora, vai? — E seu coração ecoou o velho lamento de Gínia. — E me deixar quando estou pronta para voltar para seus braços, quando preciso tanto de você!

Mas é claro que Virgínia não sabia disso.

— Não para um lugar desconhecido — disse Gínia. — Esta tarde estou indo para a Filadélfia, para Merion, ficar com Edna Brown.

Angela estava horrorizada.

— Eu queria falar com você sobre algo muito importante, Virgínia, pelo menos — ela adicionou humildemente — importante para mim.

Com impaciência, ela olhou para as moças, esperando que elas entendessem e se retirassem, mas elas não a escutaram, pois estavam ocupadas discutindo os méritos de roupas esportivas de uma e duas peças.

Gínia foi gentil, mas não estava curiosa.

— A não ser que tenha algo a ver com a salvação da sua alma, receio que terá que esperar um pouco — disse alegremente. — Pegarei o trem das duas horas e devo terminar de arrumar esta mala; Sara não consegue dobrar bem, eu não a deixaria com essa função. Do jeito que é, ela teria que me enviar a mala depois. Não é, querida? — O pedido de Angela foi esquecido. — Depois que eu terminar aqui — a voz alegre continuou —, tenho que fazer algumas ligações e, ah, várias outras coisas.

— Eu posso te ajudar — disse Angela, de repente inspirada. — Então chamaremos um táxi e podermos ir para a estação juntas e conversar, e então explicarei as coisas.

Virgínia não estava prestando atenção.

— A Srta. Mory quer me acompanhar até a estação — ela disse, lançando um olhar divertido às amigas. — Devo deixá-la ir comigo? — Gínia desapareceu dentro do quarto, Louise Andrews atrás delas, ambas sufocadas pelo riso de algum segredo.

Cortada e humilhada, Angela ficou em silêncio. Sara Penton estivera procurando algumas peças e viu a expressão dela.

— Não ligue para a doideira dela. Ela não é responsável. — Sara se aproximou. — Pelo amor de Deus, não deixe escapar que fui eu quem te contei: ela está noiva.

Isso era novidade.

— Noiva? De quem?

— Ah, alguém por quem ela sempre foi louca. — Então a inevitável frase: — Você não saberia quem é.

Não saber quem ele era, não conhecer Matthew! Angela começou a dizer: “Pois o conheço bem antes de Virgínia”, mas se lembrou de seu papel, estúpido e bobo agora, e se interrompeu.

— Então veja — Sara continuou misteriosamente, de olho no quarto —, você não deve insistir em ir à estação com ela; ele vai levá-la.

— Ele está aqui?

— Chegou ontem. Estamos a manhã toda tentando nos intrometer. Esse é o motivo pelo qual ela falou desse jeito sobre você acompanhá-la. Ela nos contou, mas provavelmente não confia em você para isso.

— Provavelmente não — disse Angela, o coração frio. Sua irmãzinha estava noiva, e uma estranha eram quem lhe contava. Era tudo o que podia fazer para segurar as lágrimas. Mas a culpa é sua, ela se recordou.

As duas garotas voltaram; Virgínia ainda ria, mas debaixo da alegria Angela foi capaz de detectar uma ponta de nervosismo. Afinal de contas, Gínia era uma criança. E ela estava tão feliz que não seria bom estragar essa felicidade com a mais leve melancolia ou desconforto.

— Acho que vou indo.

Virgínia não fez nenhum esforço para detê-la, mas o olhar que dirigiu à irmã foi repentinamente muito doce e amigável.

— Vou descer com você. Sara, seja gentil e separe em pares as melhores meias para mim. Você sabe como sou rigorosa com elas.

No corredor, Gínia pôs um braço impulsivo ao redor da irmã.

— Ah, Angela, estou tão feliz, tão feliz. Vou te escrever sobre isso, você vai ficar tão surpresa.

Surpreendentemente, ela deu à irmã um forte abraço e a beijou de novo e de novo.

— Oh — disse Angela, as lágrimas transbordando dos olhos. — Oh, Gínia, me perdoe, me perdoe, por favor? Sinto muito sobre tudo isso. Fui maldosa por muito tempo. Pensei que tivesse te perdido, Virgínia.

— Eu sei — disse Gínia. — Sou uma megera sem coração. — Ela deu uma risadinha por entre suas próprias lágrimas e as limpou com as costas de sua mãozinha marrom. — Eu estava apenas te testando, eu sabia que você se cansaria do povo da Srta. Anne e voltaria para mim. Oh, Angela, quis tanto isso. Mas está tudo bem agora. Estarei fora por dez semanas, e então conversaremos! Tenho os planos mais maravilhosos para nós — para todos nós. — Gínia parecia uma criança sábia. — Você receberá uma carta minha nos próximos dias contando tudo. Angela, estou tão feliz, mas preciso ir. Adeus, querida.

Por um momento, elas se abraçaram na profundeza fresca e mal iluminada do amplo corredor.

*

Angela poderia ter dançado na rua. Assim, ela desceu alegremente a 7th Avenue até a 110th Street e entrou no parque. Gínia a perdoara. Gínia ansiava por ela, precisava dela; ela sempre soube que Angela estava sofrendo e a puniu deliberadamente. Bem, ela estava certa, tudo estava certo neste dia glorioso e memorável. Angela teria uma irmã novamente, alguém dos seus, ela conheceria a alegria de compartilhar seus pequenos triunfos, suas mesquinhas desgraças. Gínia tão esperta, Gínia maravilhosa! E Gínia linda também, ela pensou. Quão adorável, quão delicada, quão fresca e inocente sua irmã parecia. Isso trouxe sua mente para Matthew e a grande sorte dele.

Eu gostaria de vê-lo novamente, Angela meditou, sorrindo maliciosamente. Sem dúvida ele se esqueceu de mim. Seria muito divertido fazê-lo lembrar. Só que, é claro, agora ele era de Gínia e ela nunca ficaria no caminho dele Nem mesmo se ele fosse alguém que eu realmente quisesse com todo meu coração e alma. Mas eu nunca iria querer Matthew. Seria divertido, ela pensou, vê-lo novamente. Ele seria um bom irmão, tão forte, gentil e confiável. Ela deveria cuidar para nunca reacender aquela admiração de sua juventude.

Sorrindo e feliz, Angela chegou em casa; na verdade, pulou escada acima até seus aposentos. Seu apartamento não parecia mais solitário; não era lindo e brilhante como o de Gínia, mas era confortável e delicado. Seria divertido ter Virgínia e Sara abaixo; sim, e aquela garota nova, a Srta. Andrews. Ela não se importava com o que as outras pessoas na casa pensavam. E as próprias meninas, como ficariam surpresas ao saber como estava a situação! Lembrando-se de repente da Sra. Denver, Angela correu para vê-la; aquela senhora, apesar de sua riqueza e recursos, estava visivelmente solitária. Angela animou-a com relatos alegres de seus primeiros dias em Nova York; ela também se sentira solitária, assegurou à desanimada anfitriã, que era brilhante e fascinante.

— Não sei como alguém com a sua disposição poderia ficar solitária — disse a Sra. Denver, com inveja. Ela esteve à beira de derramar lágrimas o dia todo.

Toda a terrível melancolia fora embora, assim como a tristeza que pairava sobre ela como uma nuvem palpável. Angela era jovem, fascinante; ela seria feliz novamente. Novamente! Ela prendeu a respiração. Oh, Deus era bom! Esse sentimento de leveza, de exaltação, era desconhecido para ela há tanto tempo; desde os dias em que começara a andar com Roger não se sentia tão livre, como um pássaro. À noite, Ralph Ashley veio com seu carro e dirigiu até a metade de Long Island, ou assim pareceu. Eles pararam em um lindo hotel e tiveram um jantar maravilhoso. Ralph foi arrebatado pela vitalidade alegre de Angela.

Na porta da casa de Jayne Street, ela deu-lhe a mão e um sorriso encantador.

— Você não imagina o quanto me diverti. Sempre me lembrarei desta noite. — E ela foi sincera, pois logo tudo isso seria coisa do passado.

— Você é uma bruxa — disse Ralph, a voz tremendo um pouco. — Você pode ter tudo o que quiser, e sabe disso. Seja gentil comigo, Angèle. Não sou um cara ruim.

Assustada, ela o empurrou, correu para dentro e bateu a porta. Não, não, não, seu coração batia forte. Roger a havia ensinado uma terrível lição. Logo ela estaria com Gínia e Matthew, segura e protegida.

Capítulo 3

No meio da noite, Angela se viu sentada na cama. Havia adormecido um momento antes, mas um pensamento repentino invadiu sua consciência com tanta força que o efeito foi o de uma mão gelada pousada repentinamente em seu ombro. Gínia e Matthew se casariam — isso significava, é claro que significava, que eles teriam que morar na Filadélfia. Como ela tinha sido estúpida! E não poderia voltar lá nunca, nunca. Não por causa das dificuldades que experimentou quando criança; ela estava perfeitamente disposta a tentar a sorte novamente com pessoas negras em Nova York. Mas isso era diferente; havia injustiças notáveis aqui, também, oh, muitas, muitas delas, mas também havia oportunidades notáveis. Mas a Filadélfia, com suas tradições de liberdade e sua profunda escravidão econômico-social, seu sistema escolar tirânico, seus teatros preconceituosos, sua oferta limitada de empregos! Um grande e abrasador ódio surgiu nela pelo enorme e adormecido leviatã de uma cidade que mal havia movido um músculo nos últimos cinquenta anos. Seus hábitos eram tão ocultos que um insulto deliberado podia ser oferecido aos negros sem causar a menor onda de condenação ou mesmo consternação. Virgínia, em um de seus momentos de sinceridade, contou-lhe sobre uma carta recebida de Agnes Hallowell, agora formada pelo Women's Medical College. Agnes era tão bela quanto Angela, mas falava com franqueza, mesmo com orgulho, de suas conexões raciais.

— Eu não tinha nada do que me envergonhar — Angela podia imaginá-la dizendo, suas bochechas corando, seus olhos negros estalando. Em sua formatura, ela se candidatou a um estágio em um grande hospício; uma posição muito desejada por graduados em medicina por causa da rotatividade incomum de casos patológicos. Mas o homem encarregado de tais nomeações, olhando bem nos olhos de Agnes, disse-lhe suavemente que tal cargo nunca seria dado a ela “nem mesmo se você estivesse à frente de mil candidatos brancos”.

Quanto a Angela, aqui estava o velho problema da possível solidão de volta a atormentá-la. Virgínia, era verdade, dificilmente se casaria de uma vez, talvez passassem alguns meses felizes juntos. Mas depois… Ela ficou deitada ali, bem acordada agora, muito quieta, muito reta em sua cama estreita, observando a escuridão espessa ficar mais fina, menos opaca. E, de repente, como em uma ocasião anterior, ela pensou em casamento. Bem, por que não? Angela havia pensado nisso antes como uma fonte de alívio da pobreza, como uma barreira final entre ela e os lobos do preconceito; por que não agora para evitar a solidão?

Devo olhar ao meu redor, seus pensamentos aceleraram, e ela corou e sorriu na escuridão com a frieza de tal ideia. Mas, afinal, foi isso que os homens disseram e fizeram. Quantas vezes ela já tinha ouvido a expressão “ele está pronto para sossegar, então está procurando por uma esposa”? Se esse era o procedimento dos homens, certamente deveria ser muito mais o das mulheres, uma vez que seu destino era muito mais instável. A sala estava ficando mais clara; ela podia ver as imagens — um borrão mais profundo contra o borrão fraco da parede. Sua vergonha passageira de repente se dissipou, pois, afinal, ela não conhecia praticamente nenhum homem. Havia Ralph, mas estava farta de homens como ele. Os homens em seu escritório eram quase impossíveis, mas havia três, ela disse a si mesma, friamente, sem entusiasmo, que não eram assim tão terríveis.

— Mas não — disse ela em voz alta. — Prefiro ficar solteira e solitária durante toda a minha vida do que me preocupar com um deles. Deve haver outra pessoa.

E imediatamente ela pensou em Anthony Cross. Claro que havia Anthony.

— Eu acredito que sempre o tive em mente — ela falou novamente para o cinza brilhante. E, se virando, adormeceu sorrindo.

*

Segunda-feira era um dia agitado. Cópias deviam ser preparadas para o gravador; as provas da edição atual da revista tinham que ser checadas; algumas importantes gravuras de moda francesa, pelas quais Angela era responsável, haviam desaparecido temporariamente e deveriam ser refeitas. Às quatro e meia, ela estava livre para tomar chá com a Sra. Denver, que imediatamente a levou para jantar e ver um filme. Só às nove horas ela foi capaz de prosseguir com sua nova linha de pensamento. E mesmo quando tinha liberdade para se entregar ao hábito da introspecção, percebeu que sentia uma certa relutância, uma timidez inesperada. Tempo era necessário para meditar sobre este segredo, com sua promessa de felicidade; este meio de salvação dos problemas de solidão e fraqueza que a afligiam. Pois desde a partida de Roger, Angela frequentemente se sentia menos segura; seria um alívio ter alguém em quem se apoiar; alguém que ficaria feliz em protegê-la e aconselhá-la, e amá-la! Este último pensamento lhe pareceu maravilhoso. Ela disse a si mesma várias vezes: Anthony me ama, eu sei disso. Veja só, ele me ama! Seu rosto e pescoço estavam corados; ela era como uma jovem na véspera de se apaixonar, e, de fato, ela mesma estava entrando nessa experiência pela primeira vez. Desde o início, Angela gostou de Anthony, gostou dele como nunca gostara de Roger — por sua sinceridade, por seu orgulho feroz, por sua pobreza, por seu amor frenético e honesto.

— E agora — disse ela solenemente — acredito que vou amá-lo; acredito que já o amo.

Havia muitas coisas a serem consideradas. A pobreza era uma delas, mas Angela não se importava mais com isso; insensivelmente, sua associação com Rachel Salting, o conhecimento sobre seus planos e a indiferença quanto à pobreza haviam exercido sua influência. Seria divertido, muito divertido, começar do início e manter tudo sob controle. Como Rachel, ela não lavaria nem passaria; se manteria delicada e fresca, mas tudo o mais, tudo o mais ela faria. Cozinharia — e ela sabia cozinhar; precisava agradecer a sua abençoada mãe por isso. Por um momento, se viu de novo em casa na Opal Street, servindo o jantar da segunda-feira, rindo com Virgínia sobre a Sra. Henrietta Jones. Lá estavam eles à mesa, sua linda mãe, seu pai com sua bela face negra — sua face negra, ela havia se esquecido disso.

Cor ― aqui o velho problema surgiu novamente. Inquieta, Angela caminhou pela sala, um cigarro fumegante em seus dedos. Raramente fumava, mas, às vezes, um trago insensato dava-lhe uma sensação de companheirismo. Cor, cor... ela havia esquecido. Agora, o que ela deveria fazer, contar a Anthony?

Ele era espanhol, lembrava ela, ou não — já que viera do Brasil, era provavelmente português, pertencia a uma raça destituída, notoriamente destituída de preconceito contra o sangue negro. Mas Anthony viveu nos Estados Unidos por tempo suficiente para ser infectado; ele já havia falado sobre pessoas negras, o assunto já havia surgido? Espere um minuto, havia a Srta. Powell; Angela se lembrava agora de que a conduta dele para com a jovem mulher negra sempre fora visivelmente correta; ele havia afastado cadeiras para ela, aberto portas, montado cavaletes; uma vez os três saíram juntos da Cooper Union e Anthony ajudou cuidadosamente a Srta. Powell a entrar em um carro, tirando o chapéu com aquele gesto ligeiramente estranho que Angela tanto admirava. E, tanto quanto ela sabia, ele nunca tinha usado nenhuma das cruéis e desprezíveis expressões de Roger; os termos “neguinha”, “macaca” nunca haviam passado por seus lábios. Claramente, ele não tinha nenhum sentimento consciente contra seu povo. Meu povo, ela repetiu, sorrindo, e se perguntou a quem se referia, pois pertencia a duas raças, e a uma muito mais visivelmente do que a outra. Ora, Anthony até assistiu à palestra de Van Meier. E Angela se perguntou o que Van Meier diria se ela apresentasse seu problema a ele.

Ele não tinha nenhuma opinião, ela sabia, contra casamentos inter-raciais, embora, por causa da alta penalidade social cobrada, ele não defendesse sua prática na América. Por um momento, Angela considerou ir até ele e pedir seu conselho. Mas temia que ele falasse sobre orgulho racial e não queria pensar nisso. Ela lutava pela vida, pelo direito de viver e ser feliz. E mais uma vez a frase de sua mãe surgiu em sua mente: “A vida é mais importante do que a cor”.

Isso, Angela disse a si mesma, era um presságio, a mãe estava cuidando dela, guiando-a. E, enterrando o rosto nas mãos, ela caiu de joelhos, chorou e orou.

*

Virgínia enviou uma carta alegre:

Assim que você saiu, aquela maldita da Sara me disse que a havia dado a grande notícia. Se eu soubesse, teria falado com você sobre isso lá no corredor; só que havia tanto a explicar! Mas agora você sabe o principal, e posso esperar até ver você para lhe contar o resto. Mas não é tudo maravilhoso? Angela, acredito que sou quase a garota mais feliz do mundo!

É muito lindo aqui. Edna é muito gentil e você sabe que sempre gostei do interior da Pensilvânia. Matthew sai quase todos os dias. Ele me diz que vir e falar sobre os velhos tempos renova sua juventude ― alguém que nos ouça relembrando, começando todas as outras frases com 'você se lembra?' pensaria que temos em média noventa anos cada. Não vai afetar sua vaidade, não é, se eu lhe contar que ele parece ter se recuperado inteiramente de sua antiga paixão por você? Talvez ele apenas estivesse apaixonado pela família e não soubesse disso.

Vamos para a Filadélfia quase todos os dias. A cidade mudou incrivelmente. Mas, depois da correria de Nova York, há algo muito tranquilo e seguro sobre essa organização rígida dos ‘velhos da Filadélfia’. No pouco tempo em que estive aqui, encontrei muitas famílias pioneiras, pessoas cujos nomes só sabíamos quando éramos crianças. Mas todos eles parecem se lembrar do pai e da mãe; todos eles começam: 'Minha querida, lembro-me de quando Junius Murray…'. Conheço todas essas pessoas, velhos e jovens, por meio de Matthew, que parece ter se tornado um bom partido aqui e caminha por toda parte. Ele realmente é diferente. Até seu cabelo mudou de uma forma misteriosa. Não que eu tenha me importado; ele é tão legal que eu só gostaria que todas as coisas boas do mundo acontecessem a ele. Estávamos conversando outro dia sobre o casamento, e eu estava pensando que noivo bonito ele será. Querido velho Matt, estou feliz por ter adiado o casamento até que ele pudesse se tornar essa bela figura. Escreva-me, querida, se quiser, mas não espere ouvir muito de mim. Estou tão feliz que não consigo ficar parada por tempo suficiente para escrever. No minuto em que eu voltar para Nova York, conversaremos como nunca conversamos antes.

*

A Sra. Denver estava ficando mais feliz; Nova York estava se redimindo e revelando todas as riquezas que ela suspeitava estarem escondidas em seus armazéns. Por meio de uma carta de apresentação, colocada em suas mãos relutantes por um conhecido oficioso em sua saída de Butte, ela ganhou passe livre no mais gentil e feliz dos vários grupos de Nova York, o grupo de escritores, colunistas, editores e críticos. A senhora do meio-oeste não tinha pretensões literárias, mas gostava de pessoas que as tinham e viviam de acordo com elas; ela se mantinha a par das fofocas literárias, lia a Vanity Fair, The New Yorker e Mercury . Como ela era bastante jovem, delicada, rica, generosa e altruísta, foi aceita e levada para chás, almoços, festas de teatro e churrascos que formavam o lazer daquela multidão alegre. Logo ela estava sobrecarregada, com mais convites do que poderia aceitar. Para os que considerava, sempre expressou sua aceitação nos mesmos termos. “Sim, irei, se puder trazer minha jovem amiga, Angèle Mory, comigo. Ela é uma pintora que todos vocês ficarão felizes em conhecer um dia”. A bondade casual de Angela para com ela em seus dias de solidão e tédio não caiu em solo infértil.

Continuar: parte 2 de 3