Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 14 de 25

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Não tão branca

Capítulo 5

Agora, era primavera em Nova York. A Washington Square era uma profusão de verdes que se destacava bravamente contra as grandes casas de tijolos vermelhos ao norte. O arco visto da Quinta Avenida parecia uma porta de entrada para o paraíso. As longas e profundas ruas que percorriam toda a extensão da cidade convidavam a uma exploração até os extremos, onde potes de ouro sem dúvida brilhavam. Nas ruas transversais curtas, o sol de abril refletia esplêndidos pôsteres de luz dourada e profunda.

Em duas semanas, Angela viu Roger apenas uma vez. Ele telefonava todos os dias, implorando, suplicando, rogando. Na única ocasião em que ela permitiu que ele ligasse, quase havia lágrimas em seus olhos.

― Mas, querida, o que eu fiz? Se você apenas me dissesse isso, talvez eu pudesse explicar o que quer que seja que está acontecendo entre nós.

Mas não havia nada para explicar, Angela lhe disse gravemente, apenas que ele era mais duro, mais cruel do que ela esperava; não, não eram os negros, ela mentia e sentia sua alma corar, era que agora sabia como ele ficava quando estava com raiva ou descontente, e podia ver o quão implacável, o quão determinado Roger era para fazer as coisas do seu jeito. Sua disposição de pagar os custos de um possível processo a encheu de um medo agudo. O que se poderia fazer contra um homem, contra um grupo de homens como ele e sua espécie representavam, que gastariam tempo e dinheiro para manter um preconceito baseado em uma tradição tola e velha?

Mesmo assim, Angela descobriu que não queria perdê-lo completamente de vista. O cuidado, a atenção, a bajulação com que Roger a cercou começavam a produzir seu efeito. No belo, mas um tanto cansativo bálsamo da primavera, ela sentia falta do carro azul que estivera constantemente à sua disposição; de comer uma refeição boa, caseira, em sua pequena sala de estar com os odores de cozinha a oprimindo, ela se viu inconscientemente desejando a saborosa comida, as iguarias frescas da primavera que sabia que ele ficaria muito feliz em obter para ela.

Envergonhada, Angela teve de reconhecer que a separação que estava impondo com tanta rigidez significava uma diferença em seu minúsculo tesouro, pois já fazia muitos meses que ela não comia regularmente uma refeição principal sozinha e às suas próprias custas.

Hoje ela estava especialmente consciente de sua dependência dele, pois iria passar a tarde no parque Van Cortlandt com Anthony.

Falaram sobre metrôs e a Elevated.

Roger teria mandado o carro azul à porta e ela teria saído da Jayne Street com estilo. Agora, ficou sabendo que Anthony deveria entregar alguns desenhos a um homem, um cliente astuto, a quem era melhor encurralar, se possível, na tarde de sábado. Por mais que se arrependesse, provavelmente chegaria um pouco tarde. Angela, portanto, para economizar tempo, devia encontrá-lo na 72nd Street. Roger nunca teria feito um pedido assim; ele teria trazido seu advogado ou seu empresário no carro com ele e, dispensando-o com um breve “Bem, verei se consigo terminar isso amanhã”, teria se apressado com seus melhores modos de Walter Raleigh, e teria tirado a capa também, se Angela pedisse. Talvez ela tivesse que aceitá-lo de volta. Sem dúvida, mais tarde ela poderia controlar os preconceitos dele. Mas como faria isso? Ainda assim, era adorável estar aqui com Anthony no parque, tão verde e fresco, tão novo com as transformações recorrentes da primavera. Anthony tocou sua mão e, como já havia feito outras vezes, disse: ― Estou tão contente de estar com você, Anjo. Posso chamá-la assim, não é? É assim como te enxergo. Ah, se soubesse como fico feliz, o quanto me faz contente e satisfeito. Eu poderia ficar de joelhos e agradecer a Deus por isso como um garotinho.

Anthony parecia mesmo um garotinho quando disse isso.

― A felicidade é algo difícil de encontrar e ainda mais difícil de manter.

Angela perguntou a ele preguiçosamente:

― Você nunca foi feliz?

O rosto dele mudou bruscamente. Angela se surpreendeu. Não só a velha tristeza e tensão voltaram, mas uma grande amargura, como ela nunca tinha visto antes.

― Não ― ele disse lentamente, como se estivesse pensando em sua vida. ― Faz anos que não sou feliz, desde que era um menino. Nunca fui feliz, nem mesmo estive confortável, até conhecê-la.

Mas ela não queria que ele encontrasse sua felicidade nela. Essa maneira só levaria a uma maior infelicidade. Então Angela disse, para mudar de assunto: ― Você poderia me falar sobre isso?

Mas não havia nada a dizer, Anthony lhe assegurou, seu rosto ficando mais sombrio.

― É que meu pai foi morto quando eu era um garotinho, morto por seus inimigos. Eu os odiei desde então; nunca parei de odiá-los até que conheci você.

Mas esta era uma estrada tão perigosa quanto a outra, além das possibilidades de reabrir velhas feridas. Então ela apenas estremeceu e disse vagamente: ― Oh, isso é terrível! Terrível demais para se falar. Sinto muito, Anthony! Você vai voltar para o Brasil? ― perguntou como um último tópico desesperado.

Pois ela sabia que ele tinha vindo do Rio de Janeiro para os Estados Unidos. Ele tinha passado o Natal em sua casa, e mostrara fotos da bela e grande cidade e de sua mãe, uma mulher esguia, de olhos escuros e com uma tristeza perpétua nos olhos.

A conversa enfraqueceu. Ela pensou: Deve ser terrível ser um homem e ter esses ódios e horrores secretos. Alguma rixa espanhola, uma questão de sangue quente e facas prontas, um golpe repentino e então esta memória mortal para ele.

― Não ― disse Anthony após uma longa pausa. ― Nunca vou voltar para o Brasil. Não poderia. ― Ele se virou para ela de repente. ― Diga-me, Anjo, que tipo de garota você é, o que você acha que vale a pena? Você poderia, por uma questão de amor, por uma questão de ser leal aos propósitos e votos de alguém que você amou, se obrigar a suportar a privação, problemas e mal-entendidos, dificuldades que não seriam menos difíceis porque realmente poderiam ser evitadas?

Ela pensou em sua mãe, que amava tanto seu pai, e nos dias de lavagem que suportou por ele, os longos anos de rotina doméstica antes que Angela e Gínia tivessem idade suficiente para ajudá-la primeiro com as mãos e depois com seus ganhos. Ela pensou na casinha escura e surrada, nos vestidos reformados e casacos remendados. E então Angela viu Roger, sua riqueza e sua irresponsabilidade dourada, suas chaves de ouro que podiam abrir as portas para a beleza, o conforto e a decência! Oh, não era decente que as mulheres tivessem que esfregar e trabalhar e escravizar e ter filhos e sacrificar sua aparência e suas belas mãos; ela viu as mãos de sua mãe como sempre pareceram no dia da lavagem, tinham uma aparência branca e fervida. Não, Angela não se enganaria, nem a Anthony. Ela não era sentimental. Não era provável que ela, uma menina que havia deixado sua irmã caçula e sua casa para sair em busca de vida e felicidade, a jogasse fora por causa da pobreza, do sofrimento. Se um homem amava uma mulher, como poderia perguntar-lhe isso?

Então ela disse a ele gentilmente:

― Não, Anthony, eu não poderia. ― E observou o sangue sumir do rosto dele e o velho olhar de infelicidade se espalhar em seus olhos.

Anthony respondeu inadequadamente.

― Não, claro que você não poderia. ― E se virando, sentado na relva aos pés dela, ele se deitou de bruços na superfície perfumada. Em seguida, se sentou e, dando a ela um sorriso singularmente doce, mas melancólico, disse: ― Quase toquei a felicidade, Angèle. Por acaso você conhece o poema Two in the Roman Campagna, de Browning?

Mas ela havia lido pouca poesia, exceto o que fora exigido em seu trabalho no colégio, e certamente não Browning.

Ele começou a interpretar a beleza frágil e difícil do poema com seu toque leve, mas seguro, de sentimento evanescente e indefinível. Ele recitou:

De que forma está sob nosso controle.

Amar ou não amar?

E de novo:

Anseio infinito e a angústia.

De corações finitos que anseiam

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. E novamente ela se perguntou como seria amar. Anthony observou o sol se pôr de repente abaixo do topo de algumas árvores e se levantou, tremendo um pouco, como se o desaparecimento o tivesse deixado imediatamente frio.

― Venha, Anjo, vamos ter que nos apressar. Está ficando escuro e é uma longa caminhada até o metrô.

*

A memória da tarde permaneceu com Angela, envolvendo seus pensamentos e agarrando-se a eles como um manto tênue e aderente. Mas ela disse para si mesma: Não adianta pensar nisso. Não vou viver esse tipo de vida. E sabia que queria Roger e o que ele poderia dar a ela, junto com a luz e alegria que ele sempre irradiou.

Angela não queria nada da pobreza, da privação e dos votos secretos de Anthony, ele queria dizer, ela supôs, alguma promessa de se dedicar à Real Art ― sua memória fotográfica identificava isso com clareza.

Bem, Angela estava farta da tragédia. Pertencia a uma raça trágica.

Deus sabe que é hora de um de nós se divertir um pouco.

Sim, ela pensou durante toda a aula, pintando furiosamente porque havia começado seu trabalho com mais seriedade no Natal, sim, vou me decidir. Vou aceitar Roger de volta, me casar e ter uma vida agradável, segura e bonita. E útil. Deveria ser muito útil. Talvez conseguisse convencer Roger a ajudar os negros. Ela ajudaria todos que pudesse. E ajudaria Anthony, pelo menos se ofereceria para ajudá-lo; não acreditava que ele fosse permitir.

Saindo do prédio, um pensamento lhe ocorreu: Aceitar Roger de volta, mas de volta a quê? A sua velha posição de amigo familiar, admirador, generoso? Só isso e nada mais? Aí estava o velho problema novamente. Ela parou para pensar.

Marta Burden a alcançou.

― Planejando a maior obra de todos os tempos, Angèle? Melhor se juntar a mim e trabalhar comigo. Posso te dar um pouco de chá. Você vem?

― Sim ― disse Angela, ainda pensando.

― Bem ― disse Marta, assim que alcançaram a casa ― Nunca vi um estudo mais profundo que aquele. Saia dele, Angèle, ou você se afogará. Você não está apaixonada, está?

― Não, não que eu saiba ― respondeu ela. ― Mas me diga, Marta, suponha… suponha que eu esteja apaixonada por um deles, o que você faria, como os faria te pedir em casamento?

Marta se inclinou e riu.

― Tal sinceridade não encontrei em toda Flapperdom. Angèle, se eu soubesse a resposta, estaria cobrando por ela.

― Mas deve haver uma maneira. Oh, é claro, sei que vários deles pediriam, mas como fazer com que aquele que eu quero proponha? Você sabe, os… os que são realmente interessantes?

― Você quer mesmo saber? A única resposta que posso te dar é a máxima que Humpty Dumpty dá a Alice sobre verbos e adjetivos: “Depende de qual é o mais forte”. ― Marta explicou, pois, sua convidada estava confusa. ― Depende de a) se você é forte o bastante para fazê-lo gostar mais de você do que você dele; b) se, caso você goste mais dele do que ele gosta de você, conseguirá manter isso em segredo. Em outras palavras, no que concerne aos sentimentos, você deve sempre estar à frente no jogo, você deve sempre gostar, ou parecer gostar, menos dele do que ele de você. E deve fazê-lo te querer. Mas não dê nada a ele. Ah sim, sei que homens sempre querem as mulheres lhes deem algo, mas eles não querem que as mulheres queiram dar esse algo. Eles querem tomar, ou pelo menos influenciar para que seja dado.

― Parece muito complicado, como um jogo sutil.

Uma luz profunda e febril brilhou nos olhos de Marta.

― É um jogo. Aliás, é o jogo mais difícil do mundo para uma mulher, mas também é o mais fascinante; o mais difícil de encontrar um meio-termo. Veja bem, é necessário tomar cuidado para não segurar muito, e mesmo assim só dar um pouquinho. Se não dermos o suficiente, os perderemos. Se dermos demais, os perdemos. Ah, Angèle, Deus não gosta das mulheres.

― Mas ― disse Angela, pensando em sua mãe ― há mulheres que dão tudo e os homens gostam delas do mesmo jeito.

― Sim, é verdade. São as mulheres abençoadas. Elas precisam ficar de joelhos todos os dias e agradecer a Deus por permiti-las ser normais e não precisar jogar o jogo. 

Por um momento, o rosto quieto e orgulhoso de Marta mostrou sua dor.

― Ah, Angèle, pensar em carinho e nunca, nunca ser capaz de demonstrar até que te peçam; pense em viver um jogo todas as horas de sua vida! ― O rosto dela tremeu e voltou à imobilidade.

Angela caminhou de volta atrás do crepúsculo arroxeado, pensando não mais em seu próprio caso, mas sim nessa revelação inesperada.

― Bem ― disse ela. ― Eu certamente não gostaria de amar assim. ― Ela pensou em Anthony. ― Uma mulher poderia ser seu verdadeiro eu com ele.

Mas Angela havia desistido dele.

*

Se fosse preciso jogar, ela jogaria. De fato, Angela até gostava da ideia. Estava jogando agora, um jogo contra a tradição pública de um lado e contra o instinto familiar no outro; o que estava em jogo era felicidade e excitação, e quase qualquer um que estivesse observando suas jogadas poderia profetizar que ela ganharia. Angela decidiu seguir as regras de Marta Burden e adicionar quaisquer outras ideias que tivesse. Quando Roger chamou novamente, ela ainda não podia vê-lo, mas garantiu que sua voz abrisse caminho pelo telefone; ela não o interrompeu. Não devo segurar muito, ela se lembrou. Roger logo percebeu a sutil mudança na entonação.

― Mas você me deixará vê-la, Angèle ― pediu ele. ― Você não pode me manter afastado para sempre. Diga quando posso ir.

― Ah, um dia desses. Preciso ir agora, Roger. Tchau.

Depois da terceira ligação, ele a visitou numa sexta à noite. Angela ouviu o carro azul ruminar na rua e alguns minutos depois, ele apareceu, literalmente cambaleando pela sala de estar por conta dos embrulhos que carregava. Flores, montes de ramalhetes primaveris haviam chegado no início do dia, lilases, junquilhos, narcisos. Agora, esta noite, havia livros e doces, lenços.

― Tudo tão delicado e parecido com você ― disse Roger com medo, pois ela nunca se despira para ele.

Havia duas fotos, uma paleta e uns pincéis finos e, por último, uma cesta de todos os tipos de iguarias.

― Pensei em, se você não se importar, jantarmos aqui; seria divertido só nós dois.

O quanto a agradava, ele não conseguia adivinhar; foi a primeira vez que ele deu uma pista de qualquer desejo de pura domesticidade. Anthony não procurava nada melhor do que se sentar e fumar e vê-la esvoaçar com seu absurdo avental vermelho ou violeta. Matthew Henson ficou sem palavras de êxtase quando, em uma noite de inverno, ela permitiu que ele entrasse na cozinha enquanto ela preparava uma xícara de chocolate. Mas o paladar de Roger ficara tão lisonjeado com as misturas de chefs famosos em Londres, Paris e Nova York que ele não deu valor à culinária simples dela.

Na verdade, seu comentário inevitável foi:

― Me diga, por que você quer se cansar? Vamos ao restaurante. É muito menos incômodo.

Mas esta noite Roger também a observou com olhos humildes e encantados. Angela percebeu que ele estava ciente de cada movimento seu; uma vez que ele tentou abraçá-la, mas ela saiu fora de seu alcance sem censura, mas com decisão. Ele se acalmou, muito grato por estar mais uma vez na presença dela para correr qualquer risco. E ao sair, Roger beijou a mão dela.

Ela começou a andar com ele novamente, mas com condescendência, com gentileza. E com a nova visão adquirida com sua conversa com Marta, Angela podia ver sua paixão crescendo.

"Faça-o querer você", essa era a segunda regra. Ficou claro que ele queria, nenhum homem poderia ser tão perseverante como este em outra situação. Mesmo assim, Roger não falava. Eles deveriam se encontrar naquela tarde na frente da escola para ir "aonde você quiser, querida, estou à sua disposição".

Era a primeira vez que ele a chamava no prédio, e ela saiu um pouco mais cedo, pois não queria nenhum dos três, Marta, Paulette, e Anthony, vissem quem ela estava encontrando. Seria melhor ir até a esquina, pensou, eles teriam muito menos probabilidade de reconhecê-lo. Ela ouviu passos apressados logo atrás, escutou seu nome e se virou para ver a Srta. Powell, satisfeita e animada. Ela colocou a mão no braço de Angela, mas esta a afastou.

Roger não devia vê-la em termos familiares como aquele com uma garota negra, porque ela sentia que a tarde pressagiava algo e ela não queria problemas colaterais. A garota a lançou um olhar penetrante; então sua reserva habitual se acalmou, apagando a ansiedade, deixando seu rosto turvo e pesado.

― Peço perdão, Srta. Mory ― murmurou ela e saiu para o tráfego tempestuoso da 4th Avenue. Angela sentia muito; faria as pazes amanhã, pensou, mas a havia dispensado na hora certa, pois Roger veio correndo, seu carro resplandecente assim como ele brilhava em um terno cinza, chapéu um tom mais claro e gravata azul. Angela o olhou com aprovação.

― Você se parece com os homens nas páginas de publicidade do Saturday Evening Post ― disse ela, e ele não ter estremecido com o elogio provou a profundidade de sua devoção, pois cada uma de suas peças de roupa, chapéu, sapatos e terno foram feitos sob medida.

Eles foram para Coney Island.

― O oceano vai estar lá, mas poucas pessoas e apenas algumas diversões ― disse Roger. Eles se divertiram; eram como crianças em idade escolar, divertiam-se com facilidade e franqueza; entraram em todas as cabines abertas, comeram pipoca, cachorros-quentes e outras iguarias locais. E logo estavam voltando para casa sob a fileira dupla de árvores na Ocean Parkway e entrando na beleza verdejante do Prospect Park. Roger diminuiu um pouco a velocidade.

― Oh ― disse Angela. ― Eu amo este carro.

Ele se inclinou para ela instantaneamente.

― Te agrada? Você sentiu falta quando me fez ficar longe de você?

Ela estava com medo de ter cometido um erro:

― Sim, mas não é por isso que eu deixei você voltar.

― Eu sei disso. Mas você gosta, não é, de conforto, beleza e ambientes delicados?

― Sim, isso tudo me agrada ― disse ela solenemente.

Ele ficou em silêncio por um longo, longo tempo, seu rosto um pouco contraído, uma linha de preocupação na testa.

Bem, agora no que ele está pensando?, Angela perguntou a si mesma, observando as mãos dele e a manipulação inteligente do volante embora seus pensamentos não parecessem bem manejados.

Roger se virou para ela com ar de ter se decidido.

― Angèle, quero que prometa passar um dia cavalgando comigo em breve. Tenho uma coisa para te dizer. ― Ele era um jovem mundano da cidade, mas ali estava, enxugando a testa.

“Eu tenho que ir para o sul por uma semana. Lá, meu pai é dono de uma quantidade de madeira, com a qual fornecia serrarias, mas desde que os malditos negros começaram a ir para o norte, ele passou a ter um problema nas mãos. Ele quer que eu vá e veja se vale a pena manter a madeiraria por mais tempo. É tão raro que ele peça algo de mim sobre seus negócios que eu odiaria recusar. Mas estarei de volta na manhã do dia vinte e seis. Terei de passar a tarde e a noite com ele em Long Island, mas no dia vinte e sete, você poderia sair comigo?”

Angela disse, como se todo esse preâmbulo nada pressagiasse:

― Eu não poderia te dar o dia inteiro, mas a tarde sim.

― Oh. ― O rosto dele murchou um pouco. ― Bem, à tarde, então. Só que é claro que não poderemos ir muito longe. Talvez você queira que eu marque um almoço e iríamos para um dos parques, Central ou Bronx, ou Van Cortlandt…

― Não, não Van Cortlandt ― disse ela. Esse parque era sagrado para Anthony Cross.

― Bem, onde você preferir. Podemos resolver isso no dia. O principal é que você irá.

Angela disse para si mesma: Os homens não são engraçados? Ele poderia ter me perguntado cinco vezes enquanto fazia todos aqueles arranjos. Mas ela estava imensamente aliviada, até feliz. Sentia ser muito gentil com ele; talvez estivesse apaixonada, afinal, só que não era do tipo que demonstrava. Era tarde demais para Roger entrar, mas eles se sentaram no carro na escura, e segura, Jayne Street e ela o deixou pegá-la nos braços e beijá-la novamente. Pela primeira vez, retribuiu seus beijos.

*

Cansada, mas triunfante, Angela subiu as escadas quase tropeçando de uma fadiga repentina e avassaladora. Estivera sob pressão! Mas estava tudo acabado agora; ela tinha conquistado, ela tinha sido a mais forte. Havia conquistado não apenas ele, mas um futuro, riqueza, proteção, influência e até mesmo poder. Ela mesma era poderosa ― como as mulheres sobre as quais se lê, como Cleópatra. A origem africana de Cleópatra a intrigava; era uma comparação adequada. Sorrindo, ela subiu a última escada íngreme levemente, com elasticidade, de repente revigorada.

Ao abrir a porta, uma pequena pilha de cartas atingiu seu pé. Acendendo a luz, Angela se sentou na poltrona e, sem curiosidade, virou-as. A maior parte eram contas, ela teve que se vestir para se manter elegante e desejável para Roger. No final da pilha havia uma carta de Virgínia. Quando se tornasse a Sra. Roger Fielding, nunca mais teria que se preocupar com uma conta; como ela riria quando se lembrasse dessas pequenas quantias! Nunca mais sentiria o leve tremor de consternação que sempre a dominava quando via as palavras: “Senhorita Angèle Mory em débito com…”. Fora a conta regular do gás, ela nunca tinha visto uma conta na casa do pai. Bem, Angela não teria dificuldade em superar isso.

Finalmente ela abriu a carta de Gínia. Sua irmã havia escrito:

Angela, vou fazer uma prova no dia vinte e oito. Chego no dia vinte e seis ou no dia anterior. Você vai me encontrar, não é? Eu sei onde vou ficar, mas não sei como chegar lá. Não sei o seu horário escolar, escreva e diga para que eu possa chegar quando você estiver livre. Não há nenhuma razão para eu te tirar da aula.

Na carta, Gínia havia mencionado um endereço na 139th Street. Então, ela estava realmente vindo tentar a sorte em Nova York. Seria bom tê-la tão perto.

Embora eu não ache que vamos nos ver muito, pensou ela, pegando sua agenda distraidamente. Menos do que nunca agora, pois suponho que Roger e eu vamos morar em Long Island; sim, isso seria muito mais sábio. Vou usar véu quando for encontrá-la, pois aqueles carregadores negros te olham e nunca te esquecem.

O dia vinte e sete era quinta-feira; ela tinha aulas de manhã; bem, Gínia viria à tarde de qualquer maneira, e depois do meio-dia ela tinha… oh céus, aquele era o dia, o dia em que iria sair com o Roger, o dia em que ele faria a grande pergunta. E Angela escreveu para Virgínia:

Venha no dia vinte e seis, querida, a qualquer hora depois das quatro. Eu não poderia me encontrar com você no dia vinte e sete. Mas está tudo bem no dia vinte e seis. Deixe-me saber quando seu trem chega e eu estarei lá. E bem-vinda à nossa cidade.

Capítulo VI

A semana foi tumultuada, quase agonizante. Afinal, as questões não estavam completamente resolvidas. Ela ficaria feliz quando o dia vinte e sete chegasse e passasse, pois então estaria enraizada, consertada. Ela e Roger se casariam imediatamente. Mas agora ele estava tão longe, na Geórgia; ela sentia falta dele e, evidentemente, ele sentia falta dela, pois os primeiros dois dias trouxeram seus longos telegramas que eram quase cartas.

“Não consigo pensar em nada além da próxima quinta-feira, você também está pensando nisso?” O terceiro dia trouxe uma carta que dizia praticamente a mesma coisa, acrescentando: “Oh, Angèle, gostaria de saber o que você vai dizer!”

Mas ele poderia me perguntar e descobrir, disse ela para si mesma e de repente se sentiu segura e triunfante.

Todos os dias depois disso, recebia uma carta reiterando essa tendência.

E eu sei como ele odeia escrever!

A carta na quarta-feira dizia:

Querida, quando você receber isto, estarei em Nova York; se puder, ligo para você, mas terei que correr como um louco para estar livre na quinta-feira, então talvez eu não consiga.

Decidiu-se a não atender o telefone, mesmo que tocasse. Angela teria uma última cartada de indiferença, embora só ela mesma soubesse disso.

Era o dia em que Gínia deveria chegar. Seria divertido vê-la, conversar com ela, ouvir todas as notícias sobre as pessoas estranhas e sérias que Angela havia abandonado. Mais longe agora do que nunca. Matthew Henson ainda estava no correio, ela sabia. Arthur Sawyer estava ensinando na Sixteenth e Fitzwater; ela podia imaginar o desgosto doentio que envolvia seu rosto cada vez que ele olhava para o edifício horrível e descolorido. Porter tinha se formado em odontologia, mas não exercia a profissão, pelo contrário, editava um pequeno semanário, aprofundando-se, endividando-se cada vez mais desesperadamente, ela tinha certeza. Seria divertido algum dia enviar-lhe um cheque colossal; afinal, ele havia se arriscado assim como ela; ela reconheceu sua revolta como semelhante à dela, só que não tiveram a mesma sorte. Ela perguntaria a Gínia sobre tudo isso.

Era uma pena que tivesse que encontrar sua irmã, mas deveria. Provavelmente ela ficaria enjoada com o carro, e Nova York era aterrorizante na primeira vez, ela mesma experimentara por um instante o pavor doentio daquele primeiro dia em que ficara sozinha na grande rotunda da estação. Mas ela era diferente de Gínia; nada na vida a deixava realmente com medo; Angela podia se machucar, sofrer, encontrar decepções, mas a vida não podia alarmá-la; ela adorava enfrentá-la, forçá-la a parar, entregar seus tesouros. Mas Gínia, embora valente, tinha medos secretos; era realmente apenas um bebê. Sua irmãzinha! Pela primeira vez em meses, Angela pensou nela com uma grande onda de ternura.

Era a hora de ir. Ela usava suas roupas mais discretas, um terno azul escuro, uma camisa de seda branca lisa, um chapéu azul-escuro em forma de sino ― um cloche ―, pequeno e bem ajustado sobre os olhos. Ela o puxou para baixo ainda mais e colocou o véu da moda bem sobre a ponta do nariz. Uma coisa era andar pelo Village com a Srta. Powell. Praticamente não havia pessoas negras lá. Mas isso era diferente. Aqueles carregadores curiosos nunca deveriam ser capazes de reconhecê-la. Seymour Porter havia trabalhado com eles em um verão na estação da Broad Street na Filadélfia. Ele costumava dizer: “Eles não são realmente curiosos, você sabe, mas seu trabalho os deixa doentes; portanto, estão sempre em busca do romance, da aventura que, pelo menos por um dia, tirará a maldição da subserviência monótona de suas vidas”.

Angela sentia muito, mas não podia permitir que eles remediassem a existência às custas dela.

*

Em sua última carta, ela tinha explicado a Gínia sobre aquelas duas escadas problemáticas que conduziam do nível do trem da New York Pennsylvania Railroad ao nível da rua.

“Não adianta eu tentar dizer qual pegar a fim de trazê-la para a direita ou para a esquerda do elevador, porque eu nunca sei. Portanto, tudo o que posso dizer, querida, é que quando você chegar ao elevador, siga em frente e, eventualmente, eu a verei ou você me verá enquanto eu ando por ali. Não se mova, pois pode ser que nós duas andemos na mesma direção”.

Fiel às suas próprias instruções, Angela ficou posicionada entre as duas escadas, virando o pescoço ora em direção a uma escada, ora em direção à outra, parando bruscamente para olhar para o elevador. Ela ergueu o véu para ver melhor.

Um homem passou correndo com uma pressa desesperada, roçando tão perto dela que a ponta de sua mala bateu com força na fina curva interna de seu joelho.

― Meu Deus! ― Angela exclamou involuntariamente.

Embora apressado, ele era um cavalheiro, pois tirou o chapéu, lançou um olhar para trás rapidamente e disse:

― Me desculp… querida, querida, quer dizer que você veio para me encontrar!

― Encontrar você! Eu pensei que você tivesse vindo esta manhã.

Era Roger, e a visão dele a encheu de pavor.

Ele se inclinou e a beijou, ternamente, possessivamente.

― Sim… Oh Angèle, você é uma beldade! Só uma beldade pode usar coisas simples assim. Eu vim hoje de manhã, mas estou tentando alcançar Kirby, o advogado do meu pai, ele devia vir de Newark agora mesmo e pensei em levá-lo para Long Island comigo esta noite. Tenho muitos documentos para ele aqui nesta mala; aqueles negócios na Geórgia eram complicados; dessa forma, não terei que caçá-lo pela manhã e terei mais tempo para marcar nossa viagem à tarde. O que você está fazendo aqui?

O que ela estava fazendo lá? Esperando por sua irmã Gínia que era perceptivelmente negra. E Roger odiava negros. Ela estava perdida, arruinada, a menos que pudesse se livrar dele. Contou a primeira mentira que lhe veio à mente.

― Estou esperando Paulette. ― E isso poderia ser resolvido com Paulette mais tarde. A senhorita Lister pensaria tão pouco sobre enganar um homem, qualquer homem, quanto sobre esmagar um mosquito. Era um jogo justo e ela não faria perguntas.

O rosto dele ficou turvo.

― Não posso dizer que estou feliz com a sua espera por Paulette. Bem, podemos esperar juntos… Ela vem da Filadélfia? Esse trem vai trazer Kirby de Newark. ― Roger tinha a terrível clareza de compreensão dos homens em relação às conexões de trem.

― A que horas o seu trem vai para Long Island? Achei que você queria pegar o próximo. 

― Bem, eu gostaria, mas eles chegam com meia hora de diferença. Eu posso esperar. Melhor perder uma hora hoje do que toda a manhã amanhã. Podemos esperar juntos; veja que as pessoas estão começando a subir. Gostaria de poder levá-la para casa, mas assim que ele aparecer, terei de correr com ele.

Agora, Deus esteja do meu lado, Angela rezou. Às vezes, esses trens eram muito longos. Se o Sr. Kirby estivesse no primeiro carro e Gínia no final, isso faria uma diferença de dez minutos. Se ela não tivesse dado as instruções explícitas!

Lá estava Gínia, com a cabeça emergindo de repente acima da escada. Ela viu Angela e acenou. No momento seguinte ela estaria jogando os braços em volta do pescoço da irmã; beijando-a e dizendo: "Oh, Angela, Angela querida!”. E Roger, que não era bobo, notaria a proximidade dos nomes Angela ― Angèle; ele saberia que nenhuma garota negra cometeria um erro como este.

Ela fechou os olhos em um desmaio momentâneo, e tornou a abri-los.

― Qual é o problema? ― disse Roger bruscamente. ― Você está doente?

Gínia estava ao lado dela. Agora tudo estaria perdido. Ela ouviu a voz alegre e infantil dizer rindo:

― Com licença, você não é a Sra. Henrietta Jones?

Oh, Deus era bom! Ali estava uma chance, se Gínia entendesse! Em seu espanto, Roger se afastou dela para encarar a recém-chegada. Angela, com os olhos implorando pelos da irmã por baixo da aba fechada do chapéu, só conseguiu gaguejar a velha fórmula: ― Você deve estar me confundindo. Não, não sou a Sra. Jones.

Roger disse rudemente:

― Claro que ela não é a Sra. Jones. Venha, Angèle.

Dando o braço a ela, ele se abaixou para pegar a mala. Mas Gínia, depois de um segundo de olhar perplexo mas incrédulo, foi mais rápida do que eles. Sua figura esguia, a cabeça erguida, os deixou; desapareceu em uma cabine telefônica.

Roger olhou para ela.

― Que cara de pau! 

*

Pela primeira vez na busca de seus objetivos, Angela começou a vacilar. Certamente nenhuma ambição, nenhum auge de segurança deveria exigir o sacrifício de uma irmã. Ela poderia até ser egoísta, oh, sem dúvida ela tinha sido egoísta em todos esses meses em que deixou Gínia completamente sozinha, mas nunca teve a intenção de ser cruel. Angela tentou imaginar o tumulto de emoções na mente da irmã; deveria ter havido espanto ― oh, ela tinha visto tudo em seu rosto, o espanto absoluto, a incredulidade e então o estabelecimento naquele rosto de um véu de dignidade e orgulho ― como um bebê tentando endurecer o corpo.

Angela estava de volta ao apartamento agora, andando de um lado para o outro, se perguntando o que fazer. Ela já havia ligado para a casa da 139th Street. Demorou meia hora para conseguir o número, pois não sabia o nome do morador e as informações tinham sido poucas, mas a Srta. Murray ainda não havia chegado. Eles esperavam por ela? Sim, a Srta. Murray havia escrito para dizer que chegaria entre seis e sete; já eram sete e meia e ela ainda não tinha aparecido. Alguma mensagem? Não, não! Angela explicou que ligaria novamente.

Mas onde estava Gínia? Ela não poderia estar perdida, afinal ela era adulta e nada boba, poderia pedir por direções. Talvez ela tivesse pegado um táxi e, à noite, o trânsito tivesse atrasado ― ou talvez pudesse ter acontecido um acidente. Esse pensamento levou Angela ao telefone novamente. Não havia nenhuma Srta. Murray ainda. Em suas andanças de um lado a outro da sala, Angela se avistou no espelho. Seu rosto estava vermelho, seus olhos brilhando de remorso e ansiedade. Sua vaidade a lembrava: Se Roger pudesse me ver agora. Roger... no dia seguinte! Ele teria que falar palavras de ouro para pagar por esta violação que, por causa dele, ela tinha causado na confiança e amor de sua irmã.

No final de uma hora, ela ligou novamente. Sim, a Srta. Murray havia entrado. Tão grande foi seu alívio que seus joelhos cederam. Sim, claro que iriam pedir que ela atendesse o telefone. Após um longo silêncio, a voz soou novamente pelo fio.

― Eu não a vi sair, mas deve ter saído porque ela não está em seu quarto.

― Tudo bem ― disse Angela. ― O principal era saber que ela estava aí.

Mas ficou surpresa. A primeira noite de Gínia em Nova York e ela já tinha saído! Angela não poderia ir vê-la na quinta-feira por causa do encontro com Roger, mas compensaria no dia seguinte; estaria lá na primeira hora, sexta de manhã. Pegando uma folha de papel, ela começou uma longa carta cheia de desculpas.

E não posso ir amanhã, querida, porque, como lhe disse, tenho um compromisso muito importante, um compromisso que significa muito para mim. Oh, você entenderá quando eu lhe contar.

Ela colocou um selo especial de entrega na carta. O alívio de saber que Gínia estava bem não acalmou sua consciência culpada. Mais calma, ela tentou agora encontrar desculpas para si mesma, circunstâncias atenuantes. Assim que Gínia entendesse tudo o que estava envolvido, ela deixaria pra lá. Afinal, Gínia gostaria que Angela fosse feliz. E, de qualquer maneira, pensou de mau humor, mamãe não falou com papai naquele dia em que estávamos na escada do Hotel Walton. Mas Angela sabia que os casos não eram análogos; nenhum princípio estava envolvido, o silêncio da mãe não havia exposto o marido ao insulto ou rancor, ao passo que a atitude de Roger para com a Virgínia fora nitidamente ofensiva. E, além disso, seus pensamentos continuaram com clareza impiedosa, quando um princípio estava em jogo, mamãe nunca hesitou em informar às atendentes do hospital sobre a verdadeira situação das coisas. Na verdade, ela não estava ciente de que estava tomando um lado. Seu marido era seu marido e ela estava feliz em reconhecer esse relacionamento. Uma aversão doentia por sua ação, por sua decepção diária, por Roger e seus preconceitos surgiram dentro dela. Mas com isso veio uma raiva obscura contra um país e uma sociedade que poderia criar tal problema. E ela pensou: Se eu tivesse falado com Gínia, a tivesse reconhecido, que bem isso teria feito a mim ou a ela? Depois que tudo acabasse, ela estaria exatamente onde estava antes e eu teria perdido tudo. E eu quero ser feliz, me divertir. Amanhã mesmo a esta hora, provavelmente serei uma das garotas mais invejadas de Nova York. E depois posso abrandar tudo. Serei boa com todos os tipos de pessoas; eu realmente ajudarei a humanidade, muitos negros ficarão muito melhor por minha causa. E se eu tivesse falado com Gínia, nunca poderia tê-los ajudado em nada. E então: Vou ajudar Gínia também, a minha querida! Ela terá tudo o que quiser no mundo. Mas em seu coração ela já sabia que Gínia não iria querer nada.

Capítulo Sete

A quinta-feira chegou e passou tão rápido quanto qualquer outra. Por muito tempo, Angela viu esse dia como uma pequena entidade separada do tempo, fechada em algum compartimento oculto de sua mente, um compartimento cuja porta ela temia abrir.

Na sexta-feira, ela ligou para a irmã no início da manhã.

― É você, Gínia? Recebeu minha carta? Posso subir?

― Sim ― disse Gínia evasiva, respondendo todas as perguntas. Depois continuou laconicamente: ― Mas é melhor você vir logo se quiser me encontrar. Eu faço o exame hoje e não tenho muito tempo.

Algo na objetividade de sua resposta desconsertou Angela. No entanto, certamente não havia razão para que sua irmã demonstrasse entusiasmo. Mas Angela queria vê-la, queria falar com alguém de seu próprio sangue. Ela gostaria de enterrar a cabeça no ombro de Virgínia e chorar! Mas um clima como o indicado pela voz de Gínia não convidava a confidências.

Uma mulher atarracada, robusta, negra, sugerindo imensa segurança e habilidade, abriu a porta.

― A senhorita Murray me disse que estava esperando alguém. Você deve subir imediatamente. O quarto dela é logo ao lado do terceiro andar.

“Ela estava esperando alguém”. É claro, Virgínia fora discreta. Esse cuidado inesperado e não desejado carregava consigo um golpe.

― Olá ― disse Gínia, colocando casualmente uma cabeça desgrenhada, mas pitoresca, para fora da porta. ― Você pode entrar sozinha? Esta sala é maior do que qualquer outra que já tivemos em casa, mas parece que é normal aqui. ― Ela olhou ao redor do lugar desordenado. ― Aqui, vou pendurar esta roupa, depois você pode se sentar. Não é bacana? Comprei na Snellenburg.

Gínia não tinha beijado nem se oferecido para apertar a mão da irmã, mas seus modos eram bastante amigáveis, até cordiais.

― Veja, eu cortei meu cabelo ― ela continuou ― Gostou? Adorei, mesmo que demore uma eternidade para fazer o penteado.

Em pé diante de um espelho, ela começou a curvar as pontas com um modelador.

Angela achou que nunca tinha visto alguém tão bonita e tão colorida. Gínia sempre mostrou uma preferência por cores fortes; hoje as vestia; seus chinelos eram pequenos mules vermelhos de salto alto; um roupão verde escuro pendia graciosamente de seus ombros magros e de sua gola aberta flamejava o rosa e o ouro de sua pele lisa. Seus olhos eram brilhantes e dançantes. Seu cabelo, preto, vivo e encaracolado, terminava em uma retidão aveludada espessa como pelúcia cortada.

Angela disse:

― Espero não ter acordado você, telefonando tão cedo.

Virgínia sorriu, corando um pouco mais sob o ouro escuro de sua pele.

― Oh, meu Deus, não! Eu já tinha recebido uma ligação mais cedo esta manhã.

― Mais cedo! ― exclamou Angela, espantada. ― Não sabia que você conhecia alguém em Nova York. ― Ela se lembrou do misterioso desaparecimento de sua irmã na noite da chegada. ― Olhe, Gínia, sinto muitíssimo pelo que aconteceu na outra noite. Não seria assim se algo muito importante não estivesse acontecendo. Eu gostaria de poder explicar. ― Com que segurança ela esperara poder contar notícias maravilhosas a Virgínia! E agora tinha que arrastar para a luz a triste memória da noite anterior. ― Mas eu liguei para você várias vezes e você não havia chegado e então, quando eles finalmente me disseram que você tinha entrado, parecia que você tinha saído outra vez. Onde diabos você foi?

Gínia começou a rir, de fato a rir. Por um momento, ela se tornou a Virgínia de seus tempos de escola, regozijando-se em alguma travessura inocente, cheia de risos.

― Eu não saí. Há um banheiro no final do corredor e fui lá para lavar meu rosto. ― A expressão dela se anuviou. ― E quando voltei, entrei no que pensei ser meu quarto. Em vez disso, entrei no quarto de outro inquilino. E lá estava ele sentado…

― Oh ― disse Angela desatenta. ― Estou feliz que você não tenha saído. Fiquei bastante preocupada. Escute, Virgínia ― ela começou desesperadamente ― eu sei que você acha que o que fiz na estação foi absurdo; parece quase impossível explicar isso para você. Mas aquele homem comigo era um amigo muito especial…

― Ele deve ser mesmo ― Gínia interrompeu secamente ― para fazer você ignorar sua própria irmã. ― Ela ainda estava aparentemente brincando com o cabelo, a cabeça tombada para o lado, os olhos grudados no espelho. Mas não estava progredindo muito e seus lábios tremiam.

Angela continuou desatenta, com medo de parar.

― Um amigo especial, e chegamos a um ponto crucial em nosso relacionamento. Foi com ele que tive o compromisso ontem.

― Bem, e então? Você esperava que ele lhe pedisse em casamento? Ele pediu?

― Não ― disse Angela, baixinho. ― Foi a única coisa que ele não pediu, embora tenha perguntado todo o resto.

Virgínia, largando a escova de cabelo, se virou bruscamente.

― E você o deixou falar assim com você?

― Não pude evitar uma vez que ele começou, fiquei tão surpresa e, além disso, acho que suas intenções finais estão certas.

― Suas intenções finais! Por que, Angela? Do que você está falando? Você sabe perfeitamente bem quais são suas intenções finais. Ele não é um homem branco? Bem, que tipo de intenções ele teria em relação a uma mulher negra?

― Simples! Ele não sabe que sou negra. E alguns deles são decentes. Você deve se lembrar que eu sei alguma coisa sobre essas pessoas e você não, você não poderia, vivendo aquela sua vida monótona em casa.

― Eu sei o suficiente sobre eles e sobre os homens em geral para reconhecer um insulto quando o ouço. Alguns homens carregam o caráter estampado em seus rostos. Agora, este homem em cujo quarto eu entrei na noite passada por engano…

― Eu não vejo como você pode dar qualquer sermão, entrando em quartos de homens estranhos às dez horas da noite.

A trivialidade da réplica deixou Gínia muda.

Foi a primeira briga delas.

*

Elas ficaram sentadas em silêncio por alguns minutos, por vários minutos. Virgínia, parecendo completamente composta, estava deixando que os tentáculos de sua mente fossem muito, muito longe nas possibilidades finais desse impasse no relacionamento entre ela e sua irmã. Ela pensou: Eu realmente a perdi, ela está fora do meu alcance, assim como eu costumava perdê-la anos atrás, quando meu pai e eu cantávamos “The Dying Christian”. Tenho vinte e três anos e estou realmente sozinha no mundo. Até então, ela sempre sentiu que podia contar com a maioridade de Angela e supostamente com sua maior sabedoria, mas baniu essa ideia para sempre. Porque se ela conseguiu me ignorar quando não me viu por um ano, por causa de um homem que deve a insultara de propósito, ela certamente não tem intenção de me reconhecer abertamente outra vez. E eu não acredito que quero ser uma irmã secreta. Odeio essa situação.

Gínia viu novamente a cena na estação; ela mesma a princípio tão serena, tão autoconfiante, a frieza confusa de Angela, a insolência de Roger. Algo endureceu, esfriou dentro dela. Mesmo a arrogância dele não conseguira trazer Angela de volta à razão, e de repente, ela se lembrou de que era possível, em tempos de escravidão, que homens e mulheres brancos maltratassem seus parentes negros, sua própria carne e sangue, vendendo-os como escravos no extremo-sul ou observá-los serem espancados, quase, senão completamente, até a morte. Talvez houvesse algo diferente entre sangue branco e negro, afinal.

Em voz alta, Gínia disse:

― Sabe, antes de ir embora naquele domingo de manhã, você disse que nós duas éramos diferentes. Talvez você tenha razão, Angela; talvez haja uma infusão extra de sangue branco em suas veias que permite que você veja a vida de outro ângulo. Se for esse o caso, não tenho o direito de julgá-la. Você deve perdoar meus comentários ignorantes. 

Ela vestiu um vestido de veludo azul adornado com golas e punhos estreitos e um pequeno cinto rosa velho. Acima das sombras suaves, o bronze e o preto de sua cabeça mostravam-se nitidamente; Virgínia poderia ter sido uma delicada ave do paraíso moldada em um novo arranjo de cores, mas seu rosto terno tinha linhas estranhas e implacáveis.

Angela olhou para ela com tristeza. Não sabia exatamente o quê, em seu orgulho ferido e humilhado, esperava ganhar da irmã, mas certamente aguardava um bálsamo. E não essa frieza. Havia esquecido que sua irmã poderia estar sofrendo de um ferimento tão pungente quanto o dela. O ano tinha causado uma ruptura maior do que previra; nunca tinha sido tão franca, tão franca com Virgínia quanto esta fora com ela, mas sempre houve algo comum na relação, um ponto de encontro. Na casa, Gínia tinha uma certa reputação por sua disposição em ouvir todos os lados de uma história, em encontrar uma desculpa ou inventar uma.

Angela lembrou de um velho aforismo de Hetty Daniels: “Aquele que deseja ter amigos deve se mostrar amigável”. E ela fizera tudo menos isso; havia negligenciado Gínia, não tinha respondido suas cartas, até mesmo planejado ― anteontem! ― vê-la bem pouco em seu sonhado novo ambiente. Oh, Angela tinha sido vergonhosa! Mas compensaria Gínia agora ― e então poderia ir até ela nessa crise em sua vida que a assustava e a atraía. Estava ainda mais assustada porque sentia aquela atração. Ela faria a irmã compreender os desejos e anseios que surgiram neste mundo estranho, querido e livre, e então, juntas, traçariam um plano de ação. Gínia podia ser uma criança, mas tinha força. Tanta força, disse algo dentro dela, que provavelmente diria: “Deixe tudo para lá, Angela, Angela! Você não quer estar nem perto de uma coisa dessas”.

Antes que ela pudesse começar suas propostas, Gínia estava falando.

― Escute, Angela, eu tenho que ir. Não sei quando nos veremos de novo, e depois do que aconteceu na quarta-feira, você não pode esperar que eu te procure, e como você sem dúvida está muito ocupada, dificilmente virá até aqui. Mas há uma ou duas coisas que quero falar com você. Primeiro, sobre a casa. 

― Sobre a casa? Por quê? Ela é sua. Não tenho mais nada a ver com isso.

― Eu sei, mas estou pensando em vendê-la. Estão faltando casas à venda na Filadélfia; o Sr. Hallowell diz que posso conseguir pelo menos o dobro do que meu pai pagou por ela. E, nesse caso, você terá mais algum dinheiro.

Se Angela soubesse disso ― quando? ― vinte e quatro horas antes, sua reação à proposta de Roger poderia ter sido diferente. Se ela tivesse se encontrado com Virgínia na quarta-feira e tivesse tido a conversa que planejara!

― Bem, claro que seria muito bom ter um pouco mais de dinheiro. Mas o que eu não entendo é: como você vai viver? O que você vai fazer?

― Se eu passar neste exame, virei para cá; minha nomeação acontecerá dentro de alguns meses. Tenho certeza disso. Estamos em maio e eu só teria que esperar até setembro. Bem, de qualquer maneira, não trabalharei neste verão. E não há nada que vá me impedir de ser aprovada. Na verdade, estou realmente pensando em me arriscar e vir aqui como substituta. O Sr. Holloster, da Universidade da Pensilvânia, está de olho e diz que há muito trabalho. E acho que farei essa mudança; Nova York me atrai bastante. E com certeza há algo sobre o Harlem que me atrai!

Apesar de seu jeito descuidado, Angela sabia que ela estava pensando em Matthew Henson. Ela estendeu a mão e puxou a cabeça de Gínia para seu ombro.

― Oh, querida, não se preocupe com ele. Matthew realmente não era o homem para você.

― Bem ― disse Virgínia ― enquanto eu achar que ele é, o fato de que ele não seja não faz nenhuma diferença real, não é? Pelo menos não no início. Mas certamente não vou me preocupar com isso.

― Não, não… eu…

Estava na ponta da língua de Angela: "Eu conheço dois ou três jovens bons que você pode conhecer. Vou apresentá-la a eles".

Gínia entendeu seu silêncio; sorriu e assentiu.

― Está tudo bem, querida, você não pode fazer nada; faria se pudesse. Só temos que encarar o fato de que você e eu somos duas pessoas diferentes e temos que viver nossas vidas separadas, não como gêmeas siamesas. E cada uma terá que seguir o caminho que escolheu. Afinal, estamos tentando tirar tudo o que pudermos da vida! E se você pode tirar mais proveito dela sendo branca, como sem dúvida pode, por que não deveria? Só me parece que há certas coisas na vida que são mais fundamentais até do que a raça… mas não sei. Estou toda confusa. Mas, é claro, você não pensa assim, e você provavelmente está tão certa quanto eu.

― Gínia!

― Minha querida, não estou tentando censurá-la. Estou tentando ver as coisas sem colocar os sentimentos. Afinal, de uma forma negativa, apenas por não dizer nada, você está renunciando ao seu sangue negro em um país onde ele é inconveniente… oh! Não há dúvida quanto a isso. Você pode estar orgulhosa disso, pode estar satisfeita, eu estou, mas isso certamente pode exclui-la de tudo. Então, por que você não negaria uma manifestação viva desse sangue?

Diante dessa lógica fria, Angela ficou em silêncio. Virgínia olhou para a irmã, uma expressão maternal estranhamente aparente em seu rosto jovem. Quando ela estivesse na meia-idade, seria a personificação da maternidade. Como seus filhos a amariam!

― Angela, tenha cuidado!

― Sim, querida. Oh, se eu pudesse fazer você entender do que se trata.

― Sim, bem, talvez outra hora. Eu tenho que ir agora. ― Ela hesitou, pegou Angela pelos braços e olhou em seus olhos. ― Sobre aquele branco com o qual você estava na estação. Você está terrivelmente apaixonada por ele?

― Não estou apaixonada por ele.

― Oh, shh! ― disse a inocente Virgínia. ― Você não tem nada com que se preocupar!