Não tão branca
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Sobre isso, ela tinha suas próprias ideias. Mistério pode adicionar ao encanto da personalidade, mas certamente não poderia adicionar ao charme da vida. Antes, Angela pensava que as águas roubadas eram mais doces, mas agora era o futuro o que mais a intrigava.
Ralph Ashley, ela descobriu, apesar de sua timidez, tinha ideias e convicções muito definidas, estava absolutamente livre de seu modo de pensar e bastante indiferente às tradições e padrões sociais. Um aristocrata, se alguma vez houve um, ele acreditava, não obstante, na qualidade essencial do homem e odiava as condições econômicas que muitas vezes tendem a criar barreiras superficiais e irreais que separam as classes.
Com alguma apreensão, Angela mencionou o assunto da raça. Ele considerava o preconceito a maior mancha da história da América.
― Estamos errados, todos errados sobre essas pessoas. Depois de tudo o que fizeram para tornar a América habitável! Algum dia, nos daremos conta de nossa vergonha. Espero que não seja tarde demais.
― Mas você não gostaria que sua irmã se casasse com um nigger 12!
― Estou espantado, Angèle, por você usar essa palavra. Quase não há sangue não misturado nos Estados Unidos, de modo que o termo costuma ser impróprio. Eu não tenho uma irmã; se tivesse, eu a aconselharia contra o casamento com um homem negro estadunidense porque a pressão social aqui provavelmente seria muito grande, mas isso seria absolutamente o único motivo pelo qual eu me oporia. E eu posso te dizer isso: não gostaria de me casar com uma mulher do Congo, mas se eu conhecesse uma mulher negra da minha própria nacionalidade, bem-educada, bonita, simpática, eu não deixaria o fato de seu sangue misturado ficar no meu caminho.
*
Uma espécie de interesse secundário em viver estava tomando conta dela. O brilho, os pontos altos, haviam desaparecido de sua vista. Ela nunca, Angela suspeitava, voltaria a conhecer a espontaneidade de sentimento e atitude de novo como se sentia em relação a Roger e Anthony. Tampouco voltaria a abordar as experiências da existência com a mesma expectativa ingênua, o mesmo desejo de ver como as coisas terminariam. Por mais jovem que fosse, ela se sentia como um veterano com cicatrizes de guerra que, exausto de suas próprias atividades extenuantes, estava bastante contente em ficar à margem observando todas as fases do combate com os mesmos olhos.
Embora Angela não pretendesse mais tentar sua sorte com Virgínia, não fez mais nenhum esforço para colocar barreiras entre ela e pessoas negras. Que o mundo a visse como era. Quando estava no Harlem, em companhia de Virgínia e Sara Penton, saía para jantar nos barulhentos, lotados e amigáveis restaurantes, ia para as salas de chá, para as limpas e convidativas sorveterias. Frequentemente, também, ela ia às compras com a irmã e ao teatro; apresentou Virgínia a Ralph e Marta. Mas teve o cuidado de evitar o contato com pessoas cuja atitude em relação à questão racial fosse desconhecida ou definitivamente antagônica.
O Harlem a intrigava; era uma cidade maravilhosa; representava, Angela sentia, a última moda em orgulho racial, integridade e até autossacrifício. Ali estavam pessoas de um tipo intelectual muito elevado, expoentes do mais real e mais essencial refinamento vivendo lado a lado com membros grosseiros, mal-educados ou mesmo criminosos, certamente indiferentes de sua raça. É claro que parte dessa proximidade era devido à pressão externa, mas também estava presente uma consciência oculta do dever racial, algo que se traduzido diria: “Talvez você me atrase um pouco. Mas, por outro lado, talvez, eu esteja ajudando você a subir”.
Havia uma cabeleireira na 139th Street onde Virgínia costumava fazer seu lindo cabelo; onde Sara Penton, cujas mechas eram do mesmo tipo que as de Matthew, costumava ir para disciplinar seus cabelos. Aos sábados, Angela acompanhava as meninas e ouvia as conversas, graves e alegres, dessas pessoas cujo sangue ela compartilhava, mas cujos problemas, por um acaso de sorte, ela tinha sido capaz de evitar. Pois, embora estivesse disposta, pelo bem de Anthony, a se alistar novamente nas lutas desta vida, ela nunca tinha ignorado as desvantagens, a limitação! Quanta coragem era necessária para essas pessoas viverem! Era necessário um alto grau de humor, de determinação, firmeza, intrepidez!
Maude, a proprietária do negócio, era uma mulher franzina de rosto doce, pele aveludada marrom-clara, voz encantadora e ar de verdadeiro requinte. Ela era do Texas, mas tinha vindo para Nova York em busca de fortuna, tinha trabalhado como empregada doméstica em Londres e Paris e estava tão familiarizada com as artes de sua profissão quanto qualquer cabeleireiro nas proximidades da Rue de la Paix ou na Quinta Avenida. Uma rara hospitalidade emanava de sua presença; seu salão estava sempre cheio não só de fregueses, mas de visitantes, visitantes de sua terra natal, atrizes do business negro, esvoaçando como radiantes pássaros do paraíso com suas ricas peles marrons, seus olhos exóticos e alegres, e com roupas cujo estilo inconsciente havia evoluído apenas para eles.
Nessa atmosfera não havia grosseria, não havia restrição; a vida no movimentado Harlem parava ali e bocejava por um momento delicioso antes de continuar com sua pressão e problemas. Uma garota do Texas, visitando uma pequena metrópole por algumas semanas, deu uma última olhada em seu cabelo maravilhosamente arrumado, posicionou-se por um segundo diante do vidro e disse: ― Bem, adeus, Maude. Voltarei para casa, mas nunca me esquecerei do Harlem.
Uma garota negra, vestida de branco dos pés à cabeça, perguntou:
― Por que ela vai voltar para o Sul? Será que ainda não se cansou do Texas?
Maude respondeu que ela voltaria para lá por causa de sua propriedade.
― O pai dela é dono da maior parte da pequena cidade onde eles moram.
― Criança, você não aprendeu que nunca é dono de nenhuma propriedade no Texas enquanto aqueles brancos também estiverem lá? Deixe aqueles Ku Kluxers colocarem na cabeça que você tem algo que eles querem. Ela pode muito bem sair de lá primeiro ou por último; mas algum dia terá que sair. Sei que é difícil se arriscar e começar tudo de novo em uma cidade estranha e um clima estranho, mas é a diferença entre vida e morte. Eu sei que fiz isso e espero nunca mais voltar.
Ela era uma mulher frágil, vestida e calçada com elegância. Sua voz suave e arrastada. Mas Angela a viu nitidamente como o epítome do ferro e do sangue em uma raça que não sabia como abandonar a vida.