Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 15 de 25

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Não tão branca

Parte 3 : Não tão branca

Capítulo 1

Angela queria ir para o centro com sua irmã.

― Talvez eu possa trazer sorte a você.

Mas Gínia foi inflexível.

― Você ficaria muito mais propensa a trazer má sorte para si mesma. Não, não faz sentido arriscar. Irei pelo elevado; minha senhoria disse que iria me deixar muito perto da escola onde farei o exame. Você vai por outro caminho.

No corredor, a Sra. Gloucester estava ocupada tirando o pó, sua figura baixa e agitada viva com o ardor doméstico. Virgínia parou perto dela e estendeu a mão para Angela.

― Adeus, Srta. Mory ― disse ela perversamente. ― Foi muito gentil de sua parte me conceder tanto tempo. Se você puder se afastar de seu amado Village, venha e tentarei mostrar-lhe o Harlem. Não acho que vou demorar muito para aprender.

Obedientemente, Angela a deixou seguir seu caminho e, caminhando até a 7th Avenue, subiu no ônibus, sofrendo um pouco com as precauções de Gínia. Mas logo começou a perceber seu valor, pois na 114th Street, Anthony Cross entrou. Ele sentou-se ao lado dela.

― Nunca esperei vê-la no meu bairro.

― Oh, é aqui que você mora? Sempre me perguntei onde era.

― Acontece que acabei de chegar aqui, mas vivi praticamente em toda Nova York. ― Ele estava magro, inquieto, infeliz. Seus olhos procuravam o rosto dela.

Angela disse um pouco nervosa:

― Parece-me que quase não te vejo mais. O que você esteve fazendo?

― Nada que te interessaria.

Ela não se atreveu a dar a resposta óbvia e, afinal, embora gostasse muito dele, não estava interessada em suas ações. Por um longo momento, Angela procurou alguma frase que expressasse a combinação certa de amizade e indiferença.

― Já faz muito tempo que não almoçamos juntos; venha almoçar comigo hoje. Será meu convidado. ― Ela pensou em Gínia e na possível venda da casa. ― Acabei de descobrir que vou conseguir uma quantia bastante decente de dinheiro, certamente o suficiente para pagar pelo almoço.

― Obrigado, mas tenho um compromisso; além disso, não quero almoçar com você em público.

Este era um terreno perigoso. Agitada, ela respondeu imprudentemente:

― Tudo bem, mas venha para o chá qualquer dia; de vez em quando eu faço uma fornada de biscoitos; fiz alguns há uma semana. Da próxima vez que eu sentir vontade, te mandarei um cartão e você pode vir e comê-los, bem quentinhos.

― Você sabe que não tem intenção de fazer tal coisa. Além disso, você não tem meu endereço.

― Um inconveniente que certamente pode ser corrigido. ― Angela riu dele.

Mas Anthony não estava com humor para rir.

― Não tenho nenhum cartão comigo, mas se tivesse, eles não teriam o endereço. ― Ele rasgou um pedaço de papel de seu bloco de notas e rabiscou nele. ― Aqui está. Eu tenho que ir agora. ― Ele deu a ela um último olhar desesperado. ― Oh, Anjo, você sabe que nunca vai me convidar!

Com o pedaço de papel em uma das mãos, Angela enfim chegou ao seu pequeno apartamento. Naturalmente dona de uma mente ordenada, ela procurou pelo caderno de endereços. Mas algum impulso inexplicável a levou a alisar o papel e colocá-lo em um canto da mesa. Feito isso, ela tirou o chapéu e as luvas, sentou-se na cadeira confortável e se preparou para enfrentar seus pensamentos.

*

O dia anterior! Mesmo agora, a uma distância de vinte e quatro horas, Angela não havia recuperado o equilíbrio. Ela ainda estava atordoada, ainda incapaz de perceber o que acontecera. Só ela sabia que havia alcançado um marco em sua vida; um possível ponto de virada. Se ela não deixasse de conviver com Roger agora, embora não cometesse nenhum de seus atos, ela nunca mais seria a mesma; nunca mais poderia enfrentar-se com o velho e inabalável orgulho e autoconfiança. Se ela se afastasse, então, de fato, seria a mesma velha Angela Murray, a mesma garota, exceto por um pouco de sofisticação que tinha antes de deixar a Filadélfia, só que teria começado uma aventura que não teria terminado, teria enfrentado a vida e desistido no primeiro golpe. Ela seria uma covarde ou uma mulher muito sábia? Pensou em dois poemas que havia lido em “Hart's Glass-Book”, um livro muito antigo de seu pai. Um deles dizia:

Ou alguém teme muito seu destino

Ou seus desertos são um bocado

Temendo perder seu caminho,

Evita tocá-lo.

O outro era uma mistura estranha de astúcia e covardia:

Aquele que luta e foge da navalha

Viverá para lutar quando outro dia raiar

Mas aquele que morre na batalha

Caiu para nunca mais se levantar.

Seus desertos eram pequenos ou ela deveria fugir e voltar para a luta outro dia quando fosse mais velha, mais experiente? Mais experiente! Como conseguiria essa experiência? Ela já era infinitamente mais sábia; se a ocasião exigisse, teria muito mais cautela do que no dia anterior com Roger. No entanto, seria precisamente por causa dessa experiência que ela saberia como encontrar, até mesmo quando esperar, condições semelhantes.

Angela pensou que sabia qual verso seguiria se fosse Gínia, mas, de volta mais uma vez à segurança de seus próprios aposentos, ela sabia que não queria ser Gínia, que ela e Gínia eram duas pessoas muito diferentes.

Mas, pensou, se Gínia fosse tão justa quanto eu, mas mesmo assim fosse ela mesma, e se fosse colocada nas mesmas condições em que fui colocada, sua cor a salvaria. É um salva-vidas para Gínia; mas sempre foi uma maldição para mim.

*

Roger viera buscá-la no carro azul. Havia um cesto, duas cadeiras dobráveis e um tapete guardados nele. Era um dia lindo.

― Se pudermos ― dissera ele ― faremos um piquenique.

Ele estava extremamente bonito e nervoso. Angela também estava nervosa, embora não demonstrasse, exceto pela perda de sua cor. Ela aparentava simplicidade; estar tão perto de completar seu objetivo e ainda ter que esperar esses últimos momentos de agonia, talvez horas, era mortal. Ambos ficaram em silêncio por um tempo, Roger concentrado na direção. O tráfego em Nova York é uma tensão desesperada em todas as horas, às onze da manhã é mortal ― o enorme leviatã da cidade está dando o último passo. Por algumas horas, ele prosseguirá em um ritmo medido, embora nunca vagaroso, e depois explodirá novamente na corrida louca do horário de pico.

Mas, finalmente, eles estavam fora dos limites da cidade e podiam conversar. Pela primeira vez desde que Angela o conheceu, Roger começou a falar de seus bens.

― Qualquer coisa, qualquer coisa que o dinheiro possa comprar, Angèle, eu posso conseguir e posso dar. ― Sua voz estava carregada de intenção. Eles estavam indo na direção de Forest Hills; ele tinha um chalé lá, talvez Angela gostaria de vê-lo. E havia um bosque não muito longe. ― Faremos um piquenique lá ― disse ele ― e conversaremos.

Ele certamente estava nervoso, Angela pensou, e gostou mais dele por isso. O chalé, ou melhor, a casa em Forest Hills era linda, uma joia. E era decorada com bom gosto e delicadeza marcante.

― Para que você a mantém mobiliada? ― perguntou Angela.

Roger murmurou que estava vazia há muito tempo, mas ele tinha visto aquela mobília e percebeu que era exatamente o que a casa precisava, então a comprou; assim, mais uma vez tornando a lembrar sua companheira que ele poderia satisfazer qualquer capricho.

Eles se afastaram em silêncio daquele lugar requintado. Angela estava inclinada a se divertir; certamente ninguém poderia ter pedido uma introdução melhor do que a vislumbrar aquela casa. O que o faria falar, ela se perguntou, e o que, oh, o que ele diria? Algo muito, muito mais romântico do que o pobre Matthew Henson jamais poderia ter sonhado, sim, e muito, muito menos romântico, algo subconsciente lhe disse, do que Anthony Cross havia dito. Anthony com sua pobreza, honra e votos desesperados!

Eles haviam chegado ao bosque, estendido o tapete e uma toalha de mesa; Roger a cobriu com guloseimas. Ele não a deixava levantar um dedo, Angela era a convidada e ele, seu humilde servo. Ela sorriu para Roger, ainda formando contrastes vagos entre ele, Matthew e Anthony.

Roger largou o sanduíche e veio sentar-se atrás dela. Ele a rodeou com o braço e abaixou o ombro para que a cabeça dela encostasse nele.

― Não me olhe assim, Angèle, Angèle! Eu não aguento.

Então, o momento estava realmente chegando.

― Como você quer que eu olhe para você?

Ele abaixou a cabeça e a beijou.

― Assim, assim! Oh, Angèle, gostou da casa?

― Se gostei? Adorei.

― Querida, mandei fazer para você, sabe? Achei que você gostaria.

Parecia uma coisa estranha a se fazer sem consultá-la e, de qualquer forma, ela não queria morar em um subúrbio. Opal Street fora subúrbio o suficiente. Angela queria, exigia, o barulho e tumulto das cidades.

― Eu não ligo para os subúrbios, Roger.

Que estranho ele falar de um lugar para morar e nunca uma palavra de amor!

― Minha querida garota, você não precisa morar em um subúrbio se não quiser. Eu tenho um lugar, um apartamento na 72nd Street, sete cômodos; seria suficiente para você e sua empregada, não é? Eu poderia mudar essa mobília para lá, ou se você achar que é muito rústica, você poderia comprar coisas novas.

Sete cômodos para três pessoas! Ela queria uma sala de estar e um estúdio, e além do mais, onde ele colocaria suas coisas? Essa mesquinhez repentina era bastante inexplicável.

― Mas, Roger, sete cômodos não seriam o suficiente.

Ele riu, o rosto radiante de alívio e triunfo.

― Então ela quer um palácio, não é? Bem, ela terá. Um ménage inteiro, se quiser, um lugar na Riverside Drive, empregados e um carro. Só que não pensei que você se importasse com esse tipo de coisa. Depois daquele pequeno buraco na parede em que você está morando na Jayne Street, eu esperava que você achasse o apartamento da 72nd Street grande o bastante.

Um pouco magoada, ela respondeu:

― Mas eu estava pensando em você também. Não haveria espaço para suas coisas. E achei que você gostaria de continuar vivendo no estilo ao qual está acostumado. ― Uma explicação repentina surgiu em seu medo crescente. ― Você está mantendo isso em segredo de seu pai? É esse o problema?

Debaixo de sua pele fina e brilhante, Roger enrubesceu.

― Mantendo o quê em segredo de meu pai? Do que você está falando, Angèle?

Ela respondeu com outra pergunta.

― Do que você está falando, Roger?

Ele apertou os braços sobre ela, a voz falhando, os olhos brilhantes e atentos.

― Eu estou pedindo para você morar na minha casa, para viver para mim; para ser minha garota; para manter um ninho de amor onde eu e somente eu possa ir. ― Ele sorriu envergonhado com o caráter mundano da frase.

Angela o empurrou para longe; a mandíbula caída e frouxa, mas toda tensa. Entretanto, debaixo da perplexidade atordoada sua mente estava acelerada. Então este era seu castelo, sua fortaleza de proteção, seu refúgio. E que resposta deveria dar? Deveria acertar o rosto ansioso e meio envergonhado dele, deveria se levantar e ir embora, proibindo-o de a seguir? Ou deveria ficar e ouvir? Ficar e descobrir como este homem era de fato; que profundezas havia nele e, ela supôs, em outros homens. Mas em especial neste homem com seu ar galante de menino e seu rosto tão sem malícia e aparentemente tão inocente quanto Angela.

*

Isso era o que odiava em si mesma, pensou ela, trancada com seus próprios pensamentos na tarde seguinte em seu quarto. Angela se odiava por ter ficado ouvindo. Isso dera a ele coragem para falar e falar. Mas o que ela mais odiava era a astúcia, a praticidade com a qual tinha se decidido a ouvir.

Angela tinha pensado nas contas; havia pensado em sua pobreza, em seu desamparo, e na frase de Marta Burden: “Você deve fazer com que ele te deseje”. Bem, ali estava uma maneira de fazê-lo desejá-la e de responder a esse desejo. “Não”, disse Marta, “segure muito. Dê um pouco”. Supondo que Angela desse a Roger apenas o incentivo de ouvi-lo, de lhe mostrar que gostava um pouco dele; enquanto ele continuava querendo ― os homens pagavam um alto preço por seus desejos. O preço dela seria o casamento. Era um jogo, Angela sabia, que as mulheres jogavam em todo o mundo, embora nunca tivesse ocorrido a ela jogá-lo; um jogo perigoso em que algumas mulheres queimaram os dedos. “Não dê muito”, disse Marta, “pois então você se perde”. Bem, ela não daria nada e não queimaria os dedos. Ah, seria um ótimo jogo.

Havia ainda outra questão. Ele havia ferido seu orgulho e deveria salvá-lo. E o único remédio possível seria uma proposta de casamento. Ah, se Angela pudesse ser como uma garota em um livro! Quando Roger finalmente pedisse sua mão, ela seria capaz de dizer a ele que iria se casar com outra pessoa, alguém duas vezes mais elegível, duas vezes mais bonito, duas vezes mais rico.

*

Através de todos esses pensamentos acelerados, penetrou o som da voz de Roger, suplicante, persuasiva, sedutora. Angela ficou surpresa ao descobrir uma certa timidez envergonhada rastejando sobre ela; mas era ele quem deveria ter mostrado a vergonha. E ela não conseguia entender por que fora capaz de dizer claramente: ― Você diz que cuida de mim, que me deseja tanto, então por que não vem até mim da maneira tradicional?

Mas um orgulho, anormalmente falso ou excepcionalmente feroz, a impediu de fazer isso. Sem dúvida, Roger, com sua riqueza, sua aparência e seus laços familiares já havia sido bastante procurado. Ele sabia que era um “bom partido”. Pobre, desconhecida, estigmatizada, parte do grupo menos reconhecido do país, Angela não poderia fazer-se pertencer, nem mesmo em aparência, àquele grupo de jovens que tão obviamente procuram um “bom casamento”.

Quando ele parou por um momento para respirar, ela disse com tristeza:

― Mas, Roger, as pessoas não fazem esse tipo de coisa, não as pessoas decentes.

― Angèle, você é uma criança! Este é exatamente o tipo de coisa que as pessoas fazem. E por que não? Por que o mundo deve ser informado sobre as relações entre homens e mulheres? Algumas das uniões mais doces da história foram desse tipo.

― Para outros, talvez, mas não para mim. Relacionamentos do tipo que você descreve não existem entre as pessoas que conheço.

Angela estava pensando em seus pais, nos Hallowells, nos Hensons cujas vidas eram de fato como livros abertos.

Roger a olhou com curiosidade.

― As pessoas que você conhece! Não me diga que você não notou Paulette!

Ela havia se esquecido de Paulette!

― Sim, notei. Ela mesma me disse. Eu gosto dela, ela tem sido uma ótima amiga, mas, Roger, você certamente não quer que eu seja como ela.

― Claro que não. É precisamente porque você não é como ela que me interessei. Você era como um bebê na floresta. Qualquer um podia ver que você não tinha experiência com homens.

Essa óbvia falta de lógica era muito desconcertante. Angela olhou para ele como a criança que, nesses assuntos, ela realmente era.

― Mas, mas Roger, isso não seria o começo de uma vida como a de Paulette? O que seria de mim depois que nós, você e eu, nos separássemos? Essas coisas duram pouco tempo, não é?

― Não necessariamente; certamente não entre você e eu. E eu sempre cuidaria de você, eu proveria para você.

Roger podia sentir o ressentimento dela crescendo. Em desespero, ele jogou uma última carta astuciosa:

― E, além disso, quem sabe, algo permanente pode crescer a partir disso. Não sou inteiramente independente, Angèle.

Sem dúvida, ele estava se referindo ao pai, a quem não podia ofender. Nunca lhe ocorreu que ele pudesse estar mentindo, afinal, por que ele deveria mentir?

*

Para todos os argumentos dele, todas as meias promessas e implicações, Angela retornou uma negativa constante. Quando o crepúsculo chegou, ela disse que queria ir para casa; com o pôr do sol, sua força falhou; ela se sentia muito cansada. Seu futuro incerto, seu orgulho ferido, seu súbito confronto com as realidades da sociedade na qual estava entrando, a confundiam e assustavam. Ressentida, confusa, introspectiva, ela não tinha mais palavras para Roger; era impossível para ele persuadi-la a concordar ou discordar de seus argumentos. Durante a longa volta para casa, ela ficou muda.

Mas, assim que entrou na Jayne Street, Angela sentiu que não conseguiria ficar sozinha durante as longas horas da noite, e não queria ficar sozinha com Roger. Ela disse isso a ele. Embora não estivessem desarrumados, não estavam apresentáveis o bastante para ir aos hotéis no centro. Mas, ansioso para agradá-la, Roger disse que poderiam ir até um dos pequenos cabarés no Village. Algumas esquinas depois, estavam diante de uma casa numa rua escura batendo na porta, absurdamente barricada, passando por seus portais escuros e misteriosos. Em um cômodo bem encerado, algumas mesas e cadeiras, e cortinas bastante distintas. Cinco ou seis casais estavam sentados, entre eles, Paulette, Jack Hudson, uma mulher alta, um tanto grande e muito loira cujo nome, Angela soube, era Carlotta Parks, e um homem magro.

Paulette saudou em voz alta; a mulher loira se levantou e jogou os braços ao redor do pescoço de Fielding.

― Roger!

― Não faça isso ― disse ele, bastante zangado. ― Olá, Jack. ― Ele assentiu para o homem magro, que parecia conhecer bem. ― O que eles servem aqui, meus amigos? A Srta. Mory e eu estamos cansados e famintos. Estivemos para lá e para cá o dia todo.

A Srta. Parks se virou e examinou Angela.

― Sentem-se aqui ― disse Paulette ― há bastante espaço. Jack, faça o pedido para eles, o mesmo que estamos comendo. A comida aqui é ótima. ― Ela estava radiante, feliz.

Sob a influência da comida boa e estimulante, Angela começou a se recuperar, a olhar ao redor.

Jack Hudson, um homem forte e bronzeado como uma estátua, jogava seu brilho sobre Paulette, dizendo nada, embora seu silêncio tudo dissesse. O homem magro mantinha seus olhos em Carlotta, que estava indiferente a todos, exceto a Roger; claramente eram amigos há longo tempo. Ela agarrava a mão dele, sua cabeça quase repousando em seu ombro.

― Roger, é tão bom ver você novamente! Penso tanto em você! Estive pensando em te escrever; vamos ter uma grande festa em casa neste verão. Você deve ir! Papai está convidando metade de Washington; attachés, príncipes, condes e a serena realeza britânica. Ele virá para os fins de semana.

Era claro que ela fazia parte da haute monde, com ótimos contatos, poderosa, até rica. Uma garota da mesma classe que Roger se divertindo entre essas pessoas diferentes. Angela sentiu o coração apertar com um ciúme inevitável.

O homem magro, desistindo de conseguir a atenção de Carlotta, de repente perguntou a Angela se ela gostaria de dançar. Ele era um ótimo parceiro e por um momento ou dois, revigorada pela comida e pela música rápida, ela se deixou ser absorvida pelo movimento suave e pela conversa agradável. Por cima do ombro, Angela viu que Carlotta ainda conversava com Roger. Ele, no entanto, não prestava atenção a ela. Tinha os olhos fixos em Angela, seguindo cada movimento dela, quase a mantendo presa, ela pensou. Os olhos dele encontraram os dela e trocaram um longo olhar, tão carregado com simpatia e uma secreta compreensão, pareceu a ela, que seu coração falhou uma batida.

O parceiro de dança a levou de volta à mesa. Paulette, corada e radiante, tal qual um bebê desgrenhado, se inclinava para a frente enquanto ouvia Hudson, deliciada. Como uma raconteuse, ela tinha uma vaga e deliciosa malícia que fazia qualquer contar de suas aventuras ser absolutamente irresistível.

― O nome dela ― Paulette dizia em voz alta, sem se importar com quem pudesse ouvir ― era Antoinette Spewer, e parecia que ela tinha se decidido a me odiar desde o primeiro instante. Ela disse a Sloane Corby que queria me encontrar e ele nos convidou para almoçar. Quando chegamos ao restaurante, ela estava esperando por mim no lobby; Sloane nos apresentou e ela puxou um par de óculos de teatro para me olhar. Um par de óculos de teatro! ― Paulette disse como se a outra tivesse lhe apontado um revólver. ― Mas resolvi isso. Havia três ou quatro pessoas passando por nós. Eu me afastei até que eles pudessem me ouvir, e disse para ela: ― Desculpe, qual é mesmo o seu sobrenome?

Bem, quando uma pessoa tem o sobrenome Spewer, não pode sair dizendo por aí. Ah, rapidinho ela desceu do cavalo, e te garanto que me respeita até hoje.

Roger se levantou.

― Temos que ir. Não quero que a Srta. Mory se canse muito. ― Ele transbordava atenção e cortesia.

A Srta. Parks olhou para Angela de novo, cerrando os olhos.

No carro, Roger a abraçou.

― Angèle, mal pude suportar quando você dançou com aquele sujeito! E quando você olhou para mim ― ah, que olhar! Você estava pensando sobre mim. Eu senti, eu soube.

A barreira dentro dela se rompeu.

― Sim, e eu pude perceber que você pensava em mim.

― Claro que pôde perceber! E sem dizer palavra! Ah, querida, querida, você não vê que essa é a decisão certa? Se você aceitasse ser feliz comigo, teríamos uma ligação secreta, invisível, existindo apenas entre nós e para mais ninguém. Seria ainda mais doce se só nós dois soubéssemos.

Sem saber, Roger a afetou ― águas roubadas eram as mais doces; Angela sabia disso melhor do que ninguém.

Em voz alta, ela disse:

― Chegamos, Roger. Parte de hoje foi incrível; obrigada.

― Você não pode ir assim! Vai me deixar vê-la novamente?

Ela sabia que deveria negar, mas mais uma vez um impulso perigoso a fez assentir. Roger foi embora, e ela subiu os muitos degraus íngremes, confusa, animada, assustada, curiosa, com aquele forte senso de aventura ainda tomando conta de si. No dia seguinte, veria Gínia, sua própria irmã, seu próprio sangue, uma de seu povo. Juntas, elas resolveriam a situação.

Capítulo 2

Um curioso período de duelos se seguiu. Roger era jovem, rico e desocupado. Quase todos os desejos dele eram satisfeitos. Ele não podia imaginar que falharia em sua busca por essa criatura incrível que havia despertado nele um sentimento ardoroso e sincero que o surpreendera. Ocorreu a ele, mais de uma vez, que seria bom se essa garota fosse agraciada com o nome, a posição e a fortuna de Carlotta Parks, mas nunca pensou em frustrar os desejos de seu pai que, ele sabia, insistiria imediatamente em um certificado da linhagem, treinamento e aptidão geral de qualquer aspirante à mão de seu filho. Angela teve o bom senso de ser franca; ela não queria ficar imersa em um tecido de mentiras cujo relacionamento, cuja sequência e interdependência provavelmente esqueceria. Às poucas perguntas de Roger, ela disse com sinceridade que era filha de “pais pobres, mas orgulhosos”; eles riram da frase banal; que o pai tinha sido um carpinteiro chefe e que ela fora educada em escolas públicas comuns e por um tempo tinha sido professora. Ninguém jamais tentaria substanciar essas afirmações, pois claramente a pessoa a quem elas se aplicavam não estaria falsificando tal relato simples. Não haveria sentido em fazer isso. Suas pequenas mentiras eram insignificantes, ela apenas se esqueceu de dizer que tinha uma irmã negra e que seu pai tinha sido negro.

Roger pensou que Angela estava insondável. Ele tinha o cinismo não justificado e despreocupado dos homens modernos. Roger tinha, como havia dito, atração por Angela por causa da inocência dela, aparente em suas observações e maneiras. Não havia motivos para não celebrar essa inocência.

Se perguntado, diria:

― Mais cedo ou mais tarde, ela precisará aprender sobre o mundo em que vive, então é melhor que aprenda comigo. E eu sempre cuidarei dela.

No fundo de sua mente, apesar de sua despretensiosa, até simples, atitude em relação à sua fortuna e poder, havia uma convicção de que esses mesmos dotes poderiam curar qualquer ferida, reinstituir qualquer perda. Mesmo assim havia momentos em que ele sentia um leve enjoo quando Angela lhe perguntava: ― Mas o que será de mim depois, Roger?

Era a única pergunta que ele não conseguia responder.

De todas as suas referências, desde os históricos Antônio e Cleópatra até as notórias afinidades descobertas em histórias em jornais escandalosos, ele só podia gaguejar: ― Não há necessidade de se preocupar com o que virá depois, Angèle, pois nós dois sempre seríamos amigos.

Os frequentes encontros agora testavam sua força. Vontade e determinação juvenil tanto nele quanto nela. Em ambos, a excitação da busca era forte, mas cada um perseguia um objetivo diferente. A todos os protestos, argumentos e demandas de Roger, Angela respondia, insistente: ― O que você me pede é impossível.

Apesar disso, ela não podia ou não queria afastá-lo e, gradualmente, embora não tivesse intenção de ceder aos desejos dele, sua reação inicial de choque começou a mudar.

Por três meses, o conflito persistiu. Roger interpunha a discussão todas as vezes em que se falavam, em todas as ocasiões. Gradualmente, se tornou a raison d’être da camaradagem entre eles. Seus argumentos eram variados.

― Minha querida garota, pense em uma amizade em que duas pessoas teriam todas as reinvindicações deste mundo e ainda assim reivindicação nenhuma. Pense em dar tudo, não porque você disse “aceito” diante de um padre, mas sim por conta da generosidade de uma poderosa afeição. Esta é a verdadeira essência do amor livre. Te dou minha palavra que os casais mais felizes do mundo são aqueles que amam sem compromissos visíveis. Tais pessoas terão os laços mais duradouros. A relação deles é mais próxima porque é a mais livre, mais elástica união deste mundo.

Uma intimidade singular, doce e curiosa começava a crescer entre eles. Roger contou várias piadas a Angela sobre seu pai, sobre sua falecida mãe ― que ele ainda amava e por quem havia sofrido de uma maneira patética e infantil.

― Ela era tão doce comigo, me amava tanto. Eu nunca a esquecerei. É por causa dela que eu tento agradar o meu pai, embora ele também seja doce.

Angela estava criando o hábito de relacionar Roger às pequenas coisas que aconteciam em seu dia a dia; um cotidiano que ela estava começando a perceber que, aos olhos dele, era nada além de entediante e monótono. Mas, comparado com o de Gínia, era cheio de aventura, de promessas e até mistérios.

Roger sabia muito sobre as pessoas e lhe contou diversos segredos perigosos.

― Vê como eu confio em você, Angèle? Você deveria confiar em mim ao menos um pouquinho.

Se as histórias dele eram verdade, certamente Angela deveria confiar bastante nele, pois seu mundinho, julgado pelos padrões com os quais ela estava acostumada a julgar as pessoas, estava em ruínas. Se era assim que as pessoas viviam, de que serviam os propósitos? O mundo era feito para dar prazer; ninguém ganhava nada ao praticar simples virtudes; era, afinal de contas, uma extensão da velha fórmula que ela havia definido para si mesma anos atrás. Roger gastava a maior parte de seu tempo com ela, ao que parecia. Qualquer coisa que Angela decidisse fazer o encantava. Ela não aceitava dinheiro nem presentes.

― E não posso continuar saindo para jantar e almoçar com você, Roger. Seria diferente se… se significássemos de fato algo um para o outro.

Deliberadamente, ele distorceu as palavras dela.

― Mas nada me daria mais prazer do que significar tudo um para o outro.

Roger lhe enviou enormes cestas de frutas e outras comidas; então a provocava, acusando-a de ser egoísta. Para se livrar da comida, Angela teve que convidá-lo para almoçar, para jantar, já que nada que dissesse o fazia desistir de lhe enviar cestas.

No entanto, nada dava a ela mais prazer do que esse jogo. Angela estava bastante solitária; Gínia tinha seus próprios interesses; Anthony nunca se aproximou dela nem a convidou para lugar algum; Marta Burden parecia ocupada com seus próprios problemas, ela estava secretamente passando por algo que a tornava mais distante, mais autossuficiente, mais misteriosa do que nunca. Paulette, se preparando para ir à Rússia com Hudson, estava feliz além de qualquer medida. A Srta. Powell… Angela não poderia se aproximar dela; a jovem negra havia sido profundamente educada, mas sua cortesia tinha algo de gélido, distante. Porém, no momento, Angela não desejava quebrar esse gelo; não seria prudente se arriscar com Roger, mesmo assim ela colocou a Srta. Powell na lista das pessoas que um dia ela ajudaria ― quando seu final feliz chegasse.

O resultado desse sentimento de solidão era, claro, se aproximar ainda mais de Roger. Ele a elogiou sutilmente por parecer à vontade em seu pequeno apartamento; passou a gostar da comida simples e boa e dos experimentos que às vezes ela fazia com ele. E, mais tarde, quando o outono chegou, havia noites longas e agradáveis diante de uma fogueira, ou duas ou três horas calmas depois de uma volta no parque a bordo do carro azul. E gradualmente ela começou a aceitar e até mesmo convidar o carinho dele.

Angela se apoiou, inconscientemente, no braço da grande cadeira em que Roger estava sentado, mas a transição tornou-se cada vez mais fácil: do braço da cadeira para o joelho dele, para o toque de aço do braço, para o som das batidas altas do coração, para o que ele murmurava: ― Aqui é o seu lar, Angèle, Angèle.

Ele parecia uma âncora para o frágil e inseguro sopro de vida de Angela.

Era em momentos como esse que ele lhe contava coisas incríveis sobre seus poucos conhecidos em comum. Não havia muito a dizer sobre Paulette.

― Acho ― disse Roger ― que no temperamento ela é uma aventureira romântica. Algo nela está sempre buscando uma mudança, mas ela nunca estará satisfeita. Ela é uma boa jogadora, recebe as coisas na mesma medida que as dá, não pede por nada duradouro nem promete nada duradouro.

Angela achou a afirmação bastante triste. Mas Roger mudou de assunto dizendo que havia homens e mulheres desse jeito.

Ela se perguntou se ele não era um pouco insensível.

Mais de uma vez eles falaram de Marta Burden; Angela confessou-se tremendamente intrigada com ela, com aquela tensa, taciturna personalidade. Ela aprendeu que Marta, feita daquilo que morre por causas, estava sempre dividida entre a teoria e a prática.

― Ela é cheia das mais pretensas e progressistas ideias― disse Roger. ― Ah, eu conheço a velha Marta a minha vida inteira, crescemos juntos, foi por meio dela que passei a conhecer pessoas desta parte da cidade. Ela sempre foi para mim como uma irmã. Mais de uma vez precisei salvá-la de situações que ela mesma criou. Eu a fiz se casar com Starr.

― A fez se casar com Starr? Ela não o queria?

― Sim, ela o queria, mas não acredita no casamento. Ela é muito corajosa em suas convicções. Marta viveu com ele por dois anos enquanto eu estava na Europa. Quando retornei e descobri o que estava acontecendo, disse a Starr que acabaria com ele caso não fizesse a coisa certa.

― Mas por que ser violento? Starr não queria?

― Sim, exceto que ― Roger de repente se lembrou de seus próprios desejos ― nem todo homem é capaz de apreciar uma mulher que quebra as convenções em seu lugar. Alguns homens consideram isso característica de uma mulher fácil, mas outros veem da maneira certa e passam a amar mais profunda e inteiramente.

Com leveza e suavidade, ele tocou o cabelo macio que

escondia a bochecha dela. ― Sou um desses outros, Angèle.

Ela desejou dizer: “Mas por que não podemos nos casar? Por que não me dar a segurança que Marta tem?”. No entanto, mais uma vez o orgulho a impediu. Ao invés disso, Angela reforçou que Marta nem sempre parecia feliz.

― Não, isso é porque ela tem essa ideia boba de que, agora que estão comprometidos, falta a espontaneidade. Ela quer dar sem ser obrigada a dar; receber porque quer e não porque é o que deve fazer. Ah, ela é dura como aço e bastante engajada em sua própria causa, mas certamente ela testa Starr com seu temperamento.

Angela pensou que provavelmente havia duas possibilidades naquela história. Um tanto sem ar, perguntou a Roger se ele conhecia Anthony Cross.

― Cross, Cross! Um sujeito pálido, um tanto magro? Acho que o vi uma ou duas vezes na casa de Paulette. Não, não o conheço de verdade. Um homem taciturno, pensativo, eu diria. Assustadoramente egoísta.

Por alguma razão, um pouco de ressentimento surgiu nela. Anthony poderia ser calado, mas sua vida fora vivida em linhas sombrias e problemáticas que o obrigavam a se calar; ele nunca tinha conhecido a estrada larga e dourada da existência de Roger. E, de qualquer maneira, Angela não acreditava, se Marta Burden tivesse sido amiga de Anthony por toda a vida dele, quase sua irmã, que ele teria contado à namorada ou à esposa qualquer uma dessas passagens difíceis de sua vida. Bem, ela teria que ensinar muitas coisas a Roger.

Em voz alta, Angela falou de Carlotta Parks.

― Ela é um tipo interessante. Me conte sobre ela.

Mas Roger foi breve ao dizer que não havia muito a comentar.

― Uma mulher de coração bom, bastante animada, que deixa seus sentimentos expostos para o mundo todo. É isso.

*

De acordo com Paulette, havia mais do que isso a ser dito sobre a Srta. Parks.

― Eu não a conheço, não como sendo parte daquele grupo. Mas eu sempre ouvi dizer que ela e Roger, quando jovens, eram namorados, só que eles não conseguiram continuar juntos. A família de Carlotta é tão antiga quanto a dele. Família de políticos; o pai dela está no Senado. Não acho que eles tenham muito dinheiro agora. Mas o principal é que ela agrada o velho Fielding. Nada lhe daria mais prazer do que vê-la como a Sra. Carlotta Roger. Posso estar enganada, mas acho que nada daria mais prazer à Carlotta também.

― Ele não se importa com ela? ― Estranho como o coração de Angela se apertou ao ouvir a resposta.

― Sim, mas ela gosta muito dele e demonstra isso. Então ele pensa que não a quer. Roger nunca vai querer nenhuma mulher que seja fácil. Você não odeia esse tipo de homem? Eles são os mais fáceis; tudo o que você precisa fazer, caso eles estejam interessados, é mantê-los afastados. E então eles correm atrás. Mas eu não quero um homem assim; ele me atrapalharia. Que imprudência, esperar que uma mulher reprima ou evoque suas emoções exatamente como ele as deseja! Uma mulher não tem tanto direito de sentir quanto um homem, e de sentir primeiro? Não se preocupe, alguma mulher ainda vai pegar Roger. Ele não acha isso possível porque tem riqueza e posição. Então ele ficará feliz em correr para os braços de Carlotta. Não me importo muito com ela, ela me parece muito barulhenta ― objetou a recatada e conservadora Srta. Lister ― mas acho que ela gosta de Roger por quem ele é e não pelo que ele pode dar a ela!

*

Sem dúvida, esse pouco de conhecimento levou a um novo aspecto; a aventura começou a adquirir um tom interesse. Tudo parecia estar se encaixando. O interesse e anseio de Roger certamente não diminuíram. O conselho de Marta Burden, confirmado pela informação de Paulette, certamente traria resultados. Angela só precisava “continuar a mantê-lo afastado”.

Mas havia um inimigo com quem ela nunca pensara em contar, nunca contara com a deslealdade das forças da natureza; nunca tinha sonhado com o enfraquecimento inexplicável daquelas forças internas. Suas armas eram as fornecidas pelas convenções, mas sua luta era contra as condições; impulsos e anseios que antecederam tanto aquelas armas quanto as convenções que as forneciam. Insensivelmente, Angela começou a ver em Roger algo mais do que uma saída de ouro de suas dificuldades materiais; ele estava se tornando mais do que um meio pelo qual ela deveria ser admitida entre os eleitos do mundo, para quem todas as coisas são feitas. Diante de seus olhos, ele estava mudando para o indivíduo que era mais gentil, mais atencioso com ela, aquele cuja presença trazia calor e segurança. Além disso, sua atenção constante, adulação e carícias estavam produzindo efeito. Ela era naturalmente fria; ao contrário de Paulette, ela era uma mulher que experimentaria a grande paixão em sua vida apenas uma, talvez duas vezes, e sempre teria que ser estimulada; em última análise, sua pureza não era uma questão de moral, nem de religião, nem de orgulho racial; era uma questão de meticulosidade. Aos poucos, Roger forçou seu caminho cada vez mais perto dos assuntos da vida dela, e sua proximidade não ofendeu aquela meticulosidade. Gradualmente, suas exigências pareceram-lhe representar um impulso muito natural e belo; seus argumentos e exemplos começaram a dar frutos; as convenções, em vez de se mostrarem em seus olhos como a sabedoria codificada baseada nas experiências de incontáveis gerações de homens e mulheres, pareciam-lhe pudicas e desnecessárias.

Finalmente sua atitude se reduziu a isto: Angela não teria o relacionamento no qual Roger tanto insistia, não porque, de acordo com o treinamento que ela havia recebido, era ilegal, mas porque visto à luz da grande batalha que ela estava travando por prazer, proteção e poder, era inadequado.

O verão e o início do outono haviam passado. Um outono frio e chuvoso estava se aproximando; o tempo desagradável tornava quase impossível dirigir. Sempre havia os teatros e os cabarés, mas Roger se dizia feliz em nenhum outro lugar, exceto ao lado da lareira. E ela adorava tê-lo ali, alto, forte e belo, às vezes radiante de esperança; outras, amuado com a certeza da derrota. Ele apareceu um dia aparentemente para tomar chá com ela; tinha um compromisso importante para a noite, mas não podia deixar o dia passar sem vê-la. Angela estava cansada e um pouco desanimada. Gínia havia vendido a casa e lhe enviado mil e duzentos dólares, mas os três mil originais estavam quase acabados. Angela não deveria tocar nesse novo presente do céu; seu objetivo não estava mais perto; a indesejável possibilidade de ensinar, ao contrário, estava constantemente diante dela. Além disso, ela estava finalmente percebendo o perigo dessa proximidade constante, estava horrorizada com seus pensamentos e desejos. Um grande medo se apoderou dela, não só de Roger, mas de si mesma.

Sempre vigilante, ele rapidamente adivinhou seu humor distraído, resolvendo experimentar por si mesmo as possibilidades. Em um silêncio tenso, eles beberam o chá e ficaram sentados olhando para as chamas douradas que crepitavam.

A noite taciturna se aproximou. Angela logo o lembrou de que ele deveria ir, mas Roger não partiu.

Às oito horas ela o lembrou novamente; Roger pegou o relógio e olhou para ele com indiferença.

― É tarde demais para que eu vá agora, além disso, não quero ir. Angèle, seja gentil e não me mande embora.

― Mas você não jantou.

― Nem você. Não é justo com você. Devemos ir jantar em algum lugar?

Mas Angela estava preguiçosa; não queria se afastar do calor e se aventurar na noite fria.

― Não, não quero ir. Mas você precisa ir, Roger. Posso comer algo aqui mesmo, mas não há nada para você. Odeio ser uma péssima anfitriã.

― E se eu for a uma dessas delicatessens e trouxer algo? Está cansada demais para um piquenique?

Meia hora depois, ele retornou, ensopado.

― Está chovendo canivetes. Nunca vi algo assim! ― Ele se balançou, espalhando gotas de chuva por todo o apartamento.

― Roger! Tire seu casaco!

Ele se sentou diante do fogo, apenas de camisa, o cabelo encolhido e molhado, a cabeça apoiada nas mãos. Parecia-se tanto com um garotinho que o coração dela estremeceu. Ele viu a expressão no rosto de Angela e se aproximou dela.

― Angèle, você sabe que gosta um pouco de mim.

― Eu gosto muito de você.

Roger colocou o braço ao redor dela e a beijou; os ossos dela derreteram como manteiga. Ela se libertou, arrumando uma desculpa para ir à cozinha. Mas ele se prostou na soleira da porta, os olhos capturando cada movimento dela. Eles comeram uma boa refeição, quase em silêncio; terrivelmente conscientes da presença um do outro; o ar carregado de paixão. Lá fora, a chuva e o vento martelavam e ululavam.

― É uma noite terrível ― Angela disse, mas Roger não respondeu. Ela continuou a falar: ― Roger, está ficando tarde. Você deve ir para casa.

Bastante relutante, os olhos ainda nos dela, ele se levantou, pegou o casaco e, com o chapéu em mãos, deu-lhe um beijo de boa noite. O braço em volta dela, segurando-a firme. Angela o sentiu tremer; ela mesma estava tremendo. Um segundo mais tarde, a porta havia fechado atrás dele.

Sozinha, ela se sentou perto do fogo, pensando: Isso é horrível. Não acredito que nada vá acontecer. Acho que vou mandar um bilhete a ele amanhã, dizendo que não quero vê-lo mais.

Alguém bateu na porta. Surpresa que alguém pudesse aparecer tão tarde, mas sem medo, Angela a abriu. Era Roger. Ele avançou para dentro, lutando contra seu casaco molhado, e quase simultaneamente tomando-a nos braços.

― É uma noite muito terrível, Angèle; você não pode me mandar embora. Por que eu deveria ir quando há a lareira e você bem aqui, tão quente, aconchegante e doce?

A força deixou Angela. Ela não conseguia resistir, não conseguia falar. Ele a tomou nos braços, ninando-a como a um bebê, o rosto um pouco abaixo do dele.

― Você sabe que nós somos feitos um para o outro, nós pertencemos um ao outro!

Uma terrível lassidão a envolveu, e ela disse, sem fôlego:

― Roger, Roger, me solte! Ah, Roger, por que precisa ser assim? Não pode ser de outra forma?

E, distante, ela ouviu a voz dele falhar, implorando, prometendo:

― Tudo vai ficar bem, querida. Querida, eu prometo. Apenas confie em mim, confie!

*

A vida passou em uma grande maré crescente. Angela não sabia se estava totalmente feliz ou totalmente infeliz. Tudo o que podia fazer era sentir; sentir que era totalmente de Roger. Todo o seu ser se voltou para ele como uma flor para o sol. Sem ele, a vida nada significava; com ele, era tudo. Por enquanto, ela não era nada além de emoção; ele próprio ficou pasmo com a profundidade dos sentimentos que despertou nela. Agora, pela primeira vez, Angela se sentia possessiva; ela se viu profundamente interessada no bem-estar de Roger porque, ela pensou, ele era dela e ela não suportava ter uma posse cujas qualidades eram desconhecidas. Angela não tinha curiosidade por seu dinheiro nem por seus negócios, mas tinha sede de saber como era gasto seu tempo longe dela, quem ele via, quais outros lugares frequentava. Não que invejasse o momento que Roger passava longe dela, mas tinha uma necessidade de saber o que se passava naquele momento.

No entanto, se Angela se sentia possessiva, seu sentimento também reconhecia a absorção completa dele, tão completamente, tão exaustivamente que a vida de Roger parecia envolver a dela. Por um momento, seus desejos, seu prazer foram o fim e o objetivo de sua existência; pensou, com uma ligeira tendência para zombar de si mesma, que essa era a explicação do ser, do seu ser; que os homens tinham outros objetivos, outros usos, mas que a única desculpa para ser mulher era ser apenas isso, uma mulher. Esquecidos estavam seus ideais sobre sua arte; sua ambição de ter um salão; seu desejo de ajudar outras pessoas; até mesmo sua intenção de se casar para garantir seu futuro. Apenas algo fora de si, algo vigilante, orgulhoso, distante da paixão e do êxtase que ardia dentro dela, a mantinha livre e independente. Ela não aceitava dinheiro, não se mudaria para o apartamento da 72nd Street; ela ainda recusava presentes tão caros que eram praticamente subornos. Não deu explicações a Roger, mas ele sabia e ela também que sua rendição foi feita pela pródiga plenitude e generosidade de seu coração; não havia cálculo por trás disso; se fosse amor livre, a liberdade era a qualidade a ser enfatizada, e não a emoção.

Às vezes, na intensidade incipiente e silenciosa de sentimento que ela considerava felicidade, Angela parava para fazer um balanço daquela outra vida, daquelas outras vidas que outrora conhecera; aquela vida que fora dela quando viera pela primeira vez a Nova York, antes de ir para a Cooper Union, naqueles dias em que patrulhava a 14th Street e passeava pela Union Square. E aquela outra vida que ela conheceu na Opal Street, eras atrás, quase em outra existência. Ela passou facilmente por aqueles primeiros meses em Nova York, porque mesmo então estava se aproximando de um limiar, se preparando para entrar em uma nova e nunca sonhada fase de ser. Mas, às vezes, à noite, Angela ficava por horas pensando sobre sua infância inquieta e ansiosa, seus dias infrutíferos na Academia, o cortejo infrutífero de Matthew Henson. Os Hensons, os Hallowells, Hetty Daniels, Gínia! Quão longe agora ela estava deles! Diante dela, ergueu-se o rosto ansioso e faminto de Hetty Daniels; agora ela mesma conhecia as fases da vida que Hetty ansiava, mas tanto desprezava. Angela podia imaginar a inveja por trás do tom com que Hetty, se soubesse, teria expressado em desaprovação pelo modo de vida de sua antiga pupila.

― A garota de Mattie Murray, Angela, foi direto para o mal; ela está vivendo uma vida de pecado com um homem em Nova York. ― E então a acusação final e explosiva: ― Além disso, ele é branco. Dá para acreditar?

Capítulo 3

O pai de Roger, ao que parecia, ficara muito satisfeito com a administração do filho nas serrarias na Geórgia; como resultado, ele exigia cada vez mais seu tempo. E o jovem meio por orgulho, meio por aquela firme determinação de nunca ofender seu pai, estava sempre pronto para cumprir suas ordens. Angela gostava e apreciava a atitude de seu amante, mas seu caloroso interesse dividia espaço com o ressentimento e ela, em segredo, desprezava essa tendência à dependência. Roger era jovem, soberbamente treinado; tinha o dom de fazer amizades cuja força repousava em sua própria personalidade, mas desconfiava demais de seus próprios poderes ― ou então era preguiçoso. Angela nunca conseguia determinar qual dos dois. Durante essa fase de convivência, ela nunca teve certeza de que o amava, mas tinha certeza de que se naquele momento ele estivesse disposto a deixar de lado sua deferência obsequiosa ao dinheiro de seu pai e tivesse lhe dito: “Angèle, se você me ajudar, vamos construir uma vida, uma fortuna própria”, ela o teria adorado.

Sua natureza forte e independente, golpeada, enojada e fortalecida pelo atrito constante do preconceito de raça era incapaz de visualizar ou perdoar o estado de espírito que impedia Roger de entrar na batalha com a vida quando as probabilidades já eram tão esmagadoramente a seu favor. Sozinha, possuidora de uma deficiência que, se adivinhada, seria tão incapacitante quanto a falta de uma perna ou um corpo atrofiado, ela ousara entrar na lista. E estava a caminho da vitória. Isso custaria, Angela estava começando a perceber, mais do que previra. Mas, tendo entrado, ela não desistiria ― a menos que mudasse de objetivo. O dela era uma curiosa mistura de materialismo e hedonismo, e, neste momento, o último era o mais importante. Mas Angela supôs que, em algum futuro vago, ela e Roger se casariam. O ardor dele a deixou complacente.

Mas, estando tão feliz, Angela não tinha consciência de nenhum desses conflitos internos e críticas. Agora estava adotando um curioso distanciamento em relação à vida temperado por um leve cinismo ― um distanciamento que lhe permitiu dizer a si mesma: “As regras são para pessoas comuns, mas não para mim”. Ela se lembrou de um verso de uma poeta, uma mulher negra, sobre a qual muitas vezes havia pensado.

A grande necessidade, a luta, prevalece.

Aquele que mendiga é um tolo.

Angela nunca mendigaria. Não mais pediria conselhos. Havia tido sorte até agora em buscar conselhos apenas de Paulette e Marta Burden, duas pessoas com distintos métodos de pensamento e ações. Eles nunca a seguraram. Agora, Angela sequer as consultaria. Ela viveria a vida como uma individualista; se adequaria sem levar em conta as convenções e modos de vida pré-estabelecidos. Sua meticulosidade nativa, ela tinha certeza, a impediria de se tornar uma ofensa aos próprios olhos.

Apesar de sua crescente autoconfiança e autossuficiência, as frequentes ausências de Roger a deixavam solitária. Então, sem nenhum planejamento consciente de sua parte, recomeçou a trabalhar em sua arte com crescente vigor e interesse. Estava ganhando segurança; tinha maior domínio de sua técnica; acima de tudo, ganhou o poder de compor, uma certa simpatia, uma amplitude de compreensão, a manifestação daquela capacidade de interpretar que há muito ela suspeitava estava dentro dela, prestava-se à sua mão.

O Sr. Paget, o professor, falou de suas pinturas com o maior respeito; a atenção dos visitantes foi direcionada a elas. Marta Burden e mesmo Paulette, nos intervalos de seus preparativos extáticos, aceitaram-na na maçonaria de suas garantidas posições. Anthony Cross a lembrou das possibilidades para alunos estadunidenses em Fontainebleau. Mas Angela apenas sorriu sabiamente; não precisaria de tal estudo, mas esperava de todo o coração que a Srta. Powell recebesse um prêmio que a capacitasse a estudar lá.

Se ela não conseguir, Angela prometeu a si mesma, farei Roger bancar as despesas dela. Eu estaria disposta a tirar o dinheiro dele para isso.

Surpresa, ela percebeu que seu outro interesse, além da pintura, era visitar Gínia. Se alguém tivesse perguntado se Angela estava satisfeita com a vida, sua resposta teria sido uma afirmativa instantânea.

Mas ela não queria uma vida assim para a irmã. Para Virgínia, não deveria haver riscos, segredos ou irregularidades. Os esforços para descobrir como a irmã passava as horas livres a surpreenderam; a inutilidade a enchia de uma irritação constante que Virgínia não mostrava disposição para aplacar. A moça mais nova havia passado no exame e fora indicada; ela era uma professora entusiasmada e bem-sucedida; isso Angela sabia, mas era só. Concluiu que Virgínia passava muito tempo com um grupo feliz, inteligente e bastante independente de jovens negros; falava-se ocasionalmente de teatro, dança, pequenos clubes, caminhadas, aulas na Columbia ou no New York City College.

Angela até conheceu um grupo alegre, composto por Virgínia e seus amigos, que estavam a caminho do Brooklyn, ela foi informada posteriormente. As moças eram brilhantes pássaros do paraíso; os homens, seus olhos de artista notaram, eram faunos alegres e cheios de vida. No metrô, ao lado dos grupos risonhos e felizes, rostos brancos mostravam-se pálidos e sem sangue; outros rostos, negros, pareciam enfadonhos e sem esperança. Angela começou a reconhecer tardiamente que sua irmã havia entrado naquela turma curiosa, limitada, mas inconstante das “melhores” pessoas negras; a velha frase da Filadélfia voltou à sua mente, “pessoas que você conhece”. Ela ficou surpresa com alguns dos nomes que Virgínia deixou escapar de seus lábios em suas descrições infrequentes e lacônicas de certas noites que passara na casa de Van Meier, um grande literato negro-estadunidense, um apóstolo destemido e corajoso dos direitos do homem; seu nome era conhecido, Marta Burden lhe assegurara, em todos os lugares.

Angela conseguiu tal informação da melhor maneira que pôde, pois Virgínia nada lhe contou; sequer parecia, nas poucas ocasiões em que cruzou com a irmã, conhecê-la. Isso, Angela fez questão de dizer, era bobagem.

― Você deve ao menos falar ― disse a Gínia com petulância, se lembrando da desconfortável ocasião em que ignorara a própria irmã, que não conhecia Nova York ― Muitas pessoas brancas e negras estão se conhecendo e deixam isso público. Também podemos fazer assim, não? Que mal pode haver?

Mas, na opinião de Virgínia, era melhor evitar.

Normalmente, a irmã mais nova matinha um discreto silêncio; mantinha para si qualquer opinião que tivesse em relação ao distanciamento. Era impossível vislumbrar, de seus jeitos perfeitos e um pouco distraídos, qualquer sinal de sua vida privada e suas intenções. Por vezes ela mostrava uma intensa preocupação da qual acordava para fazer um comentário que revelava à Angela as reações normais de uma jovem sobre a vida, agradável, monótona e tingida de uma felicidade fresca e serena, totalmente diferente do arrebatamento quente, inebriante e túrgido que no momento era a vida de Angela.