Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 6 de 25

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Não tão branca

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Capítulo

O quarto de Angela ficava na fachada do terceiro andar. Ela estava feliz com a solidão e a segurança daquela noite. Mesmo que a mãe não tivesse sugerido que fosse para a cama cedo, Angela teria procurado seu refúgio imediatamente após o jantar. O estudo por si só não era nenhum atrativo; ela não se importava com nenhuma das matérias, exceto desenho e francês. E quando desenhava, não considerava que estava estudando ― era uma forma natural de se expressar. Quanto ao francês, precisava estudá-lo com muito cuidado, pois as línguas não lhe vinham com grande facilidade, mas havia um elemento de fineza na língua bela e lógica que a fazia concordar com uma ambição subconsciente de torná-la sua.

História, inglês, geografia e física, por sua vez, não eram disciplinas enfadonhas, já que Angela tinha uma mente bastante esperta; mas também não eram atraentes, e faltava a ela a obstinada resignação de Virgínia a deveres indesejáveis. Mesmo quando Gínia era uma garotinha, era conhecida por dizer virilmente em face de uma tarefa incompatível: “Bem, preciso dar um jeito”. Angela não era assim.

Mas esta noite ela concentrara todas as forças na tarefa. Havia se machucado gravemente; recebera uma ferida cuja profundidade e violência não revelaria nem aos pais porque ― e isso só aumentava a dor ― por mais jovem que fosse, sabia que não havia nada que pudessem fazer a respeito. Não havia nada a fazer a não ser superar. Só que Angela não era desenvolvida o suficiente para expressar esse estoicismo para si mesma. Ela era como um gatinho de estimação que outrora fizera parte da casa deles; sua perna fora gravemente rasgada por um cachorro que passava e a pobre criaturinha se arrastou para dentro de casa e se deitou em sua almofada pacientemente, esperando impassível que essa agonia desconhecida diminuísse. Então, Angela esperou que a dor em sua mente cessasse.

Mas entre as datas da história na página impressa e as linhas

majestosas de Lycidas3 , ela via e ouvia de novo e de novo o rosto e a voz acusadora de Mary Hastings: ― Negra! Angela, você nunca me disse que era negra!

E, então, sua própria voz em uma selvageria trágica, mas orgulhosa:

― Dizer que sou negra?! Claro que nunca te disse que sou negra. Por que deveria?

*

Angela tinha muito orgulho da amizade de Mary Hastings. Nos espaços escuros e tortuosos de sua vida difícil, tinha sido um refúgio adorável e escondido. Fora uma experiência tão raramente doce que ela mal havia falado sobre isso, mesmo com Virgínia. As outras meninas em suas aulas não significavam nada. Pelo menos, ela havia se educado para que não significassem nada. Algumas conhecia desde a infância; elas moravam na vizinhança e frequentaram as mesmas escolas. Eles sabiam que Angela era negra, pois a tinham visto com Virgínia e, às vezes, seu negro e alto pai vinha buscá-la em dias chuvosos. Houve contatos e intimidades bastante agradáveis; no silêncio da Jefferson Street, elas tocaram “The Farmer in the Dell” e “Here come three jolly, jolly sailor-boys”; os cantos sombrios do antigo mercado proporcionaram uma infinita satisfação em brincar de esconde-esconde. Angela e as outras crianças foram comprar material escolar de braços dados, costurando caminho na agitação e confusão que era a Columbia Avenue.

Conforme ela crescia, muitas dessas intimidades diminuíram; em alguns casos, cessaram completamente. Mas ela nunca teve consciência de ser deixada de todo sozinha; sempre havia alguém com quem almoçar ou com quem ir embora depois da escola.

Foi só quando chegou ao ensino médio que começou a perceber quão solitária a vida estava se tornando. Não havia outras garotas negras na sala, mas houve apenas duas ou três durante sua vida escolar, e se houvesse mais alguma, Angela não necessariamente teria se juntado a elas ― dificilmente passou por sua mente que isso poderia ter sido algo bom a se fazer em legítima autodefesa.

Mas esse não foi um problema com o qual se deparou. O que aconteceu foi que as mesmas garotas com quem havia crescido estavam se afastando. Quando ia aos encontros, nenhuma se sentava ao seu lado, exceto se não houvesse outro assento vazio. Pequenos grupos dos quais se aproximava durante o almoço inexplicavelmente se dissolviam para então tornar a se aglomerar em outro lugar. De vez em quando, uma garota nesse novo grupo a olhava por cima do ombro com um encarar cheio de divertimento maldoso ou irritação.

Angela era orgulhosa; não precisava de tal deixa mais de uma vez, mas estava perplexa e magoada. Ela levava histórias para a escola para ler no recreio ou vagava pelo laboratório de desenho e retocava seus rascunhos. A senhorita Barrington passou a considerá-la uma aluna excepcionalmente diligente.

E então, no meio do período letivo, Mary Hastings apareceu, uma garota esguia e bem-educada de quinze anos.

Ela era bastante estúpida no estudo; na verdade, não brilhava em nada. Sabia apenas francês e boas maneiras.

Inegavelmente, tinha postura e seu sotaque era notável. Os outros alunos, rindo, emitiram alguns sons rudes, mas Mary disse em francês:

― Não, emprestei minha faca ao cunhado do jardineiro, mas aqui está minha bengala ― como se a frase idiota fizesse parte de uma conversa imaginária que ela conduzia e apreciava.

― Ela realmente sabe do que está falando ― comentou a pequena Esther Bayliss, acrescentando que a família de Mary havia perdido algum dinheiro e precisou mandá-la para uma escola pública.

Mas demorou algum tempo até essa informação, disparada por Esther com uma autenticidade misteriosa e absoluta, tornar-se amplamente conhecida. Enquanto isso, Mary foi deixada por conta própria quando a classe, com completa unanimidade, mas tácita, passou a provocá-la. Mary, sem saber disso, deu uma olhada um pouco arrogante na sala durante o recreio e viu apenas uma garota. Era Angela, que se parecia com ela em trajes, modos e comportamento. Mary levou seu almoço para a mesa dela e, animada, disse: ― Venha, vamos comer juntas enquanto você me diz quem é todo mundo.

Angela aceitou o convite tão rapidamente quanto a outra havia oferecido.

― Aquela garotinha de vestido roxo é Esther Bayliss e a mais alta de óculos de armação grossa…

Mary, sentada de costas para os grupos, não se preocupou em olhar em volta.

― Não me refiro às garotas. Acho que vou conhecê-las em breve, quando tiver tempo para isso. Quero dizer os professores. O que você diz deles?

Mary gostava de Angela e mostrava isso de maneira clara e direta. Sua casa ficava em algum lugar remoto no oeste da Filadélfia, que ela podia alcançar com relativa rapidez pegando um carro na Spring Garden Street. Em vez disso, caminhava até a metade do caminho para casa com a nova amiga, subindo a Seventeenth Street até a Avenida Girard onde, após uma última troca de assuntos escolares e despedidas, Mary pegava o carro, deixando Angela com pensamentos felizes e satisfeitos. Logo Angela passou a conhecer mais do que felicidade e satisfação; sentiu extrema gratidão por ser a companheira escolhida de uma garota popular e importante, pois Mary, embora não fosse rápida nos estudos, era uma força em tudo o mais. Vestia-se bem, tinha uma boa mesada, podia tocar as últimas marchas no ginásio, recebia uma atenção medíocre, mas lisonjeira dos professores, e conseguia fazer as coisas acontecerem.

O jornal da escola estava morrendo, e Mary sabia como ressuscitá-lo. Ela trouxe anúncios dos negócios dos amigos do pai e fez as irmãs obterem assinaturas. Sem ser inoportuna ou irritante, sem ser condescendente ou bajuladora, ela logo se tornou a líder da sala. E, mesmo assim, continuou a andar com Angela. A popularidade foi aceita por ter-lhe sido confiada, mas Mary era gentil com a garota negra porque lhe era conveniente.

Angela estava feliz. Tinha uma amiga e uma amizade com vantagens inesperadas. Não era mais deixada fora dos grupos porque não podia haver planos de aula sem Mary, e Mary não ficava sem Angela. Então, para poupar tempo e conversa e, é claro, evitar aborrecimento com a líder, Angela sempre era incluída. Não que ela ligasse muito, mas gostava de Mary; como sua confidente, oferecia sua amizade sem segundas intenções. E era gratificante estar no meio das coisas.

*

Em abril, o jornal da escola anunciou um novo departamento. A equipe editorial deveria ser composta por dois representantes de cada turma: um deveria ser o representante principal, eleito pelos votos da sala; o outro seria o assistente, escolhido pelo representante eleito. Este participaria das reuniões executivas e teria voz na organização do jornal, dizia o pomposo anúncio. O assistente solicitaria e coletaria assinaturas e taxas, receberia e reportaria reclamações: ― Em suma, fará todo o trabalho sujo ― disse Esther Bayliss.

A turma de Angela realizou uma breve reunião depois da escola e elegeu Mary Hastings como representante sem um voto dissidente.

― Não ― disse Angela segurando um último pedaço de papel bastante encardido. ― Temos um voto para Esther Bayliss.

Duas ou três das garotas riram. Todos sabiam que ela devia ter votado em si mesma; na verdade, fora Esther quem insistira em fazer cédulas em vez de uma votação falada. Mary já estava de pé. Ela tinha certeza do resultado da eleição, teria ficado realmente surpresa se tivesse acontecido de outra forma.

― Bem, meninas ― ela começou com sua voz um tanto aguda e refinada ―, quero agradecer a confiança que vocês deram, isto é, depositaram em mim, e tenho certeza de que todas sabem que farei o meu melhor para manter o nosso jornal funcionando. E já que estou falando sobre isso, anuncio que estou escolhendo Angela Murray como minha assistente.

Silêncio. As meninas que refletiram sobre a eleição sabiam que Mary seria eleita, e que isso significava que Angela também. E as que não refletiram não eram opostas à indicação. Então não havia o que fazer. Mas Esther Bayliss deu um passo à frente.

― Não sei quanto a vocês, mas acho que devemos pensar duas vezes antes de confiarmos o dinheiro da assinatura a uma negra.

Mary disse, completamente, chocada:

― Negra? O quê? De quem você está falando?

― Angela. Angela Murray é negra. Ao menos costumava ser quando frequentávamos a Eighteenth and Oxford.

Mary repetiu:

― Negra? Angela, você nunca me disse que era negra!

Angela estava surpresa.

― Dizer que sou negra?! Claro que nunca te disse que sou negra. Por que deveria?

― Viu? ― disse Esther. ― Ela nunca disse a Mary que é negra. Pensem no que ela faria com o nosso dinheiro!

*

Angela recolheu seus livros e saiu porta afora. Correu pela escadaria e deixou a escola pela entrada da Brandywine Street, seguindo para a 60th Street, onde não encontraria ninguém que conhecesse, especialmente àquela hora tardia. Em casa haveria trabalho a fazer, matérias para estudar e as longas, longas horas da noite deveriam passar antes que tivesse que enfrentar novamente a dor e a humilhação da sala de aula; antes que tivesse que endurecer seu coração e nervos para largar Mary Hastings, antes que Mary Hastings pudesse largá-la. Ninguém, ninguém, Mary muito menos, deveria adivinhar o quão Angela foi ferida. Mary e sua crescente perplexidade! Mary e sua exclamação: "Negra!"

Era um negócio curioso, a cor. Aparentemente, era a única característica que poderia colocar tudo a perder. Por causa dela, sua mãe havia se esquecido de cumprimentar o próprio marido na rua.

Mary Hastings poderia deixar o assunto ficar entre elas.

De manhã, Angela estava na escola cedo; todas as meninas deveriam vê-la ali e a atitude de cada uma deveria definir a sua. Ela se lembraria dos cumprimentos e guardaria para orientação futura. Algumas das meninas foram especialmente cuidadosas ao falar com ela, uma ou duas sorriram de maneira significativa — assim pareceu — e se afastaram.

Algumas não falaram nada. Quando Mary Hastings entrou, Angela levantou-se e caminhou deliberadamente sem olhá-la, passando por ela e atravessando o corredor até o laboratório da Srta. Barrington. Ao retornar, passou pela mesa de Mary e a garota ergueu olhos preocupados, mas não hostis, para encontrar os seus; Angela devolveu o olhar, mas sem reconhecimento. Angela pensou consigo mesma: Negra! Se tivessem me dito que Mary Hastings era uma bruxa, eu teria respondido: “E daí? Ela é minha amiga”.

*

Antes que chegasse o mês de junho, Mary Hastings pediu para vê-la. Angela, que não estivera evitando-a nem procurando-a, assentiu friamente. Elas saíram juntas da aula de francês.

Quando chegaram ao corredor, Mary disse:

― Angela, vamos ser amigas de novo. Não faz diferença nenhuma. Não me importo mais.

― Mas é isso o que você não entende. Em primeiro lugar, por que deveria fazer diferença? Sou a mesma que sempre fui antes que soubesse que sou negra, e continuo a mesma. Que diferença deveria fazer?

― Não sei. Fiquei surpresa. Foi tão inesperado.

― O que foi inesperado?

― Não sei. Não consigo explicar. Mas vamos ser amigas.

― Bem ― disse Angela, devagar. ― Estou disposta, mas acho que não será do jeito que era antes.

Não foi. Algo, uma espontaneidade, uma confiança, faltava. Mary, que nunca pensara falar sobre raça, de repente estava consciente de que era um assunto do qual não deveria falar. Estava menos sincera; por vezes, contida. Angela era muito jovem para definir, mas pensava: Ela me desapontou uma vez ― eu era sua amiga ―, mas ela me decepcionou e julgou por algo que eu não tenho culpa. É provável que ela faça de novo. É algo que está nela.

Defitivamente, Angela disse a si mesma, Mary se afastou não porque eu sou negra, mas porque ela não sabia disso, pois se nunca descobrisse, sempre teria sido minha amiga. Teríamos continuado tendo nossos bons momentos juntas.

E começou a se perguntar o que era mais importante: insistir nas questões da raça ou aceitar as coisas boas da vida que poderiam acontecer para ela se não fosse negra ou se a raça não pudesse identificá-la em seu país.

Durante o verão, a família de Mary Hastings, ao que parecia, recuperou sua fortuna perdida. De qualquer forma, ela não voltou para a escola no outono e Angela nunca mais a viu.