Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 3 de 25

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Não tão branca

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Foi com a mãe que Angela aprendeu as possibilidades de alegria e liberdade que pareciam para ela inerentes à brancura. Ninguém ficaria mais surpreso do que a mãe se ela pudesse adivinhar como a filha interpretou suas ações. Certamente a Sra. Murray não atribuía sua vida feliz, atarefada e protegida na pequena Opal Street à cor de sua pele. Atribuía, por outro lado, ao marido negro com quem se casara com alegria e orgulho. É verdade que sua pele branca não a protegera de injúrias e insultos ocasionais. A famosa atriz para qual trabalhara estava ciente de seu sangue misturado e, ostentando temperamento ao invés de refinamento, muitas vezes a apelidou

de white nigger 2.

A mãe de Angela usava sua cor tanto quanto praticava certos trejeitos de sorriso e voz para obter favores que significam muito para ela, mas não tiravam nada de ninguém. Era dona de um humor mais afiado do que o da filha. Era divertido para ela almoçar sozinha num restaurante exclusivo cujos donos entrariam em pânico se tivessem notado a presença de uma mulher negra, mesmo que sua aparência pouco se diferenciasse da deles. Era sem se importar em mencionar sua cor que a Sra. Murray se acomodava em assentos na altura do palco que a Filadélfia negava a patronos negros. Mas quando Junius ou qualquer outro amigo negro a acompanhava, ela era a primeira a anunciar que gostava de se sentar no balcão do teatro ou na galeria, o que era verdade; sua infrequente ocupação nos assentos no nível do palco era causada apenas por uma determinação perniciosa em desprezar uma lei boba e injusta.

Os anos com a atriz haviam deixado uma marca perfeitamente inofensiva, talvez até charmosa. Ao menos era assim que parecia para Junius, que tinha uma fraqueza pelas qualidades conhecidas como essencialmente femininas. A Sra. Murray amava roupas bonitas e de lojas voltadas para servir às mulheres. Gostava até mesmo de estar em encontros de moda. Uma satisfação quase fascinante a preenchia quando tomava chá em meio a mulheres vestidas de acordo com a moda em uma elegante casa de chá. Era agradável estar no salão de um grande hotel ou na Academia de Música, ser parte da alegria palpitante, barulhenta e agitada. Não desejava se reunir àquelas pessoas, mas gostava de contemplá-las. Isso divertia, excitava e mantinha vivo um desejo insaciável pela vida que florescia dentro dela.

Andar pelo Wanamaker’s , uma das primeiras lojas de departamento dos Estados Unidos, no sábado, caminhar da Fifteenth até a Ninth Street no Chestnut, tomar chá no Bellevue Stratford e ficar no salão da St. James provando luvas imaculadas. Prazeres inocentes e infantis perseguidos sem malícia ou inveja, planejados para jogar glamour sobre a lavagem de roupas da segunda ou a passagem de roupas da terça, a limpeza da cozinha, do banheiro e a costura das roupas infantis. Ela era dotada de um método pungente e bem-humorado de se apresentar. Junius, que tinha a sabedoria de não interferir nessas pequenas excursões e a simpatia de aceitá-las, reconhecendo algum valor, preferia as histórias de aventuras vividas disfarçadamente aos sábados às histórias contadas por seus camaradas na hospedaria.

Muito desse prazer, por mais inofensivo e charmoso que fosse, seria impossível com uma pele negra.

Nos primeiros anos de casamento, Mattie, ocupada com a casa e com dois bebês, desistira das aventuras. Mais tarde, quando as crianças estavam crescidas e Junius alcançara o estágio em que podia se presentear com meio-turno de folga aos sábados, os dois inauguraram um plano de ação que, eventualmente, se tornou fixo. Cada um pegava uma criança. Junius partia para um amado, porém há muito suspenso, passeio pela velha Filadélfia, enquanto Mattie embarcava mais uma vez em suas aventuras sociais. É verdade que Mattie, quando acompanhada por Virgínia, não podia passear tão livremente quanto com Angela. Mas seus instintos maternos eram fortes; as filhas, seus sentimentos e sua fé importavam muito mais do que qualquer prazer que ela mesma seria a primeira a chamar de desnecessário e bobo. As próprias meninas, inconscientemente, resolveram o dilema; Virgínia achava que ir às compras era cansativo e estúpido, Angela, por sua vez, voltava exausta e entediada da aventura com o pai. Gradualmente, se tornou regra Angela acompanhar a mãe; e Virgínia, o pai.

*

A vida depende desses acasos. A pequena Angela Murray, apressada nas manhãs de sábado, esfregando os degraus para poder tomar banho às uma da tarde e estar com a matriarca na Chestnut Street às duas. Nunca percebeu que a mãe se sentia à vontade entre todas aquelas pessoas brancas porque era ali que também se sentia assim. Nunca lhe ocorreu que o prazer que a mãe mostrava ao se encontrar com amigos no domingo de manhã quando toda a família Murray saía da igreja obviamente era o mesmo que mostrava na Chestnut Street no sábado, pois ela estava atrás daquilo que seu coração desejava: agitação, alegria e moda. A filha não poderia ter adivinhado que se o status econômico e o gênio racial dos negros os permitisse gerenciar hotéis da moda ou enormes e populares lojas de departamento, a mãe ainda estaria ali. Sozinha, ela tirou conclusões claras sobre certas formulações que seu subconsciente codificou: Primeiro, os grandes prêmios da vida — riqueza, glamour e prazer — são apenas para as pessoas brancas. Em segundo lugar, Junius e Virgínia não tinham esses privilégios por terem a pele negra; aqui seus pensamentos continham pelo menos um elemento de verossimilhança, mas ignoravam o fator determinante de que o pai e a irmã não ligavam para tais prazeres. O efeito de sua falácia era uma vaga pena de seus parentes desafortunados e a certeza que as pessoas negras seriam consideradas sortudas apenas na proporção em que alcançassem os padrões físicos das pessoas brancas.

O passeio de sábado deixara uma impressão duradoura. A Sra. Murray e Angela tiveram uma tarde produtiva e interessante. Haviam passeado por entre as vitrines das pequenas e exclusivas lojas na Walnut Street; tomaram soda na Adams’, na Broad Street, e estavam, enfim, no pórtico do Walton Hotel, decidindo com elegância o que deveriam fazer em seguida. Algumas pessoas passando para lá e para cá lançavam olhares para o par, a mulher confiante e bem-vestida, e a refinada, e não menos confiante, filha. O porteiro as conhecia; era um dos prazeres da Sra. Murray dar a ele uma pequena gorjeta, muito apreciada, pois era desnecessária. Era esta a atmosfera que amava.

Angela colocara as luvas e estava esperando a mãe, que andava sozinha com grande cuidado, quando avistou na alegre e agitada multidão de domingo, Junius e Virgínia. Estavam próximos o bastante para que a mãe, que também os vira, pudesse tocá-los, caso descesse alguns degraus do pórtico e esticasse o braço. Num segundo, desapareceram. Angela viu o rosto da mãe mudar com o que achou ser receio.

― Que bom que papai não nos viu ― disse ela. ― Você teria que falar com ele, não é?

Mas a mãe, com um olhar distraído, não respondeu.

Naquela noite, depois que as meninas foram se deitar, Mattie, apoiado no braço da cadeira do marido, contou a ele:

― Eu estava no meu velho jogo de atuação hoje, Junius, você sabe, passeando e, querido, você e Virgínia passaram pertinho de nós, mas não falamos com vocês. Estou tão envergonhada.

Mas Junius a consolou. Bem antes de se casarem, soube da fraqueza e da essência inofensiva de sua Mattie...

― Meu bem, eu te disse há muito tempo que não há princípio envolvido, seu passeio não significa nada para mim. É uma piada. Não acho que você ficaria envergonhada de falar com seu velho marido em qualquer lugar, se fosse necessário.

― Falaria contigo até se estivessem me confundindo com uma rainha. ― Mattie assegurou carinhosamente. Mas ficou em silêncio, sem estar de todo satisfeita. ― Afinal de contas ― disse ela com seu charme franco e usual ―, não é você, querido, quem me faz sentir culpada; estou envergonhada de pensar que deixei Virgínia passar por mim sem dizer nada. Acho que eu me sentiria muito mal se ela soubesse. Não acredito que eu vá me permitir ser boba assim outra vez.

Mas sobre essa afirmação, Angela — sonhando animada com os sábados para virar sua pequena face tom de oliva para o outro lado com firmeza, buscando evitar rostos negros — estava, infelizmente, inconsciente.