Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 16 de 25

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Não tão branca

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*

A garota judia que vivia no andar de cima, Rachel Salting, bateu à porta.

― Somos jovens e estamos sozinhas ― disse sorrindo ― seria idiotice não nos conhecermos, você não acha?

Ela tinha um sorriso e jeito encantadores. De fato, era bonita, Angela pensou. A pele era muito, muito pálida, quase perolada, o cabelo de um preto profundo, encaracolado, e os olhos eram grandes, em formato de amêndoa. Sua figura era reta e esguia, mas não deixava de ostentar uma leve sugestão de volúpia exótica. Seu interesse, ela informou à nova amiga,

era o palco; Raquel Meller10 era seu ideal.

Angela a recebeu de braços abertos. Uma estranha apatia, até então desconhecida, a invadiu; é verdade que suas pinturas necessitavam de muito tempo e concentração; o tempo com Virgínia, embora nem sempre satisfatório, era pelo menos atrativo; mas pela primeira vez, a vida de Angela estava pautada nas palavras, sentimentos e ações de outra pessoa ― Roger. Sem ele, ela ficava perdida; não apenas não conseguia organizar seus dias, como também não conseguia ir em busca de aventuras, como fizera outrora. Consequentemente, recebia de braços abertos qualquer coisa além do comum que pudesse quebrar a monotonia ameaçadora de sua vida.

Rachel Salting era como uma brisa fresca, uma curiosa mistura de conservadorismo judeu com modernidade. Sua mente era aguçada e clara, bem treinada nas escolas e faculdades de Nova York e com diversos interesses. Ela falava de psiquiatria, problemas de moradia, sionismo e bem-estar infantil com um conhecimento e entusiasmo que espantou Angela, cuja formação fora bastante superficial e que começava a adotar a inteligência de Paulette e a atitude levemente profissional e didática de Marta Burden.

Rachel, exceto quando se debruçava sobre o problema judaico, parecia não ter pontos de vista particulares a apresentar. Suas discussões, com base em suas várias leituras, eram puramente acadêmicas; ela não tinha vontade de fazer proselitismo, não era uma reformadora. Era apenas uma jovem simpática, um tanto alegre, saudável, uma observadora da vida que tinha de enfrentar e que, pelo menos no momento, achava bastante agradável.

Ela estava muito feliz; alegre como Virgínia, com uma felicidade muito diferente do conceito de Angela; uma felicidade sem fôlego, constante, sorridente, palpável, transparente, para todo o mundo ver. Poucas semanas depois do relacionamento das duas ter começado, Rachel com sorrisos e rubores revelou seu grande segredo. Ela ia se casar.

― Com o melhor homem deste planeta, Angèle.

― Aposto que sim.

― Ele é muito bonito, alto…

― Como se eu não soubesse.

― Como você poderia saber?

― Querida, eu já não o vi, pelo menos a silhueta dele, várias vezes no corredor quando eu entrava e ligava aquela luz? Pensei que você não me perdoaria por isso. Parecia que eu fazia de propósito.

― Oh, eu sabia que não era de propósito. Então você o viu?

― Sim, ele é alto e loiro. Faz um bom contraste com as suas características. Viu? Falo sempre como uma artista.

― Sim ― disse Rachel devagar ― ele é loiro.

Angela pensou ter detectado um leve tom de preocupação em sua voz até então triunfante, mas decidiu que isso era improvável.

No entanto, as próximas palavras de Rachel confirmaram essa impressão:

― Ah, se tudo desse certo…

A mente muito materialista de Angela a fez perguntar:

― Qual é o problema? Ele é muito pobre?

Rachel a encarou.

― Pobre? Como se isso importasse. Sim, ele é pobre, mas não ligo para isso.

― Bem, se você não liga, o que há de errado então? Ele é livre, branco e tem vinte e um anos, certo?

― Sim, sim, é que… ah, você não entenderia, você é tão sortuda! É algo com o qual você nunca terá que lidar. É que precisamos conseguir o consentimento de nossos pais antes. Ainda não pedimos. Quando acontecer, receio que haverá um bate-boca.

Algum ritual inerente às conexões raciais, decidiu Angela, e não fez mais perguntas. Na verdade, teve poucas chances, pois Rachel começou a falar do casamento. Era uma história muito antiga. Angela poderia ter fechado os olhos e imaginado sua própria mãe e Junius se entusiasmando sobre seu futuro. Eles seriam pobres, muito pobres no início, mas apenas no início, e não se importariam nem um pouco com a pobreza. Seria divertido juntos. Havia pequenas casas de madeira no Bronx cujos aluguéis eram relativamente baratos. Talvez Angela as conhecesse.

Angela, estremecendo por dentro, disse que as tinha visto, de cor marrom-opaca, um tanto metidas, empoleiradas perigosamente em encostas. Os cômodos eram pequenos, quadrados, feios…

Rachel ajudaria John em todos os sentidos. Eles economizariam.

― Eu não lavaria nem passaria roupas, pois é um trabalho desgastante e eu quero continuar delicada e bonita para ele, assim, quando a condição melhorar, ele não terá que se envergonhar de mim. E o tempo todo, mesmo nos momentos mais difíceis, tentarei minha sorte escrevendo peças ― ela falou com a ambição insaciável de quem tinha o seu dote racial ― Irei a aulas e me sentarei nos teatros onde exibem as mais famosas peças. E um dia, dará certo. ― A imaginação a levou ao futuro. ― Em nossa noite de estreia, Angèle, você estará no camarote usando um casaco de pele de arminho. Não será maravilhoso? Mas nada será mais maravilhoso do que os primeiros anos, quando dependeremos um do outro; eu, do dinheiro que ele ganhar; ele, na maneira como administrarei a casa. Isso será o paraíso.

Confidências como essa deixaram Angela impassível, mas consideravelmente abalada. Devia haver alguma coisa na vida de sacrifício, até mesmo o trabalho enfadonho que Rachel descreveu. Senão, por que tantas garotas sensatas deveriam correr tal risco? Mas era bobagem pensar nisso. Ela nunca teria esse tipo de vida. Era impossível conceber uma vida assim com Roger. No entanto, houve momentos em seu quarto solitário em que ela ponderou longa e profundamente, desenhando. A época seria verão; ela estaria usando um vestido branco, parada na porta de uma casa no subúrbio muito, muito perto de Nova York. Haveria o melhor jantar possível na mesa. Ela adorava cozinhar. E uma figura alta e forte estaria se aproximando a passos rápidos: ― Eu tive um dia de muita sorte, Angèle, e te comprei um presente.

Depois do jantar, ela o levaria escada acima até seu pequeno estúdio e afastaria a cortina para revelar o retrato de uma mulher conhecida da sociedade.

― Ela está muito feliz com o resultado, e vai me trazer muitos outros pedidos.

E, de alguma forma, Angela sabia que a fantasiosa figura não era Roger.

*

Seu amante, retornando de uma viagem de três semanas a Chicago, dissipou essa certeza. Ele estava feliz, extremamente feliz por estar de volta e ver Angèle. Foi ao apartamento dela assim que saltou do trem, sem parar nem mesmo para ver o pai.

― Posso vê-lo amanhã. Esta noite sou completamente seu. O que devemos fazer, Angèle? Podemos sair para jantar e ir ao teatro ou ir até o Country Club e ficar por lá. O que você acha?

― Teremos que ficar aqui Roger. Farei um jantar delicioso, melhor do que qualquer coisa que você teve que comer naqueles hotéis velhos. Mas logo depois terei que sair, pois prometi de coração a Marta Burden que iria a uma palestra com ela esta noite.

― Eu não sabia que você era interessada em palestras.

Angela estava preocupada e deixou transparecer.

― Mas é um tipo diferente de palestra. Você sabe como a Marta é louca por raça e movimentos sociais. Bem, Van Meier falará esta noite e Marta está convencida que seus amigos devem ouvi-lo. Irei com ela e Ladislas.

― O que me impede de ir?

― Nada. Só que ele é negro, sabe.

― Bem, suponho que não fará mal. Já ouvi falar dele. Dizem que é muito inteligente. Ainda não vi um negro inteligente, então no mínimo será interessante. E você não acha que eu deixarei minha garota fugir de mim logo agora que voltei para casa, certo? Mandarei Reynolds trazer o carro maior e levaremos Marta e Ladislas e qualquer outra pessoa que ela queira levar.

A palestra aconteceria no Harlem. O salão estava lotado, fervilhando de uma excitação reprimida e uma atmosfera sobrecarregada. Angela, radiante com a proximidade e devoção de Roger, olhava em volta com olhos atentos e observadores. E novamente sentiu aquela plenitude, riqueza, até mesmo densidade de vida que sentira em sua primeira visita ao Harlem. O fluxo da vida corria quase derretido; pequenas ondas de sentimento emanavam de grupos dentro da plateia e colidiam contra sua consciência e contra a de seus amigos, só que estes últimos não tinham seus secretos poderes de interpretação. A ocasião foi especial.

― Eu percorreria qualquer distância para ouvir Van Meier falar ― disse um rapaz negro de rosto magro, atrás deles. ― Ele sempre tem algo a dizer e nunca rebaixa ninguém. Ouvi-lo é como ler um clássico; evidente, bonito e verdadeiro.

Angela, divertindo-se com as pessoas e reunindo fragmentos de informações que recebera de Virgínia, conseguiu dividir os grupos. Lá estavam os negro-estadunidenses mais avançados, lindamente vestidos, treinados, caprichosos, bem-humorados, amargos, responsáveis. Em um lado, assomavam os rostos sombrios e ansiosos dos indígenas ocidentais, suas feições tão marcadamente diferentes do americano comum que lhes dava um aspecto selvagem e levemente feroz. Eles não compareceram porque eram discípulos de Van Meier, mas por serem buscadores fervorosos da verdade. Infelizmente, sua seriedade era ligeiramente interligada a uma teimosia e uma má vontade em aceitar a persuasão. Três ou quatro jovens negros, altos, escuros e elegantes, estavam sentados ao alcance da voz, falando com uma curiosa precisão didática.

― Estão numerando todos os sociólogos do mundo ― surpreso, Ladislas Starr contou ao pequeno grupo.

Marta, com sua meticulosidade habitual, sabia tudo sobre eles. Eles eram os editores de uma pequena revista cuja principal aposta para a fama residia nos artigos que escreviam mensalmente contra Van Meier; artigos escritos ocasionalmente com um espírito de ciúme mesquinho, mas geralmente em um esforço para ganhar uma espécie de glória invertida por levar aquele grande nome em suas páginas.

Aqui e ali, um borrifo de rostos brancos aparecia claramente, padrões distintos contra um fundo de rostos negros pacientes e suavemente impassíveis; rostos batidos e adaptados pela vida em um molde de resistência firme, como uma rocha, de fé inabalável e invencível. Angela tinha visto tais rostos antes nas igrejas da Filadélfia; eles trouxeram de volta velhas lembranças à sua mente.

― Lá está ele! ― exclamou Marta, triunfante. ― É o Van Meier! Ele não é maravilhoso?

Angela viu um homem negro, não muito alto, mas com uma bela integridade simétrica, cruzar a plataforma e sentar-se na cadeira alta ao lado da mesa do presidente. Ele se sentou com uma curiosa imobilidade, olhando diretamente à sua frente como a estátua de um ídolo das Índias Orientais. E, de fato, havia nele alguma qualidade estranha que fazia pensar no Oriente; uma perfeição, uma soberba falta de autoconsciência, uma beleza estranha e cativante produzida pela perfeição de seu nariz fino e reto e sua testa larga e erudita. Um olhar, por mais casual que fosse, dava ao observador a certeza de que ali realmente estava um homem destemido, corajoso, o capitão de seu destino.

Ele começou a falar em um tom acessível, profundo, semelhante a um sino. Angela achava que nunca tinha ouvido algo equivalente em beleza, ressonância e cultura. E, como o jovem havia dito, ele não falou baixo. Seu inglês era a linguagem cuidadosamente peneirada do sábio, suas frases polidas, quase poéticas. Ele foi reconhecido em dois continentes por suas contribuições sociológicas e econômicas, mas seu tema era o sacrifício racial. Ele incentivou a introdução deliberada de beleza e prazer na vida difícil do negro estadunidense. Deviam servir tanto como herança racial quanto como compensação. Ainda assim, por um tempo, por muito tempo, teria que haver sacrifícios, muitos sacrifícios feitos para o bem de todos.

― Nosso caso é único ― a voz bonita e erudita disse ― aqueles de nós que avançaram, que conquistaram posições altas na educação e em relação ao dinheiro não irão, não serão capazes ainda de se separar da multidão suja e inculta. Devemos olhar para trás e servir nossos irmãos mais fracos e menos afortunados. E o primeiro passo para tornar isso possível é aquisição do orgulho racial, não tanto do amor racial. Um orgulho que nos permite encontrar o nosso próprio belo e louvável, um intenso chauvinismo que se contenta com os seus próprios tipos, que encontra a plenitude no seu próprio grupo; que ama o que é seu como os franceses amam seu país, porque lhes pertence. Tal orgulho pode alcançar o impossível.

Ele recitou:

Não é a coragem, nem o ódio

Que nos permite fazer as coisas que fazemos.

É o orgulho que faz com que o coração seja grande…

Ele se sentou sob uma onda de aplausos que sacudiu o prédio. Rostos negros e apáticos assumiram uma expressão de elevação extática, era como se de repente se vissem, transformados pelo orgulho racial, como príncipes em uma terra estranha em servidão temporária, príncipes cujos filhos conheceriam a liberdade.

Marta Burden e Ladislas subiram para falar com ele; eram velhos amigos. Angela, com Roger, visivelmente impressionada, ficou de lado e esperou. Paulette e Hudson vieram empurrando a multidão; ela corada e animada. Pequenos grupos de pessoas negras estavam por ali, alguns profundamente contentes com uma espécie de orgulho vicário, alguns discutindo; Angela avistou Virgínia em pé com três rapazes e duas moças. Eles gesticulavam, perdidos em grande agitação. Mas Gínia parecia apática e indiferente; seu rosto infantil parecia magro e mais desamparadamente jovem do que nunca. Anthony Cross e um homem alto de tipo inegavelmente espanhol passaram pelo pequeno grupo, falaram com um dos homens e foram apresentados. Logo Cross, ao se virar, avistou Angela e Roger. Ele curvou-se rapidamente, corando; pegou o braço de seu companheiro e saiu apressadamente do salão, sua cabeça muito reta, sua figura esguia sempre tão ereta, tão élancé, mais ereta do que nunca.

Logo o grupo de Marta estava todo na calçada; Roger, de bom humor, convidou Paulette e Hudson para passear pela cidade em seu carro. Paulette fervilhava de admiração por Van Meier.

― Ele não é um homem, é um deus ― disse ela. ― Já viu uma personalidade mais impressionante? Ele não é um magnífico homem negro, ele não é “bom como um homem branco”; ele é um homem, apenas isso; no caso dele, cor, raça, as condições são apenas acidentais, o ego dele passa por cima de tudo isso. E ele me fez me sentir como uma minhoca; dei a ele o meu sorriso mais bonito, uma mulher branca reconhecendo um negro excepcional, e ele simplesmente não me viu; segurou minha mão ― eu me esforcei para ter um aperto firme ― e me tirou do caminho, sem pestanejar, para dar lugar a uma senhora negra.

Ela refletiu:

― Me pergunto como ele é quando está sozinho.

― Certamente não bobo como você, Paulette ― disse Roger, franzindo a testa.

Hudson sorriu.

― Paulette é muito atraente, admito, mas eu sempre estaria do lado de Van Meier; ela não é tentadora para ele; o homem não é apenas um profeta e filho de um profeta; ele é o orgulho encarnado.

Roger disse pensativo:

― Me pergunto quanto sangue branco ele tem nas veias. Claro que é daí que ele tira tanta habilidade.

― Você me cansa ― disse Marta. ― Claro que ele não tira a habilidade de sangue branco; tira de todos os sangues que correm em suas veias. É a mistura que o faz ser quem é. Do contrário, os brancos seriam deuses. É a mistura e a resiliência que ele desenvolveu por ser negro nesta terra, e a determinação de ver a vida sem amargura…

― Ah, chega, chega ― exclamou Roger. ― Sem mais palestras esta noite. Olha, você está entediando Angèle.

― Não mesmo ― disse Angela. ― Pelo contrário, nunca estive mais interessada em toda a minha vida.

E, alcançando a mão de Marta, a apertou calorosamente.

*

Às vezes, como naquele primeiro dia na aula de arte, os cinco, Srta. Powell, Paulette, Cross, Marta e Angela se encontravam antes da aula. A Srta. Powell, como sempre, ficava em silêncio ― tinha vindo apenas para a aula ―, mas os outros gostavam de uma conversa preliminar. Mais ou menos uma semana depois da palestra de Van Meier, todos, exceto Paulette, estavam reunidos assim em uma tarde quando ela entrou correndo, com os olhos brilhantes, corada, consumida pelo riso.

― Acabei de passar um constrangimento ― anunciou. ― Fui ver Van Meier.

Instantaneamente conseguiu a atenção de Marta.

― Constrangeu Van Meier?

― Não, eu mesma. Vou contar.

Ela conseguira convencer a Srta. Powell a apresentá-la como funcionária do escritório do grande líder. Então Paulette, deliberadamente, chamou a garota para almoçar e depois retornou com ela ao escritório, expressando o desejo de conhecer seu empregador. Van Meier a recebeu com cordialidade suficiente, mas a avisou que estava muito ocupado.

― Então eu disse que não me sentaria, pensando que ele me convidaria. Mas ele apenas ergueu a sobrancelha da maneira mais perguntadora e disse: “Sim?”.

“Claro que eu não poderia deixar as coisas assim, então me sentei e comecei a falar com ele, nada demais, sabe? Apenas disse quão maravilhoso ele é e o deixei saber que eu gostaria de conhecê-lo melhor. Vocês deviam ter visto como ele olhou para mim e não disse nada. Então ele tocou um sino e a Srta. Thing-um-bob entrou, aquela sua amiga, Srta. Powell. Ele olhou para ela e, gesticulando na minha direção, disse: ‘Leve-a embora’. Nunca me senti tão embaraçada. Ele é uma personagem e tanto. Não foi impressionante?”.

Marta respondeu zangada que a coisa toda lhe parecia de péssimo gosto, enquanto a Srta. Powell, depois de um olhar incrédulo para Paulette, se dedicou mais diligentemente ao trabalho. Até Anthony, com sua morosidade habitual, declarou a situação “um pouco demais, Srta. Lister”. Angela, consciente de um orgulho que aumentava, guardou o incidente como uma pequena amostra para contar a Virgínia.

Capítulo 4

A vida havia parado. Não mais havia grande aventura e, no entanto, com a sensação de mansidão, não ganhara nenhum tom compensador de segurança, de permanência. Angela pensou muito sobre isso; com seu instinto usual de clareza, por compreensão completa de sua própria vida emocional, ela começou a sondar sua consciência. O problema, decidiu, estava ligado ao relacionamento com Roger. Podia-se dizer que ela estava vivendo para ele; pelo menos dele era a figura em torno da qual sua vida girava. No entanto, ela não tinha mais o desejo antigo e inebriante de se sentir completamente dele, de reivindicá-lo como completamente dela, nem por sua riqueza, nem pela sensação de segurança que ele podia pagar, nem por si mesmo. Por alguma razão, Roger havia perdido seu encanto para Angela, da mesma forma, ela suspeitava, que as moças de sua posição muitas vezes perdiam o encanto para seus amantes.

E essa constatação, em vez de lhe trazer uma sensação de alívio, trouxe uma vergonha real, embora um tanto fantástica. Se não devia haver permanência na relação, deixando de lado a questão do casamento, se faltava a dignidade, a graciosidade de um caso de longa data, de simpatia, de necessidade mútua, então, de fato, de acordo com o código moral da infância dela, de acordo com cada código de cada fase de seu desenvolvimento, Angela havia se permitido mergulhar em uma situação indesculpavelmente vulgar. Quando sua segurança material estava em jogo e ela tinha sonhado vagamente em ceder às súplicas de Roger para garantir essa segurança, poderia haver alguma desculpa. A vida, ela pensou, vinha antes do credo, código ou convenção. Ou se ela tivesse amado e não houvesse outra maneira de garantir essa experiência em sua vida. Mas Angela não estava mais consciente de se esforçar para se casar com Roger; e, quanto ao amor, ela conhecera um sentimento de gratidão, intenso interesse e até intensa possessividade por ele, mas não acreditava que conhecera o amor.

Mas, por causa dessa mistura de vergonha e censura, ela se viu esforçando-se conscientemente para manter suas relações no plano mais elevado possível, dadas as circunstâncias. Agora seu desejo não era nunca ter deixado Gínia e a segurança de sua vida doméstica comum, mas sim que a necessidade disso nunca tivesse surgido. Agora, de repente, Angela se sentia solitária; estava em Nova York havia quase três anos, mas ainda não havia mergulhado profundamente na amizade genuína. Paulette era gentil e generosa; desejava, dissera ela, uma amiga íntima, mas Paulette ainda era aventureira. Ela estava tão propensa a mudar de vocação e de endereço quanto de amante. Marta Burden, ao mesmo tempo mais estável e mais compreensiva na conduta de uma amizade selecionada, era, por outro lado, muito mais conservadora no dispêndio dessa amizade; além disso, ela era por sua própria natureza tão reservada quanto Paulette era extrovertida, e sua intensidade natural tornava difícil para ela pensar por muito tempo nas necessidades de alguém cujos problemas não se centrassem em suas próprias ideias e princípios fixos.

Quanto a Anthony Cross, por alguma curiosa e absolutamente inexplicável repulsa emocional, Angela não se atreveu a pensar muito nas possibilidades de uma amizade com ele. De alguma forma, parecia-lhe um sacrilégio, em sua condição atual, trazer de volta à mente a lembrança daquele dia no parque Van Gortlandt. Assim que a imagem dele surgiu, ela a descartou, embora houvesse momentos em que fosse impossível que a visão dele surgisse sem que instantaneamente trouxesse à mente as noções de amor e sacrifício de Rachel Salting. Bem, esses sonhos não eram para ela ― Angela disse a si mesma com impaciência. Para a integridade de sua própria alma, deveria aproveitar ao máximo seu estado atual. Ou deveria realizar, por meio dele, um casamento cuja desculpa fosse a de segurança, conforto e praticidade; ou transformá-lo com paciência, firmeza e afeição em uma apoteose de “amor livre”. De todos os possíveis casos, este deveria, pelo menos, à semelhança, ser o último desejo, a mais bela flor do cavalheirismo e da devoção.

*

Para esse fim, Angela começou a se dedicar novamente à renovação daquele senso de possessividade em Roger e em seus negócios, algo que antes havia sido tão espontâneo dentro dela. Mas para isso Roger apresentou barreiras inesperadas; ficou inquieto sob tais manifestações; ele, que outrora lutara tão amargamente contra sua indiferença, ressentia-se com igual amargura de qualquer demonstração de interesse possessivo. Ele não queria nenhuma reclamação, tampouco as reconhecia. Aos poucos, suas ausências, que a princípio se deviam a interesses comerciais do pai, foram ocorrendo por outros motivos ou por nenhum. Angela não conseguiu entender tudo de uma vez; era impossível para ela conceber que a gentileza pudesse criar indiferença; apesar das histórias confirmatórias que ouvira, dos livros que lera, não conseguia se convencer de que a devoção às vezes podia gerar ingratidão, perda de apreço. Pois, se assim fosse, um relacionamento bem-sucedido entre os sexos deveria depender totalmente do vínculo matrimonial, sem referência à compatibilidade de gosto, treinamento ou ideais. Nisso, Angela mal podia acreditar. De alguma forma, ela deveria ser a culpada.

Nenhuma jovem esposa no primeiro ardor do casamento poderia ter se esforçado mais do que ela para agradar a Roger. Angela procurou, por meio de leituras e perguntas, informar-se sobre o cargo de Roger ― ele era engenheiro de minas. A afeição dele pelo pai a levou a inúmeras indagações sobre o interesse e as atividades do Sr. Fielding; ela fez sugestões para as horas de lazer de Roger. Mas por mais desinteressada que fosse sua atitude e tom, a resposta a tudo isso foi um aumento do mau humor, do distanciamento, cautela. Roger tinha experiência nas artimanhas das mulheres; tal interesse só poderia significar uma coisa: casamento. Bem, Angela sabia muito bem que ele não tinha pensado, nunca havia, em se casar com ela ou com qualquer outra mulher tão distante das ideias e exigências de seu pai.

Ainda assim, Angela, concentrada em seus ideais, não conseguia compreender. As coisas não estavam indo bem entre eles; casos assim costumavam durar pouco, essa fora uma de suas primeiras objeções ao acordo, mas ela não sonhava que um se retirasse quando o outro não tivesse cometido ofensa. Ela era tão charmosa, atraente, bonita e muito, muito mais gentil e atenciosa. Angela não havia mudado, como poderia ser possível que Roger estivesse diferente?

Uma semana se passou e ele não apareceu para vê-la. A solidão caiu sobre ela como uma mortalha, assustando-a seriamente porque estava percebendo que desta vez não sentia falta de Roger tanto quanto daquela pessoa por quem havia deixado escapar os ideais engendrados pelos primeiros ensinamentos de sua mãe; ele, um homem por quem ela havia traído e afastado sua irmã, estava saindo de seu alcance. Angela raramente ligava para ele, mas de repente começou a fazer isso. Por três dias, a voz suave do braço direito de Roger, Reynolds, disse a ela “o Sr. Fielding está fora, senhora”.

― Mas você deu a ele meu recado? Pediu que ele me ligasse assim que possível?

― Sim, senhora.

― E ele ligou?

― Isso eu não posso dizer, senhora.

Angela não conseguiria informações com o empregado.

No quinto dia, Roger apareceu. Ela correu para ele.

― Oh, Roger, estou tão feliz de te ver. Reynolds disse que eu liguei? Por que você demorou tanto?

― Eu não teria vindo se você não tivesse ligado tanto. Escute aqui, Angèle, isso precisa parar. Não posso ter mulheres me ligando o dia inteiro, me ridicularizando aos olhos dos meus empregados. Não gosto disso, precisa parar. Você entendeu?

Surpresa e chocada, ela só conseguiu gaguejar:

― Mas você me liga quando quer.

― Claro que sim, é diferente. Eu sou homem. ― Ele adicionou cruelmente: ― Talvez você tenha notado que eu não ligo tanto quanto antes.

*

O orgulho dela estava ferido. Mais de uma vez, Angela pensou em escrever-lhe um breve bilhete dizendo-lhe que, no que lhe dizia respeito, o “caso” estava encerrado. Mas uma grande teimosia a possuiu; estava curiosa para ver como esse tipo de coisa poderia terminar; estava ansiosa para saber se todos os conselhos que as mulheres mais velhas dão às meninas no início da juventude poderiam ser tão verdadeiros quanto banais. Era verdade que as convenções eram mais importantes do que os impulsos fundamentais da vida, do que a generosidade, a bondade, o altruísmo? Quaisquer que fossem seus motivos originais, seu relacionamento real com Fielding havia revelado as qualidades mais altruístas dela. E Angela começou a ver as convenções e as regras que governam a vida sob uma nova luz; percebeu de repente que, apesar de sua frieza e precisão, elas também representavam fatos fundamentais; uma espécie de compêndio concentrado da arte de viver e, portanto, precisavam ser observadas e respeitadas tanto quanto os impulsos vitais calorosos.

Em relação a Roger, ela não sentia rancor, apenas uma apatia que não se dissipava. A conversa sobre o telefone deixou um efeito totalmente desproporcional à sua real importância; representava para ela a diferença intransponível entre os sexos; tudo era para homens, mas mesmo o menor privilégio deveria ser negado a uma mulher, a menos que o homem decidisse concedê-lo. Pelo menos havia homens que se sentiam assim; nem todos os homens, ela tinha certeza, poderiam tolerar um status tão obviamente injusto. Sem intenção de punir, sem nenhum propósito definido em sua mente, simplesmente porque não estava mais interessada, Angela começou a negligenciar Roger. Ela não deixava mais outros compromissos por ele; não fez nenhuma tentativa de ser pontual em manter os compromissos que eles já haviam feito; na presença dele, ela frequentemente ficava absorta, distraída, perdida em pensamentos. Angela parou de fazer perguntas sobre seus negócios.

Muito antes da briga, eles aceitaram um convite de Marta Burden para uma pequena festa. Angela ficou surpresa com o fato de Roger se lembrar da ocasião, mas claramente ele se lembrava; ele estava disponível na data e hora corretas e os dois saíram. Durante a breve viagem Roger foi cortês, até polidamente cordial, mas a diferença entre sua atitude e a de outros dias era muito evidente. A festa era de um tipo mais frívolo do que Marta costumava organizar ― era para um primo de Ladislas, jovem e amante da diversão; não houve nenhum debate, mas alguns cantos, muita dança, muitos casais em pares. Carlotta Parks estava presente com Ralph Ashley, o homem magro que apareceu com Carlotta quando Angela a conheceu. Assim que Roger apareceu, Carlotta veio correndo em sua direção.

― Eu estava esperando por você!

Ela puxou sua mão e, não sem querer, ele se deixou levar a um pequeno sofá. Eles conversaram por alguns minutos; então dançaram; Roger simplesmente precisava olhar para as novas gravuras de Marta. Naquela noite, estavam inseparáveis. Por mais que tentasse, Angela não conseguia descobrir nenhum sentimento de ciúme, mas sua dignidade estava ferida. Ela não poderia ter recebido menos atenção de seu ex-amante se eles nunca tivessem se conhecido. A princípio ela pensou que se aproximaria de Ralph, mas algo malicioso no olhar de Carlotta a deteve. Não, ela estava cansada de homens e de seus modos infantis e infiéis; ela não se importava o suficiente com Roger para entrar em um jogo por ele. Então, sentou-se calmamente em uma cadeira funda, fumando, mergulhando nas pilhas de livros espalhadas que emprestavam ao apartamento seu ar de alegre desordem. Ocasionalmente, ela conversava; Ladislas Starr empoleirou-se no braço de sua cadeira e a seduziu com contos alegres de seus dias de universidade na Viena do pré-guerra.

Mas Angela nunca mais suportaria tamanha indignidade. No caminho para casa, ficou em silêncio. Roger olhou para ela com curiosidade, ergueu as sobrancelhas quando ela pediu que ele entrasse. Ela começou calmamente: ― Roger, nunca mais permitirei ser tratada daque…

Mas ele estava pronto, até mesmo ávido por uma discussão:

― Me pareceu que você estava disposta a suportar tudo. Nenhuma mulher que tem ao menos um pouco de orgulho suportaria o que você tem suportado até agora.

Angela devolveu:

― Quer dizer que acabou?

― Bem, o que você acha? Você certamente não pensou que duraria para sempre.

O tom dele era inacreditavelmente ofensivo. Olhando-o, Angela respondeu:

― Não, claro que não pensei que duraria para sempre, mas não achei que terminaria assim. Não vejo motivos.

Saber de suas atitudes imperdoáveis incomodou Roger; deu-lhe uma nova sensação de indignidade.

― Suponho que você pensou que algum dia eu beijaria sua mão e diria: “Você foi muito boa comigo, sempre me lembrarei de você com carinho e gratidão. Adeus”.

― Bem, você poderia ter dito isso. Seria melhor do que esta conversa agora. Nunca pensei que me colocaria em tal situação.

Um sentimento feio o dominou.

― Você sabia perfeitamente bem no que estava entrando. Qualquer mulher saberia.

Angela podia apenas encará-lo, as palavras dele ecoando em seus ouvidos: “Você sabia perfeitamente bem no que estava entrando”.

A frase tinha a qualidade de um eco cósmico; talvez os homens tenham dito isso às mulheres desde o início dos tempos. Sem dúvida, seu equivalente bíblico foram as últimas palavras proferidas por Abraão a Agar antes que ela partisse para o deserto.

Capítulo 5

Depois que Roger a deixou, Angela ficou olhando para as sombras escuras da sala. Por muito tempo, ela soube que o fim era iminente; ficou curiosa para ver como isso aconteceria, mas nunca lhe passou pela cabeça que viria com palavras ásperas e com vulgaridade. A partida de Roger ― ela fechou e abriu a mão ― não significava nada; ela nunca o tinha amado, nunca sentido por ele um décimo da devoção que sua mãe tinha por seu pai, do afeto espontâneo que Virgínia tinha oferecido a Matthew Henson. Mesmo nessas últimas semanas, quando havia se esforçado conscientemente para mostrar-lhe toda a bondade e atenção possíveis, ela o fizera para a preservação egoísta de seus ideais. Agora Angela recordava aqueles primeiros dias de deleite, quando as emoções dele e as dela se encontraram; quando sonhou que só ela, entre todas as pessoas do mundo, estava isenta da lei comum. Como, ela se perguntou inutilmente, poderia ter se permitido ser persuadida a mexer nos sagrados mistérios da vida? Se Angela tivesse na mão a chave de ouro ― o amor! Mas deixar de lado as leis fundamentais da civilização pela paixão, pela teimosia obstinada da juventude e fazer com que isso acabe assim, monotonamente, vulgarmente, quase em uma briga! Como ela poderia suportar a si mesma? Como poderia suportar Roger e suas promessas de estima e preciosas memórias?

Por um momento, Angela o odiou por suas belas palavras e frases, odiou-o por tê-la enganado. Não importa o que ela dissera, como agira, ele deveria tê-la deixado ir. Melhor uma ferida em sua paixão do que esse terrível corte em sua segurança, essa dor no âmago.

― Deus! ― ela disse, furiosa em seu minúsculo apartamento como um tigre em um zoológico se enfurece em sua jaula. ― Deus, onde começa a responsabilidade do homem para com a mulher?

*

Mas Angela havia adquirido o hábito de ordenar sua vida, de abrir seu próprio caminho, de remover as dificuldades que a cercavam, e não podia se deixar abater, totalmente prostrada pelo que havia acontecido com ela. Roger, seu companheiro, havia partido; ela tinha sido apanhada em um caso indesculpável e desnecessário sem o pretexto do amor. Graças a Deus, ela não tirou nada de Roger; não se vendeu, apenas se entregou de forma tola, indigna. Por mais perturbada e atormentada que estivesse sua mente, não poderia se demorar muito na perda de um amante. Havia outros problemas a serem considerados; pois a saída de Roger significou o desaparecimento da última esperança de um casamento bem-sucedido, que outrora ela tanto desejara. E mesmo que Angela não tivesse considerado isso ativamente por algum tempo, ainda como uma possibilidade remota, ele proporcionava uma sensação de segurança. Agora aquela miragem fora dissipada; ela fora trazida de volta à realidade com um choque repentino. Não era mais suficiente planejar como poderia ganhar para um meio de existência agradável e feliz, ela deveria estar na qui vive para manter a própria existência. Nova York tinha engolido seus três mil dólares; parte do dinheiro que Virgínia lhe dera também fora dissipado. Menos de mil dólares se interpunham entre ela e a penúria absoluta. Ela não podia imaginar se voltar para Gínia; a vida que parecia tão promissora, tão dourada, falhou em fornecer-lhe um único amigo a quem ela pudesse recorrer em uma hora extrema.

Pensamentos como esses a deixavam em pânico, gelada de medo. O espectro de uma possível necessidade inundou seus sonhos, assombrou suas horas de vigília, afastou a vergonha devastadora de seu caso com Roger para substituí-lo por medo e apreensão. Em seu desespero, Angela se voltou mais ardentemente do que nunca para a pintura; já era capaz de fazer um trabalho notável no retrato, mas carecia de prestígio; ela era absolutamente desconhecida.

A condição da mente afetou sua aparência; ela começou a arrumar suas roupas, tristemente consciente de que não sabia dizer de onde as outras viriam. Seu rosto perdeu a redondeza, o calor branco de sua pele permaneceu, mas havia sombras violetas sob seus olhos; sua testa exibia linhas fracas; ela estava um pouco maltrapilha. Aos poucos, a vivacidade triunfante tão característica de Angèle Mory a deixou, ela era como qualquer uma das milhares de outras garotas assustadas e lamentáveis que lotavam Nova York. A Srta. Powell olhou para ela e pensou: Ela parece infeliz, mas como pode ser quando tem todo o privilégio do mundo só porque é branca?

Anthony notou seu esmaecimento; ele gostaria de questioná-la, confortá-la, mas no que dizia respeito a Angela, o papel de consolador não era para ele. Apenas o professor, o Sr. Paget adivinhou. Ele tinha visto muitos alunos para não reconhecer os sinais de pobreza, de desastre no amor, de desespero com o tardio florescimento de destreza que havia sido confundida com talento. Uma vez, depois da aula, ele parou Angela e perguntou-lhe se ela conhecia alguém disposto a fornecer esboços para um conhecido jornal de moda.

― Não é um trabalho muito estimulante, mas eles pagam bem e são confiáveis. O último artista ficou com eles por oito anos. Se você conhecer alguém que…

Angela interrompeu:

― Eu. Você acha que eles me aceitariam?

― Posso recomendá-la. Certamente eles a considerariam.

Ele foi muito gentil; tomou todas as providências necessárias. A firma recebeu Angela com alegria, oferecendo-lhe um salário justo por um trabalho um pouco enfadonho. Mas abriu possibilidades; havia novas pessoas a serem conhecidas; talvez ela fizesse novos amigos, formasse laços que pudessem ser duradouros.

― Oh ― ela disse a si mesma, esperançosa. ― A vida é maravilhosa! Está me dando uma nova chance de recomeçar. Sou jovem, e agora, sofisticada; o mundo é enorme, em algum lugar há felicidade e paz para mim. Vou encontrá-lo.

Mas sua esperança, seu otimismo, foram um pouco forçados, sua soberba autoconfiança visivelmente diminuída. O brilho que antes banhava cada momento de sua existência estava se desvanecendo suave e inexoravelmente sob a luz da rotina.