Não tão branca
←8
― Olá, novata! Você tem uma borracha decente? As minhas estão ruins.
Sem saber se falavam ou não com ela, Angela se virou para encontrar o olhar singularmente intenso de uma garota esguia de olhos azuis, cabelos castanhos claros e bochechas brilhando com uma excitação indescritível. Angela sorriu e ofereceu sua borracha.
― Precisa ser decente. É nova.
― Sim, é muito boa; muito obrigada. Não vou te perturbar outra vez. Meu nome é Paulette Lister. Você...?
― Angèle Mory. ― Ela havia decidido mudar o nome quando chegou a Nova York. Algum sentimento perturbador de lealdade ao pai e à mãe tornara impossível para ela se livrar dele de todo.
― Mory ― disse um jovem que estava bem ao lado de Paulette ― é um nome espanhol. Você por um acaso é espanhola?
― Acho que não.
― Ele é ― disse Paulette. ― Seu nome é Anthony Cruz. Não é um nome adorável? Mas ele o mudou para Cross porque nenhum americano conseguiria pronunciar o “z” direito, e ele não queria ter seu nome
confundido com cruse8.
― É uma piada infame ― disse Cross ―, mas já que eu a inventei, você deve me dar a chance de contá-la por aí, Srta. Lister. É uma coisa só minha. Por favor.
― Por que você não a chama de Srta. Blister? ― perguntou Angela, divertindo-se muito com o tom brincalhão da conversa. ― Assim vocês ficam quites.
Várias pessoas entraram então, e ela descobriu que tinha chegado meia hora mais cedo ― a aula estava apenas começando. Angela olhou para os recém-chegados: uma bela judia com a pele perolada e a cabeça cheia de cachos, um escandinavo alto, um alemão óbvio e vários outros estadunidenses. Nenhum deles, a de olhos de ardósia Marta Burden, Paulette Lister e Anthony Cross, causou uma impressão nela igual à causada pela garota negra cujo nome, ela soube, era Rachel Powell. Sua previsão se tornou realidade. Em uma semana, Angela estava divertidamente íntima de cada um deles, exceto a Srta. Powell, que emprestava seus pertences, não pedia nada emprestado e falava apenas quando alguém lhe dirigia a palavra. Ao fim de dez dias, a Srta. Burden pediu a Angela que viesse almoçar “no mesmo lugar aonde eu vou”.
*
Em uma tarde maravilhosa, Angela foi para o Harlem.
Na 135th Street, ela desceu do ônibus e caminhou da 7th Avenue até a Lenox Avenue, depois subiu até a 147th Street e desceu novamente a 7th Avenue até a 139th Street, passando por ela até a 8th Avenue e depois serpenteando entre as duas avenidas através da 38th, 37th e desceu pela 135th até a 8th Avenue, onde pegou a Elevated e voltou para a Nova York que conhecia.
Mas Angela estava maravilhada e impressionada com a cidade grande e divertida, cheia e risonha dentro de outra ainda maior e agitada. Ela nunca tinha visto uma vida tão colorida e densa, tão variada, tão completa. Além disso, já que a cidade reproduzia em microcosmo todas as características importantes de qualquer metrópole, então, sem dúvida, a vida aqui era igual a vida em qualquer outro lugar, Angela pensou vagamente. Nem todas essas pessoas, ela percebeu, olhando para a multidão de rostos pretos e marrons, amarelos e brancos ao seu redor, eram servos ou subordinados ou os últimos da fila. Angela viu uma linda mulher negra, vestida em vermelho tão primorosamente quanto qualquer pessoa que ela tinha visto na Quinta Avenida. O rosto afiado e educado de um homem gravou-se em sua memória, a face de um profissional, talvez um artista. Ela duvidou disso; ele poderia ser músico, é claro, mas era improvável que fosse o tipo de artista dela, pois como ele poderia existir? Ah, aí estava a grande diferença. Em tudo, mesmo em todas as coisas práticas, esses dois mundos eram semelhantes, mas na produção, na materialização dessas manifestações, este mundo deixava a desejar, pois seu povo não tinha os meios ou o tempo livre para sustentá-lo e desfrutá-lo. E essas eram as manifestações que Angela almejava, junto com sua desejada liberdade. Não, ela não lamentava ter escolhido o que escolheu, embora agora pudesse perceber que a vida vista do ângulo da Opal e Jefferson Street, na Filadélfia, e a mesma vista da 135th Street e da 7th Avenue, em Nova York, podiam apresentar lados surpreendentemente diferentes.
Sem dúvidas, havia algo muito fascinante, até terrível, nessa corrente de vida; parecia-lhe ser mais densa, mais túrgida do que aquela existência segura e sublimada em que seus novos amigos viviam. Era mais profunda, com mais poder ainda do que a torrente da 14th Street. Tal qual essas pessoas ― pois ela já as via com objetividade, e por duas lentes: uma com seu afastamento natural e outra com o afastamento de seu novo estado ― podiam sofrer mais que outras, só para se divertirem mais. Ela assistia aos grupos rebeldes na Lenox Avenue; as multidões de rapazes incrivelmente bem-vestidos e bonitos na 7th Avenue, na 137th e 35th Streets. Eles fofocavam, riam, discutiam e zombavam, combinando os costumes da pequena cidade com o cosmopolitismo inusitado de suas roupas e maneiras. Em nenhum lugar no centro da cidade ela viu a vida assim. Tudo aquilo era mais cheio, mais rico. Não mais fino, mas mais rico, luxuoso, como a diferença de qualidade existente entre o veludo e a seda. O Harlem era uma grande cidade, uma cidade dentro da cidade, e ela estava feliz; enquanto se esforçava para ver os últimos vislumbres do trem oscilante, que lançara sua sorte com os moradores fora da escuridão e das tendas serrilhadas.
Capítulo 2
― Onde você mora? ― perguntou Paullete. ― Quero dizer, quando você não está na escola?
Angela corou quando contou.
― Num hotel? Na Union Square? Menina, você é milionária? De onde você vem? Você não se importa com os confortos de ter um lar? Sr. Cross, venha aqui. Essa pobre garota está vivendo tristemente em um hotel quando poderia ter pelo menos dois quartos no Village por quase o mesmo preço.
O Sr. Cross se aproximou, mas sem dizer nada. Ele era realmente, um jovem muito sério ― pensou Angela ― quase triste. Ele não havia continuado a ser zombeteiro como no primeiro dia.
Ela explicou que não sabia para onde ir.
― Muitas vezes pensei em me mudar e, claro, estou gastando muito dinheiro pelo quartinho que tenho.
Paulette arregalou muito os olhos, o que deu ao espectador o privilégio de ver de repente o céu azul bem de perto. Suas bochechas adquiriram um tom flamejante. Ela era realmente bonita, uma garota ― ou mulher ― fascinante; Angela não sabia ao certo, pois nunca descobriu sua idade. Mas seu fascínio não residia na aparência, ou pelo menos não surgia dessa fonte; era mais o resultado de suas maneiras. Ela era tão viva, tão intensa, tão interessada, quando estava interessada, que todos os seus nervos e suas emoções eram reunidos para alcançar o resultado que ela tinha em vista. E, além disso, tinha a simplicidade de uma criança. Sobre ela também havia uma força insuspeita que estava estranhamente em desacordo com a fragilidade bastante impressionante de sua aparência, a confiança em seu olhar, a límpida falta de reflexão de suas maneiras. O Sr. Cross, Angela pensou negligentemente, devia estar apaixonado por ela; ele geralmente estava ao lado dela quando eles se encontravam. Mais tarde, porém, Angela percebeu que não havia absolutamente nada entre os dois, exceto uma certa apreciação amigável, temperada por uma gentileza cautelosa da parte do Sr. Cross e uma generosidade negligente da parte de Paulette.
Ela não demonstrou nenhuma falta de generosidade em seu desejo e ânsia de encontrar um apartamento adequado para Angela. Ela sugeriu, no entanto, com uma franqueza surpreendente que o apartamento fosse “não muito perto de mim, mas também não muito longe”. Mas isso agradou Angela, pois ela temia que Paulette insistisse em se oferecer para compartilhar seu próprio apartamento e ela não saberia como recusar. Angela desejava a solitude de forma egoísta.
Paulette morava na Bank Street; e encontrou para sua nova amiga “um lindo, apenas lindo, nenhuma outra palavra pode descrevê-lo, apartamento” na Jayne Street, com dois quartos, banheiro e cozinha.
Havia também uma pequena varanda que dava para um estábulo. Era mais do que Angela deveria gastar, mas a facilidade com que seus negócios estavam resolvendo deu-lhe uma segurança, quase uma arrogância confiante. Além disso, ela planejava economizar cozinhando suas próprias refeições. O lugar já estava mobiliado, seu antigo ocupante se preparava para ir a Londres por dois ou mais anos.
― Dois anos, ― disse Angela alegremente ― tudo pode acontecer comigo nesse período. Oh, eu me pergunto o que terá acontecido; como eu serei! ― E ela se preparou para trazer seus poucos bens. Anthony, incentivado por Paulette, ela suspeitava, ofereceu-se timidamente para ajudá-la. Era um dia chuvoso, havia várias caixas e os táxis eram escassos, embora Anthony finalmente tenha conseguido um e retornado triunfante com o motorista. Depois, alguns livros tiveram que ser arranjados e fotos penduradas. Ela teve uma inspiração.
― Você cuida de tudo isso e eu vou te dar o melhor jantar que você já provou em sua vida. ― Memórias dos jantares de segunda à noite na Opal Street inundaram sua mente. Angela serviu pratos caseiros, enormes, “pratos de pedreiro”, ela o provocou. Havia picadinho de carne, batata-doce assada, pudim de milho e, apesar da hora, muffins.
Depois do jantar, Angela se recusou a deixá-lo ajudá-la com a louça, e o fez descansar na poltrona da sala enquanto ela ria e falava com ele da cozinha a uma distância de dois metros. Gradualmente, enquanto fumava, a tristeza e a tensão sumiram de seu rosto magro e sombrio, Anthony riu e gracejou como qualquer outro jovem normal. Quando se despediu dela, ele deixou seu olhar lento e escuro descansar no dela por um longo momento silencioso. Angela fechou a porta e ficou rindo, arrumando os cabelos diante do espelho.
― É claro que ele é muito mais bonito, mas algo nele me faz pensar em Matthew Henson. Mas nada feito, meu jovem rapaz. Espanhol e, suponho, terrivelmente orgulhoso. Eu me pergunto: o que ele diria se realmente soubesse...?
*
Ela estava prestes a jantar na casa de Paulette.
― Só nós duas ― estipulou a Srta. Lister. ― Claro, eu poderia chamar alguns homens, mas acho que vai ser divertido nos conhecermos.
Angela ficou satisfeita; ela gostava muito de Paulette, gostava dela porque era generosa e capaz. E ainda não estava pronta para conhecer homens. Deveria saber algo mais sobre essas pessoas com quem estava passando a vida. Anthony Cross tinha sido bastante afável, mas ela não tinha certeza se ele, com sua curiosa tristeza, sua tendência meio orgulhosa e meio sensível para o retraimento, era um tipo justo. No entanto, apesar dos protestos de Paulette, havia três jovens de pé em sua grande e escura sala de estar quando Angela chegou.
― Mas vocês precisam ir imediatamente ― disse Paulette, rindo, mas com firmeza ― aqui está minha amiga, ela não é linda? Temos muitas coisas para discutir sem sermos incomodadas por vocês.
― Paulette tem acessos de crueldade ― disse um dos três, um sujeito baixo e atarracado com um rosto feio e sensível. ― Ela teria sido um imperador cruel como Nero , de Roma. Mas, de qualquer forma, estou feliz por ter ficado tempo o bastante para vê-la. Não deixe que ela a esconda completamente de nós.
Outro homem fez uma observação civilizada; o terceiro, de pé na sala sombria, não disse nada, mas Angela teve a impressão de ser alto e loiro e de ter um par de olhos azuis que a encaravam atentamente. Ela se sentiu estranha e demonstrou.
― Veja, você a deixou tímida ― disse Paulette acusadoramente. ― Não vou me incomodar em apresentá-los, Angèle, você vai conhecê-los muito em breve.
Rindo, em protesto, os homens saíram, e a indisposta anfitriã fechou a porta sem nenhum arrependimento.
― Homens ― ela sussurrou, rindo. ― Claro que não podemos viver sem eles mais do que eles podem sem nós, mas fico cansada, são quase todos animais. Eu os trocaria por uma boa amiga. ― Paulette suspirou, sincera. ― E mesmo assim meu apartamento vive cheio de homens. Você prefere as costeletas malpassadas ou bem passadas? Eu gosto das minhas cozidas em cinzas. ― Angela preferia as delas ao ponto. ― Fique aqui e dê uma olhada; veja se eu tenho algo para te divertir.
Pegando um avental, Paulette desapareceu em um cômodo menor e mais escuro que ela chamava de cozinha.
O apartamento consistia em todo o andar de uma casa na Bank Street, escuro e barulhento com o constante som da porta da frente se abrindo para a rua.
― Mas não tenho acesso às malditas escadas quando chego tarde da noite ― explicou Paulette.
O cômodo da frente era, Angela supôs, o quarto, embora a única razão para essa suposição fosse a presença de uma penteadeira e um divã largo e plano a cerca de trinta centímetros do chão, coberto com veludo preto ou roxo. A penteadeira era um bom pedaço de mogno, mas as cadeiras eram iguais às da cozinha e do tipo que, afirmam as revistas, pode ser feito de uma grande caixa. Na sala, onde estava posta a mesinha, prevalecia a mesma anomalia; a porcelana era boa, até mesmo delicada, mas os copos eram grossos e o revestimento havia começado a desgastar a prata. Por outro lado, as fotos eram incomuns, nenhuma das coisas estereotipadas; em vez disso, Angela observou uma boa cópia de “Peasant Wedding”, de Breughel, a cabeça de Bernini e duas gravuras cujos autores ela não conhecia. A estante continha dois volumes encadernados de poemas de Beranger e Villon e um pequeno exemplar preto usados de Heine. Mas os outros livros eram intelectuais ao ponto da austeridade: Ely, Shaw e Strindberg.
― Talvez você queira lavar as mãos? ― chamou Paulette ― Há um banheiro logo ali no corredor, não dá para se perder. Você pode usar um pouco da minha loção favorita se quiser. Está lá na prateleira.
Angela lavou as mãos e olhou para cima em busca da loção. Seus olhos se arregalaram de espanto. Ao lado da garrafa, havia uma tigela de barbear, um pincel e uma caixa de navalhas.
A refeição, “pois não se pode chamar de jantar”, observou a cozinheira com franqueza, foi um sucesso. As costeletas estavam macias, embora fumegantes; havia espinafre, batata, salada de tomate e alface, pãezinhos, café e queijo. A robusta quantidade surpreendeu Angela; era mais uma refeição para um trabalhador do que para uma mulher, acima de tudo, uma mulher da qualidade de fada de Paulette.
― Eu fico tão cansada ― disse ela, levantando uma grande garfada ― quando não como direito; além disso, ficar com fome estraga meu humor.
Toda a sua atitude em relação à refeição era tão masculina e sua aparência tão delicadamente feminina que Angela caiu na gargalhada, explicando divertida a causa de sua alegria.
― Espero que você não se importe ― ela disse por fim ―, pois é claro que você é visivelmente feminina. Não há nada masculino em você.
Para sua surpresa, Paulette se ressentiu dessa última declaração.
― Há muito de homem em mim. Aprendi que uma mulher que deixa sua feminilidade atrapalhar o que ela quer é uma tola. Fiz disso uma filosofia. Eu vejo o que quero; uso minhas artimanhas de mulher para conseguir e uso as qualidades dos homens, tenacidade e crueldade, para manter. E quando eu termino, jogo-os fora como eles fazem. Consequentemente, não tenho arrependimentos nem estorvos.
Um maço de cigarros estava aberto sobre a mesa e ela fez sinal para a amiga pegar um. Angela recusou-se e ficou sentada observando-a inspirar profundamente; ela nunca tinha visto uma mulher mais completamente à vontade, mais seguramente dona de si mesma e de seu destino. Quando elas começaram a comer, Paulette serviu dois coquetéis, virando o dela imediatamente e terminando o de Angela também, quando esta, achando-o muito parecido com óleo de máquina para seu gosto, o colocou na mesa quase sem tê-lo bebido.
― Você vai se acostumar com eles se andar com esses homens. Beberá conosco.
Paulette praticamente não tinha curiosidade nem indiferença. E conhecia todas as experiências concebíveis, visitara a França, Alemanha e Suécia; agora estava pensando em fazer uma viagem à Itália e poderia ir para a Rússia; iria agora, na verdade, se não fosse porque um amigo dela, Jack Hudson, estava prestes a ir também, e como estava prestes a ter um caso com ele, achou melhor esperar. Paulette não gostava da perspectiva de tal situação em uma terra estrangeira, isso a colocava muito à mercê do homem. Se fosse ter um caso, era melhor tê-lo em seu próprio país.
― Um caso? ― ofegou Angela.
― Sim. Por que, você nunca teve um amante?
― Um amante?
― Meu Deus, você é um papagaio? Sim, um amante. Eu tive… ― Paulette hesitou diante do completo espanto de Angela. ― Posso lhe dizer que já tive mais de um.
― E você não tem intenção de se casar?
― Oh, eu não diria isso; mas de que adianta nos amarrarem agora enquanto somos jovens? E, dessa forma, eles não ficam no pé; você sempre pode deixá-los ou eles vão deixá-la. Mas é melhor você deixá-los primeiro. Isso preserva o seu orgulho.
Com seu rosto infantil e sua voz doce e aguda, ela era como uma criança balbuciando precocemente. No entanto, parecia muito intensa. Mas depois Paulette começou a falar de seus livros e pinturas, de seu trabalho. Falou de tudo com a mesma excitação contida; seus olhos brilharam e suas bochechas ficaram vermelhas, toda experiência significava vida para ela em várias manifestações. Paulette tinha aparecido em um jornal, um dos diários de Nova York; ela fizera assessoria de imprensa. No momento, ilustrava para uma revista de moda. Não havia fim para suas versatilidades.
Angela disse que precisava ir.
― Mas você voltará logo, não é, Angèle? ― Uma melancolia surgiu em sua voz. ― Eu quero tanto uma amiga! Quando uma mulher é realmente sua amiga, ela é confiável e não espera nada em troca. ― Paulette acompanhou sua convidada até a porta. ― Poderíamos ter momentos maravilhosos. Boa noite, Angèle. ― Como uma criança, ela ergueu o rosto para ser beijada.
O primeiro pensamento de Angela enquanto caminhava pela rua escura foi sobre o nome pouco familiar pelo qual Paulette a havia chamado. Pois, embora ela se tivesse assinado muitas vezes como Angèle, ninguém ainda o usava. O velho pensamento a visitou: Eu me pergunto o que ela pensaria se soubesse.
Mas de uma coisa ela tinha certeza: se Paulette estivesse em seu lugar, ela teria agido exatamente da mesma maneira. Ela teria avistado o que queria e teria conseguido, murmurou e começou a pensar nas várias confidências que Paulette lhe fizera, embora fossem tão francas e sem reservas que “confidências” dificilmente seria o nome a se aplicar a elas. Certamente, pensou Angela, ela estava em um novo mundo e com novas pessoas. Sem dúvida, algumas das pessoas negras que ela conhecia deviam ter vivido de uma maneira que não suportaria inspeção, mas ela não conseguia pensar em alguém que pudesse ter discutido o assunto calmamente com um amigo ou um estranho. Imaginando como seria conduzir-se absolutamente de acordo com suas próprias leis, ela entrou no pequeno vestíbulo escuro da Jayne Street. Como sempre, a garota judia que morava acima dela estava de pé na densa escuridão do corredor e, como sempre, Angela não percebeu isso até tocar o botão para acender a luz e avistar a Srta. Salting esticando o rosto para receber o beijo de seu amante.
Capítulo 3
Do auge da satisfação com os estudos, com os novos amigos e com a piada que fazia sobre o costume e a tradição, Angela olhou para a Srta. Powell do outro lado da sala de aula, que preservava sua atitude de digna reserva. Angela pensou que tentaria decifrá-la; na quarta-feira, convidou a moça para almoçar com ela e ficou satisfeita com o convite aceito. Ela não tinha intenção de fazer amizade com a garota tendo em vista proteção ou lealdade. Mas pensou que seria bom oferecer a ela as amenidades que a vida de estudante tornava natural e possível. A Srta. Powell parecia conseguir suas refeições em uma máquina automática ou em uma lanchonete, mas Angela conhecia um belo salão de chá.
― É bastante artístico, mas eles servem uma boa refeição e é barato.
Infelizmente, na quarta-feira, Angela teve que sair antes do meio-dia; ela disse a Srta. Powell para encontrá-la no pequeno restaurante.
― Entre, pegue uma mesa e espere por mim. Tenho certeza de que logo estarei com você.
Ela estava atrasada, mas, o que era pior, descobriu, para sua consternação, que a Srta. Powell, em vez de entrar no salão de chá, a esperava do outro lado da rua. Não havia mesas e as duas tiveram que esperar quase quinze minutos antes de serem servidas.
― Por que diabos você não entrou? ― perguntou Angela com um pouco de impaciência. ― Você poderia ter segurado a mesa.
A Srta. Powell respondeu imperturbável:
― Porque eu não sabia como me receberiam se eu entrasse sozinha.
Angela não podia fingir que mal a entendia.
― Oh, eu acho que teria ficado tudo bem ― disse ela, corando com sua estupidez. Quão rápido ela havia se esquecido desses medos e incertezas. Ela mesma nunca havia experimentado esse tipo de dificuldade, mas certamente os conhecia por Virgínia e por outros.
O almoço não foi exatamente agradável. Ou a Srta. Powell era realmente chata ou ela tinha resolvido nunca se deixar levar pela presença de brancos; talvez temesse ser mal interpretada, talvez visse em tais encontros uma tentativa oculta de investigação sociológica, e ela não se prestaria a tal procedimento, isso estava claro. Angela podia sentir seu esforço para encantar, para inspirar confiança, ficar atrás desta armadura impenetrável. Ela ficou surpresa ao descobrir que Paulette e Marta Burden já ganhavam a vida com seus esboços. A Srta. Burden de fato era uma caricaturista de reputação local nada desprezível; Anthony Cross era francamente um artista comercial, embora esperasse um dia ser um reconhecido pintor de retratos. Ela estava curiosa para saber das perspectivas da Srta. Powell. A investigação revelou que a jovem tinha uma aspiração secreta; ganhar ou fazer dinheiro suficiente para ir para a França e depois disso, ela disse com ardor repentino, “tudo pode acontecer”. Para este fim, a Srta. Powell trabalhou, economizou, juntou tudo o que podia, ficou sem prazeres e roupas. Seu trabalho era digno de crédito, na verdade acima da média, mas não suficientemente imbuído, pensou Angela, da promessa divina para justificar essa privação dos desejos normais.
A Srta. Powell pareceu ler seu pensamento.
― E isso me dá a chance de mostrar à América que um de nós pode ficar; que temos alguma ideia acima da monotonia comum da existência.
Ela não fez nenhuma tentativa de devolver o convite do almoço, mas enviou a Angela um dia um monte de lindos junquilhos, e não fez mais nenhuma tentativa de amizade. Para alguém versado na psicologia de pessoas orgulhosas e sensíveis, o motivo era perfeitamente claro. “Você tem sido muito legal comigo e eu agradeço, mas não pense que vou me juntar a você. Seus caminhos e os meus vão por direções diferentes”.
*
Tais contatos, interpretações e investigações estavam compondo sua vida, uma vida que para Angela era interessante e absorvente, mas tinha seus perigos e incertezas. Ela não tinha propósito, pois era absurdo para ela, mesmo com sua habilidade, considerar a arte um objetivo final. Ela a estava usando agora de forma deliberada, como sempre usara vagamente, para entrar em contato com pessoas interessantes e com uma atmosfera mais atraente. E estava gastando dinheiro rápido demais; estava em Nova York havia oito meses e já havia gastado mil dólares. Nesse ritmo, sua pequena fortuna, que a princípio parecia inesgotável, duraria menos de dois anos; na melhor das hipóteses, mais dezoito meses.
Então o que deveria fazer? Ensinar novamente?
Jamais, Angela já se fartara disso. Talvez pudesse ganhar a vida com seu pincel, fazendo cartões de menu, cartões de Natal e aniversário, flores, pierrôs em capas de almofadas de cetim. Ela não gostava disso. É verdade que havia as especialidades de Paulette e de Marta Burden, mas faltava-lhe a hábil certeza de uma e a filosofia ligeiramente mordaz implícita no trabalho da outra. Sua própria especialidade, ela tinha certeza, estava na linha de reproduzir, de interpretar em um rosto a emoção que estava por trás daquela expressão. Ela pensou em seus “tipos” da 14th Street ― esse seria o tipo de trabalho que ela realmente gostaria de fazer, isso e a representação do semblante de um homem rico, orgulhoso, mas solitário, da inanidade sedosa de uma garota da sociedade e do sorriso desesperado de uma prostituta. Mesmo em sua própria mente, Angela hesitou antes de usar aquela palavra terrível, mas a associação a estava ensinando a chamar um às de espadas de às de espadas.
Sim, ela podia fazer pior do que seguir o exemplo do Sr. Cross e se tornar uma pintora de retratos. Mas de alguma forma não queria ter que fazer isso; a necessidade, ela tinha certeza, estragaria seu toque; além disso, odiava a ideia da posição em que seria colocada, apaziguando e lisonjeando com medo os possíveis clientes, apressando-se com um pedido porque precisava do cheque, aceitando patrocínio e condescendência. Não, Angela esperava ser procurada, ter as circunstâncias que lhe permitiriam escolher ou recusar se o capricho lhe agradasse. Devia significar algo a ser pintado por “Mory”. As pessoas diriam: “Vou mandar fazer meu retrato assinado por “Mory’”.
Mas tudo isso exigiria posição, poder, riqueza, e, novamente, ela disse a si mesma: um homem branco. Eu devo me casar com um homem branco. O casamento é a maneira mais fácil para uma mulher conseguir essas coisas, e os homens as têm. Mas Angela conhecia apenas um homem branco, Anthony Cross, e ele nunca teria essas qualidades, pelo menos não deliberadamente. Elas poderiam aparecer mais cedo ou mais tarde, mas apenas após longos anos. Longos, longos anos de luta contra as realidades. Havia uma simples e genuína firmeza nele que a fez perceber que ele procuraria a expressão da verdade e de si mesmo, mesmo à custa das coisas boas da vida. E Angela tinha vergonha, pois sabia que pelas vaidades de uma existência vagarosa e irresponsável, ela sacrificaria seu próprio talento, a integridade de sua habilidade de interpretar a vida, de escrever uma história com seu pincel.
*
Marta Burden era uma personagem tão forte e distinta quanto Paulette; parecia ainda mais forte por ter o dom do silêncio. Paulette, como Angela logo percebeu, vivia em um estado de desafio constante. “Não me importo com o que as pessoas pensam”, era seu slogan.
Angela ficou surpresa por se apegar tão persistentemente a uma amizade com uma pessoa tão convencional e reacionária quanto ela própria. Mas Marta Burden não era assim. Não se sabia se ela estava pensando ou não nas opiniões de outras pessoas. Era provável que as outras pessoas e suas atitudes nunca tivessem passado por sua mente. Ela era fria e ligeiramente indiferente, com a frieza e indiferença de seus olhos de ardósia e seu cabelo castanho e volumoso. Nem a cor de ardósia, nem o castanho, indicavam, contudo, calor ― apenas profundidade, profundidade e novamente profundidade. Era impossível perceber como ela seria se estivesse apaixonada ou agitada pela raiva. Provavelmente haveria algo implacável e divino nela; ela seria capaz de uma longa, lenta e constante explosão de paixão. Poucos homens amariam Marta, embora muitos pudessem admirá-la. Mas um homem, uma vez encantado, poderia facilmente morrer por ela.
Angela gostava da casa de Marta e da elegância simples que guardava, suas cortinas finas e macias, e a penumbra constante a lembrava de seu antigo lar. Ela gostava de Ladislas Starr, o marido que Marta mencionou casualmente. Eles eram individualistas fortes, fundidos e combinados em um projeto que falhou em obscurecer suas personalidades enfáticas. O apartamento deles no Village era grande, limpo e ensolarado; não trazia nenhum traço de riqueza palpável, mas nada relativo ao conforto estava faltando. As estantes de livros na sala de jantar e estar transbordavam; the Nation, the Mercury, the Crisis, uma revista das raças mais escuras, deixada no braço largo de uma poltrona, silenciosamente convidativa; era final de outono, quase inverno, mas havia arranjos de flores frescas. O cômodo onde Angela foi tirar o xale era delicado e confortável.
A pequena reunião para a qual Marta a convidou era composta de membros tão fortes quanto os anfitriões. Todos eram especialistas à sua maneira, e especialistas na maior parte em algum desdobramento de uma vocação ou movimento já altamente profissional. Marta apresentou um psiquiatra, um correspondente de guerra, “Tenho essa ocupação apenas quando há uma guerra, é claro”, ele explicou para o olhar abertamente curioso de Angela; um dramaturgo, um advogado de corporação, um poeta de rosto branco, visivelmente belo e com um longo e evasivo nome russo, dois assessores de imprensa, um produtor teatral, uma atriz que representava apenas papéis de Shakespeare, uma professora de crianças com deficiência e um estudante de medicina que fora objetor de consciência e servira por muito tempo em Leavenworth. Vira e mexe, ele sempre começava a falar consigo mesmo, entrando em um êxtase do qual ele só saía ao falar dos males da sociedade.
Apesar de seus interesses altamente especializados, todos possuíam conhecimento em assuntos como Rússia, Ligas do Consumidor e as próximas eleições presidenciais. Houve muitas risadas e conversas, mas sem leveza, sem respingos. Uma das assessoras de imprensa, a Sra. Cecil, iniciou uma longa discussão com o advogado da corporação sobre um projeto de lei pendente no Congresso; ela sabia tanto quanto ele sobre o assunto e se defendeu em uma longa e quase amarga discussão que só a chegada dos refrescos interrompeu.
Pouco antes do fim da discussão, dois outros jovens entraram, mas Angela nunca soube a profissão que tinham. Além disso, ela estava interessada em observar a jovem professora de crianças com deficiência. Ela era negra; pequena e bem constituída, muito bem-vestida, e de uma bela tonalidade, bronzeada e suavemente avermelhada, como Gínia, pensou Angela, um pouco surpresa ao observar como o calor da aparência da professora ofuscava, ou melhor, apagava todas as pessoas presentes. Até mesmo o tom de bronze do cabelo da Srta. Burden ofuscava. A única coisa capaz de lidar com sua riqueza era a beleza clássica das feições do poeta russo. Ele parecia incapaz de manter os olhos longe dela; esteve meticulosamente atento aos desejos dela e se inclinou várias vezes durante a longa discussão política para sussurrar comentários aparentemente divertidos.
A jovem, à vontade em sua poltrona funda, recebia as atenções com uma objetividade divertida e ligeiramente distanciada; uma objetividade que ela tinha para todos na sala, incluindo Angela, para quem ela havia olhado uma vez com bastante nitidez. Mas o distanciamento de seus modos era totalmente diferente da dignidade sensível da Srta. Powell. Sem qualquer constrangimento, ela deixou seus olhos escuros e calorosos viajarem de um rosto para outro. Ela poderia estar dizendo: "Quão longe você está das coisas que realmente importam, nascimento e morte, e trabalho duro, duro!”. O poeta russo deve ter percebido isso, porque uma vez Angela o ouviu dizer com o corpo inclinado: ― Você acha tudo isso é fútil, não é?
*
Marta fez sinal para que ela esperasse um momento até que a maioria dos outros convidados tivesse ido embora, então avançou com um dos dois rapazes que entraram sem se apresentar.
― Este é Roger Fielding, ele a levará para casa.
Ele era alto e loiro com olhos profundamente azuis que sorriam para ela ao dizer:
― Você gostaria de caminhar ou cavalgar? Está chovendo um pouco.
Angela disse que preferia andar.
― Tudo bem então. Aqui, Starr, traga aquele guarda-chuva que eu te emprestei.
Eles saíram para a chuva fina e formigante do final do outono.
― Fiquei surpreso ― disse Roger ― em ver você lá toda altiva. Não achei que você fosse assim quando a conheci na casa de Paulette.
― Já nos conhecemos? Sinto muito, mas não me lembro de você.
― Não, acredito que não se lembre. Bem, nós não exatamente nos conhecemos; eu te vi um dia na casa de Paulette. É por isso que vim esta noite, porque ouvi que você viria e eu teria a chance de vê-la de novo; mas fiquei surpreso porque você não se parecia com aquele bando tagarela. Eles me cansam por levarem a vida tão a sério. Marta e sua altivez! ― disse ele, ingrato.
Angela, um pouco desconcertada com a franqueza do desejo dele de conhecê-la, disse que não achava que eles estivessem falando sério.
― Não acha que eles são sérios? Deus! Que tipo de conversa você costuma ter? Você parece que acabou de sair de uma escola dominical! Prefere textos bíblicos?
Mas ela não conseguia explicar-lhe a imagem que via em sua mente de homens e mulheres na casa de seu pai na Opal Street, os homens falando penosamente sobre aluguéis, linchamentos, construções e associações de empréstimos; as mulheres falando de gravidez e dos sacrifícios que deveriam ser feitos para colocar Gertie na escola, para educar Howard. “Não é minha intenção que nenhum dos meus filhos passe pelo que eu passei”. E, nos últimos anos, os jovens Henson e Sawyer e os outros na pequena sala conversando sobre ideais, sobre sacrifícios evitáveis pela raça; o holocausto do individualismo diante de um grupo racial vagamente vislumbrado. Isso era sério, até sombrio, com um grande impulso vital doentio da realidade. Mas esses outros tópicos, picos de civilização superpostos sobre outros picos, ela achava, embora interessantes, totalmente fúteis.
Eles haviam chegado ao pequeno corredor agora.
― Precisamos falar alto ― ela sussurrou.
― Por quê? ― ele perguntou, falando obedientemente muito alto.
― Espere um minuto; não, ela não está lá. A garota acima de mim encontra seu amante aqui à noite e, tão certo quanto eu a esqueço e entro calmamente, lá estão eles no meio de um beijo. Eu suspeito que ela me odeia.
Em sua jovem sofisticação masculina, ele pensou a princípio que isso era uma deixa, mas o ar dela era tão alegre e tão inocente que ele mudou de opinião. Embora nenhuma garota nos dias de hoje possa ser tão simples e inocente quanto parece.
Mas em voz alta ele disse:
― Claro que ela não te odeia, ninguém poderia fazer isso. Garanto-lhe que eu não.
Ela achava seus galanteios muito divertidos.
― Bem, me alivia ouvir você dizer isso; isso vai me impedir de me preocupar por pelo menos uma noite.
E retirando a mão do toque dele, ela correu escada acima.
*
Uma carta de Virgínia estava lá dentro. Preparando-se para dormir, Angela leu devagar.
Angela, querida, não seria divertido se eu fosse para Nova York também? Claro que você continuaria morando em seu apartamento e eu moraria no famoso Harlem, mas nós duas estaríamos na mesma cidade, que é onde duas irmãs deveriam estar. Acho bobagem isso de vivermos separadas. O homem da Universidade da Filadélfia quer muito que eu faça o exame de música; seria fácil e eu teria um pagamento muito melhor do que o que recebo aqui. Portanto, há dois motivos perfeitamente bons para eu ir. Ele acha que vou lhe dar crédito e eu quero sair desta cidade.
Então, o verdadeiro motivo apareceu:
Eu tenho uma sorte terrível. Edna Brown deu uma festa em Merion não faz muito tempo e Matthew me levou. E você sabe o que andar de trem faz comigo; bem, naquela bendita noite, tive um enjoo. Matthew foi tão gentil. Ele veio me ver na manhã seguinte, mas, querida, ele nunca mais voltou. Suponho que ele não consegue superar o fato do meu estado naquela noite. É tudo tão terrível!
Angela não pôde deixar de murmurar:
― Imagine alguém querer tanto o velho Matthew que está disposta a deixar sua casa para esquecê-lo. Agora, por que será que ele não gostou dela em vez de mim?
E ponderando sobre tais mistérios, ela se esgueirou para a cama. Mas voltou a pensar na noite que passara com Marta e as pessoas que conhecera. E novamente lhe pareceu que eles representavam uma classe quase assustadoramente desnecessária. Se algum grande cataclismo social acontecesse, eles certamente seriam varridos da disputa logo de cara. Apenas as pessoas reais poderiam sobreviver. Até o modo de vida de Paulette, parecia-lhe, tinha algo mais direto e vital.