Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 4 de 25

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Não tão branca

Capítulo 2

Sábado era o melhor dia da semana para Angela, mas Virgínia preferia os domingos.

Ela amava a atmosfera de santidade dourada que parecia pairar com uma glória doce sobre a enfadonha, empoeirada e pequenina morada. Normalmente, Virgínia descia as escadas primeiro para aproveitar sozinha a abençoada sensação de domingo que, ela costumava dizer, poderia fazê-la reconhecer que dia era, mesmo se tivesse acordado na China. Virgínia tinha apenas doze anos, mas já havia desenvolvido aptidão e gosto por cuidar da casa, e isso a mãe incentivava com entusiasmo. Aos poucos, o hábito foi formado e foram entregues às suas mãozinhas todas as tarefas da manhã de domingo – eram para ela um ritual. Primeiro, a água do café deveria ser colocada para ferver, então a calçada deveria ser varrida. O jornal do pai deveria ser recolhido e deixado do lado de fora de sua porta. Virgínia encontrara uma satisfação inexplicável e reconfortante, doce, em completar essas tarefas.

Ela preparava o café da manhã de domingo sempre da mesma maneira: ovos e bacon; café forte com um bom creme para Junius; chocolate e muffins para as outras três. Depois que o bule fervia e a massa dos muffins estava pronta, demorava exatamente meia hora para os Murray terem a mesa posta. Virgínia sempre fazia as tarefas da mesma forma. Colocava os muffins no forno, apertando os lábios e franzindo a testa, do jeito que vira a mãe fazer; então, ia até os pés da fechada e estreita escada e dizia: — Hoo-hoo — com uma entonação suave e crescente.

— Última chamada — dizia o pai.

E, finalmente, antes que a família descesse e a alcançasse, ela se dirigia até a sala de estar e tocava hinos, músicas antigas e consagradas: “How firm a foundation”, “The spacious firmament on high” e “Am I a soldier of the Cross”. O grave inflexível da voz de seu pai estremecendo as escadas, a voz suave de contralto da sua mãe e o doce agudo de sua própria voz, uma maravilhosa soprano; um raio de sol, fraco e aguado no inverno, mas forte e dourado no verão, cintilando através da sala na alvorada, trouxe para a menina uma sensação de felicidade completa, mas perigosamente melancólica.

*

Depois do café da manhã, veio a agitação da preparação para a igreja. Junius, é claro, desceu totalmente pronto; mas as outras precisavam se vestir. Virgínia havia perdido sua fita de cabelo de domingo novamente; Angela descobriu um rasgo em suas melhores luvas e não pôde ser induzida a descer até que fosse consertado.

― Espere por mim um minuto, Gínia querida, não posso sair com essa aparência, posso? ― Ela não gostava de ir à igreja, pelo menos não à igreja deles, mas se importava com sua aparência e gostava do luxo de estar bem apresentada por dois dias consecutivos.

Por fim, a pequena procissão saiu. Mattie desejando que não estivessem atrasados, o que ela odiava; Angela pensava apenas que essa era uma maneira estúpida de passar o domingo, seguia se perguntando em que período da vida a existência começa a se moldar da maneira desejada. Os pensamentos do pai eram incipientes; se ditos, teriam revelado um aspecto patriarcal quase bíblico. Ele tinha sido um menino pobre, sem-teto, um ninguém, mas, de alguma forma, conseguira em seus quarenta e poucos anos alcançar o status de um cidadão respeitável, dono de um lar, um bom provedor. Tinha uma esposa encantadora e duas filhas excelentes e, como era adequado, as acompanhou até a casa do Senhor. A respeito de Virgínia, ninguém que a visse com seu chapeuzinho vermelho e o casaco azul da mãe poderia ter adivinhado como ela estava perto de explodir de felicidade. Pai, mãe e filhas, bem-vestidos, bem alimentados, unidos, indo à igreja em uma bela manhã de domingo; havia uma imensa correção cósmica em tudo isso que ela mais sentiu do que percebeu. Virgínia não invejava ninguém por ter roupas mais finas ou uma casa maior; esta união era o cerne da felicidade, todas as outras satisfações deviam irradiar desta; maior felicidade poderia ser apenas uma questão de grau, mas nunca de essência. Quando crescesse, Virgínia pretendia viver o mesmo tipo de vida; se casaria com um homem exatamente como o pai e conduziria sua casa exatamente como fazia a mãe.

A diferença é que rezaria com firmeza todos os dias, desejando cinco crianças: dois meninos, duas meninas e, por último, um pequenino — era difícil para ela decidir se deveria ser menino ou menina —, mas sabia que deveria permanecer pequeno por um longo tempo. E nos domingos eles iriam à igreja.

Focada em seu sonho, raramente ouvia o sermão. Era, no entanto, diferente com os hinos. Esses constituíam a parte principal do sermão para o pai, e Virgínia queria tocá-los para ele mais uma vez na tarde dourada e feliz ou no crepúsculo cinzento do início da noite. Mas antes havia amigos dos pais para cumprimentar, pessoas que as chamavam pelo primeiro nome e que, falando de Virgínia e Angela, ainda diziam: ― E essas são as crianças… meu Deus, como cresceram! Mal a reconheci, Mattie Ford. Crescida e já com filhas!

Nos domingos de comunhão, a missa demorava e Angela se inquietava, remexendo-se no assento, mas a irmã mais nova amava o silêncio místico e arrebatador que parecia tomar a congregação. O rosto doce e alegre da mãe assumia uma solenidade infantil; a expressão severa do pai suavizava em uma expectativa beata. Na requintada dicção da missa sacramental, havia certas palavras, certas frases, que quase fizeram a criança desmaiar. O pastor tinha uma leve rouquidão e, de alguma forma, isso dava uma projeção peculiar à sua voz; ele ora falava, ora cantava e quando, pegando a hóstia, começou "For in the night" e, então, a quebrou, Virgínia quase gritou com o êxtase que a preencheu. Ela sentia que aqueles que participavam do pão e do vinho eram de alguma forma transfigurados: a mãe e o pai exibiam uma expressão de satisfação inefável quando voltaram para seus lugares; e havia uma mulher, uma pessoa de meia-idade que pregava peças, que voltava caminhando pelo corredor com as mãos frouxamente cruzadas à frente do corpo e seu rosto tão absolutamente elevado que Virgínia se apressava para conseguir ouvi-la ao fim do culto, certa de que suas primeiras palavras teriam o sabor de algo místico e sagrado. Mas sua suposição sempre provou ser infundada.

*

A tarde e a noite repetiam o encanto da manhã, mas em um tom diferente. Normalmente, alguns conhecidos apareciam; a sala de estar e a sala de jantar ficavam ocupadas por uma ou mais horas com conversas inofensivas e agradáveis. O Sr. Henson, o policial da região, um homem alto e amarelo com sardas no nariz e um cabelo crespo, de cor ruiva, dava tapinhas nas costas do Sr. Murray e exclamava: ― Junius, deixe-me dizer uma coisa... ― O que sempre pareceu a Virgínia uma maneira ousada de se dirigir a seu alto e digno pai.

Matthew Henson, um jovem de dezesseis anos, inevitavelmente se aproximava de Angela, que o achava muito enfadonho e não fazia nenhum esforço para esconder seu tédio. A Sra. Murray distribuía biscoitos duros e um delicioso vinho de groselha, conversando sobre costura com dois ou três amigos de sua juventude com uma injeção frequente de: ― Você se lembra?!

Por fim, a casa ficava silenciosa outra vez, apenas com o entardecer e a luz do poste iluminando as paredes.

A Sra. Murray murmurava sobre arranjar algo para comerem.

― Estará na cozinha, caso queiram.

Angela retrucava em voz alta que ainda tinha que estudar álgebra, história ou francês, conforme fosse o caso, mas ninguém se mexia. O que eles realmente estavam esperando era que Virgínia começasse a tocar. Depois de algum tempo, ela cruzava a pequena sala e, estendo as mãos magras e negras, começava sua própria versão glorificada do hino que haviam cantado mais cedo na igreja, e então as melodias antigas, mas adoradas pela família, que havia tocado antes do café da manhã. Até Angela, um tanto quanto isolada e relutante no começo, se entregou ao momento noturno e pediu por uma canção especial ou até mesmo um bis: ― Gosto de como você tocou aquela, Gínia.

Por uma hora ou mais, eles ficavam tão próximos e unidos quanto é possível para uma família ser.

Às oito horas mais ou menos, Junius disse como se aquilo não tivesse estado em seus pensamentos a noite toda:

― Filha, toque o “Dying Christian”.

Virgínia entoou seus estridentes e infantilizados agudos contra o profundo e inflexível grave do seu pai, e então começou a obra-prima de Alexander Pope, um dos maiores poetas britânicos do século, sobre a morte de um verdadeiro crente. As palavras tão solenes, “Fagulhas vitais de chamas celestiais”, e a melodia em tom menor, estranhamente apropriada, enchiam aquele cubículo de uma beleza impressionante, quase palpável. Isso perturbou Angela de tal modo que, em um ato de pura autodefesa, foi para a cozinha e comeu sua parte do jantar, agora frio, preparado pela mãe. Mas Mattie, embora nunca tenha cantado essa canção, permaneceu enquanto o marido e a filha o faziam. Não tinha temor pela morte triunfante e poderosa. Era inevitável, ela sabia, mas nunca teria que enfrentar sozinha. Quando o marido morresse, Mattie morreria também, tinha certeza; e se a morte viesse para ela primeiro, demoraria pouco até que Junius esticasse a mão e a guiasse por todos os lugares estranhos e difíceis, exatamente como anos atrás, quando ele fora cocheiro da atriz para quem ela trabalhou. Ele estendeu sua mão boa e honesta e a salvou de uma posição perigosa e equívoca. Ela, tomada pela lembrança, enxugou as lágrimas de felicidade e gratidão.

― O mundo retrocede, desaparece ― cantou Virgínia. Mas não importava o quão longe fosse, desde que os quatro estivessem juntos; e eles sempre estariam, o pai e a mãe, ela e Angela. Com a imaginação, Virgínia os viu avançando infinitamente para o espaço; lá estavam seus pais, de braços dados, e ela, mas naquela e em outras noites, não pôde ver Angela. Doía-lhe perder a irmã de vista assim; Virgínia sabia que Angela devia estar ali, no entanto, por mais que tentasse, não conseguia encontrá-la. E então, de repente, Angela estava lá de novo, mas uma Angela diferente, não exatamente a mesma que imaginara.

De repente, Virgínia percebia que estava fazendo quatro coisas ao mesmo tempo, e todas, com todo o esforço que podia reunir: cantava, tocava, procurava por Angela e ficava de luto porque sabia que a irmã que conhecia havia se perdido para sempre.

― Oh, Morte, oh Morte, quando dará seu golpe! ― O hino terminou triunfante. Virgínia e o piano, como sempre, um pouco à frente de Junius, o que era sempre engraçado.

― Onde está Angela? ― perguntou, e sabia qual seria a resposta.

― Estou cansada, mamãe! Acho que vou para a cama.

― Você deve ir. Acordou cedo e até agora não parou.

Depois de dar um beijo de boa noite nos pais, Virgínia subiu as escadas devagar, com todo o seu ser tomado pelo arrebatamento fervoroso, embora delicado, do dia.