Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI

Capítulo VI

Este impressor, ainda em 1567; isto é, no anno seguinte áquelle em que se estabeleceu por sua conta, continuava a dar como séde da sua typographia o mesmo sitio: «detrás de nossa senhora da Palma». Assim se lê, com effeito, no fim da «Chronica do valoroso principe e invencivel capitão Jorge Castrioto», de Francisco de Andrade. Era então já «impressor delrey nosso senhor».

Não continuou, porém, ahi. Do facto ficou testemunho no depoimento de Pero Alberto, flamengo, seu obreiro, que a 5 de novembro de 1571 declarava seu mestre estabelecido no «Arco dos

Carangueijos», se não é Arco do Caranguejo, simplesmente.[19]

A indicação é preciosa, porque nos mostra quem foi o successor da viuva de Germão Galharde, da qual adiante nos occuparemos com tal qual individuação.

 

VI

 

Ao «imprimidor» Marcos Borges seguem-se, no codice que estamos examinando, os seus dois confrades Manoel João e Francisco Corrêa, encontrados, este na freguezia de Santa Justa, aquelle, na de S. Christovão.

É Manoel João o primeiro, e delle e da sua actividade industrial vamos dar os breves respigos por nós colhidos nas duas interessantes e eruditas monographias de Tito de Noronha—A Imprensa Portugueza, e Ordenações do Reino, ambas referidas ao

seculo XVI.[20]

Manoel João exerceu a sua arte entre os annos de 1565 e 1578. Destes quatorze annos, porém, os dois primeiros occupou-os o impressor em Lisbôa, transferindo-se após a Vizeu, onde trabalhou durante os seguintes déz. Em 1576, provavelmente, Manoel João terá voltado a esta capital, publicando nella, datados deste mesmo anno, os Diesisiete coloquios, de Baltazar Collazos. De 1578 em diante, desapparece.

Deverá ter sido limitada, e pouco sortida, a actividade industrial deste impressor, accrescendo que as obras sahidas do seu prélo não se distinguem por perfeitas. Para o facto concorria tambem o cançado tipo de que dispôs, e o papel em que imprimiu. A decadencia da Arte começava a accentuar-se.

Dos dois primeiros annos do estabelecimento de Manoel João em Lisbôa conhece-se, impressa no anno de 1565, a 4.ª ed. das Ordenações do Reino, dada a lume, como as anteriores, por

mandado régio [21]. Esta edição foi feita á custa do livreiro Francisco Fernandes, e será o mesmo que referimos no Cap. II ter encontrado estabelecido na «Travessa da porta travessa da Madalena»; isto é, por perto da actual calçada do Correio Velho.

No anno seguinte dava o nosso impressor a lume a segunda edição da Primeira Parte da Chronica dos Menores, como lembrámos em uma das notas do Cap. IV. A esta obra seguiu-se a Oração na trasladação dos ossos de Affonso de Albuquerque, e depois os Artigos das Cizas, edição geralmente desconhecida de nossos bibliographos, e de que Tito de Noronha menciona tres exemplares;

o da livraria de Lord Stuart, e os de dois amadores do Porto[22].

Em Vizeu, onde Tito conjectura se estabelecera Manoel João, a convite do bispo D. Jorge de Atayde, deu este impressor, em 1569, o Compendio de Confessores, e no anno seguinte as Regulae Cancellariae, de Pio V.

Tal é a noticia abreviada da actividade officinal de Manoel João. Cumpriria agora ver como se exprimiu Bastião de Lucena, o escrivão da voluntaria imposição, graças á qual nos foi possivel ajuntar as poucas noticias que constituem o assumpto de nossas singelas notas, ao lançar no volumoso codice que estamos compulsando, o nome deste impressor entre os fintados da freguezia de S. Christovão. Antes, porém, importa que o benevolo leitor nos consinta um breve relance á topographia lisbonense, da epoca a que pertence o interessante Livro do Lançamento que temos examinado. Ver-se-ha não ser sem motivo a digressão.