Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI

Capítulo VII

 

Quem percorrer as tão bem ordenadas listas da viação pública parochial lisbonense, impressas no Summario de Christovão Rodrigues de Oliveira, com as suas tres categorias de becos, ruas e travessas perfeitamente distinctas, e os seus sessenta e dois «Postos que nam sam ruas», onde o auctor, ou os que taes listas organisaram, accommodam os «sitios», os adros das parochias, os arcos, as varandas, os terreiros, ficará de todo illudido, se cuidar que tudo na vida administrativa de Lisbôa se passava com regularidade tão exemplar, em pleno seculo XVI, que todos os habitantes da famosa cidade lhe conheciam as vias públicas, destrinçando-as umas das outras, como hoje o fazemos, por suas exactas denominações e categorias, sem ser preciso designa-las por signaes, ou auxiliar-se de referencias mais ou menos complicadas, para lhes descreverem a marcha itineraria.

A prova de que tal regularidade não passou dos «roles» que os parochos de Lisbôa ministraram ao guarda-roupa do Arcebispo, por ordem deste, e Christovão fez imprimir após as noticias que ía dando das differentes freguezias, está neste codice que temos manuseado, e de que vamos dando noticia a nossos benignos leitores. No breve espaço dos quinze annos que medeiam entre a data que é costume attribuir á curiosa obra do solícito famulo do prelado lisbonense, é o Livro do Lançamento, do Archivo Municipal (1551-1565), um grande numero de vias públicas de todas as tres categorias se haviam aggregado ás quinhentas e vinte e uma, de que o Summario pretende dar a conta, não em somma total, mas

em sommas parciaes, referidas a cada qual das tres categorias[23].

Estava no seu auge o facto que a Miscellanea de Garcia de Resende commemora;

«Lisboa vimos crescer

Em povos e em grandeza.

E muito se nobrecer

Em edificios, riqueza».

Lisbôa desenvolvera-se a olhos vistos, e uma nova remodelação do territorio parochial, divisão unica, de tal qual regularidade por então em vigor, e essa mesma mais para o ecclesiastico, do que para o civil, estava imminente. Ora, desde o 1.º de janeiro de 1560 que a freguezia de «Santa Catharina do Monte Sinay» encetava, pelo funccionamento da sua parochia, a série de providencias, que o Cardeal Infante resolvera promover, para instituir mais cinco freguezias na cidade, recortando-as no territorio das vinte e quatro já existentes, segundo lembrámos no começo destas singelas Notas.

Pois bem: cinco annos depois de ter começado a funccionar esta parochia, ainda a grande maioria das vias públicas que lhe sulcavam o territorio carecía de denominações, ou os lançadores, freguezes nella, e que haviam formado os roes da voluntaria derrama, lh'os não conheciam.

A calçada [24] do Congro ahi figura já, na verdade, substituindo se á denominação bem mais pictoresca de que dispusera, de calçada da Boa Vista, no tempo em que, seguindo os roes de Christovão, a vemos mencionada na freguezia de Nossa Senhora do Loreto, cujo territorio, já no começo da segunda metade do seculo XVI, alcançava até o «Valle das Chagas». Nascera igualmente a «Rua do Conde», que em nossos dias mandaram appelidar «Travessa do

Caldeira» [25], a «Bica do Bello», de 1551, apparece já em 1565 com a denominação com que ficou, de «Rua da Bica de Duarte Bello», Fernão Rodrigues de Almada dá o seu appelido á rua que ainda agora conserva tal nome, proximo á antiga «Cruz de Pao», desde 1885, «Rua do Marechal Saldanha».

Em compensação, porém, os roes dos sacadores falam-nos de 4 ruas que «vão das Chagas para Santa Catharina», assim como de 2 outras que «vão por detrás de Santa Catharina, uma para a Costa, outra para o Valle», e destas seis não é em nenhuma maneira facil fixar a situação. Por outro lado, se conjecturamos que a «rua dereita [~q] vai p'la calçada do congro abaixo» seja a actual rua do Sol, a «rua da Cruz para Santa Catharina» a actual rua do Marechal Saldanha, a «rua que vai da cruz da esperança para as casas de Christovão de mello» a actual rua dos Mastros, e assim como estas, outras ruas ou travessas, apenas indicadas por informações, nem sempre estas, se se pretendesse fazer um estudo comparativo local, seriam faceis de precisar.

Ora, consoante a taes exemplos, tirados, aliás, do territorio parochial de uma freguezia incipiente, muitos outros se offerecem neste codice, dispersos por diversas freguezias, e até por algumas das mais antigas.

Mas não é só isto. Palpita-nos que certas vias públicas das listas de Christovão passaram a ser indicadas por differentes designações, o que se explicaria pela decadencia da respectiva determinante. Exemplos deste facto ha-os, até bem mais recentes. A calçada de Damião de Aguiar, do seculo XVII, passou a ser denominada «calçada do Lavra» (aliás Lavre), quando os Lopes de Lavre, do Concelho Ultramarino, vieram, pela infallivel lei das renovações, e consequentes substituições, a entrar na posse do palacio e ermida que haviam pertencido áquelle desembargador; construcção que fórma a esquina esquerda da referida calçada, sobre a rua de S. José. Outra calçada, a de Salvador Corrêa de Sá, trocou o nome pelo de S. João Nepomuceno, quando os religiosos protegidos pela rainha D. Maria Anna de Austria fundaram o seu hospicio, daquella invocação, nas abas occidentaes do monte de Santa Catharina.