Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
Capítulo XX
Estava, pois, Antonio Gonçalves estabelecido já em setembro de 1566, isto é, dois annos mais cedo, do que o que lhe suppôs Tito de Noronha, na tabella com que enriqueceu a sua tão valiosa monographia A Imprensa Portugueza durante o seculo XVI.
É evidente que o auctor se governou, para a inscripção da data «1568», pela data do primeiro livro que se conhece, sahido dos prélos deste impressor;—as obras poeticas de Cadaval Gravio. (Pag. 82). O facto, porém, corrobora o asserto já por nós enunciado nestas Notas; convem a saber: que hemos de convencer-nos, todos os que perlustramos estas materias, que, assim como a nenhum habitante da Terra será jámais permittido ver a outra face do globo lunar, assim nos está vedado, e aos que depois de nós vierem, o descortinar quantas obras, e quaes assumptos vieram a lume, só no seculo XVI que seja, em Lisboa, que para sempre de nós e dos porvindouros ficarão ignorados.
É provavel que Antonio Gonçalves continuasse a residir na Costa do Castello, e ahi mantivesse egualmente a sua officina, até passar a melhor vida. Nestas afastadas eras, o inquilinato ainda tinha mui fracas as azas. Voejava pouco, e com pouco se contentava. Ahi onde se constituia familia, ahi onde se ganhava a vida, ahi se criavam affectos; ahi se lançavam raizes. Na mesma parochia, onde marido e mulher uma vez se desobrigavam, até o ultimo dia da vida se ficavam desobrigando. N'ella recebiam a agua lustral do baptismo, n'ella se casavam, n'ella continuavam a prole. Depois, no chão sagrado que todos os fieis pisavam, vindo adorar a Deus, tinham todos, quantas vezes de geração em geração!—o proprio e final encerro.
Pela nota com que fechamos, emfim, estes singellos apontamentos, que um acaso nos permittiu redigir, se verá desde quando e até quando se conhecem impressões sahidas da officina de Antonio Gonçalves, e quaes as obras que se sabe terem sido objecto d'ellas.
Não esqueça referir que a officina de Antonio Gonçalves foi avaliada em 5$000 réis, pagando o futuro impressor dos L o escote
de 35 réis para as necessidades da corôa.
A 26 de abril de 1567 deram os honrados sacadores do «Quatorzeno Rol da Freguezia de Santa Justa» por finda a sua tarefa, entregando, com a nota de 239 addições cobradas, ao Thesoureiro da Cidade, André Luiz, recebedor do dinheiro deste Lançamento, a quantia de 26$476 réis, em que ellas importaram, jurando aos Santos Evangelhos terem procedido como homens de bem.
Eis a Nota das impressões conhecidas, sahidas dos prélos de Antonio Gonçalves, redigida por simples apontamentos, por se não ter prestado a occasião a uma minuciosa e integra descripção bibliographica das que será ainda possivel ver.
1568 — Pythographia e Brachyologia—Poemas publicados por
Cadaval Gravio, segundo Tito de Noronha, in A Primeira Edição dos Lusiadas, pag. 82.
1569 — Constituições Extravagantes do Arcebispado de Lisboa (3.ª
ed.)—aos 7 dias do mes de Fevereiro. Mencionadas por Innocencio, Diccion, Tom. II, 105.
» — Leis extravagantes collegidas e relatadas por mandado do
muito alto e muito poderoso rey D. Sebastiam, nosso senhor, por Duarte Nunes do Liam.—Innoc. II, 210.
1570 — Repertorio dos Tempos. Visto por nós na Sala dos
Reservados da Bibliotheca Nacional—B—11. Tem o frontispicio dois annos após empregado pelo mesmo impressor in L , de Luiz de Camões. Material que
pertenceu a Germão Galharde.
1571 — De Rebus Emmanuelis, do Bispo D. Jeronymo Osorio. Cit.
por Innocencio—Letra J. pag. 272.
1572 — O L —por Luiz de Camões. Frontispicio que
pertenceu a Germão Galharde—(Pelicano tendo o pescoço
voltado para a esquerda do leitor).
1572 — Primeira Parte do Compendio da Chronica da Ordem... do
Monte do Carmo, por Fr. Simão Coelho. Deve cotejar-se a noticia de Innocencio com a descripção impressa no Catalogo n.º 7 da Livraria de José dos Santos & Irmão.
1573 — Commentario do cêrco de Goa e Chaul, &—Ha um
exemplar na Livraria da Torre do Tombo.
1574 — Successo do Segundo Cêrco de Diu, de Jeronymo Côrte-
Real.—Ha um exemplar entre os Reservados da Bibliotheca Nacional, mas não chegámos a vê-lo, por falta de occasião.
» — Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia
portuguesa, por Pedro de Magalhães de Gandavo. Informações de Innocencio, pois se não conhece exemplar algum.
1576 — 1576—Historia da provincia de Sancta Cruz, &, pelo
mesmo auctor supra-citado. É util ler a informação de Innocencio, ácerca deste rarissimo livro.
Por muito satisfeito nos daremos, que esta Noticia logre alcançar o agrado de nossos consocios, mais certos leitores que ella poderá ter. Por sua especial bondade nos relevarão elles, de certo, as deficiencias que se nella notarem, antes filhas da mingua de recursos, do que da falta de boa vontade em alcançar o impossivel; —dá-las completas.