Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
Capítulo I
Por effeito daquelle regimen, grande numero de vias públicas lisbonenses eram, como ainda hoje o são, compartilhadas por diversas freguezias confinantes. O Summario de Christovão Rodrigues de Oliveira, apezar de imperfeito neste ponto, nos mostra, pela repetição das denominações, que não dos disticos, porque tal providencia estava ainda por nascer, quaes e quantas eram as vias públicas compartilhadas, por effeito da remodelação parochial então vigente.
Comprehendia-se entre as deste numero a muito falada «Rua Nova», dividida em dois troços, um mais antigo que o outro; um, o primeiro, fazendo parte do territorio da freguezia da Magdalena, o outro pertencendo á freguezia de «S. Gião» (S. Julião).
Do mesmo modo, esta notavel rua da Lisbôa medieva, que principiando no Pelourinho, ía entroncar na Calcetaria, era conhecida por duas denominações, correspondentes á sua compartilha. Á parte oriental, territorio da parochia da Magdalena, que terminava no Arco dos Barretes, chama Christovão «Rua Nova dos Ferros»; a que desde o predito Arco ía embeber-se na Calcetaria, um pouco adiante do Chafariz dos Cavallos, é designada na relação do Summario, referida á freguezia de S. Gião, pela denominação de «Rua Nova dos Mercadores».
I
É em toda a extensão da Rua Nova, de um e outro lado della, que, mercê de um valioso codice pertencente á Camara Municipal de
Lisbôa [1], nós vamos encontrar, de porta aberta, nos annos intermedios dos já preditos (1565 a 1567), não só alguns dos livreiros e editores já conhecidos dos que conversam o passado literario de Portugal, mas outros tambem, ainda até agora não mencionados.
Começando a juzante da formosa linha de agua com a qual a Rua Nova andava, se pode dizer, parallela, o primeiro que se nos depara é Bartholomeu Lopes, que não deixou de si, que saibamos, memoria averiguada, mas que poderá ser, porventura, membro de uma
notavel geração de livreiros deste appelido;—os Lopes. [2]
Em 1563, isto é, dois annos, apenas, antes do primeiro dos dois a que o codice de onde extractamos estes apontamentos se refere, havia um Christovão Lopes estabelecido «á Porta da Sé», segundo se vê do titulo seguinte, que abreviamos, mas se pode ler completo em Innocencio, Diccion. Bibliog. II, 166:
«Exposiçam da Regra do glorioso Padre Sancto Augustinho... por frey Diogo de Sam Miguel, &—Vendense (sic) á porta da See, em casa de Christouam Lopes Liureyro a dous tostões em papel.—Foy impresso em Lixboa em casa de Joannes Blavio de Agrippina Colonia—Anno de 1563».
Vista a propinquidade dos annos, poderá acaso Bartholomeu Lopes ter sido irmão, ou filho (?) de Christovão Lopes, e seu successor, passando o estabelecimento da Porta da Sé para a Rua Nova, ou estabelecendo-se elle ahi de novo.
É possivel tambem que este mesmo livreiro seja pae do livreiro-impressor Simão Lopes, que deu em Lisbôa, em 1593, a primeira edição do Itinerario, de Fr. Pantaleão d'Aveiro, as Cartas do Japão, etc., e em 1596 reimprimiu a Chronica de D. João II, de Garcia de Rezende.
A seguir a Bartholomeu Lopes, seu visinho, estabelecido, até, nas mesmas casas, tendo ambos por senhorio um tal Jeronymo Corrêa, tinha a sua lojinha Sagramor Fernandes. Era livreiro de modestas posses, a julgar pela avaliação que os «lançadores», para tal effeito deputados, deram á sua fazenda, na proporção de cuja totalidade deveria, como todos, pagar o respectivo escote. O nome baptismal do homem era novellesco, mas as cavallarias, ao que parece, não eram grandes.
A influencia das novellas de cavallaria faz-se ainda sentir em toda a sua pujança no codice que nos facilita esta noticia, imprimindo-lhe um matiz pictoresco e variado.
O nome novellesco do obscuro livreiro não é unico entre os seus congeneres de ambos os sexos, inscriptos neste curioso recenseamento. A par dos Sagramor ha os Lançarote; de envolta com as Ginevras passam as Briolanjas. A procedencia francesa e a italiana, dando-se as mãos. Lançarote é o «Lancelot» francez; Lancelot du Lac, o heroe cavalheiresco de Gauthier Mapp, o amigo de Henrique II de Inglaterra. Sagramor é o «Sagromoro» milanez, que Jorge Ferreira aportuguesou, fazendo-o heroe do seu Memorial; Sagramor Constantino, designado por el-rei Arthur para seu successor, se a sorte das armas lhe fôsse adversa.
Por aproposito, lembraremos a dúvida que Barbosa Machado fez nascer, ácerca da existencia dos Triumfos de Sagramor, novella que, segundo elle, teria sido impressa em Coimbra, em 1554, por João Alvarez, mas de que parece que nem o douto Abbade de Sever, nem, de certeza, o seu successor, o diligente Innocencio, viram jámais exemplar algum. Será esta hypotética novella o proprio Memorial, assim duplicado pelo auctor da Bibliotheca Lusitana? Eis um curioso thema, digno, nos parece, de attrahir a attenção da nossa Sociedade, e a que o artigo de Innocencio (IV, n.º 2095, pag. 170) prestaria a base.
Em compensação, porém, algumas lojas mais adiante do modesto Sagramor achava-se estabelecido o opulento João de Borgonha. Livreiro-editor de nomeada, fornecedor de artigos do seu ramo para a fazenda de S. A., proprietario nas visinhanças do seu
estabelecimento, e em mais de um sitio, [3] os seus teres, como negociante, foram avaliados em «um conto de réis».
Na epoca em que o encontrámos, tinha elle por seu «obreiro», talvez o que hoje chamariamos seu «director-technico», seu administrador ou seu apoderado, a um certo Miguel de Arenas, um castelhano, porventura, como da Borgonha seria, com effeito, o patrão; estranjeiros quasi todos, estes negociantes das letras portuguezas do seculo XVI, que, vindo concorrer com os nacionaes,
faziam, ao que parece, mais fortuna que elles.[4]
Certo é que Miguel de Arenas estabeleceu-se posteriormente, com o mesmo ramo de commercio, de sociedade com João de Molina; tambem, e mais vulgarmente conhecido por «João de Hespanha», outro abastado mercador de livros, mas não tanto como o seu confrade borgonhez. O negocio de João de Hespanha foi avaliado em «duzentos mil réis». Como «obreiro» de João de Borgonha, Miguel de Arenas devia fazer bons interesses. Dos seus ordenados —e foi por esta circumstancia que o suppuzemos empregado superior da casa de seu patrão—foram-lhe arbitrados «cinquo mill
rs», para na razão delles pagar o respectivo escote.[5]
A João de Borgonha segue-se, nas tendas de Alvaro de Moraes, o livreiro Manoel Carvalho, provavelmente o pae de Sebastião Carvalho, que em 1598 publicou, em 3.ª edição, a Recopilaçam das cousas que conuem guardarse no modo de preseruar a Cidade de Lisboa, instrucções redigidas em 1569 pelos medicos Thomaz Alvarez e Garcia de Salzedo Coronel, e repetidas na primeira das datas a que acima nos referimos, «por mandado da cidade de
Lisbôa», &.[6] Sebastião Carvalho conservaria assim na mesma Rua Nova o estabelecimento paterno.
Apresentam-se, logo em seguida a Manoel Carvalho, Diogo Machado, João Lopes e «Graviel» de Araujo, dos quaes não viramos ainda noticia, antes que o codice que lhes revelou a existencia no'los désse a conhecer. Ao ultimo destes segue Diogo Moniz, que por ter apresentado carta de familiar do Santo Officio, foi escuso do escote. Porfim, e quasi no extremo da parte da rua pertencente á freguezia da Magdalena, o «Grafeo», isto é, o livreiro-editor Francisco Grapheo, em cujo estabelecimento se vendia a