Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI

Capítulo XIV

 

Quando Germão Galharde falleceu, andava-se imprimindo na sua officina a quarta edição do «Reportorio dos Tempos em linguajem portugues».

Este Repertorio, composto pelo saragoçano André de Ly, fôra vertido em linguagem, com addições, por Valentim Fernandes, que dedicou a traducção a Antonio Carneiro, secretario do rei D. Manoel.

Ora acontece—e n'este passo se patenteia quão arriscadas são affirmativas peremptorias em especies tão dubitativas—; acontece, íamos dizendo, que em Documentos para a Historia da Typographia Portugueza, impressos em 1888, affirmou o tão sabedor Deslandes «não ser conhecido exemplar algum da impressão d'este Repertorio feita por Valentim Fernandes, comquanto se deva ter por certo que a houvesse dado á estampa em sua vida.»

—Que veiu a dar-se então?—Veiu a dar-se facto igual ao succedido com o exemplar do Testamento da Infanta D. Maria, impresso em 1610, e que o catalogo da Livraria Fernando Palha, ao descrever o exemplar que aquelle bibliophilo possuía declara «seul exemplaire connu d'une pièce non citée par les bibliographes».

Succede, porém, que em 1907, percorrendo nós um Inventario de Codices adquiridos pela Bibliotheca Nacional, publicado no Boletim das Bibliothecas e Archivos, N.º 1—3.º anno, 1904, depara-se-nos a menção de certo Codice da Coll. Vimieiro, em cujo miôlo viémos a encontrar um exemplar do predito Testamento, da mesma edição de 1610!

Tal achado annulou, por conseguinte, o privilegio de «seul exemplaire connu...», attribuido pelo catalogo sobredito ao exemplar que descreveu!

Ao diligente bio-bibliophilo Deslandes outro tanto acontecera. Não lhe fôra dado conhecer a bibliotheca do curioso architecto José Maria Nepomuceno, e eis que, fallecido este, divulga-se em 1897 o catalogo da famosa livraria de que era possuidor intelligente. Ora, sob o N.º 683, ahi appareceu minuciosamente descripto um exemplar do Reportorio dos tempos, que «posto não traga indicado o logar da impressão, nem o anno, se póde quasi affirmar ter sido composto em Lisbôa, e no anno de 1518, por isso que as taboas (astronomicas) indicam começarem «no presente anno»,—o predito.

E já agora, observaremos que, sendo este Reportorio, como no rosto indica, «trelladado e empremido por Val[~e]tym fernãdes alemam», está n'estes termos implicito o testemunho formal de que o celebre impressor, contra o que julga Tito de Noronha, in O R , ainda cinco annos após o de 1513 era vivo, e exercia a arte.

 

Por voltar a Germão Galharde, sabe-se que por A. de 17 de março de 1539, lhe foi outorgado privilegio de déz annos, para imprimir de novo o Reportorio de que se trata. Deslandes, porém, affirma, e d'esta vez ainda não se apresentou facto que o contradiga, não conhecer, nem lhe constar que outrem conhecesse, exemplar algum da impressão d'este livro, tirada durante os déz annos do mencionado privilegio.

Declara, comtudo, em contraposição, ter visto exemplares sahidos da officina de Galharde em 1521 e 1528; edições estas que não andam notadas por nossos bibliographos.