Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
Capítulo XVI
Como quere que sêja, vamos ver agora como se chegou a presumir que a typographia de que temos tratado haja sido no Arco do Caranguejo.
XVI
Fallecido Germão Galharde, procedeu-se a inventario, sendo Anna Picaya nomeada «titor» de seu filho Antonio. Concorriam mais filhos, já maiores, á herança? Eis o de que não ha certeza. Das quatro obras unicas de que nos restam exemplares, sahidas da officina do extincto, após a morte deste, tres dizem-se impressas «em casa da viuva molher que foi de Germão Galharde.» No titulo e subscripção da quarta, porém, segunda na ordem chronologica da impressão, lê-se:
«Lvdovicae Sigaeae | Tvmvlvs | ¶ L. Andrea Resendio | Auctore | ¶ Apvd haeredes Germani | Galiardi. An. | MDLXI | ¶ Olyssippone | ¶ Venalis apud Iohannem de Borgo | Regium Bibliopolam, in vico
nouo [47] .»
Ora, esta excepção, «haeredes», que aliás não resolve a dúvida, por isso que realisado o casamento de Galharde «á moda do reino», co-herdeira com o filho menor era a viuva, meieira na casa, parece-nos ter sido muito de proposito empregada naquelle impresso por motivo que a occasião tornava perfeitamente plausivel. Corria por esse tempo o inventario seus termos, e habilitavam se á herança do chefe da familia a sua viuva e o filho menor. A expressão haeredes, posta na subscripção do Elogio, de Mestre André de Resende, em 1561, era, portanto, de todo o ponto bem cabida; exprimia a situação de ambos, como inventariantes e como industriaes. Por isso se empregou.
Quando os saccadores, em desempenho do seu cargo, convidaram a viuva impressora a entregar-lhes a importancia do escote que lhe coubera na voluntaria imposição, (entre 15 de fevereiro e 31 de outubro de 1566) pagou ella, sem repugnar, os 455 rs. em que foi fintada. Especie de contribuição extraordinaria de maneio, a que só escapavam os privilegiados;—familiares do Santo Officio, servidores de S. A. e quem quer que tivesse armas e cavallo, e «jogasse lança
de dezoito palmos para cima» [48],—era para todos os mais a commum sorte; não havia fugir-lhe.
Mas, fechara-se, emfim, o inventario, julgara-se a partilha, e liquidou-se o que vinha a tocar ao menor; a sua legitima. Importava em «cincoenta e nove mil, quinhentos e vinte e dois réis». Havia mais orphãos em semelhantes circumstancias. A provisão de S. A. beneficiava-os, para os effeitos da voluntaria derrama, com o desconto do «terço» do valor total apurado, para que sobre o remanescente recahisse o talho. Anna Picaya, tutora de seu filho, teria de pagar por elle «duzentos e oitenta réis». Reclamou. Agora, não era a obrigação do estabelecimento; era a legitima do orphão, despiedada,—provaria até—illegalmente desfalcada. O menor Antonio Galharde era filho de um homem que durante mais de quarenta annos tinha prestado assignalados serviços ás letras do país que adoptara por patria. Os seus prélos não tinham gemido só em serviço de quantos praticavam a nobre arte de escrever, senão que tinham tambem trabalhado para a corôa. Antonio Galharde era
filho de um «official impressor da casa real» [49]; a isenção de que seu pae, se vivo fôra, gosaria, porque não mandava S. A. que aproveitasse ao filho menor?
Que S. A., pois, «inclinasse por um pouco a magestade.» Á triste viuva, sobrecarregada com os encargos da tutella e ao filho orphão devia-se-lhes contemplação. Ambos receberiam mercê no favoravel despacho com que S. A. se servisse attende-los.
E se isto assim se passou, pode affirmar-se que a «titor» do menor Antonio Galharde venceu! No traslado da certidão do orphanologico que baixara aos encarregados da cobrança, e foi lançado a fl. s 685 e segg., do Livro do Lançamento, riscou-se a designação do escote, escripta na margem esquerda, averbando-se na direita a significativa cota, constante do proprio documento remissor que segue:
«ORFFAÃOS»
«T o Dos orfãos que Johão Do sal escrivão Delles Mandou a esta cassa do lançam. to per sua sua certidão»
«It Ant. o filho de Jermão Galharde Imprimidor tem de ligitima cinquoèta e noue mill e quinhètos e vinte e dous rs abatido o terco
paguara dozètos e oytenta rs e sua titor [50] or Ana Picaya sua may m
ao arquo do cangreijo»
A margem direita do livro está escripto: «abatido p.la provisão de S. A. não vay a Rol»
Parece, pois, poder concluir-se do teor desta certidão que a casa que Germão Galharde possuia, e onde residia e tinha a sua officina typographica, era ao Arco do Carangueijo, isto é, no extremo N. da rua deste nome, para além da actual rua das Pedras Negras, partindo em linha obliqua do começo da travessa do Almada. O chanfro existente no cunhal posterior do predio que faz face ao Largo da Magdalena, do lado de L., e que todos podem notar, é quanto resta do Arco de Dona Thereza, de onde ascendia para o N. a «Rua do Arco do Carangueijo.»