Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
Capítulo X
Ao percorrermos no Livro do Lançamento o «3.º rol da freguezia de Santa Justa», ahi se nos deparou a «Rua de Valverde», e nella, como 16.º contribuinte:
«Francisco corea [~e]presor [~e] casas de margaida de matos avaliado [~e] seis mill rs paguara Rij rs.»
O rol a que nos referimos teve começo na rua que ía do mosteiro de S. Domingos para a Porta de Santo Antão. Comprehendia a rua do Chafariz do Rocio para a Mancebia, a que ía da estrebaria del-rei ao longo do muro para a Porta de Santo Antão, a «rua do beco» do chafariz do Rocio, e finalmente, a rua de Valverde, que laborou, provavelmente, parte da actual Praça dos Restauradores, da banda do S., e vindo imbeber-se, talvez, na rua de Mestre Gonçalo, isto é, no terreno da rua do Principe, e por perto da actual calçada do Duque.
Para o seguinte estudo, a viuva de Germão Galharde, a que acima alludimos, e o glorioso impressor da primeira edição dos L ,
Antonio Gonçalves.
X
Vamos folheando o volumoso recenseamento, onde colhemos as informações que temos transmitido a nossos benignos leitores, e achamo-nos agora em face do 7.º e ultimo rol da freguezia da
Magdalena [30].
Começam os sucintos apontamentos itinerarios dados neste rol aos sacadores encarregados da cobrança das voluntarias fintas, pela: «Rua Dos torneyros [~q] travessa para as pedras negras pela rua de
Ilusuarte Peris[31] aate a rua drt. da Costa».
Não ocorreu ao escrivão desta derrama, escrevendo para comparochianos, conhecedores como aos seus dedos de todas as enredadas arterias da sua freguezia, que alguns seculos depois, compatricios seus viriam que tivessem interesse em perceber, mais do que as suas garatujas pictorescas, as suas abreviadas, e até menos exactas indicações do territorio parochial a que se referiam!
Se tal, com effeito, se houvera dado, não só Bastião de Lucena não estabeleceria, contra a exacta nomenclatura local, que a rua dos Torneiros atravessava para as Pedras Negras, vertendo assim uma confusão de desnortear na compartilha parochial, mas não sacrificaria á extrema concisão que adoptou a precisa clareza, para sabermos agora a que via pública, entre as comprehendidas na sua abreviada indicação, viria a pertencer o 35.º lançamento, dos 38 lançados sob o correspondente enunciado, e que é o seguinte:
«It A molher de germão galharde [~e]primidor em casas suas
avaliada [~e] settenta mill rs paguará i i i j c l v rs [32] ».
Com effeito, uma vez que se nos deparára aqui a viuva do celebre impressor francês, que tanto realce deu á typographia lisbonense do XVI.º seculo, e tão util foi ás letras portuguesas destas afastadas eras, bem natural fôra que desejassemos precisar o sitio, a rua, a travessa ou beco onde a digna matrona residisse. O mesmo seria que ficarmos sabendo precisamente onde seu defuncto marido terá tido a sua operosa officina.
A difficuldade, porém, mostra-se insuperavel, ainda quando reponhamos, até, em seu logar a desfigurada topographia local, e se, posteriormente, nenhum outro indicio nos não fizer suspeitar onde possa ter estado estabelecida esta tão interessante imprensa, teremos o desgosto de nos contentarmos, á semelhança do que nos aconteceu, tratando de Manoel João, com as vagas indicações que ficam expressas.
Procurando formar idéa da ordem que presidiu á elaboração dos roes desta freguezia, concluímos que os lançadores adoptaram a orientação topographico-descriptiva do sul para o norte, isto é, das muralhas marginaes da cidade para cima; «Rua Nova dos Ferros», «Porta d'Erva» e «Porta da Ribeira», «Carnaçarias Velhas», «Pelourinho», «Misericordia», «Rua do Principe», «Rua da Ferraria Velha, por detrás da Conceição», «Cristaleiras», «Rua dos Fanqueiros», «Rua dos Corrieiros de obra grossa e delgada», &, &. Todos estes sitios, todas estas vias públicas entram nos seis anteriores roes, com outras que, por abreviar, se não mencionam. Este 7.º rol comprehende, portanto, a zona alta da freguezia, e dentro delle observa-se disposição igual á que se adoptou para os anteriores.
Se bem entendemos, pois, o breve apontamento de Bastião de Lucena, havia na freguezia da Magdalena uma via pública, uma viella, como tantas outras deste tempo, que, partindo de qualquer ponto, por agora indeterminado, atravessava, mas não directamente, para as Pedras Negras. A travessia fazia-se com o auxilio da rua de Ilusuarte Peris. Portanto, o que se queria indicar aos sacadores, é que, principiando as suas visitas pela tal via pública, erradamente classificada e denominada «Rua dos Torneiros», e continuando-as pela rua de Ilusuarte Peris, que se lhe seguia, fôssem indo até alcançar a rua direita da Costa, nesse tempo, como agora e sob a denominação de calçada do Correio Velho, limite léste da predita freguezia. Uma vez chegados áquella rua, os sacadores, conforme se deprehende da continuação da leitura deste 7.º rol, descê-la-íam, entrariam na rua do Arco de Dona Tareja; isto é, retrocederiam para Oeste, e desta rua continuariam o seu itinerario por onde já nos não importa segui-los.
Está tudo muito bem, menos uma circumstancia importante. Não houve em Lisbôa, em tempo algum, nenhuma «rua dos Torneiros», nem na freguezia da Magdalena, nem em nenhuma outra freguezia da cidade. Existiu, sim, a «rua da Tornoaria», mas essa pertencia á freguezia de S. Nicolau. Passava pela parte posterior do edificio parochial deste orago, e era, por conseguinte, o mais septemtrional dos successivos tramos em que se fraccionava a longa, e em parte alcantilada via pública que ligava uma á outra as duas sédes parochiaes.
Para se ir da Magdalena a S. Nicolau, haveria de percorrer-se a Correaria, a Fancaria, a Tornoaria, e ainda quando se quizesse admittir que os lançadores, e Bastião de Lucena com elles, haviam chamado «rua dos Torneiros» á rua da Tornoaria, daqui se vê que tal rua não podia ser compartilhavel entre a freguezia de S. Nicolau e a da Magdalena, como o não eram as suas duas parceiras, a Correaria e a Fancaria.
Temos, pois, de recorrer ao S , de Christovão Rodrigues de
Oliveira, para destramar a meada.
Em boa hora o fazemos, porque a via pública que o solicito guarda-roupa do arcebispo D. Fernando nos aponta como situada na freguezia da Magdalena, em 1551, é a «travessa dos Torneiros». Ora, é evidentemente tal «travessa» aquella a que se referem os lançadores, porque partindo, cá em baixo, da Tornoaria, em sentido transversal para L., galgava a barreira que separava o valle da Baixa das cumiadas que iam terminar na Alcaçova, e surdindo muito proximamente no local fronteiro á actual Travessa das Pedras Negras, ía soldar-se á Rua de Ilusuarte Peris. Cumpre, no emtanto, advertir que o sitio que no seculo XVI.º deu origem á denominação «Pedras Negras» não era precisamente onde se rasgam, pela planta Pombalina, a rua e a travessa d'esta denominação, e que a rua de Ilusuarte Peris, ou desapparecera nos provaveis aspectos diversos que o sitio apresentou entre os seculos XVI.º e XVIII.º, ou se conservava ainda, acaso, ás vesperas do terremoto de 1755, mas com differente denominação; o que não seria de extranhar, como já observámos. As «Pedras Negras», como era o sitio a que deram o nome, anteriormente ainda ao seculo XVI.º, póde vêr-se a configuração provavel que tiveram em mais escuras eras, na planta que acompanha a obra valedora do sr. Vieira da Silva:—A M R L .