Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
Capítulo XIX
das duas que trazem a data de 1572, a que apresenta o Pelicano frontispicial com o collo voltado para a esquerda do leitor.
XIX
A 17 de setembro de 1566, Manoel Affonso, atafaneiro, morador ao Poço do Ceitil e Jeronymo Gonçalves, serralheiro, morador na rua dos Cavalleiros, escolhidos para sacadores do «quatorzeno» rol da freguezia de Santa Justa, receberam nos Paços do concelho desta «mui nobre, sempre leal cidade de Lisboa», onde se tratava de dar execução ao Regimento da cobrança do voluntario imposto a que nos temos referido, as competentes copias do predito Rol, e trataram de avial-as.
Deviam começar, como vimos, da extrema superior da «Rua do Poço do Ceitil,» que desembocava, segundo dissemos, proximo do Baluarte de S. Lourenço, pela parte posterior do Postigo da Cerca nova, sendo a primeira do «trezeno» Rol.
Percorrendo toda a rua até o Postigo de Santo André, voltavam os dois sacadores para a calçada desta denominação, internavam-se na Rua da Amendoeira, davam volta á travessa desta rua, que lá vimos ainda hoje, e sahindo pela rua das Tendas, que parece não lográra ainda um qualquer nome, vinham á dos Cavalleiros, findando-lhes a tarefa no «Beco de Thomé Correa»; um beco sem sahida, de nossos dias chamado Beco do Forno, primeiro á esquerda naquella rua, indo da Mouraria, e que tem lá, não sabemos porque bullas, advertencia de ser «logradouro particular»(!).
Acompanhemos os honrados exactores na sua perigrinação pela rua que ía do «Baluarte de Sam Lourenço ao Postigo de Santo André». Despedir-mo-nos-hemos ahi d'elles. O que deste Postigo por diante haveriam de fazer não nos interessa. Depois veremos, por simples curiosidade, qual foi o importe da sua cobrança na area que lhes fôra designada.
Por agora, attentemos um momento na feição da discutida via publica lisbonense, como ella parece ter sido no 2.º semestre do anno de 1566.
Devia apresentar, ao menos por partes, mais largura do que hoje vemos ter, posto que não se avantajasse grandemente, neste particular, ás convisinhas. Muito mais desafogada era ella, por certo, do que é hoje.
Ao longo da sua margem direita, indo para Santo André, e até alcançar-lhe o Postigo, 21 propriedades, se a tal classificação poderiam aspirar as modestas casinhas que se iam encostando á barbacã do Castello, tendo na sua frente uma larga perspectiva panoramica, de surprehendente effeito. Da esquerda, a ondulada ribanceira, por onde, ainda 35 annos antes, se espreguiçava a miseranda Villa Quente, até ir topar com a cêrca do Colleginho. Lá quasi ao começar o forte declive que, tal qual hoje, terminava a rua, o postigo aberto na muralha por onde se começava a subir para o do Moniz. Diante d'elle, atravessada no caminho, a cruz de pao, demarcatoria nos titulos do Tombo municipal. Por ahi perto, talvez, sempre da esquerda, algum pequeno grupo de casinhas, restos da subvertida povoação. Após, os declives sobre os quaes se levantou, no seculo seguinte, o palacete que assenta no espigão da calçada de Santo André.
Isto, quanto á topographia local.
Vejamos agora quanto respeita ás construcções, e, porfim, aos que as habitavam.
As 21 casas da margem direita, que a rua contava pertenciam a outros tantos proprietarios. Destes, 12 habitavam nas proprias casas, ou sós, ou tendo inquilinos. De todos os 21, o senhorio mais importante, era o clerigo Francisco Dias. O seu predio—algumas barraquitas, provavelmente—alojava 9 inquilinos, entre os quaes, 2 cegos. De consideração, na ordem social, Joanne Fernandes, moço da camara da Infanta D. Isabel, tendo na loja por inquilino um «sapateiro remendão». Joanne Fernandes morava nas proprias casas de que era dono, e foram-lhe avaliadas em 30$000 réis. Pegado ao postigo de Santo André, não esqueça o nosso conhecido magistrado Affonso Figueira, e confrontando com elle, o Ambrosio Luiz, que superintendia na imposição dos vinhos. Algures, ali perto, um Joanes, cantor de el-rei, que nem por ser tal, se esquivou ao escote. Fecham a lista três senhoras do appelido Viegas; Filippa, Antonia e Anna.—Tres irmãas?—Que sabemos nós? Os predios das duas primeiras, avaliados em 50$000 réis cada um, obrigaram-nas a 350 réis de contribuição. As casas de Anna Viegas,—coisa parecida, é mais que certo—com as barracas do Padre Dias, foram computadas no dobro; em 100$000 réis, e por isso teve de pagar 700 réis.
O predio devia valer a somma em que foi avaliado. Alem da senhoria, habitavam n'elle mais 6 inquilinos; 3 varões e 3 femeas, como se diz em estatistica de população. Entre as femeas, duas eram viuvas; dos varões, um fallecera ao tempo de chegarem lá os sacadores, outro abalara para parte incerta. O terceiro era typographo;—chamava-se Antonio Gonçalves, e tinha aqui a sua officina. Elle e Maria Luiz, sua mulher, moravam mais abaixo, para o lado de Santo André, no predio do pintor Garcia Fernandes.