Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI

Capítulo XV

Por fórma que, havendo já tres edições conhecidas do Reportorio dos tempos, bem parece que sêja, por ora, capitulada quarta, como o fizémos, a de que se está tratando. Isto, em obsequio ás que se dizem datadas de 1519, bem como á de 1557, citada por Barbosa, das quaes, até agora, não se achou porque se confirme a existencia.

 

XV

 

Foi Anna Picaya que terminou a impressão do Reportorio, objecto do anterior capitulo.

Na Nota[43] infra trasladâmos a competente subscripção.

A seguir a este livro, vem em 1561, editado pelo opulento João de Borgonha, o tão fallado elogio da Sigéa, de Mestre André de Resende; em 1563, nova edição do precioso Reportorio, especie de Diario Ecclesiastico, dos Oratorianos, sem o qual nossos avós do XVIII.º seculo não podiam passar. Finalmente, em 1564, dá ainda a Viuva de Germão Galharde o Exemplo pera bien bivir, de Fernão

Peres de Gusmão, obra acabada a 21 de março do predito anno [44].

D'esta data em diante, até 5 de setembro de 1898, nada mais se soube que se relacionasse com a officina typographica da viuva Galharde. Naquelle dia, porém, publica o dr. Sousa Viterbo, como notámos no fêcho do Cap. V. e correspondente nota, destes Estudos, resumido e commentado, o depoimento, por denúncia feita na Inquisição em 5 de novembro de 1571, do flamengo Pero

Alberto, obreiro de Marcos Borges. [45] Resulta de tal depoimento o ficarem desde então confirmados dois factos; mais proximo um, mais remoto o outro. Pelo primeiro, corrobora-se a existencia da typographia da viuva Galharde em 1563. Este não é essencial. Que a celebre typographia funccionava ainda 1564 já nós sabiamos, e o leitor comnosco. O que tem valôr é o outro facto; o que revela a transferencia da imprensa de Marcos Borges de «detrás de nossa Senhora da Palma» para o Arco do Carangueijo. A indicação considerámo-la preciosa, porque nos indicava quem fôra o successor da viuva Galharde; isto é, porque vinha concorrer, ainda que de modo indirecto, para nos fortalecer na presumpção de que era no Arco do Carangueijo, com effeito, onde vamos dentro em pouco encontrar Anna Picaya, com seu filho menor, que Germão Galharde fundára a officina por elle mantida durante 41 annos.

 

Que terá, porém, succedido entre 21 de março de 1564, data do ultimo livro, conhecido, impresso pela «Viuva Galharde», e 1571, anno em que Marcos Borges nos apparece estabelecido, segundo todas as probabilidades, na casa que ella occupara?

Tudo que é possivel responder, resume-se no seguinte:

Qualquer que haja sido o motivo, o velho estabelecimento typographico pouco mais terá produzido, depois de 1564, sob a gerencia da viuva de Germão Galharde, e se mais alguma obra veiu a lume, após a de Fernão Peres de Gusmão, perdeu-se, como quasi

de certeza outras se perderam, impressas pelo fundador da casa.[46]

Certo é que a meiados de 1566, e contra o que estabeleceu Tito de Noronha, já Antonio Gonçalves, o nomeado impressor da 1.ª ed. dos L , trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do

Carangueijo, com material que pertencêra á officina de Galharde.

Com effeito, do exame comparativo de algumas das obras impressas em uma e outra das duas officinas resulta absoluta certeza que Antonio Gonçalves utilisou frontispicios e letras iniciaes de phantasia que pertenceram áquelle. Já Tito de Noronha deixára notado o facto, em uma de suas tão copiosas quanto instructivas monographias.

Por nossa parte, temos por bem possivel que o 4.º de dez folhas n. n., onde se acha impresso o Auto das Regateiras, de Antonio Ribeiro, o Chiado, e que não tendo segundo Innocencio narra, logar, data, nem nome de impressor, apresenta, comtudo, na portada letras que parece quererem designar Germão Galharde, haja saído da officina de Antonio Gonçalves, applicando-lhe este alguma gravura de frontispicio que haja feito parte do material daquelle impressor.

Não temos, nesta occasião, o vagar preciso para examinar este folheto, que se acha na Bibliotheca Nacional, e pertenceu á livraria de D. Francisco de Mello Manoel da Camara. Acaso do exame resultaria alguma cousa de mais positivo. Seja, porém, como fôr, uma prova de decidir é a propria composição do frontispicio dos L , impressos por Antonio Gonçalves em 1572. As peças que

o compõem pertenceram ao material de Germão Galharde. Esta asserção comprova-se, pondo em conspecto o frontispicio da edição princeps dos L (a do pelicano com o collo para a esquerda

do leitor, bem entendido), e a do Summario, de Christovão Rodrigues de Oliveira, sahido a lume procedente da officina de Galharde, depois de 1551, com toda a certeza, e talvez em 1554.

Já em 1570 Antonio Gonçalves aproveitára este mesmo frontispicio no Reportorio dos tempos, que lhe coube imprimir tambem, edição que a Innocencio parece ter escapado, mas de que ha um exemplar nos Reservados da Bibliotheca Nacional. Este sempre lembrado impressor terá começado por ser «imprimidor-obreiro» do velho typographo francês, sendo bem possivel que se haja conservado na casa, após a morte de seu mestre. Resolvida Anna Picaya a fechar a officina, ou, porventura, fallecida, terá o seu official, disposto a estabelecer-se, uma vez que a casa acabava, comprado os aprestos desta. Tudo parece conciliar-se para acreditar tal supposição.

Mais difficil é o precisar desde quando Marcos Borges terá passado a occupar as casas da viuva, e o motivo que lhe facilitaria o estabelecer-se nellas. Não parece, com effeito, que as duas operações—venda do material a um, e cedencia da casa a outro, se cedencia foi, hajam resúltado da mesma causa;—o desfazer da velha officina. Lembremo-nos que em 1567, isto é, um anno após o estabelecer-se Antonio Gonçalves, como provaremos, ainda Marcos Borges imprimia a Chronica de Jorge Castrioto no mesmo sitio onde começára a sua laboração; «atrás de nossa senhora da Palma». Presumivel será, pois, que Anna Picaya se haja conservado, com seu filho, nas suas casas, após ter acabado com a officina, vindo, porventura, a fallecer depois de 1568, adquirindo—quem sabe?— Marcos Borges a propriedade, e estabelecendo-se nella.