Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI

Capítulo XIII

[40] levando desde então a vida cheia de laboriosa occupação até os provaveis setenta annos, se exceptuarmos os dois que passou em Coimbra, em Lisboa, e, porventura, na mesma casa.

Aonde era ella situada?

Vêr-se-ha n'este estudo se é possivel responder, por presumpções, a tal pergunta.

 

XIII

 

Chamou-se Anna Picaya a mulher do operoso impressor, e se não foi portuguesa, que a não deixa parecer compatriota nossa o appelido, arriscado será attribuir-se-lhe esta ou aquella nacionalidade. Confessemos, emtanto, que se um desengano d'esta ordem pudesse admittir-se por palpite, inclinados temos sempre estado a que Anna Picaya haja sido biscainha.

Casou Germão Galharde moço ainda? Esperou, pelo contrario, a idade da experiencia, para dar-se ao matrimonio? Não temos, como já ficou observado, modo de responder desenganadamente a taes perguntas. Tudo que pudémos conjecturar, é que o filho que deixou menor terá vindo ao mundo, adiantado já seu pae em annos, se muito não erra a conta que lhe démos, ao vir busca-lo a Morte.

Esta circumstancia, comtudo, não se oppõe a que já houvesse outros filhos, e até poderia parecer que os houve, com effeito, se fôsse possivel interpretar um tanto latitudinariamente certas expressões de um documento que não tarda a vir transcripto a este estudo.

No emtanto, e posto que a typographia da Viuva de Germão Galharde se sustentasse ainda durante alguns annos, depois do fallecimento do seu celebre fundador, o seu material veiu a passar a novo proprietario, e nada nos indica terem-se filhos maiores, se os havia, ou ter-se o menor que ficou ao tempo do obito paterno, occupado, homem feito, na arte, que o progenitor tanto illustrou.

Este appelido, a partir d'então, mergulha no esquecimento, pelo menos aqui, em Lisbôa; e apenas a meio do seculo XVII o nosso illustre polygrapho D. Francisco Manoel se lembrára, escrevendo ao seu amigo Azevedo, da lenda dos Galhardos da Serra da Estrella, que aliás nenhuma relação tem com os de que aqui tratamos, para comparação da brevidade com que fizera um seu livrinho. Esta carta, porém, inédita ficára, com a collecção a que pertence, até que um distincto cultor da memoria de tão infeliz quão abalisado

epistolographo a trouxe a lume em nossos dias[41].

Assim continúa o esquecimento, sem interrupção, por esses tempos fóra. A meiados porém do XVII.º seculo apparece-nos, de repente, um typographo «Galhardo». Diplomava-se com o titulo de «Impressor do sr. Cardeal Patriarcha»; chamou-se Antonio Rodrigues Galhardo, e teve a sua casa, com capella, horta e mais officinas, no Pateo a que a sua familia dava o nome;—o Pateo dos

Galhardos [42] , a Santa Izabel. Muito depois, (1837) filhos seus, ligados sob a firma «Galhardo & Irmãos», imprimem na rua da Procissão, n.º 45, entre outros livros, a «Chronica de El-Rei D. Sebastião, por Fr. Bernardo da Cruz, publicada por A. Herculano e o Dr. A. C. Payva.»

Antonio Rodrigues Galhardo é descendente do «imprimidor» francês Germão Galharde? Quem, já agora, poderá affirma-lo, ou quem estará habilitado para nega-lo?

Emtanto, a coincidencia é para notar, e para notar fica sendo, tambem, que esta familia Galhardo veiu a apparentar-se com Alexandre Herculano, pelo casamento de um amigo de juventude do Grande Escriptor, e depois seu camarada na emigração, o fallecido general da arma de artilharia, que foi, quando coronel, director da Escola do Exercito, Joaquim Antonio Rodrigues Galhardo, com a irmã do Auctor da H P .