Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
Capítulo V
porque não me daes perdiz,
pois que m'a compraes do meu?
Responde o «N »:
«Nunca elle mim acha...
Muito caro, nunca bem...
Mim dá-le treze vintem
pr'o dôzo; não querê dá.
A regatêra muito máo!
Mim dize quére vendê?
Elle logo saconde...
medo Gasapar da náo
proqu'elle logo prende [15] .»
Gaspar das Naus não é o unico a quem tenha sido applicado o cognome. Houve por esta epoca um outro individuo, chamado Manoel Lopes, tambem cognominado «das Naus». Ainda não sabemos em que se occupasse.
V
Segue-se, na ordem da leitura, Marcos Borges, que nos apparece arrolado como «imprimidor obreyro», residindo em uma de tres vias públicas, enfeixadas pelos lançadores da sobredita imposição num só titulo:—«Rua de quebra q... com travessa de calca (calça) frades
e Rua de pino vay [16] ».
O rol onde figura Marcos Borges foi entregue aos sacadores em 2 de maio de 1566, sendo por elles restituido ao thesoureiro da imposição em 1 de agosto seguinte.
Ora, «ao primeyro de janeiro de 1566» appareceu a público, impresso por este typographo, o «Paradoxo», de João Cointha, lendo-se no frontispicio da obra, além da sobredita data, mais a seguinte indicação:—«Vede se na empressam detraz de nossa
senhora da Palma [17] ».
Se, pois, Marcos Borges já no 1.º de janeiro de 1566 estava estabelecido por sua conta, e nos dá testemunho irrecusavel do facto na obra que lhe foi, porventura, estreia, como é que elle nos apparece classificado como «imprimidor obreyro», em maio, deste mesmo anno? Não deviam os individuos que o classificaram conhecer bem a sua posição?
Por outro lado, a indicação um tanto vaga: «detrás de nossa senhora da Palma» poderia até agora fazer suppôr que Marcos Borges estava, com effeito, estabelecido nalgumas casas situadas na parte posterior da capella-mór da ermida daquella invocação, onde, de certeza, havia já neste tempo casas para alugar, como as continuava havendo em 1755, e a ellas se referiram os engenheiros encarregados das medições dos Bairros, ordenadas no começo do
anno seguinte pelo ministro do rei D. José. [18]
Desde, porém, que Marcos Borges nos apparece residindo num sitio differente do indicado na obra, de que terá sido o proprio editor, como tal indicação nos auctorisa a crêr, ainda que ambos os locaes fôssem convizinhos, o que parece curial é entender-se que o impressor do «Paradoxo», tendo, com effeito, a sua officina no sitio que a obra indica, residiria no «Pino Vay», viela ingreme, quasi fronteira á parte posterior da ermida, e que laborava a escarpa, no alto da qual passava a «rua detraz de Santa Justa», correspondendo, salvo o actual aspecto, á rua da Magdalena, na parte que vae da Betesga ao largo dos Caldas. Vamos ver adiante que Antonio Gonçalves, confrade, já agora celebre, de Marcos Borges, morava numas casas de certa rua, e tinha nella, e perto, em outras, a sua officina.
Mas, encosta acima, enlaçava-se no «Pino vay» a «travessa de quebra q...», que rasgando-se entre a «rua dos torneiros» e a «Correaria», um tanto mais abaixo da abertura inferior do «Pino vay», ía formar com esta viella, a meio da encosta, o enlace que fica apontado.
São poucos os contribuintes arrolados no grupo das tres vias públicas em questão, e tanto se pode suppôr que Marcos Borges, sempre na hypothese de ter a sua officina «atras de nossa senhora da Palma», morasse no «Pino vay» como na travessa predita, ou na rua de calça frades.
A circumstancia, porém, de não mencionarem os lançadores pessoa alguma a fintar na parte posterior da ermida da Palma, justamente no anno em que este impressor se declarara, na obra que citámos, estabelecido nesse sitio desde o 1.º de janeiro, tenta-nos a ver em tal indicação um alibi, por elle empregado, para remediar um inconveniente a que o decoro devia attender. O que se nos afigura por mais certo, é que os sacadores encontraram, com effeito, Marcos Borges residindo na mesma casa onde teria a sua officina, o que era regra, a bem dizer, geral, não «atrás da ermida de nossa senhora da Palma», mas na travessa de quebra costas, uma das
tres do grupo onde o seu nome apparece, entre outros, e da qual se
pode admitir, sem grande violencia, que ficasse fronteira, mas do lado opposto da Correaria, á parte posterior daquella ermida.
Quanto á menos exacta qualificação que ao impressor foi attribuida pelos sacadores, pode entender-se egualmente, ou que houve equivoco da parte destes, ou que elles quizeram favorecer o recem-estabelecido «imprimidor», conservando-lhe a qualificação de «obreyro», com o fim de lhe minorar a importancia do escote. Marcos Borges, typographo proprietario de officina, poderia, é verdade, ser avaliado em 3$000 réis, como o fôra o seu confrade João Blavio, e pagaria 21 rs. de escote, mas passando, por favor dos sacadores, por méro «imprimidor obreyro», alcançava o beneficio da «menor contia», que eram 2$500 rs., correspondendo-lhe a contribuição de 17 rs. Era uma differença apreciavel. Valia a pena acceitar o favor. Marcos Borges, encolhendo-se, ganhava 4 réis, isto é, defraudava S. Alteza em obra de 30 réis, de hoje.