Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
Capítulo VIII
De outras vias públicas do codice em exame se pode inferir que se haja obliterado a significação do nome que as distinguia, visto como é evidente que Bastião de Lucena, o escrivão desta derrama, lhes desfigurou as denominações, com a mesma inconsciencia com que deformou o nome do velho João Blavio de Agripina Colonia. Uma viela, para exemplo; uma viela que recordava o appelido de certo parente do arcebispo de Genova, Agostinho Salvago, e que viera estabelecer-se em Lisbôa, apparece-nos transformada por Lucena em "Beco da Salvaje», e assim outras mais. Do mesmo modo que ha, em summa, no Livro do Lançamento muitas vias públicas não mencionadas no Summario do guarda-roupa, ha neste livro noticia de grande numero de outras, de que aquelle codice não conservou memoria.
Torna-se, pois, a conciliação entre os roes do Summario, e a nomenclatura da viação daquelle repositorio difficil, e não se consegue que sáia perfeita. A impossibilidade de identificação é manifesta.
VIII
Somos assim chegados ao ponto que nos levou á precedente digressão. Onde, em que rua, travessa ou beco, apparece fintado, na freguezia de S. Christovão, o «imprimidor» Manoel João?
O titulo desta freguezia lê-se no alto da fol. 406, v.o do volumoso codice, redigido nos seguintes textuaes termos:
« o T. da freguezia De san Xpuão—Começa o primeiro rol No chan
Dalcamin pera a costa [26] ».
Vae seguindo o recenseamento, e a fls. 407 lê-se:
«Duas ruas [~q] começão De san Xpuão pera san Lourenço».
No v.o desta folha, e no alto della, assentou Bastião de Lucena o 8.º lançamento deste titulo. Diz:
«It Manoel Johão Inprimidor em casas Do doutor João de bairos
av. do [27] [~e] seis mill rs. paguara rij rs»
Portanto, tudo quanto se colhe de similhante informação, sem nada adiantar ao nosso proposito, é que este sitio soffreu, em epoca não facil de determinar, ainda que não estejâmos longe de fixa-la de 1756 para diante, consideravel alteração. Hoje, rua que comece de S. Christovão para S. Lourenço, apenas conhecemos todos uma; a rua das Farinhas, á qual o auctor do Summario, ou quem para elle escreveu esta parte do livro, chama «Rua das Farinheiras». Poderia, porém, ter-se em consideração que no terreno que fica entre a parochial de S. Christovão e a garganta por onde se penetra na rua das Farinhas, e é denominado «rua de S. Christovão», haveria modo de existir nas eras remotas que nos occupam, qualquer viela que, embebendo-se em outra similhante, déssem ambas as «duas ruas que começam de S. Christovão para S. Lourenço», segundo o abreviado modo de exprimir-se dos lançadores da imposição. É, pelo menos, o que resulta das medições do Tombo do Bairro do Rocio, (1756), a fls. 121, onde se lê: «Largo da Igreja de S. Christovão—Corre o seu comprimento N. S. Tem de comprimento desde a rua do Regedor até á travessa que vai para a rua das Farinhas, 214 p.; de largura pelo N. 35 p., e pelo S. 45».
Ora, a lista das vias públicas, do Summario, que laboravam o territorio parochial de S. Christovão comporta 9 ruas, 3 travessas, 1 adro, 2 terreiros, 1 beco e 1 arco.
De toda esta estatistica de viação, apenas uma rua, a «do Crucifixo», uma travessa, e os dois terreiros se não podem
identificar com a actual topographia da parochia[28]. E como naquelle tratado, a disposição das «Ruas», tal qual quem ordenou a lista das vias públicas della as foi escrevendo, nos mostra que se começou do N. para o S. da freguezia, isto é da «Rua das Fontainhas», compartilhada pelas parochias de S. Lourenço e de Santa Justa, para a extrema opposta; para a «Rua do chão dalcamim», segue-se que a «Rua do Crucifixo», por maior que seja o nosso desejo de precisar qual das «duas ruas que vão de S. Christovão para S. Lourenço» era a que habitava, com a sua officina, o tipographo Manoel João, não parece que possa ser a designada, visto como se apresenta na lista parochial após a «Rua do Regedor», isto é, do lado diametralmente opposto á provavel situação daquellas duas ruas.