O atendimento socioassistencial para crianças e adolescentes

Características principais do campo e de seu processo de produção de conhecimento

epistemológicos que os sustentam;

– a ampliação e a defesa dos direitos civis, políticos e sociais dos usuários e

principalmente dos indivíduos mais fragilizados, no sentido do seu

empoderamento, autonomização, participação política e social, e conquista

de plena cidadania.

– a reinvenção de modos de viver no sentido de maior criatividade e

inovação, estimulando indivíduos e grupos sociais para que questionem os

padrões aceitos de normalidade e os mecanismos de estigmatização e

discriminação, para que ampliem o rol de possibilidades e a aceitação das

diferenças existenciais na vida social e cultural, exatamente na direção

contrária da adaptação e do ajustamento (Ibid., p.146-147).

 

Características principais do campo e

 

de seu processo de produção de

 

conhecimento

 

A construção do conhecimento no campo das abordagens psicossociais deve levar em consideração as seguintes indicações:

a) A configuração do campo psicossocial e do seu objeto são amplas, mas como não é possível lidar com tantas variáveis e processos complexos de modo indiferenciado, é necessária uma delimitação clara quando se trata de circunscrever um tema de estudo ou de pesquisa, além de processos de intervenções concretas. Nesse caso, vale a distinção feita pela AI entre campo de análise e campo de intervenção (Baremblitt, 1998).

 

As abordagens psicossociais constituem portanto um campo eminentemente

plural, multidimensional e complexo, já que composto por variados

fenômenos e objetos, mas que realiza delimitações temáticas e interventivas

provisórias, e dentro desse campo delimitado, este objeto mais específico é

visto da forma ampliada […], em um movimento que busca uma totalização

progressiva, mas sempre inacabada, mediante um conhecimento pluralista e

interdisciplinar, mas sempre em processo aberto de contínua produção e de

novas incorporações (Vasconcelos, 2008, p.148).

 

b) Busca-se superar a perspectiva baseada nos especialismos, própria da postura acadêmica convencional (Chauí, 2000). É comum que os profissionais empreguem uma teoria de modo prévio no seu contato com a realidade, procurando fazê-la enquadrar-se na sua visão teórico-técnica, de modo reducionista. Contrariando tal tendência, é preciso tomar

 

como ponto de partida irredutível a aceitação da complexidade do tema,

fenômeno, prática ou programa de política pública em foco, reconhecendo as

características próprias e as formas com as quais esses objetos e temas

emergem historicamente para nós, como desafio para nosso conhecimento

teórico e nossa intervenção prática. […] é só a partir da complexidade do

próprio objeto que as definições teóricas e contribuições metodológico-

operativas mais concretas poderão ser definidas com maior precisão

(Vasconcelos, 2008, p.149).

 

c) Na definição das questões fundamentais a serem investigadas, é importante levar em conta a distinção que a AI propõe entre o que seria a “demanda explícita ou oficial”, sempre marcada por uma “encomenda” por parte do grupo dominante interessado em fortalecer o controle e a subordinação, e a “demanda implícita”, portadora dos interesses do polo subordinado, que se encontra normalmente reprimido e emudecido (Baremblitt, 1998). Portanto, não se trata ingenuamente de aprimorar o funcionamento da instituição sem mais, mas de

 

redirecionar o foco da abordagem no sentido das demandas e dos interesses

dos atores e grupos sociais submetidos a relações sociais e institucionais de

exploração, dominação e opressão, pois geralmente eles são os portadores

das forças mais efetivamente instituintes e transformadoras da realidade

social (Vasconcelos, 2008, p.150).

 

Os analisadores espontâneos e construídos (Lourau, 1995; Baremblitt, 1998) são tomados como lugares da emergência e da explicitação das demandas reprimidas e implícitas dos atores sociais do polo subordinado.

d) O ponto de partida e o principal pressuposto das abordagens psicossociais se fundamentam numa “clara postura ético-política, definida a partir de valores comuns e da práxis histórica, e que se refletem em escolhas teóricas” (Vasconcelos, 2008, p.150), alinhada com os interesses e projetos históricos das classes populares. Trata-se de

 

um compromisso ético e político básico e inarredável com as necessidades,

interesses, projetos históricos, lutas e ações dos movimentos sociais

populares e da maioria da população, por um lado, e em particular, com o

primado da responsabilidade social pela produção da Atenção Psicossocial

em políticas, programas e serviços públicos de saúde, saúde mental,

assistência social, trabalho e educação, orientados pelos princípios da

universalidade, integralidade da atenção, intersetorialidade e

interdisciplinaridade (Ibid., p.151).

 

e) A práxis é tomada como o principal critério de aferição, escolha e produção de conhecimento. Evitando formular perspectivas idealistas, é preciso considerar que a busca da emancipação é uma construção dialética instituída/instituinte, na qual “o novo sempre emerge como uma transformação e conservação, em outro nível, do velho” (Ibid., p.153). Portanto, é importante avaliar as experiências alheias para aprender com elas e avançar a partir de seus elementos críticos e progressistas, empregando-os na invenção de novas possibilidades sociais de existência. Nesse sentido,

 

não há espaço para desperdícios da rica práxis humana, em nome de uma

essência do gênero humano que emergiria automaticamente quando se

superasse o que identificamos hoje como os obstáculos societários e

históricos para uma idealizada emancipação humana a priori, que

supostamente viria já previamente dirigida “para o bem” (Ibid. p.154).

 

f) Considerar concretamente o que se faz na prática, aquém e além dos discursos oficiais, com todas suas implicações científicas, políticas e éticas, exige também a superação de certo conservadorismo próprio da academia bem pensante, avessa às inovações e aos seus riscos inerentes,

 

tais como os de híbris heróica, de simplificações e ecletismos, de

supervalorização unilateral de processos e perspectivas particulares, de

desconhecimento de uma outra produção significativa já disponível, etc. Para

enfrentar esses riscos, há maiores exigências de rigor epistemológico, de

organicidade permanente com a pesquisa, com as práticas nas políticas