O atendimento socioassistencial para crianças e adolescentes

Algumas características do processo de trabalho no campo psicossocial

públicas e com os movimentos sociais, e de análise da implicação dos

produtores deste conhecimento (Ibid., p.154-155).

 

A opção estaria entre as alternativas de errar criando e inovando enquanto se busca acompanhar os fluxos múltiplos e efervescentes da vida social, ou manter-se na defensiva, procurando assegurar velhas construções teóricas já consolidadas e conquistas políticas do passado que dão segurança ao preço da paralisia e imobilidade.

g) O coeficiente de transversalidade é tomado como parâmetro para mensurar a potência emancipatória das abordagens e projetos psicossociais:

 

Segundo uma indicação conceitual/operativa de Guattari, o grau de

autonomia e a potência emancipatória de um grupo-sujeito militante em

relação ao seu contexto dependem da capacidade de identificar e colocar em

questão o máximo de dimensões em que se está implicado ou que

atravessam transversalmente o grupo (Ibid., p.155-156).

 

h) O potencial contra-hegemônico de um grupo, projeto ou teoria psicossocial e a capacidade de apresentar alternativas contraditórias no sentido propriamente dialético ao estabelecido podem ser calculados a partir da capacidade de criar redes de aliados, articulando diálogos e interações com intelectuais, técnicos e gestores, tanto com os mais convencionais quanto os mais engajados, críticos e militantes, construindo equipes interprofissionais e multiprofissionais de trabalho que funcionem de modo democrático e horizontal.

 

Algumas características do processo

 

de trabalho no campo psicossocial

 

Vasconcelos (2008) fornece uma formulação/síntese que procura explicitar as características do processo de trabalho no campo psicossocial:

 

O processo de trabalho na Atenção Psicossocial tem entre suas

características o fato de que é hegemonicamente do tipo trabalho-intensivo,

é majoritariamente sustentado em tecnologias leves e em relações pessoais

diretas entre trabalhadores entre si, com a população em geral e

particularmente com os usuários de serviços, e mobiliza forte implicação

pessoal dos trabalhadores. Essas características têm profundas

conseqüências para os trabalhadores da área e para a gestão do trabalho e

dos recursos humanos no campo (p.159).

 

A hegemonia do modo de produção capitalista cria formas de gestão, administração e trabalho marcadas pela hierarquização vertical e autoritária, pela centralização e controle burocrático, sendo basicamente heterogestivas, visando produzir bens de consumo, explorar a mais-valia e reproduzir as relações sociais de dominação-subordinação-exclusão. Tais modalidades de trabalho nefastas também incidem no trabalho que se pretende realizar na perspectiva psicossocial.

 

Essas tendências são reforçadas pelas condições desfavoráveis de trabalho

no contexto neoliberal, marcadas pelo desinvestimento geral nas políticas

públicas, desemprego massivo, precarização e perda dos direitos básicos do

trabalho, baixos salários, multiemprego, deterioração da infra-estrutura;

controles crescentes e forte exigência de produtividade quantitativa, etc

(Ibid., p.159-160).

 

O processo de trabalho no campo psicossocial é pautado por perspectivas bastante diversas, inclusive nas esferas da gestão, da administração e do planejamento (Ibid.):

a) Tem fortes implicações pessoais, relacionadas com a formação crítica, com o engajamento social e político e com a militância pela transformação social. Dirige-se para o atendimento de necessidades sociais e pessoais de coletivos e de indivíduos, sobretudo quando realizado no âmbito público, em meio a relações que configuram bens de uso (que se produzem e se consomem na própria relação social) visando produzir outras formas de sociabilidade. É marcado por um componente ético e simbólico profundo, incluindo dimensões religiosas/espirituais ou ideológico/políticas duradouras. As características e o estilo pessoal do trabalhador, bem como a sensibilidade para as questões de gênero, estão implicadas nas formas de contato com os usuários.

b) Expõe o trabalhador a um contato permanente com situações complexas, que envolvem sofrimento humano intenso, pobreza, miséria e morte, o que gera forte desgaste, estresse e cansaço.

c) Impulsos contrários de envolvimento e de necessário afastamento geram tensão no trabalhador.

d) A improvisação, o amadorismo, a fragilidade teórico-técnica, os investimentos estruturais incipientes, o clássico descaso das autoridades políticas quanto à importância da construção, fortalecimento e consolidação das políticas públicas repercutem nas condições de ação dos trabalhadores, os quais devem tomar

 

decisões importantes, mas geralmente são tomadas em curto prazo de

tempo, em contextos de incerteza, falta de informações suficientes, ausência

de diretrizes claras preestabelecidas, com baixa padronização ou muito

dependente das circunstâncias, e que por outro lado costumam ter profundas

implicações na vida e no destino das pessoas e grupos implicados (Ibid.,

p.160).

 

e) Exige autonomia do profissional, marcado por um diferencial teórico-técnico e ético-político alinhado com os interesses populares, que normalmente não corresponde às expectativas mais comuns que permeiam o imaginário social, e

 

uma vez que valoriza dimensões normalmente recalcadas nos indivíduos e

na vida social, se sustenta em informações confidenciais, é obrigado a

avaliar mais profundamente as demandas latentes dos usuários e as

implicações das decisões nos diversos atores envolvidos, e também porque

implica levar em conta normas institucionais, conhecimento teórico-operativo

e oferta de serviços de apoio ou de referência, elementos normalmente

desconhecidos do público. […] em muitos casos, suas posturas, decisões e

encaminhamentos têm dificuldades de ser inteiramente compreendidos pelos

usuários e suas famílias, ou até, às vezes, podem gerar rebeldias ou

contestações abertas (Ibid., p.160-161).

 

f) A fragilidade das condições institucionais de trabalho, aliadas com a especificidade da abordagem profissional no campo social prático, nem sempre permite o reconhecimento pleno de uma ação técnica de qualidade:

A combinação dessas características do processo de trabalho com a

crescente deterioração das condições de trabalho […] têm implicações

explosivas para os profissionais e demais trabalhadores do campo

psicossocial. Uma das mais flagrantes no contexto atual é a forte incidência

de sofrimento no trabalho, expresso nas altas taxas de prevalência de

sintomas de burn out (esgotamento) entre trabalhadores e profissionais das

áreas social, saúde, saúde mental, educação e segurança (Ibid., p.161).

 

Médicos, enfermeiros, professores, assistentes sociais, psicólogos, dentistas, bombeiros, agentes penitenciários, policiais e cuidadores em geral seriam os profissionais mais vulneráveis aos efeitos insalubres do trabalho direto com os problemas sociais nas suas múltiplas manifestações. Sabemos que uma riqueza de problemas é produzida pelo capitalismo predatório e espoliador, que também é o responsável pela lógica do desinvestimento e desresponsabilização do Estado quanto ao equacionamento dessas questões.

Vejamos quais são as características desejáveis do ambiente, dos recursos humanos e da gestão do trabalho no campo psicossocial, de acordo com Vasconcelos (2008):

a) A cultura institucional deve ser radicalmente democrática e autogestiva, e isso

 

requer uma cultura política e estilos de cogestão participativos e o mais

democráticos possível, que possibilitem liberar as forças

instituintes/subjetivantes e a força autogestora e criadora do trabalho vivo em

potência, bem como ir pactuando gradualmente nos coletivos os princípios

ético-políticos mais gerais que direcionarão a prática comum e global dos

trabalhadores e dos serviços, além de permitir estabelecer o planejamento

das metas prioritárias de curto, médio e longo prazo (Ibid., p.162).

 

b) A formação em serviço por meio de uma intervenção institucionalista

 

exige fortes programas de capacitação e educação permanente no trabalho,

capazes de promover uma ressocialização dos profissionais e trabalhadores

que amplie e remodele padrões de formação e culturas profissionais

convencionais com que foram treinados na universidade e na maioria dos

demais ambientes de trabalho (loc. cit.).

c) A supervisão profissional permanente no campo de atuação

 

requer um programa permanente de supervisão profissional em campo que

seja competente para incluir não só a aquisição de novos conhecimentos

teóricos e operativos, mas também e particularmente para abordar questões

estratégicas da inserção do serviço no contexto mais geral das políticas

sociais na cidade e no país, os desafios e conflitos das relações de poder e

dos processos grupais vivenciados na vida institucional e nos dispositivos de

trabalho com os usuários e as questões da implicação pessoal, subjetiva

e/ou relacional com o sofrimento no trabalho (loc. cit.).

 

d) Supõe instituições e estabelecimentos eficazes, eficientes e resolutivos. Também “exige o desenvolvimento de agências eficientes e de um programa abrangente de saúde e saúde mental no trabalho, para lidar com as múltiplas implicações do sofrimento oriundo do trabalho” (loc. cit.).

e) Exige um engajamento politizado e uma participação política efetiva dos trabalhadores, além da

 

atuação sindical e corporativa (dos conselhos específicos de cada profissão)

dos servidores e demais trabalhadores, para lutar por contratações

permanentes, boas condições de trabalho, remuneração e carreira

profissional, contrapondo-se às tendências de deterioração […],

particularmente associadas ao contexto neoliberal (loc. cit.).

 

f) Exige uma articulação do trabalho em rede efetiva, concreta, implicada, com

 

forte integração dos diversos atores e agências que atuam em um mesmo

território, em fóruns específicos regulares dentro de um mesmo campo de

políticas sociais e entre os demais, para promover o conhecimento das

necessidades comuns, das possibilidades de cooperação e trabalho conjunto

(como o encaminhamento responsável e monitorado, o trabalho em rede, o

apoio matricial, o planejamento integrado, etc., como formas de

intersetorialidade e de implementação da integralidade), para identificação

de problemas/desafios e articulação de lutas comuns, e particularmente no

exercício do controle social, nos conselhos distritais e municipais das

políticas setoriais (Ibid., p.162).

g) O usuário não pode ser tido como mero colaborador ou coadjuvante no trabalho; ele é o protagonista do processo de trabalho, é o sujeito da ação:

 

implica estimular e subsidiar a participação e o empoderamento dos usuários

e seus familiares, tanto nos serviços como nos conselhos das políticas

sociais em nível local, distrital, municipal, estadual e nacional, como atores

legítimos e imprescindíveis de uma gestão a ser direcionada para seus

interesses e demandas (loc. cit.).

 

h) São múltiplas as dimensões que devem receber atenção dos profissionais:

 

requer um processo de recolocação e reproblematização das noções de

cuidado, de sua humanização nos serviços, revalorizando-se os aspectos

qualitativos, subjetivos, de gênero (particularmente em relação à atenção à

mulher) e de geração (principalmente na relação com crianças, idosos e no

campo dos cuidados paliativos) da atenção, da relação profissional-usuário,

de conhecimento e integração com o suporte provido pelas redes sociais dos

usuários, de forma comprometida com o desenvolvimento de oficinas e

outras estratégias concretas de sua implementação nos serviços de saúde e

saúde mental. (loc. cit.)

 

Vasconcelos resume assim suas contribuições para o campo das abordagens psicossociais:

 

um modo de pensar diferenciado (no qual a concepção de paradigma da

complexidade é chave); um compromisso de conceber o objeto de estudo e

de prática profissional pela ótica das múltiplas dimensões em que ele

emerge na realidade e se coloca como desafio para atores sociais e gestores

de política pública, engajados nas lutas sociais populares; uma perspectiva

epistemológica própria, uma forma particular de organizar o conhecimento,

que inclui dialogar de forma interdisciplinar, pluralista e não linear, várias

abordagens progressistas relevantes; uma concepção própria de pensar e

exercer o engajamento ético-político; uma estratégia própria para identificar

parceiros e mobilizar alianças entre atores e abordagens emancipatórias;

uma perspectiva de inacabamento que exige se assumir mais riscos e um

constante papel ativo e criador do(s) sujeito(s) produtor(es) do conhecimento

e que realiza(m) a práxis, e que adota(m) tal perspectiva ética (Ibid., p.166).