O Fantasma Usava Meias Amarelas

Josh Lanyon · Capítulo 9 de 17

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O Fantasma Usava Meias Amarelas

Capítulo Oito

 

A viagem to quarto de Nick para o de Perry levou um minuto. Ao chegar no apartamento de Perry, eles encontraram a porta entreaberta.

Nick pegou a arma, colocou uma das mãos no peito de Perry e sussurrou: _ Fique aqui.

Perry estava feliz em obedecer. Ele viu Nick entrar. Nick olhou para ele, uma expressão de irritação passou pelo seu rosto definido. Ele fez um gesto com a cabeça, indicando que Perry deveria ficar fora da linha de um possível fogo.

Ele colou na parede oposta a Nick, seu coração batia intensamente. Tinha a sensação que seu peito estava apertando, uma sensação de coceira. Deus, não agora... Ele reprimia o desejo de tossir.

Nick chutou a porta e entrou no primeiro quarto, arma em punho. Ele virou-se em alerta para a esquerda, depois para a direita – esqueça a pistola, ele mesmo era uma arma, Perry pensou, vendo seu progresso pela fresta da porta.

Nick desapareceu da linha de visão de Perry.

Perry esperou. Seus olhos pararam em algo que ele havia perdido enquanto via Nick. Um par de pés estava atrás do balcão da cozinha. Alguém estava deitado no chão da cozinha.

Uma onda de tontura o atingiu; ele fechou os olhos e apoiou-se na parede.

Outro corpo. Eles precisam mudar o nome desse lugar para Casa do Homicídio.

Quando ele abriu os olhos e viu novamente, Nick passava furtivamente do corredor até o quarto.

Um momento depois ele colocou a cabeça para fora.

_ Venha cá, Foster. Alguém bateu no Stein.

_ Stein? Como ele chegou aqui tão rápido?

_ Eu não sei. Só sei que ele está aqui e está inconsciente.

Stein esforçava-se para sentar quando Perry e Nick juntaram-se à ele no chão da cozinha.

_ O que aconteceu? ele murmurou.

_ Alguém bateu em você, - Nick respondeu. _ Você viu quem foi?

Stein sentiu o topo de sua cabeça. _ Droga, ele me acertou com o quê? Um taco de beisebol?

Um galo visível crescia na parte grisalha da cabeça.

_ Provavelmente isso, - Perry disse, apontando para o atiçador de brasa, que estava envolto em um pano sujo de tinta.

_ Acho que devo ser grato por ele não tentar me matar.

_ Ele? Nick perguntou.

_ Ele ou ela.

_ O que aconteceu?

_ A porta estava aberta, então eu entrei.

Por quê? Perry perguntou.

Stein admitiu: _ Acho que eu pensei que fossem vocês dois. Enfim, ouvi um movimento atrás de mim. Ele deveria estar atrás da porta. Eu virei e ele me acertou na cabeça.

Nick perguntou: _ Mas você não viu quem era?

Stein balançou a cabeça e estremeceu.

_ A janela do quarto estava aberta, - Nick disse.

_ Ele deve ter saído por lá, - Perry disse, encontrando os olhos de Nick. _ Caso contrário, teríamos o visto descendo as escadas.

Nick balançou a cabeça devagar. _ A menos que ele tivesse descido antes de sairmos do meu apartamento. Ele teria de estar correndo. Veja se você consegue achar o policial. Ele deve estar aqui em algum lugar.

_ Talvez ele tenha desaparecido, como o Tiny, - Stein murmurou.

Com os olhos arregalados, Perry virou-se para Nick, que balançou a cabeça. _ Não. Não mesmo. Ele deve estar no apartamento do Watson ou bisbilhotando no andar de baixo.

Perry pulou e desceu as escadas. Ele chegou até o andar e começava a descer o segundo lance, quando alguém gritou: _ Ei, Foster! Onde é o incêndio?

Era o policial Abe sentado em uma cadeira do lado de fora do apartamento de Watson.

Perry derrapou ao parar e olhou para o fim do corredor.

_ Onde você estava?

O policial levantou uma xícara de café. _ Lá embaixo. Pegando algo quente para beber. Esse lugar é como um necrotério.

_ O Sr. Stein foi atacado no meu apartamento.

_ Quem? Stein? O que ele fazia no seu apartamento? Onde você estava?

_ Eu estava com Nick. Sr. Reno.

_ O SEAL? A surpresa na voz do policial não era boa. Perry corou. Não que ele tivesse de sentir vergonha de alguma coisa – infelizmente.

Ele disse brevemente: _ O Sr. Stein ouviu passos. Ele subiu para investigar.

_ Por que ele não me chamou?

_ Ele não conseguiu te achar.

O policial parecia desconfortável. _ Ah, é. Eu estava... er... falando com a Sr... ahn... Bridger.

Sra. Rosa na cozinha, Perry pensou, maravilhado. Ele esperou até que o policial deixasse a caneca de lado e indicou o caminho para o andar de cima.

_ Muitas coisas bizarras acontecem nessa casa, - o policial comentou.

_ Nem me fale, - Perry murmurou.

Eles encontraram Stein em pé, ainda zonzo, mas recusava ir ao médico.

_ Um saco de gelo, - ele disse. _ Algumas aspirinas. Ficarei novo em folha.

Você pode ter tido uma concussão, - Nick disse. _ Eu iria ao médico se fosse você.

_ Não, você não iria, - Stein disse, causticamente.

As bochechas de Nick levantaram-se com um sorriso relutante. _ Talvez não, - ele concordou.

O policial fez todas as perguntas óbias enquanto Stein ficava cada vez mais impaciente.

_ De quantos modos posso dizer isso? ele perguntou, finalmente. _ Eu não vi porcaria alguma.

_ Só estou tentando fazer meu trabalho, - o policial disse, magoado. _ É para isso que eles me pagam.

_ Ah, é? Não estou surpreso em como eles gastam meus impostos. Quando eu era da polícia...

Todos eles pararam de prestar atenção, o policial Abe olhava invejando a galeria informal dos quadros de Perry. Quando as memórias de Stein acabaram, ele perguntou: _ Eles valem alguma coisa?

Perry deu de ombros.

O policial franziu a testa olhando para o quadro de um campo de frutas amadurecendo sobre o sol de outono. _ Não vejo o ponto de pintar algo assim quando podemos tirar uma foto.

_ Não é a mesma coisa, - Perry disse.

_ Não, pois uma fotografia é mais precisa.

_ Arte não é apenas sobre precisão. É sobre interpretação. É sobre -

Nick disse, com um tom de quem fazia esforço: _ Eu não acho que um crítico de arte entrou aqui.

O policial deu de ombros, pessoalmente não convencido.

_ Essa é a última vez que eu dou uma de bom vizinho, - Stein resmungou. Ele aproximava-se da porta. Gesticulou para Nick. _ Da próxima vez, vou deixar você vir primeiro. Você parece treinado para isso.

Isso lembrou o policial. _ Aliás, você tem permissão para essa arma? Ele olhava bem para Nick.

_ Sim. Nick sorriu. _ Sou do tipo que segue as leis.

O policial continuou olhando, e então voltou-se para Perry. _ Algo sumiu?

_ Não.

_ Você não verificou, - Nick disse.

Perry lançou um olhar ingrato e andou rapidamente do corredor ao quarto.

O policial disse: _ Acho que vou bisbilhotar um pouco. Ver o que eu descubro.

_ Você pode procurar por digitais na janela do quarto, - Nick sugeriu.

_ Fico feliz que você tenha pensado nisso, - o policial retrucou. _ O que o departamento do xerife faria sem você?

Perry respondeu. _ Não acho que esteja faltando alguma coisa. Nem parece que alguém esteve aqui.

_ Vamor, - Nick disse. _ Vamos deixar que os profissionais cuidem disso. Não queremos dificultar ainda mais a vida difícil deles.

* * * * *

_ É isso, - Perry disse enquanto chegavam perto do apartamento de Nick, e a porta fechou atrás deles. _ Já chega. Não posso ficar aqui. Nunca mais me sentirei seguro de novo. Ele começou a andar, esfregando as palmas das mãos para cima e para baixo das coxas.

_ Ei. Qual o problema? Nick esticou as mãos e pegou os ombros de Perry, fazendo-o parar.

Perry o olhou com aqueles olhos inocentes. Ele parecia assustado e bravo, sua voz tremeu quando disse: _ Não sei qual é o problema. E esse é a grande dificuldade. Mas há algo de errado aqui. Você não consegue sentir?

Nick sentia alguma coisa – e era errado – mas isso não o fez parar de trazer Perry para perto de si, até que suas bocas ficassem tão perto que ele pôde sentir a respiração rápida de Perry contra seus lábios.

A boca de Perry era rosada e insegura. Ele olhou para os olhos de Nick e depois para baixo, parando nos braços de Nick. Ele não moveu-se em direção à Nick, ele apenas esperou docilmente para que qualquer coisa que fosse acontecer, acontecesse.

Como ele era novo. Nick tentou lembrar-se como era ser tão novo – ele não achou que um dia tivesse sido tão novo. Muito novo, muito passivo, muito inexperiente.

Um verdadeiro gay. Atraente, entretanto.

Nick soltou Perry, dando um passo para trás. Ele desviou o olhar para não ver o desapontamento no rosto do garoto.

Perry segurou um longo suspiro e olhou para cima. Ele não falou. O silêncio tornou-se tenso.

_ Olhe, - Nick disse bruscamente. _ Até eu ir embora, tudo será resolvido. Há tantas possibilidades, sabe?

Perry havia desviado o olhar e encarava a janela cheia de gotas da chuva. Seus ombros estavam rígidos. Ele disse, seco: _ Sério? Quando você vai embora?

_ Ainda tenho algumas coisas para resolver. Em algumas semanas. Nick ficou surpreso ao ouvir isso de si mesmo, após dizer para Roscoe e os outros que nada o impedia de mudar-se imediatamente.

Mas ele não podia ir embora e deixar Perry nessa bagunça. De modo algum ele o deixaria até que tudo se acalmasse.

Perry suspirou. Seus ombros relaxaram e ele virou-se para Nick. _ Bem, pessoalmente, eu acho que se isso for resolvido, nós é que teremos de resolver. Acho que vou até a sociedade histórica hoje. Ver se consigo achar mais informãções sobre a história da casa.

Essa abordagem aggressive e prática fez com que Nick ficasse surpreso e isso não combinava com a imagem de donzela em perigo que Nick tinha de Perry. Ainda sim, ele estava muito aliviado por ver que o garoto lidava com isso calmamente. Ele estava esperando por uma crise emocional. A redirecionada calma de Perry para o problema, foi inesperada – e bem vinda.

_ Que tal procurar uma cópia da planta? Nick perguntou.

_ Não deve existir uma plata da estrutura original, - Perry disse. _ Antes de 1900, os construtores não faziam planos elaborados como hoje em dia. Não com o tipo de arquitetos especialistas de hoje. Deve ter alguma planta das renovações feitas quando Alston comprou a casa na década de vinte.

_ A Sra. Mac tem eles?

_ Talvez. Mas nós queremos que ela saiba que estamos examinando a história da casa?

Novamente, Nick estava desorientado com a perspicácia inesperada da parte de Foster.

_ Quais são as outras opções?

Foster considerou. _ Podemos tentar o escritório do fiscal de construções na prefeitura. Eles devem ter dado entrada na licença quando fizeram as últimas renovações, quando a casa foi adaptada para os apartamentos. Isso deve ter sido feito nos últimos vinte anos, aproximadamente. Não sei ao certo quando s Sra. Mac assumiu.

_ Ela é dona do lugar ou apenas o gerencia para alguém?

_ Agora que você disse isso, eu não sei. Perry pensou. _ Todo mundo acha que ela é dona do lugar. Talvez ela não seja. Nós deveríamos descobrir. E também podemos ver os mapas do seguro contra incêndio quando estivermos na prefeitura. Alguns deles são do final de 1800. Às vezes dá pra ter uma visão tridimensional. Algo que indicasse os limites dos prédios, a posição das portas, janelas, varandas -

_ Você ainda está pensando em uma passagem secreta, - Nick disse. Ele não zombava mais da ideia como antes.

_ Acho que sim, é. Alguém chegou lá em cima sem passar pelo policial.

_ O policial pode ter ficado lá embaixo por muito mais tempo do que ele diz – ou até mesmo do que ele acha.

_ Verdade. Mas, claramente, Perry só estava fingindo aprovar a ideia, por que ele adicionou: _ Nós podemos ver os arquivos da cidade também, talvez a biblioteca. Definitivamente a sociedade histórica. A casa sempre foi uma das mais importantes nessa área, até mesmo quando era a Hennesey Farm. Tenho certeza de que alguma versão da planta estará nos registros históricos em algum lugar.

_ Parece que você sabe muito sobre essas coisas, - Nick adicionou, curiosamente.

A expressão de Perry foi vaga. Ele disse: _ Eu estudei por um tempo para ser um arquiteto. Não era para mim, afinal.

_ O seu negócio é pintar, - Nick disse, observando-o.

_ Sim. Perry mudou de assunto. _ A outra possibilidade é o que eles chamavam de livros de modelos. Muitos construtores da virada do século tiravam suas ideias de planos de ações publicados por diferentes empresas. Mas não acho que isso nos ajude a encontrar passagens secretas ou túneis escondidos. Isso seria único da casa.

_ Certo, - Nick disse, pegando a jaqueta. _ Parece que temos um plano. Vamos começar com a sociedade histórica e ver no que dá.

* * * * *

Jane recebia uma pizza quando os dois chegaram no saguão. Ela pagou a garota que usava um uniforme colorido e brilhante, e trancou a porta contra a chuva e o vento, espiando Nick e Perry.

_ O café da manhã dos campeões, - Nick comentou, reconhecendo o logo familiar na caixa de pizza.

_ Ei, já passou do meio dia, - Jane disse. _ Além disso, eu gosto de pizza no café da manhã.

_ Você não vai trabalhar de novo? Perry perguntou.

_ Não. Ela abaixou a voz. _ Acabei de ouvir sobre o Sr. Stein ter sido atacado no seu apartamento.

_ Ele disse que ouviu alguém andando no meu quarto, - Perry disse.

_ E ele subiu para investigar? Foi uma atitude boa de sua parte.

Nick a examinou. _ Por que você acha que ele subiu?

_ Não faço ideia, - Jane disse. _ Talvez ele tivesse escutado alguém lá em cima, mas todo mundo nesse lugar está agindo de forma estranha. Eu notei a Sra. Dembecki andando pelo jardim há algum tempo, e eu tive de chamá-la quatro vezes até que ela entrasse. Espero que ela não esteja enlouquecendo. Não acho que ela tenha família. Jane voltou para seu tom de voz normal. _ Então, onde vocês estão indo?

_ Para a cidade, - Perry disse, sucinto.

_ Vocês podem ter de repensar. Há outra tempestade à caminho. Ela estremeceu. _ O Sr. Teagle acha que a ponte vai inundar.

_ Não seria ruim se nós não pudéssemos voltar, - Perry disse sarcasticamente.

_ Ah, seria sim! Jane disse. _ Vocês vão perder a sessão espírita.

Perry, que estava com uma das mãos na fechadura, parou. _ Que sessão espírita?

_ D – o Sr. Center – concordou em fazer uma sessão espírita hoje à noite aqui na casa.

_ Você só pode estar brincando, - Nick disse.

No mesmo momento, Perry exigiu: _ Uma sessão espírita? Por quê?

Jane disse, defensivamente: _ Por que, por causa da assombração, claro! Mas ela evitava o olhar acusador dele.

_ Isso é ridículo, - Perry disse com um calor incomum. _ Um fantasma não atingiu a cabeça de Stein. Nenhum fantasma atirou em Tiny.

_ Eu nunca disse que um fantasma atingiu a cabeça de Stein. Não que eu fosse os culpar.

_ Essa sessão foi ideia de quem? Perry perguntou, seu rosto pálido corava. _ Vocês pretendem falar com quem no plano espiritual?

Jane parecia impaciente. _ O seu fantasma, claro.

A boca de Perry abriu, ele parecia procurar por ar. Nick colocou uma mão discreta em seu braço. O garoto estava tremendo. _ Ele não é meu! Enfim, não foi um fantasma.

_ David diz que foi.

_ Ele não estava lá! Eu estava.

Jane estava completamente vermelha. _ Bem, querido, às vezes precisamos de um profissional para saber a diferença.

A boca de Perry movia, mas as palavras não saíam. Ele parecia genuinamente no prejuízo – ou talvez, apenas inarticulado de raiva.

_ Você não vai ganhar essa discussão, - Nick disse, apertando a mão no braço tenso. _ Venha. Ele abriu a porta e empurrou Perry para fora.

_ Você estará de volta a tempo para a sessão, certo? Jane foi atrás dele. _ Você precisa estar aqui, Perry. David disse que precisamos da sua presença.

_ Não espere por nós, - Nick disse e fechou a porta na em sua cara de indignação.

_ Todo mundo naquela maldita casa ficou louco, - Perry disse enquanto corriam pelo gramado encharcado. _ Por que ninguém vê o que está realmente acontecendo aqui?

Eles chegaram até a pickup de Nick. Nick destravou a porta do passageiro e correu para o outro lado. Perry ainda estava furioso quando Nick ligou o carro.

_ Apenas acalme-se, - Nick disse, um pouco surpreso. _ Ninguém pode forçá-lo a fazer o que você não quer.

Perry encarou-o espantado. _ Você realmente acha isso?

Nick pensou. _ Não estou falando sobre a morte e os impostos, mas sim. Até certo ponto, sim. Com certeza ninguém pode te forçar a participar de uma festa psíquica se você não quiser.

Perry emitiu um som baixo, amargo e desprezível, virando o rosto para a janela molhada.

_ O que isso quer dizer? Nick olhou-o rapidamente e curioso.

_ Nada. Nick voltou a olhar para a frente, enquanto eles colidiam com a ponte longa e coberta, mas a expressão de Perry estava perdida na escuridão do túnel. Nick podia sentir a agitação das suas emoções como um campo elétrico.

_ O que houve?

_ Nada.

_ O que há de errado?

Perry disse baixo: _ As pessoas tem várias maneiras de forçá-lo a fazer o que você não quer.

_ Não faço ideia do que estamos falando, - Nick disse. _ Não vou deixar que forcem você a participar de uma besteira mística. Você pode contar com isso.

Silêncio.

O carro saiu da escuridão da ponte coberta e Nick arriscou olhar novamente para seu companheiro. Perry ainda olhava pela janela, sua expressão e stranhamente fria e distante.

* * * * *

_ Verity Lane, - a Sra. Bartlett disse com brilho nos olhos. _ Acho que eles estão passando um de seus filmes no final da rua.

Perry pensou se a idosa Sra. Bartlett, curadora da Sociedade Histórica de Fox Run, estivesse – nas palavras de Jane – enlouquecendo, mas ela aliviou a mente de Perry quando esclareceu: _ Eles estão fazendo uma daquelas sessões nostálgicas de filmes no Players Theater, na rua Dove. A matinê custa apenas dois dólares. Eles estão chamando de 'matinê dois bits’.

_ Nós estamos mais interessados em Shane Moran, - Nick disse. Ele examinava a exposição de armas de fogo do século dezoito que foram descontinuadas.

_ Ah, mas você não pode entender Shane sem conhecer Verity, - a Sra. Bartlett disse, maravilhada. _ Eles eram amantes, sabe.

_ Achei que ela fosse casada com Henry Alston, - Perry contestou com a surpresa ingênua do produto de uma união estável e de classe média.

_ Ela era! Foi um escândalo terrível. Alston era um inglês discreto, mas rico como Creso, quando comprou a casa no começo da Lei Seca e começou a renová-la. Ele havia apaixonado-se por uma das Garotas Ziegfeld, Verity Lane, e a história é a de que ele comprou a velha Hennesey Farm para ela, embora ele não tivesse pensado que uma pequena borboleta como Verity fosse querer morar na floresta de Vermont...

Para guardá-la para ele, Perry pensou. Mas ele não disse nada, deixando a Sra. Bartlett falar sem reprimí-la.

_ A história diz que Verity o rejeiitou – muitas vezes e publicamente, mas ele persistiu e, finalmente, a conquistou. Eles mudaram-se para lá em 1923, e ficaram bem famosos por suas festas animadas. Eu não deveria dizer suas, por que eu acho que eram festas dela, com Henry à tiracolo. _ Eu li um artigo sobre a casa, - Perry disse. _ Jazz e bebidas alcoólicas. E apostas ilegais.

_ E é aí que Shane Moran entra, - Sra. Bartlett disse. _ Era Lei Seca, claro, e a venda, transporte e fabricação doo álcool era ilegal nos Estados Unidos.

_ É difícil acreditar que eles deixaram isso passar, - Nick disse.

_ O movimento de temperança tem uma história longa em Vermont, - Disse a Sra. Bartlett. _ Mas você está certo. A Décima-Oitava Emenda era extremamente impopular com a grande maioria das pessoas desse país, e isso criou um grande mercado para o contrabando e serviu para legitimar o papel do criminoso. De outro modo, cidadãos de bem começaram a fazer negócios com gangsters como Shane Moran. _ Por causa da proximidade com a fronteira Canadense, Vermont era o canal para contrabandistas.

Sra. Bartlett os guiou até o fim do corredor, passando por várias litografias da vida na aldeia e utensílios domésticos até uma montagem de fotografias antigas.

_ Esse era Shane Moran.

Perry esperava encontrar alguém parecido com Al Capone – ou até mesmo Humphrey Bogart – mas Moran era um homem jovem com traços irlandeses. Perry examinou a foto. Uma coisa era certa: essa não era a imagem do homem morto na banheira.

Nick disse: _ Então, Henry Alston começou a comprar bebidas para suas grandes festas e... o que aconteceu? Ele tentou trair Moran?

_ Vejo que você tem uma visão cínica da natureza humana, - A Sra. Bartlett disse. Seus olhos brilhavam novamente, então, aparentemente, ela concordava com a visão de mundo exausta de Nick.

_ Eu sei algumas coisas, - Nick respondeu.

_ Aparentemente Henry tentou trair Moran, mas a culpa não foi totalmente de Henry. A história que eu ouvi de minha avó, que era empregadano Alston Estate, foi que Verity apaixonou-se por Shane Moran.

_ Ops, - Perry disse.

_ Palavras do Henry, eu acredito, - A Sra. Bartlett concordou. _ Henry queria Moran fora dos negócios, a história diz que ele tentou tramar alguma coisa com a imigração. Moran escapou.

_ E então, Moran invadiu a festa privada de Henry e roubou seus convidados ricos, - Nick disse. _ Estou surpreso por Moran não ter atirado em Alston.

_ Ah, Moran não era um assassino. Pelo menos não a sangue frio. E, de qualquer modo, ele realmente voltou por Verity. Sra. Bartlett apontou com sua mão enrugada, o anel dourado de casamento brilhava devidamente.

_ Eu não li nada sobre isso,- Perry disse.

_ Não foi parar nos jornais, embora fosse algo comentado por esses lados. Moran apareceu e implorou para que Verity fugisse com ele, mas eu acredito que o papel de gangster apaixonado não a interessava. Enfim, ele saiu com uma fortuna em jóias e bens – mas sem Verity. Ele foi pego na floresta em Witch Hollow, alguns dias depois, morto a tiros por um advogado, a história diz que ele foi subornado por Henry Alston para assegurar que Moran não fosse encontrado vivo.

_ E a fortuna em jóias e bens nunca foi localizada? Perry perguntou.

_ Correto. Há várias histórias sobre isso. Mas a resposta mais provável é que os aliados de Moran levaram o saque com eles. Embora, até onde saibamos, nada, nem um anel, jamais apareceu.

_ Como alguém saberia? Perry perguntou. _ Talvez as jóias foram derretidas e vendidas no exterior.

_ Verity usava as safiras de Alston. Era uma coleção muito conhecida e cara. Havia um colar, duas pulseiras e um anel. Seria difícil livrar-se disso sem que alguém reconhecesse as pedras – o roubo teve bastante atenção da mídia. E muitos dos outros convidados perderam peças caras além dos isqueiros de ouro e caixinhas de prata. Sra. Bartlett deu um sorriso doce. _ Acho que alguém saberia se alguma coisa do roubo aparecesse.

_ Por que Moran não foi embora? Nick pensou alto, franzindo a testa enquanto olhava a foto do gangster. _ Por que ficar por aqui depois de ter levado um pé na bunda?

_ Talvez ele esperasse que ela mudasse de ideia, - Perry disse.

Nick olhou-o de igual para igual. _ Parece que ela deixou isso bem claro.

_ Isso é mais uma daquelas coisas que nunca saberemos, - disse a Sra. Bartlett, aparentemente sem questionar.

_ Quem é o dono da casa agora? Nick perguntou.

_ Isso é uma pergunta muito interessante, - A Sra. Bartlett disse. _ É claro que a Sra. MacQueen gerencia a propriedade - se é que podemos chamá-la assim – por quase vinte anos, mas a casa mudou de donos várias vezes desde que Alston perdeu sua fortuna em Março de 33. Ela é, atualmente, da família Dunstan em Barre. Na verdade, um dos inquilinos de lá tem um parentesco distante.

_ Quem? Perry perguntou.

_ Jim Teagle, - a Sra. Bartlett respondeu.