O Fantasma Usava Meias Amarelas
Capítulo Nove
_ Não é exatamente uma coincidência maravilhosa, - Nick disse, levando uma garrafa de Sam Adams até a boca.
_ O que temos é alguém livrando-se do parente idoso e insuportável de graça, ou quase de graça, colocando-o em uma de suas propriedades. Teagle consegue ficar de olho no lugar – e a Sra. MacQueen – e isso faz com que os parentes não precisem lidar com problemas. Não ouvimos nada que indicasse uma conexão entre os Alstons ou com Shane Moran. Ele bebeu direto da garrafa.
_ É engraçado ele nunca ter mencionado isso, - Perry disse, para poder ser ouvido por cima do som da televisão de plasma no canto, onde dois times de futebol de uma faculdade estavam conversando entre si.
_ Você conta tudo para ele? Nick perguntou. _ Você contou para ele o motivo da sua ida à São Francisco?
_ Bem, não, - Perry admitiu.
Eles estavam comendo no Moosehead Tavern na rua Bank. Cabines revestidas com couro, uma mesa de sinuca no quarto adjacente e a cabeça de um alce com um gorro de Papai Noel, colocada acima do bar- não era o tipo de lugar que Perry gostava, mas ele sentia-se confortável com Nick sentado do outro lado da mesa. Nick deu um gole em sua cerveja, seus olhos azuis escuro olhavam para a televisão de vez em quando.
_ Qual é o trabalho? Perry perguntou.
_ Ahn? Os olhos de Nick encontraram os de Perry.
_ Em Los Angeles. Seu novo emprego.
_ Ah. Para a surpresa de Perry, a expressão de Nick fechou-se. _ Investigador particular.
O rosto de Perry iluminou-se com interesse. _ Sério?
_ Sim. Nick parecia acanhado. _ Um colega da SEAL abriu a empresa com alguns amigos. Ele deu de ombros.
_ Você vai ser muito bom nisso, - Perry disse.
Isso parecia deixar Nick mais desconfortável. Ele disse: _ Não é como nos filmes – ou nos livros que você leu. Tem muita pesquisa e localização de veículos.
Perry sugeriu esperançoso: _ Fraude no seguro? Pessoas desaparecidas?
_ É, talvez, - Nick disse. _ Ainda sim, não é como nos filmes.
_ Como você sabe?
_ Eu espero que não seja como nos filmes, - Nick disse e Perry sorriu.
A garçonete foi até a mesa e eles pediram comida e mais algumas cervejas. Ele voltou logo com um sanduíche de frango e queijo para Perry e porco defumado com pimenta e coberto com cheddar Vermont e cebolas para Nick. Nick imaginou que aquilo seria uma das coisas que ele sentiria saudades na Califórnia: A pimenta e o mel, e a broa de milho e jalapeño.
Ele levantou os olhos e Perry estava sorrindo para ele. Isso era outra coisa que ele sentiria saudades na Califórnia, mas era melhor não pensar nisso. Em vez disso, ele disse: _ Olhe, eu estive pensando.
Perry deu um olhar inquisitor – embora os pensamentos de Nick sempre tivessem toda a atenção.
Nick disse: _ Alguém mais sabia da sua mudança de planos para o fim de semana? Alguém sabia que você estava voltando mais cedo?
_ Não.
_ Por que você voltou mais cedo?
Perry o encarava. _ Eu já te disse. Não deu certo com o meu amigo.
_ Certo, e esse amigo seu? _ Onde você o conheceu?
_ Pela Internet.
_ Pela Internet? Quer dizer, em uma sala de bate-papo?
_ Sim. O queixo de Perry mostrava uma marca teimosa. _ Qual o problema? Muitas pessoas se conhecem assim. Nós começamos a trocar e-mails, e vimos que tínhamos muitas coisas em comum. Marcel era -
Nick colocou a cerveja na mesa. _ Marcel?
_ Marcel, é, - Perry disse brevemente.
_ Você estava tendo um romance cibernético com alguém chamado Marcel? Nick ria dele e Perry ficou vermelho de raiva.
_ Você faz com que isso pareça estúpido e estranho. Não era. Nós tínhamos uma amizade verdadeira. Um relacionamento de verdade. Nós escrevíamos um para o outro todos os dias, às vezes mais de uma vez ao dia. E então, finalmente ligamos um para o outro. Conversamos por muito tempo e decidimos nos encontrar, para ver -
_ E surpresa, surpresa, - Nick disse cinicamente. _ Ele tinha um metro de altura, era careca, gordo e aparentava sessenta anos.
Perry disse, bravo: _ Ele era exatamente como eu esperava. Como eu imaginava. Ele era perfeito.
A boca de Nick fez uma curva sarcástica, mas tudo o que ele disse foi: _ Então, o que aconteceu com o Sr. MSN? Você não era o que ele esperava?
Perry fitava-o, chocado. Ele disse, afinal: _ O ex-namorado dele queria voltar.
Até mesmo Nick chocou-se. _ Meu Deus. Ele não poderia ter escolhido um final de semana diferente?
A raiva de Perry já havia esgotado. Ele deu um sorriso torto. _ Acho que teria sido legal se eles tivessem resolvido isso antes de eu ter gasto todo meu dinheiro nas passagens de avião e três camisas novas. Demorou muito para economizar.
_ Então agora você não tem o dinheiro do aluguel por que você gastou tudo em uma viagem e roupas novas.
Perry balançou a cabeça.
Nick o examinou criticamente, mas não foi indelicado. _ Você não pensou nisso...?
_ Você não entende, - Perry disse. _ Eu achei que o conhecesse. Eu o conheço. Ele é... ele é esperto e engraçado e sensível. Ele é arquiteto. Algum dia ele vai construir algo tão maravilhoso como... como Frank Lloyd Wright. Nós tínhamos muito em comum. Nós tínhamos o mesmo filme favorito no colégio – Come Undone – e nós tínhamos a mesma música favorita - "Human" do The Killers. Nós dois gostamos de milho no palito grelhado, e canela e noz-moscada no chocolate. Nenhum de nós assistiu Queer as Folk, e ambos tivemos golden retrievers quando éramos crianças.
Estritamente falando, era mais do que ele e Marie tiveram em comum. Nick disse: _ Ele não mencionou o ex-namorado para você?
A pergunta banal fez com que Perry ficasse surpreso. _ Mais ou menos. Eu sabia que ele teve um relacionamento. Quem não?
_ Você já teve?
_ Eu nunca morei com alguém, - Perry disse com dignidade.
Nick balançou a cabeça.
_ Não é fácil conhecer pessoas aqui, - Perry disse. _ Vermont não é... quero dizer, partes daqui são conservadoras. Especialmente no Kingdom. Essa é uma cidadezinha.
_ Então se mude.
_ Onde? Mesmo na luz fraca, Nick podia ver a cor delicada debaixo da pele clara de Foster. _ É preciso dinheiro. O aluguel do primeiro mês e do último, e eu não tenho nem o desse mês. E eu precisaria arrumar um emprego novo. Eu não tenho experiência com nada.
Nick pensou. _ Não posso te ajudar com isso, mas vou te dizer uma coisa. Meu aluguel está pago pelos próximos dois meses. Eu paguei seis meses adiantados. Quando eu for, você pode ficar lá. Isso deve te dar tempo para se ajeitar.
Perry olhou para ele, sem palavras.
_ Não faça disso uma grande coisa, - Nick avisou.
_ Não. Certo. Perry abaixou os olhos. Ele parecia lutar para reprimir um sorriso enquanto prestava atenção nas batatas fritas.
_ Certo, está combinado, - Nick disse bruscamente. _ Agora tudo o que temos de fazer é descobrir quem colocou o corpo na sua banheira. Ele não estava sendo totalmente sério. Pelo menos... ele achava que eles poderiam encontrar informações para ajudar o departamento do xerife com a investigação mal-feita, e ele achou que seria bom manter a mente do garoto ocupada. Mas Nick não achava que eles resolveriam o caso do cadáver desaparecido.
_ Quem quer que tenha matado Tiny, - Perry respondeu – aparentemente teve a ilusão de que ele desmascaria alguma coisa.
_ Talvez.
_ Tem de ser isso. Tiny andava por aí falando sobre fantasmas com meias amarelas, e isso deve ter representado perigo para alguém.
Nick disse: _ Mas você sabe que ele estava falando isso para nós enquanto estávamos no apartamento do Watson.
Aqueles cílios ridículos levantaram-se. _ Você quer dizer que alguém estava nos escutando?
Essa era uma das coisas que Nick gostava em Foster. Ele conseguia juntar as coisas sem demora.
_ É. Eu não consigo acreditar em passagens secretas, mas eu acho que alguém ouviu Tiny falando com você, ou Tiny falou sobre 'o fantasma’ para mais pessoas.
_ Center e Stein moram naquele andar. O apartamento de Center é ao lado do de Watson – e dizem que pessoas cegas compensam com os outros sentidos. Talvez ele tenha uma ótima audição.
_ Ahn, - Nick disse.
Eles comeram em silêncio, enquanto música tocava ao fundo. Música de Natal. Era apenas Novembro, mas Bing Crosby já era popular. Nick achava isso vagamente deprimente.
_ Podemos ir até os arquivos da biblioteca, - Perry disse.
Nick balançou a cabeça. Ele não estava animado para passar o dia na biblioteca, mas não é como se ele tivesse mais ideias. Já era um caso arquivado, então os caminhos óbios de investigação foram eliminados. É uma pena que isso não tenha aparecido alguns meses depois dele ter o treinamento de investigador particular.
Claro, em alguns meses ele estaria na Califórnia, e Perry Foster seria apenasmais uma memória de uma parte da sua vida que ele mal podia esperar para esquecer.
_ Ou, Perry sugeriu de repente, felizmente, _ Nós podemos assistir ao filme de Verity Lane no Players Theater.
_ Parece perda de tempo.
_ Não temos muitas pistas, - Perry apontou. _ Não fará mal ver uma das pistas principais, certo?
Estranhamente, Nick descobriu que ele não queria magora o garoto – não que ele visse algum motivo prático em assistir o filme antigo. Embora ele estivesse curioso sobre Verity Lane.
_ Acho que podemos ir até a biblioteca e depois ver o filme.
Quando Nick não respondeu, Perry disse casualmente: _ Se você está preocupado achando que as pessoas pensarão que você é gay por ir comigo, não se preocupe.
Nick encontrou os olhos de Perry. _ Não?
_ Não.
_ Por quê?
_ Você não aparenta ser.
_ Tem uma aparência, é? Achei que fosse um mito. E aqueles bodybuilders gays?
Perry deu de ombros. _ Nunca conheci algum.
_ Você conhece muitos bodybuilders?
_ Não, mas conheço outros caras gays. Sabe, eu não vivi minha vida toda em Fox Run.
_ Eu imaginei. De onde você é?
_ Rutland.
A segunda maior cidade de Vermont e um centro comercial, então Foster deveria ser relativamente experiente. Mas Nick achou que ele estava certo. Uma criancinha doente e superprotegida – ele apostava que era um filho único com pais mais velhos e apaixonados.
_ O que você está fazendo aqui no meio do nada?
_ Achei que fosse ser legal viver em uma cidadezinha. A falta de noção disso quase deixou Nick sem ar. _ Sabe, algum lugar onde todos sabem o seu nome, e você não precise trancar o carro ou as portas. E eu achei que fosse ser bom para minhas pinturas, morar em um lugar rural e quieto.
_ Você não pensou que talvez fosse solitário para alguém com a sua orientação?
Perry ficou quieto. _ Eu não estava pensando nisso. Eu queria me afastar.
_ Do que?
_ Tudo. De todos que eu conhecia. De tudo o que eu conhecia.
Nick disse levemente: _ Parece meio drástico.
Perry olhou para a janela do bar, para as ruas de Thomas Kincaid, brilhando na chuva. O borrão colorido das luzes das lojas, semáforos, luzes dos carros refletidas no asfalto molhado. Nick esperava que ele não fosse contar sua história de vida.
Perry disse com naturalidade: _ Quando eu disse aos meus pais que era gay, eles me mandaram embora.
O barulho da TV aumentou e diminuiu. Nick deu um gole em sua cerveja, e colocou a caneca na mesa cuidadosamente. _ Por que você contou para eles?
Perry parecia confuso. _ Eles são meus pais.
_ Exatamente. Você deve conhecê-los bem para saber como eles se sentem sobre o assunto.
_ Mas eu pensei – deveria – ser diferente por ser eu.
_ Você pensou que eles iriam sentir-se diferentes sobre algo que os choca e enoja por que o filhinho deles disse que era um deles? Você é mesmo ingênuo.
Perry respondeu. _ Eles me amam. Eu os amo. Eu tive de ser honesto.
A ideia era estranha para Nick. Ele havia se alistado na marinha quando fez dezoito - cinco anos mais novo do que Foster. Ele não mais discutiria suas inclinações sexuais com seus pais, assim como não comeria o cachorro da família. É verdade, sua mãe e seu pai estavam muito ocupados cuidando de seis crianças e sua avó. Confidências não foram uma parte da família Reno. Discussões em geral não eram coisas que seus pais tinham tempo ou energia para fazer. Sempre foi tudo o que pudessem fazer para colocar a comida na mesa e roupa nos filhos.
Além disso, Nick casou-se com Marie assim que foi chamado para a marinha – principalmente por que é isso que as pessoas faziam em Island Pond. Ele nunca havia pensado em fazer algo diferente - não por muito tempo.
Engraçado. Dependendo de como olhamos para isso, Foster estava bem à frente de onde Nick estava naquela idade.
Perry disse com firmeza: _ Eles virão até mim quando perceberem...
_ Não é uma fase?
Ele balançou a cabeça.
_ Tem certeza?
Os olhos de Perry escureceram. _ Claro que tenho.
_ Quero dizer, você nunca esteve com alguém, certo? Nick foi brusco. _ Homem ou mulher? Eu sei que muitos jovens tem medo de garotas.
Para sua surpresa, Perry relaxou, rindo: _ Não tenho medo de garotas. Meus melhores amigos sempre foram garotas. Garotos nunca tiveram tempo para mim na escola – exceto pelos outros desajustados.
Nick olhou para ele irritado.
_ Garotas não me interessam, - Perry explicou como se estivesse ditando os fatos da vida. _ Caras como você me interessam.
Nick deixou sua broa cair.
_ Enfim, Perry disse sem constrangimento. _ Meus pais me mandaram embora e junto o meu diploma em arquitetura, o que não tem problema. Eu queria ir para a escola de artes. Então eu decidi lutar por isso. Ir atrás do meu sonho e tornar-me um pintor. Ele sorriu para Nick, animado. _ Claro, mas não paga muito bem.
Nick sentiu como se uma dor de cabeça estivesse a caminho. Era culpa dele mesmo. Ele tinha de abrir a boca e perguntar, não tinha?
* * * * *
A chuva transformava-se em neve enquanto eles estacionavam na biblioteca. Perry enrolou o cachecol na boca e no nariz, mas ele já tossia quando eles chegaram no topo da escadaria que levavam ao prédio de tijolos.
_ Você não toma remédios para controlar isso? Nick perguntou, franzindo a testa enquanto Perry lutava pare retomar o fôlego.
Perry balançou a cabeça. _ Eu tomava, mas não tenho mais plano de saúde.
_ Jesus Cristo.
Nick o encarava exasperado. _ Não é ruim no verão. Ou na primavera, sério. É que quando fica muito frio eu tenho alguns problemas, - Perry assegurou.
_ Sem problemas, então. Exceto por que você vive em Vermont.
Perry deu de ombros. Sua respiração estava normalizando novamente. Ele virou-se e mostrou o caminho pelo prédio quieto.
_ Não consegue ficar longe daqui, consegue? Uma garota gordinha e de cabelos escuros cumprimentou Perry do lado de trás do balcão. Então ela notou que Nick estava com ele e não na fila. O olhar dela era de curiosidade. _ Olá.
_ Oi.
_ Só vamos olhar os arquivos, Perry disse, vagamente irritado pelo interesse repentino de Patti. Nick pareceu nem notar – talvez ele estivesse acostumado a atrair garotas. Talvez seus pensamentos estivessem em outras coisas – Ele tinha um olhar escuro e pensativo enquanto olhava para o cômodo bem iluminado, as decorações de papel, os panfletos dos eventos locais.
Patti disse: _ Não são boas férias, não é?
Perry sorriu educadamente, mas ele pensava que desde que Nick apareceu, suas férias haviam melhorado imensuravelmente.
Passaram as próximas três horas vasculhando livros e cópias plastificadas dos antigos jornais. Se era útil, era difícil dizer; era óbvio que Nick não pensava muito sobre esse tipo de trabalho investigativo. Ele preferiria estar lá fora examinando o asfalto - e talvez algumas cabeças. Ele frequentemente afastava a cadeira e ia até a janela decorada com luzes de Natal, olhando para a tarde sombria e molhada.
Não era difícil imaginar Nick usando um chapéu, olhando para um bando de capangas. Ele tinha o tipo de rosto que seria perfeito para um filme pulp fiction dos anos 40.
_ O que você está olhando? Nick perguntou de repente, tirando Perry do reflexo. Ele não percebeu que estava encarando, e então corou.
O olhar de Nick continuou – um estranho momento passou – e então Nick voltou a olhar a janela e disse: _ Algo interessante nesses jornais?
_ Bem, uma coisa, - Perry disse devagar, ainda lendo. _ A Underground Railroad operava por aqui e, Oswald Hennesey, era um aboolicionista fervoroso.
_ Oswald sendo um descendente dos donos da Hennesey Farm?
Perry balançou a cabeça. _ Você já leu um livro chamado The House of Dies Drear?
_ Não soa familiar.
_ Eu li no ensino médio. É sobre um garoto que se muda para uma casa que era usada na Underground Railroad. Todo mundo acha que a casa é assombrada pelo fantasma do abolicionista chamado Dies Drear, mas na verdade a família ao lado está tentando assustar as pessoas para que eles possam roubar o tesouro enterrado nos túneis.
_ Ahn, - Nick disse. _ Eu sei onde isso vai chegar.
_ Só estou dizendo... - Perry estava sorrindo quando voltou a ler.
Entretando, ele não achou nada indicando que a Hennesey Farm fosse parte da Underground Railroad, e nem que existiam passagens secretas, e. no final, Oswald Hennesey não havia nem morado no Estate. Depois dessa breve animação, a leitura de Perry foi bem entediante até ele encontrar alguns recortes de jornais de 1920 sobre Henry Alston comprando a Hennesey Farm.
_ Aqui tem uma foto de Verity Lane, - ele disse, oferecendo um dos livros à Nick.
Nick examinou as fotos manchadas e gastas. Lane foi uma loira platinada com seios pequenos, uma boca curvada e olhos grandes. Lembrava vagamente Jean Harlow, Lane foi bonita para as mulheres de sua época.
Perry ainda estava lendo os recortes. _ Esse arquivo é quase todo sobre os Alstons. As notícias, aparentemente, informavam os leitores da época da Depressão com reportagens de festas animadas no Alston Estate, frequentadas por celebridades e VIPs da época. Sem surpresa, o roubo de Shane Moran foi manchete.
_ Aqui tem algumas coisas sobre a festa.
Nick colocou de lado as fotos de Verity Lane e olhou por cima dos ombros de Perry.
Perry leu: _ Era um evento de gala. Lanternas chinesas decoravam o terraço. Os convidados jantaram pombo assado e dançaram ao som de Ted Olsen’s Orchestra. Logo antes da meia noite, o gangster Shane Moran invadiu com sua gangue, roubando os cavalheiros e levando as jóias das damas. As famosas safiras de Alston, incluindo um colar estimado em mais de vinte milhões de dólares, foram roubados da dona da casa.
_ Eu imagino o quanto esse colar deve valer hoje, - Perry interrompeu-se para adicionar.
_ Muito, - Nick respondeu.
Os artigos subsequentes falavam sobre a caça aos gangsters. Dois dos homens foram capturados em um bar clandestino em Sugarbrush, mas os outros desapareceram. Moran, claro, apenas evitou a captura por alguns dias, depois de ser encontrado na floresta em volta do Estate. A história oficial é que ele havia recusado a chance de render-se pacificamente e foi morto à tiros por um advogado local.
Não havia explicação – estranhamente, nem mesmo especulação – do por que Moran tentou voltar para a cena do crime. Nenhum traço das jóis e itens valiosos roubados naquela noite de verão, jamais foi encontrado.
Pensando, Perry fechou o arquivo.
_ O que? Nick perguntou, estudando seu rosto.
_ Não pode ter restado alguém daquela festa, pode? Se alguém tivesse vinte anos, hoje estaria com noventa, certo?
_ Bem velho para pregar peças na antiga casa, - Nick concordou, vendo onde isso iria parar.
_ Ninguém no Estate é tão velho. Sr. Teagle tem setenta, e a Sra. Dembecki deve estar aí também. Sra. Mac deve ter... - Perry estreitou os olhos, tentando achar a idade da Sra. Mac.
_ Sessenta, - Nick disse com certeza. _ Stein deve ser um pouco mais jovem. Não muito.
Era claro para Perry que Nick estava ficando inquieto.
Eles terminaram de olhar os arquivos das casas do local, e Perry encontrou um mapa que mostrou à Nick.
Eles debruçaram-se sobre ele, cabeças juntas, e pelo canto dos olhos, podia ver a sombra azul sob a bochecha suavemente barbeada de Nick, o movimento de seus cílios, o queixo forte e firme e o nariz brusco.
Os olhos de Nick viraram-se para Perry como se sentissem sua atenção, depois voltaram-se para o mapa.
_ Não parece que a estrutura básica mudou externamente. Eles adicionaram paredes, criando mais quartos.
Eles terminaram a pesquisa na biblioteca e saíram para a rua. Eram quatro horas e já escurecia. Nick olhou para o relógio e então para Perry que – com o cachecol enrolado na boca e nariz – olhava para ele com esperança.
_ Você quer ver a maldita matinê, não quer? Ele disse, conformado.
_ A menos que você tenha planos, - Perry disse educadamente pelas dobras do cachecol.
Nick suspirou.
Eles foram até o carro e Nick e dirigiram até a rua Dove, Perry olhava silenciosamente pela janela, vendo as casas decoradas para o Natal. Uma rena feita de fios metálicos fingia morder gramados ralos e marrons. Pingentes de gelo coloridos caíam das beiradas, e Papais Noéis de ar balançavam bravamente sob a chuva e neve.
Perry nunca sentiu-se menos entusiasmado com o feriado. No ano passado ele teve muitas esperanças para o futuro. Ele havia acabado de se mudar para sua torre em Alston Estate e estava gostando de ter seu próprio lugar. Seu desconforto só começaria mais tarde. Ele havia conseguido um emprego na biblioteca, as pinturas iam bem, e ele acabara de conhecer Marcel na Internet. Ele havia sonhado que, talvez, na mesma época no ano que vem, ele e Marcel poderiam... bem, não vale pensar nisso agora.
Saints and Sinners estrelando Jack Oakie e Verity Lane, podia ser lido na marquise iluminada no topo do Players Theater.
Nick estacionou na vaga mais isolada no fundo e disse: _ Nunca diga que eu jamais fiz algo por você.
_ Eu jamais diria isso, - Perry retrucou, sério, levantando o cachecol novamente.
Eles entraram no antigo cinema; Nick comprou um pote gigante de pipocas com o ar de um homem afogando as mágoas em manteiga, e eles procuraram os lugares no cinema vazio.
O filme havia começado há cinco minutos, mas isso não importava. Até onde Perry conseguiu entender, tinha algo a ver com uma herdeira fugindo para ficar com o namorado que era treinador de cavalos. O treinador de cavalos acabou revelando-se malvado, mas o dono do estábulo era um desses caras bons e de queixo quadrado - e ele era aprovado pelos pais da herdeira - então parecia que tudo daria certo.
Nick ofereceu seu pote de pipocas com intervalos frequentes, e, de vez em quando, suas mãos colidiam no meio dos milhos quentes.
Verity Lane era pequena, loira e animada. Para Perry ela era como as outras atrizes atrevidas, pequenas e loiras de sua época. Ele não conseguiu captar algo particular sobre sua personalidade – ela parecia um anacronismo com a voz estridente, um pequeno fantasma platinado que tinha retornado à vida há algumas horas.
O que teria inspirado Shane Moran a arriscar sua vida? Era um mistério para Perry. Talvez Nick tivesse uma opinião diferente. Ele olhou para o lado. Nick assistia sem expressão; Perry podia ver as sombras do projetor em seu rosto.
Ele tentou imaginar Nick casado com alguém, mas a imagem não se formava.
Seus pensamentos viajavam enquanto Verity Lane flertava, contava piadas e chorava nos últimos vinte minutos de filme. O que teria acontecido com Verity depois que Shane Moran foi morto? Perry pensava. Ela e Henry Alston ficaram juntos? Henry havia perdido sua fortuna um ano após a morte de Moran. Verity teria voltado a fazer filmes? Ele não lembrava-se dela como uma dessas atrizes antigas que foram para a TV. Ele tinha a vaga noção de que ela havia parado de fazer filmes. Ele não conseguia lembrar-se dela em outros filmes enquanto envelhecia; ela teria feito a transição para a TV, mas e depois?
_ Diga, Verity sussurou nos braços do galã da matinê, com a última frase antes da transição para a tela preta. _ Que tipo de cara você acha que eu sou?
Nick bufou. Ele virou-se para Perry. Na escuridão, Perry só conseguia ver o brilho dos olhos e o que parecia ser um sorriso conformado. _ Feliz agora? Nick perguntou, suavemente, e havia um tom em sua voz... indulgente?
E como um relâmpago, Perry percebeu que ele estava feliz. Feliz por que Nick estava com ele. Tirou um sorriso de seu próprio rosto. Em uma semana ou duas Nick iria embora – eles provavelmente não veriam um ao outro nunca mais. Apegar-se a Nick seria ainda mais estúpido do que apegar-se ao Marcel.
Estava escuro quando eles saíram do cinema.
Perry estava pensando no quanto ele não queria voltar para a mansão Alston, quando Nick disse casualmente: _ Vamos tomar uma cerveja.
Eles atravessaram a rua em direção à um bar de má reputação com um letreiro luminoso oferecendo bebidas. Dentro do bar era escuro e cheio de fumaça - embora ninguém havia fumado legalmente por lá há muitos anos – e um jukebox tocava The Young Dubliners. Alguns homens jovens usando camisas de flanela, chegaram no bar falando com o garçom.
Era o tipo de lugar que Perry não teria sonhado em por os pés sozinho, mas com Nick ao seu lado, ele sentia todo o fascínio de uma viagem rápida para uma terra estranha.
Nick apontou para uma das mesas, e Perry sentou-se enquanto Nick foi até o bar pedir duas cervejas. Perry viu Nick conversar e sorrir com os homens do bar – ele, obviamente, não era um estranho naquele lugar.
_ Você quer algo para comer? Nick perguntou, colocando a cerveja na frente de Perry.
_ Eles tem comida aqui? Perry disse, surpreso.
Nick balançou a cabeça.
Perry hesitou. _ Você vai comer alguma coisa?
Nick leu a hesitação corretamente. E, normalmente, ele teria achado que era problema do garoto não saber economizar, mas... ele estava corando. Ele tinha o emprego em Los Angeles, e Roscoe havia oferecido um adiantamento do primeiro salário. E... ele gostava de ver Foster comendo. Disse bruscamente: _ Sim. Por que não pegamos as canoas de batatas? Podemos dividir. Por minha conta.
Ele foi recompensado com o sorriso tímido.
_ Acho que foi um dia perdido, - Perry disse mais tarde enquanto eles comiam as canoas recheadas com cheddar, bacon e molho branco. Nick havia pedido mais algumas cervejas, e sob o efeito do álcool, o garoto havia relaxado, começou a falar mais e contar segredos.
Nick deu de ombros.
_ Você acha que o xerife vai nos contar o que ele encontrar?
_ Você está assumindo que eles vão encontrar algo, - Nick disse sorrindo e Perry riu. Ele estava rindo bastante. Nick decidiu que ele não se importava.
Uma nova música começou a tocar no jukebox. Uma balada devagar e romântica; Perry disse de repente: _ Por que seu casamento não deu certo?
Nick fechou a cara.
_ Desculpe, - Perry disse rapidamente. _ Eu só...
Nick disse bruscamente: _ Não deu certo pelo mesmo motivo de vários casamentos não darem certo. No final, nós éramos pessoas completamente diferentes do que quando começamos. Não tínhamos nada em comum.
Perry balançou a cabeça. _ Vocês tinham algo em comum quando começaram?
Parecia uma pergunta óbia, mas Nick o encarou. E então, ele deu uma risada engraçada. _ Sim, nós éramos da mesma cidade. Não acho que pensei que fossemos precisar de mais do que isso. Meus pais ficaram juntos por cinquenta anos—até meu velho morrer.
_ Meus pais ainda estão juntos, - Perry disse.
_ Você é filho único? Nick perguntou.
Perry balançou a cabeça e Nick também, como se estivesse confirmando seus pensamentos.
Eles comeram em silêncio por um tempo. Então Nick disse: _ Fiquei pensando sobre essa sessão espírita.
A boca de Perry retorceu, mas ele disse: _ Aposto que sei o que você vai dizer.
_ Ah, você sabe?
_ Você vai dizer que seria útil assistir a todos que participarem e que eu deveria concordar em ir.
_ Eu realmente acho que seria útil, - Nick disse. _ Fico pensando se tem mais alguma coisa por trás disso - algo além do Center ser um louco, quero dizer.
_ O que você quer dizer?
_ Se eu soubesse, não teria arrastado você comigo.
Perry sorriu, parecia não estar perturbado com a ideia de ser arrastado por Nick. Ele o encarava com seus cílios longos como se Nick fosse a pessoa mais fascinante da terra. Flertando, Nick pensou maravilhado. Talvez Perry não percebesse.
Ele disse: _ Você acha que alguém vai tentar perguntar para Shane Moran o que ele fez com as safiras de Alston?
Nick deu de ombros. _ Nada me surpreenderia naquele lugar. Quem será que sugeriu a sessão?
Perry disse devagar: _ Eu acho que Jane sugeriu. Acho que ela realmente gosta de Center. Ela deve estar pressionando a ideia de uma sessão para aproximar-se dele. Nunca a vi ter tanto interesse em fantasmas e no sobrenatural antes disso.
_ Aposto que não há dúvidas sobre como Watson morreu, não é? Nick perguntou.
Perry balançou a cabeça. _ Ele teve um ataque cardíaco na vila. Parece bem claro para min.
_ Parece o caso mais rápido de causa e efeito já registrado, - Nick comentou – o que parecia um pouco difíci, visto seus hábitos alimentares. Perry cobriu um sorriso com a caneca de cerveja.
Eles terminaram a refeição juntos e Nick acenou um tchau para os homens no bar.
As bebidas afetaram Perry enquanto ele ia para o carro. Ele tropeçou um pouco e disse: _ Cara, estou cansado. Sinto como se não tivesse dormido há uma semana.
Nick o pegou pelo braço e o conduziu até a pickup. _ Acho que você vai dormir hoje à noite.
Perry piscou e disse seriamente: _ Não podemos ficar na cidade hoje? Alugar um quarto de hotel?
_ Você está me cantando? Nick perguntou surpreso.
Perry riu. _ Quer experimentar? Ele sorriu fielmente para Nick.
Contra a vontade, Nick riu. _ Not tonight, Josephine. Temos uma sessão para ir, lembra-se?
Perry fez uma careta, embora não tivesse ficado claro se a careta foi por ter levado um não ou a lembraça de que ele iria conversar com o Grande Além.
Nick destravou a porta do passageiro e foi para o lado do motorista. Ele ligou o carro.
Saindo do estacionamento, ele olhou para Perry. Ele estava tão quieto que Nick pensou que ele tivesse dormido, mas ele estava sentado ereto, olhando sem expressão pela janela.
_ Você está bem?
Ele balançou a cabeça.
_ Olhe, - Nick disse. _ Nada vai acontecer a você enquanto eu estiver por perto, então relaxe.
_ Perry disse calmamente: _ Eu sei. Só estou pensando em como será quando você se for.