O Fantasma Usava Meias Amarelas

Josh Lanyon · Capítulo 3 de 17

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O Fantasma Usava Meias Amarelas

Capítulo Dois

_ V ocê era da marinha? Perry tentou puxar uma conversa educada enquanto media o apartamento de Reno.

Os apartamentos da torre eram pequenos e isolados, e espelhavam um ao outro. Em ambos, o quarto principal dava em uma sala de jantar redonda com duas janelas com detalhes em formato de diamante. Do lado de fora, os quartos arredondados pareciam torres pequenas. Eles davam à casa sem graça e velha, um ar gótico. Por outro lado, o lugar era banal, especialmente agora que muita da arquitetura interna foi mudada para acomodar apartamentos. O apartamento de Nick tinha uma cozinha comprida e estreita que dava para a floresta. Perry olhou de relance para o jardim cheio e, em sua maioria, morto. Isso não importava, pois seus aposentos eram apenas um lugar para pintar. Também não parecia que Nick passava mais tempo que isso em seu apartamento. Ele tinha dois quartos (um deles foi transformado em uma sala de ginástica) e um banheiro. Havia poucos móveis e poucos toques pessoais.

Reno cortou a conversa e respondeu prontamente, _ Marinheiro da SEAL.

_ Deixe que a jornada comece.

Nick olhou feio, o que Perry já começava a reconhecer, e Perry explicou: _ Nos comerciais da TV. _ Deixe que a jornada comece. Não é um trabalho, é uma aventura. O slogan dos marinheiros, sabe.

Aparentemente Nick não sabia. Ele foi para a cozinha e sumiu.

Sentindo-se rejeitado, Perry virou-se para o quarto da frente. As paredes eram vazias, exceto por um quadro, uma enorme pintura do mar. Estava pendurada acima da lareira. Ondas azuis e acinzentadas abaixo do céu ameaçador. Perry gostou. Não havia mais quadros. Nenhum. As paredes eram imaculadamente brancas. Havia um pequeno sofá azul, onde ele dormiria. Uma luminária estava atrás do sofá. Uma mesinha ficava na frente dela. Somente esses móveis. Nada disso revelava a personalidade de Reno, a menos que a falta de móveis revelasse algo.

_ Você quer uma cerveja?

Perry largou sua mala e seguiu a voz de Nick até a cozinha. A cozinha era imaculada. Uma geladeira antiquada murmurava para si mesma. O fogão a gás parecia uma antiguidade. O relógio na parede indicava que já era mais de meia noite e Perry notou o quão cansado estava.

Nick estava encostado na pia, bebendo uma cerveja. Tomando ar, ele disse: _ Sinta-se em casa.

Perry abriu a boca para recusar, mas ele viu o brilho nos olhos de Nick, o olhar de quem esperava que Perry fosse uma moça que não bebe cerveja à meia noite.

_ Obrigado, - ele disse e abriu a geladeira. Ele esperava que ela estivesse vazia, exceto pelas cervejas e suplementos. Errado. As prateleiras estavam cheias de comida. Leite, ovos, pão e carne embrulhada em papel filme. Vegetais pressionados contra a gaveta de plástico.

Perry encontrou uma cerveja – do tipo importada – e tentou tirar a tampa.

Nick engasgou com a própria bebida e a cuspiu na pia. Ele estava rindo, nada gentil. Perry esfregou as mãos na calça.

_ Você precisa de um abridor de garrafas, - Nick o informou, limpando o queixo com as costas da mão.

Defensivamente, Perry murmurou: _ Eu não estava prestando atenção.

Nick entregou-lhe o abridor de garrafas. _ Quantos anos você tem? Você tem mais que dezoito, certo?

_ Tenho vinte e três.

As sobrancelhas escuras ergueram ceticamente. Nick parecia ter trinta. Ele tinha pele morena clara e cabelos pretos e curtos. E os olhos azuis-marinhos. Ele era muito bonito de uma forma “não me toque”. Tinha quase a mesma altura que Perry, mas pronto para agir. Palavra-chave: músculos.

Perry engoliu a cerveja que tinha gosto ruim. Ele não conseguia decidir se ele gostava de Nick Reno, mas ele sentia-se seguro com ele. Ele não conseguia imaginar nada que Nick Reno não pudesse solucionar.

Nick saiu da cozinha e foi para o corredor. Perry bebeu mais cerveja.

Gotas de chuva batendo na janela faziam um som mórbido. Ele lembrou-se que há algumas horas ele estivera em São Francisco. Ele não podia lembrar disso agora. Não com um cadáver aparecendo e desaparecendo como em um filme de terror. Ele bebeu um pouco mais da cerveja ruim.

_ Há quanto tempo você mora aqui? A voz de Nick perguntou do outro quarto.

_ Um ano no mês que vem.

_ E nada do tipo aconteceu antes?

_ Não, claro que não.

_ Algo suspeito?

Perry pensou. _ Não.

_ Você não parece convencido. Nick apareceu na porta com alguns cobertores dobrados.

_ É uma casa velha, - Perry disse relutantemente. _ Tem... atmosfera.

A expressão de Nick dizia que “atmosfera” não era uma resposta. _ O quê, piso rangendo? Vozes sussurrando?

_ Às vezes parece estou sendo observado, - Perry disse. _ Às vezes parece que minhas coisas foram movidas. Como se alguém estivesse em meus aposentos. Às vezes parece que a casa está... escutando.

Nick o considerou por um bom tempo. _ Eu diria que você é um doido varrido, mas alguém limpou a banheira e trocou os sapatos. Eu com certeza não imaginei isso. E eu com certeza não consigo pensar em um motivo inocente para alguém ter feito isso.

Era um alívio alguém acreditar em mim. Perry adicionou: _ Era para eu não estar aqui durante a semana. Eu voltei cedo.

_ Quem sabia disso?

Perry esfregou os olhos com os dedos. _ Eu não sei. Não era segredo. Janie – Sr. Bridger – sabia. Sra. Mac. Tudo parecia ficar claro para ele. Engolindo seco, ele disse: _ Eu estive planejando a viagem para São Francisco há semanas. Acho que qualquer um saberia.

O que quer que Nick tenha visto em sua face, ele disse bruscamente: _ É, bem, seria ótimo aprofundar isso. Durma um pouco e nos falaremos pela manhã.

Dormir parecia uma boa ideia. Perry não havia comido nada em quase vinte e quatro horas, e a cerveja o estava afetando. Ou talves fosse exaustão. Ele não havia fechado os olhos na noite passada – e na noite anterior ele esteve muito agitado para conseguir dormir. O caminho do aeroporto o deixou exausto; seu estômago estava vazio há horas.

_ Obrigado. Ele caiu no sofá. Nick jogou os cobertores dobrados. Ele os pegou com o peito.

Ele abriu a boca para agredecê-lo novamente, mas Nick já havia desaparecido dentro do quarto que Perry não conseguia ver. A porta fechou-se, finalmente.

A porta fechada foi um alívio. Perry não tinha se dado conta do quão nervoso o homem mais velho o fazia sentir-se. Nervoso e auto consciente. Nick Reno, homem de ação, claramente desprezava o covarde do outro lado do corredor.

Perry abriu sua mala, encontrou um pijama de flanela e um par de meias limpas. Seria uma noite fria. O termostato estava no sessenta, mas o calor escoava pelo batente da janela.

Com as mãos tremendo de exaustão repentina, Perry colocou o pijama, as meias e enrolou-se nos cobertores. O sofá era uns trinta centímetros mais curto. Não importava; uma cama de pregos seria melhor do que dormir em seu próprio quarto silencioso.

Ele considerou vagamente escovar os dentes, mas ele não conseguia convencer a si mesmo. Em vez disso, ele enterrou a cabeça no travesseiro frio e teve um choque. O travesseiro tinha o cheiro de Nick Reno. Tinha um cheiro masculino: Um pós barba de muito tempo atrás e um sabonete de ervas.

De uma maneira indefinível, isso o lembrava de Marcel, embora Marcel não tivesse o mesmo cheiro que Nick Reno. O sentimento de solidão e perda retornaram com força, colidindo com uma onda, arrastando-o para o mar em uma correnteza emocional. Seus olhos doíam, seu rosto enrubesceu. Ele pressionou o corpo contra o travesseiro que tinha o cheiro de Nick Reno para abafar o choro que ameaçava sair de sua garganta.

Seria a gota d'água terminar a semana chorando até dormir no sofá de Nick Reno. Ele imaginou Reno saindo de seu quarto e encontrando-o chorando no sofá, o que o surpreendeu com um riso molhado. Ele podia ver o horror no rosto de Reno claramente.

Ouvindo a chuva cair, fechou os olhos e deixou que isso o levasse.

* * * * *

Trinta minutos, Nick pensou, atirando a revista em cima da MK23. Trinta minutos e o garoto estará na terra dos sonhos.

Ele esperou, espreguiçou-se, braços cruzados atrás da cabeça, relaxado, esperando.

Ele gostava do som da chuva contra as paredes e telhado; fazia ele lembrar-se do mar. Ele sentia falta do mar.

Quando o relógio bateu o trigésimo minuto, ele levantou-se silenciosamente e foi até a porta para abri-la.

Tudo quieto na sala de estar. A luz ainda estava acesa, então ele esperou, ouvindo. Ele concentrou-se, desligando a chuva, desligando o relógio, os galhos batendo na casa. Ele pôde ouvir o garoto respirando suavemente, continuamente, adormecido.

Abriu a porta e foi até o corredor. Seu convidado estava confortavelmente curvado no sofá. Sua mala estava aberta, sua bombinha estava na mesa de canto, ao alcance das mãos. Suas chaves estavam no chão. Nick olhou novamente. Foster usava um pijama listrado e um relógio de pulso.

Nick pegou as chaves e parou quando ouviu uma tábua do chão ranger. O garoto respirou fundo e enterrou mais ainda seu rosto no travesseiro.

Nick continuou em direção à porta. Destrancou e saiu no corredor escuro. Ele trancou novamente a porta.

Cautelosamente, foi até o fim do corredor. Havia um armário embutido para roupa de cama em uma ponta. Suspeito, ele queria verificar.

Um baú de viagem embaixo de uma das janelas encardidas chamou sua atenção. Diga o que quiser, mas Nick aprendeu há muito tempo a não assumir nada. Ele ligou sua lanterna.

O baú estava trancado, mas ele abriu a velha fechadura sem problemas. Ao abrir a tampa, ele foi cumprimentado com um cheiro de naftalina. O interior estava lotado de tralhas. Alguns álbuns de fotos antigos, revistas velhas, uma boneca negra sem um braço, panos que pareciam com retalhos. Ele fechou o baú, desligou a lanterna e foi até o armário de roupas de cama.

Uma relíquia de tempos distintos, o armário embutido abriu-se com um ranger lúgubre das dobradiças não usadas. Nick esperou pelo som do alarme, pronto para abortar.

Nada. Ele puxou a corda da lâmpada. Uma luz fraca mostrou o vazio, prateleiras vazias e teias de aranha enormes o suficiente para acomodar uma aranha de Júlio Verne. Pó cobria o chão; Nick não precisaria ficar de quatro para ver que ninguém, vivo ou morto, havia estado nesse quarto por anos.

Segunda tentativa.

O garoto - ou talvez Bridger – mencionou o duto da lavanderia. Nick passou a luz da lanterna pela parede. Ele tinha uma vaga memória de dutos de lavanderia em hotéis. Eles geralmente davam no porão. Jogar um corpo pelo duto da lavanderia seria uma boa maneira de se livrar dele, mas não parecia ter um duto nesse andar. Os dois quartos da torre eram iguais, e, como não havia duto no quarto de Nick, ele tinha certeza de que o garoto também não tinha um.

Isso significa que alguém teria de levar o cadáver até o segundo andar e colocá-lo no duto da lavanderia. A maioria dos dutos que Nick havia visto não era tão grandes. Seria um bom lugar para livrar-se de uma criança ou anão; um cadáver adulto certamente ficaria entalado.

Ele foi até o apartamento de Foster, tateando no quarto escuro pelo interruptor.

Brevemente, ele distraiu-se com a quantidade de telas pintadas. Campanários brancos em contraposição a céus tempestuosos, um celeiro vermelho, sozinho e varrido pelo vento, árvores douradas. O outono da Nova Inglaterra. O que Foster fazia com tudo isso? Ele tentava vender? Era melhor do que muita coisa que Nick viu à venda.

Ele estudou meticulosamente os pinceis, os tentadores tubos de cores, as esponjas, réguas, navalhas, facas, rolos de tecido. Um passatempo caro, se fosse um.

Ao abrir a janela do quarto, ele olhou para baixo para a escada alta que brilhava, reagindo à luz que vinha de trás dele. Aqui estava a explicação mais plausível. A janela não tinha tela, e era grande o suficiente para passar um homem.

Mas quando Nick verificou, a janela estava trancada. Como alguém passaria um corpo pela janela, subiria sem derrubar o corpo, fecharia a janela e a trancaria por dentro?

Aliás, como alguém entraria por uma janela trancada?

Certo, digamos que a janela não estivesse trancada. Ainda sim, não é uma tarefa fácil carregar um peso morto por uma escada de seis metros. Ao descer, o assassino poderia jogar a carga, mas seria arriscado. Alguém poderia ouvir o corpo batendo na casa. Poderia ter ficado preso nas árvores. Passar um cadáver pela janela apresentou vários problemas de logística.

Mas um homem pode estar desesperado o suficiente para tentar. Dependeria do tamanho do corpo e do tamanho do homem que carregou o corpo.

O vento ecoava pela casa, erguendo-se para apanhar as folhas molhadas com uma mão fantasmagórica.

Nick balançou sua cabeça molhada como um cachorro e retornou ao apartamento.

O intruso teria de ser um homem, decidiu. Um homem em boa forma. Nick estava em ótima forma, mas ele não tinha certeza se poderia carregar um cadáver tão longe, a menos que o morto tivesse o tamanho de Perry Foster. E, ao julgar pelo tamanho do sapato perdido...

Teria de ser um trabalho interno. Nada mais fazia sentido. Nick pensou nos outros moradores do sexo masculino do Alston Estate. David Center parecia um louco, mas ele era cego, o que provavelmente o tira da posição de Psicopata do Ano. Rudy Stein, do segundo andar, é uma possibilidade. Teagle, no primeiro andar, era outro louco. um desses velhotes firmes e fortes que têm o hábito de meter o nariz na vida dos outros.

Mas Teagle estava for a visitando parentes em Barre. Parecia improvável que ele viria somente para depositar um cadáver e conseguir escapar sem deixar pistas.

O que o trouxe de volta para Stein e Center. Stein era um ex-policial, de acordo com a fofoqueira. Center é um psíquico profissional, um cartomante. Ele tem uma loja em Fox Run, onde ele lê mãos e joga tarô. Como um homem cego lê tarô? Nick não fazia ideia.

Ele realmente não conseguia imaginar nenhum deles escalando escadas na noite escura, com ou sem cadáveres. A coisa toda não fazia sentido. Se Nick não tivesse visto as marcas de algemas e o suposto sangue, ele teria dito que Foster estava delirando. Mas alguém era muito esperto. Trocar os sapatos foi um erro. Foi arrogante. Praticamente um desafio.

Nick nunca recusou um desafio.

* * * * *

Perry acordou depois de um sono profundo e sem sonhos.

Demorou um pouco até ele se orientar. Ele não estava em sua cama. E ele não estava na cama de Marcel. Tudo veio à tona rapidamente. Toda manhã, pelos últimos nove meses, seu primeiro pensamento ao acordar era sobre Marcel. Mas agora, em vez de florescer de antecipação, uma leve depressão acomodou-se nele como um floco de neve em um galho. Ele conseguia sentir sua compostura quebrando debaixo do peso; não ajudava em nada lembrar que ele estava de luto por um sonho, por algo que nunca existiu, exceto em sua imaginação. E por alguém que nunca existiu.

Ele secou o canto dos olhos. O apartamento estava quieto. Ele ouvia o tilintar da chuva no beiral. Nick Reno já estava em pé; Perry podia ouvi-lo mexendo-se quietamente pela cozinha, e ele podia sentir o cheiro de café sendo coado e do baco fritando: dois dos melhores aromas no mundo.

Seu estômago roncou. Ele saiu do casulo de cobertores e colocou suas calças. Ele tinha um torcicolo. Ele precisava de um banho e barbear-se. Precisava escovar os dentes.

Precisava voltar ao seu apartamento.

A compreensão o encheu de desânimo. Até mesmo à luz do dia, pensar em voltar lá, encarar o silêncio, o vazio - a memória do cadáver na banheira...

Ele foi em direção à cozinha, colocando uma camiseta. Nick estava sentado à mesa, tomando café e lendo um jornal. Ele levantou os olhos, seus olhos azuis e sua pele morena.

_ Bom dia, - ele disse laconicamente. _ Sirva-se.

Havia uma chaleira antiga de aço inoxidável ao alcance. Perry foi até o fogão. Uma caneca limpa estava sobre o balcão, o que pareceu um gesto amigável. Ele colocou o café: forte e puro. Nada de sofisticação e sabor para Nick.

_ Tem leite na geladeira, - Nick disse sem tirar os olhos do jornal.

Colocando muito leite e várias colheres de açúcar em seu café, Perry sentou-se de frente para Nick. Ele assistiu ao Nick engolir café puro. Nick terminou a história que estava lendo e dobrou seu jornal. Ao encontrar o olhar de Perry, ele meneou a cabeça de leve.

_ Dormiu bem?

_ Sim, obrigado.

Aquilo parecia servir como conversa. Nick levantou-se, foi até a geladeira e pegou uma caixa de ovos. Ele movia-se de maneira eficiente pela cozinha; drenou o bacon e quebrou os ovos.

_ Gema mole?

_ Ahn?

_ Seus ovos. Fritos, certo?

_ Claro, - Perry disse. _ Obrigado. Ele estava extremamente feliz de ter sido convidado para o café da manhã, para atrasar seu retorno. _ Obrigado por ter me deixado dormir aqui na noite passada, - ele disse timidamente.

Nick passou manteiga sobre os ovos, sem responder.

Ele usava Levi’s e uma camisa de flanela lisa. A camisa estava desabotoada, revelando um estômago tão moreno e duro como um busto de navio. Seus músculos do peito ondulavam quando ele movia a pesada panela de ferro. Perry lembrou-se de não encarar.

Nick tinha um ótimo perfil também, não tipicamente bonito, mas forte e simétrico. Havia caráter e dureza em seu rosto. Perry queria desenhá-lo.

Ele podia imaginar o que Reno diria sobre essa ideia.

_ Por quanto tempo você esteve na SEALs? ele perguntou, quebrando o silêncio.

_ Dez anos. Quatorze na marinha, somando tudo.

_ É bastante tempo.

Nick olhou torto. _ Mais do que metade da sua vida.

_ Você gostava?

Por quê? Pensando em se alistar?

O sarcasmo pegou Perry de surpresa, e ele escondeu-se atrás da sua caneca.

Nick pensou que foi mais rude do que merecido. Ele disse: _ O que você faz com todos aqueles quadros no seu apartamento?

_ Eu tento vendê-los.

_ Para quem?

_ Qualquer um. Por quê, quer comprar um?

Nick olhou para ele e depois sorriu. O sorriso era muito branco em seu rosto moreno e, inesperadamente, jovem. Isso o transformou, assim como sorrisos em livros devem ser.

_ Talvez, - ele disse. _ Você não é mal.

Por causa do elogio inesperado, Perry sentiu sua face corar. Nick parecia alguém que pensaria que arte é feita de calendários afeminados ou pôsteres de carros emoldurados em plástico. Mas não era justo, havia aquela visão temperamental do mar pendurada acima da lareira.

_ Perry continuou: _ Alguns vale-presente ajudam no meu trabalho. Estou tentando chamar a atenção de algumas galerias. Até agora, nada. Ele deu de ombros.

_ Você frequentou uma escola de artes ou algo do tipo?

Perry encarava os padrões dos grãos na toalha de mesa. _ Não. Eu queria ir para uma escola de artes, mas... não deu certo.

_ É? Nick não parecia muito interessado. Ele colocou um prato na frente de Perry com ovos fritos, bacon e batatas douradas. Muita comida.

Perry hesitou: _ Eu geralmente não tomo café da manhã. Ele tinha certeza que Nick não consideraria sucrilhos Kellogg’s um café da manhã.

_ Grande erro. O Café da manhã é a refeição mais importante do dia. Nick disse sem expressão; certamente, requerimentos nutricionais diários não era algo com que ele brincava.

Perry experimentou os ovos. Eles estavam bons. Por que eles não estariam cobertos com manteiga suficiente para causar um ataque cardíaco? Ele pegou uma tira de bacon, pensando no nível de colesterol de Nick.

Sentado, com seu prato, Nick perguntou: _ Você pensou em quem poderia saber que você não estaria aqui nessa semana?

De volta aos negócios. Ele foi gentil em demonstrar interesse, entretanto.

_ Janie, como eu disse. E eu acho que mencionei para o Sr. Teagle. E Sra. MacQueen.

_ Mais alguém?

_ Aqui, não. Eu disse na biblioteca que eu estaria de férias.

_ Você trabalha na biblioteca? As sobrancelhas escuras levantaram-se como se Perry tivesse confessado ser um dançarino exótico.

_ Eu gosto de livros. Perry adicionou desafiadoramente: _ Gosto de pessoas que leem. Não havia livros no apartamento de Nick, nem mesmo um de receitas. Nenhuma revista. Havia o jornal do dia, mas, isso contava?

A boca de Nick torceu um pouco, embora ele achasse engraçado a defensividade de Perry. _ Alguém decidiu usar seu apartamento como um armazém enquanto você esteve fora, isso é óbvio. _ O que não faz sentido é toda a movimentação do cadáver. Por que não deixá-lo onde ele morreu?

_ Bem, por que seria incriminante.

_ Claro, mas por causa de como ele morreu ou onde? Você pode dizer como ele morreu? Pode dizer se ele foi assassinado?

Perry lembrou-se da face esverdeada, a boca entreaberta, as bochechas fundas, as fendas sinistras dos olhos. A náusea veio até sua garganta. Ele decidiu não falar. _ Não vi sangue, mas eu não olhei com cuidado. Eu não o toquei.

_ Ele poderia ter sido estrangulado?

Perry balançou a cabeça. _ Não. Ele havia lido muitas histórias de detetives para saber como o cadáver ficaria.

_ Acho que ele pode ter sido envenenado. _ Tinha cheiro de quê?

Perry encarou Nick. Seu estômago embrulhou e depois voltou ao normal. _ Ele tinha cheiro de... morto.

Nick parecia não ter se impressionado. Perry tentou: _ Talvez ele tenha morrido de causas naturais, mas, por que ele não deveria estar em algum lugar específico, ele foi movido para o meu quarto.

_ Por que não deixá-lo na floresta ou na estrada principal?

_ Talvez não tivesse tempo? Colocá-lo em meu apartamento deveria ser uma medida temporária.

_ Talvez. Acho que temos de focar em quem teve a oportunidade. Você poderia ter inventado a história toda, mas eu vi a mancha e as marcas de algemas e o sapato, e você não teve a oportunidade de se livrar disso antes dos policiais chegarem. O mesmo vale para Bridger. Ela ficou com você o tempo todo enquanto eu estava lá em cima?

_ Bem, sim, - Perry respondeu, surpreso. _ E ela não sumiu quando você desceu.

_ Nem MacQueen ou Dembecki poderiam carregar um homem inconsciente. Não acho que fariam isso juntas, ainda mais sozinhas. Isso nos deixa com Stein e Center. O que você sabe sobre os dois?

_ Sr. Stein era um policial, - Perry disse. _ Ele está aposentado agora.

_ Ele é casado?

_ Divorciado, eu acho. Não sei nada sobre Center, exceto que ele é um médium. Ele faz sessões. Ele pode dizer o futuro ao ler cartas de tarô.

_ Em outras palavras, ele é um charlatão.

Perry deu de ombros. _ Ele leu para Jane uma vez. _ Ela disse que foi... estranho.

_ A cinquenta reais, estranho é a palavra. Nick terminou de comer seus ovos e olhou para o prato de Perry. _ Coma, garoto.

_ Perry engoliu algumas batatas e confidenciou: _ Geralmente não consigo comer quando estou nervoso.

Nick balançou a cabeça. _ Comer corretamente é essencial.

_ Você aprendeu isso na SEALs?

_ Na verdade, sim.

Perry acenou com a cabeça de forma encorajadora. Ele reconhecia um fanático quando via um, e todos os fanáticos gostavam de uma chance de disseminar a palavra. Com certeza, Nick estaria no palanque bem antes de você poder dizer índice glicêmico.

_ Uma dieta correta fornece o combustível para manter seu motor funcionando sem problemas. Fornece energia e promove o crescimento e reparo dos tecidos. E regula os processos do seu corpo.

Perry retrucou com um sorriso largo. Esse foi o máximo que Nick Reno falou até agora - na verdade, ele era quase amigável com seu entusiasmo.

_ Carboidratos, proteína e gordura são os três nutrientes da energia, - Nick concluiu. _ A melhor fonte de energia é o carboidrato. Ele olhou incisivamente para o monte de batatas de Perry, e Perry de uma bela garfada automaticamente.

_ A polícia pode estar envolvida? ele perguntou e engoliu. _ Eles podem ter limpado a banheira e trocado os sapatos.

_ Por que eles fariam isso?

_ Por que alguém faria isso?

_ Eu não vejo isso como uma operação de fora, - Nick disse. _ Alguém pode ter usado a escada do lado de fora da janela, mas ele teria trazido lama e chuva para o carpete. _ E ele não poderia trancar a janela depois de ter saído.

Perry considerou isso, mordendo um pedaço de bacon. Quando foi a última vez que ele comeu bacon – bom bacon, que não era seco? Há muito tempo. Nick come bem, com certeza.

_ Há outra possibilidade, - Nick adicionou. _ O assassino - assumindo que foi um assassinato – pode ter estado em seu apartamento quando você chegou e depois moveu o corpo, quando você saiu.

Embora o pensamento também tenha passado pela cabeça de Perry, ele não gostava disso. Deixou-o enlouquecido: a ideia de alguém o vigiando, talvez pronto para matá-lo.

_ Mover para onde?

_ Algum lugar no terceiro andar. _ Nick adicionou: _ Não que eu tenha achado algum sinal disso.

_ O que você quer dizer? Perry alinhou os pensamentos. _ Você verificou? Noite passada? Você foi sozinho?

_ Eu sei me virar. Nick ficou abismado com o horror de Perry.

Quer dizer que Perry não saberia se virar?

_ De qualquer forma, a situação está segura, eu acho.

_ Segura, claro. Foi clarificante. Perry afastou o prato. _ Obrigado pelo café da manhã e todo o resto. Acho que eu devo voltar agora.

Nick mordeu o lábio. _ Eu andei pensando nisso. Eu não acho que você deva ficar em seu apartamento até você descobrir como esse espantalho está entrando e saindo.

_ Eu não posso pagar por um hotel, - Perry disse sem esperanças. _ Na noite passada eu estava desesperado, mas... - ele ofereceu um sorriso peculiar e meio tímido. _ Só tenho o dinheiro do aluguel agora. Eu gastei – gastei muito esse mês.

O rosto de Nick disse tudo.

_ Então peça para que MacQueen te dê outro apartamento.

_ Não há nenhum. Exceto pelo do Watson, mas todas suas coisas estão lá. Perry tremeu.

Nick disse sombriamente: _ Faça o que quiser, garoto, mas eu mudaria as fechaduras de casa assim que possível. Depois de um momento, ele adicionou relutantemente: _ Posso te emprestar dinheiro.

_ Obrigado, - Perry murmurou humildemente. Obrigado por tudo.

Nick deu de ombros. Ele lava a louça quando Perry pegou sua mala e saiu pelo corredor.

Ao destrancar a porta do seu apartamento, ele colocou a cabeça para dentro e olhou em volta suspeitosamente.

Tudo parecia quieto e normal. Ele deveria ter sonhado os eventos da noite passada. Tudo parecia estar como ele havia deixado antes de partir para São Francisco, cheio de alegria e entusiasmo. Ele lembrou-se de trancar o quarto com a sensação de que ele estava fechando uma porta de um capítulo de sua vida.

Uma onda de depressão o atingiu.

Caindo na cadeira mais próxima, ele colocou sua cabeça em suas mãos e tentou lidar com isso. Ele estava feliz que tinha conseguido dormir um pouco e tomar café da manhã, pois, caso contrário, ele estaria desmoronando agora. Os barulhos aconchegantes da geladeira, o tic do relógio; esses sons familiares pareciam solitários agora. Ele geralmente gostava da chuva, mas não estava ajudando em nada hoje.

Levantou-se e carregou sua mala até o quarto, parando na porta do banheiro para ver se não tinha nenhum corpo.

Tudo parecia estar nos trinques.

Ao colocar sua mala na cama, algo chamou sua atenção. Algo estava em sua almofada. Um pássaro. Um pássaro marrom, morto.

Com as mãos trêmulas, Perry o pegou. Parecia macio em suas mãos, e frio. Seu pescoço pendurado estava quebrado.