O Fantasma Usava Meias Amarelas
Capítulo Catorze
N ick odiava hospitais, e ele havia assinado o Against Medical Advice, que o deixaria sair quando quisesse, assim que conseguiu sentar. Ele não estava apto a pegar suas coisas e ir para a Califórnia, claro, e, de qualquer modo, ele ainda precisava cuidar de algumas coisas primeiro – uma delas era assinar seu testemunho sobre os eventos violentos do Alston Estate.
Perry não gostava de hospitais, mas desde que – em adição ao seu braço quebrado, costelas fraturadas e concussão – ele desenvolveu um caso leve de pneumonia, ele estava aliviado por estar em um hospital cercado de pessoas amigáveis. Ele sentia-se seguro lá.
Quando Nick foi vê-lo – curiosamente pálido e com seu braço em uma tipoia, mas ainda sim parecendo vivo, revigorado e durão – Perry conseguiu cumprimentá-lo com dois dedos e um sorriso. Ele pegou no sono quase que imediatamente - sem saber se Nick realmente sentou-se ao seu lado, ou se ele havia sonhado.
Não havia mais nada a temer. Ele estava vivo. Nick estava vivo. Nada mais parecia muito importante.
A polícia veio e pegou seu testemunho, depois foi embora novamente.
Perry começou a sentir-se melhor. Ele começou a se preocupar, pois ele estava no hospital e não tinha convênio médico, suas férias haviam acabado e Nick partiria em breve. Talvez Nick já tivesse ido.
Mas Nick voltou para vê-lo mais uma vez.
_ Como você está? ele perguntou bruscamente. Ele tinha o cheiro de neve e do seu sabonete de ervas – algo diferente do cheiro de antisséptico do hospital.
_ Bem, - Perry disse, embora ele parecesse abatido e desconfortavelmente magro, na opinião de Nick.
Perry acenou com a cabeça para a enorme cesta de frutas no balcão perto da cama. _ Pegue uma maçã.
Nick observou a cesta. Não havia o endereço do remetente, mas o cartão dizia: Deseje-me sorte. E eu desejarei o mesmo para você. Jane.
Isso o lembrou e ele atualizou Perry sobre o que estava acontecendo no Alston Estate. A pobre Sra. Dembecki foi mandada para um hospício, Jane e David Center desapareceram com o programa de Programa de Proteção à Testemunha, e a Sra. Mac está procurando por novos inquilinos.
Perry perguntou com cuidado: _ O Stein está... eu não o matei?
_ Não, ele vai ser indiciado assim que sair do hospital. Nick sorriu brevemente. _ Você atirou nele duas vezes e conseguiu não acertar uma área vital. Você é um ótimo atirador ou o pior atirador do mundo.
_ Fica difícil quando eles atiram de volta, - Perry disse.
_ É.
_ A Sra. Dembecki é mesmo a sobrinha de Shane Moran?
_ É. Aparentemente ela cresceu ouvindo a lenda do seu tio infame. A história conta que alguns capangas de Moran fugiram, e, depois que Moran foi morto, eles foram até a irmã dele e contaram que Verity Lane fez parte de todo o assalto. Moran deixou as jóias com ela, que as escondeu – ninguém além dela sabia onde – e o plano era que ela fugisse com Moran. Mas ele foi morto e ela teve um surto, e, aparentemente, é isso. Ela deixou o marido e mudou-se para a França e nunca mais pensou nas jóias.
_ Uau. Como o Sr. Stein se envolveu nisso?
_ Ele não quer falar.
Nick já estava andando incansavelmente pelo quarto, claramente impaciente para ir embora. Perry perguntou, tentando manter sua voz neutra: _ Quando você vai embora?
_ Em alguns dias. Logo após o Natal.
Perry balançou a cabeça.
_ Eu terei de voltar para o julgamento, - Nick contou, Perry sorriu.
_ É verdade.
Nick deu mais uma volta pelo quarto vazio e disse: _ Eu liguei para os seus pais.
_ Você...
Nick evitou olhar para Perry. _ Peguei o número com a Sra. Mac e liguei para eles. Eles tinham o direito de saber.
Ele olhou para Perry, e Perry estava tão duro que não parecia respirar. Nick disse: _ Eles querem vê-lo, mas respeitarão sua vontade caso você não queira.
_ Por que eu não gostaria de vê-los? Perry disse francamente.
_ Acho que eles se sentem mal sobre algumas coisas que disseram. Enfim, eles estão aqui na vila caso você queira ligar. Nick colocou um pedaço de papel na bandeja de Perry.
_ É, eu quero vê-los, - Perry disse, seus olhos ficaram brilhantes e sua voz, áspera. Ele pigarreou. _ Você -
E ao mesmo tempo Nick disse: _ Eu deveria ir.
_ Ah, certo. Perry parecia muito cansado. Ele sorriu para Nick e disse: _ Eu vou... você vem despedir-se?
_ É isso o que estou fazendo agora, - Nick disse, sério.
Perry parecia mais cansado do que nunca, mas ainda conseguiu sorrir um pouco. _ Certo. Bem, obrigado. Digo, obrigado não é muito...
Nick calou sua boca com um beijo rápido e forte. Perry o beijou de volta e resistiu a vontade de abraçá-lo e dizer coisas que fariam com que Nick não olhasse em seus olhos quando viesse para o julgamento.
_ Cuide-se, garoto, – Nick disse bruscamente e foi embora – saiu pela porta e passou pelo corredor antes que Perry abrisse os olhos.
* * * * *
Os pais de Perry eram exatamente como Nick havia imaginado. O pai era ex-marinheiro e tinha seu próprio negócio. A mãe era dona de casa, fazia tortas de maçã e estava sempre arrumada. Pessoas muito legais. Boas pessoas. Pessoas com a imaginação limitada, mas com as melhores intenções – e eles amavam Perry tanto quanto Nick achava. Perry adquiriu sua teimosia honestamente, mas o horror ao descobrir o que quase aconteceu com o frágil queridinho no mundo grande e malvado, o fizeram ficar desesperados para colocá-lo de volta confortavelmente em seu ninho onde ele, com esperança, superaria seu afeto por outros garotos, mas ainda sim, onde ele estaria seguro debaixo das asas dos pais.
Nick sabia que havia feito a coisa certa ao ligar para eles. Ele não queria que o garoto ficasse sozinho no Natal, quanto a ele... bem, uma despedida clara foi a melhor coisa para os dois. Ele era dez anos mais velho e muito mais durão que Perry, e, francamente, ele não queria estragar o acordo em Los Angeles aparecendo com seu amante gay. Ele não sabia até onde ia a tolerância de Roscoe – ele não sabia nada sobre os sócios – e ele não podia perder essa chance.
Talvez se Perry tivesse... brigado um pouco, tentado convencê-lo do contrário, mostrasse suporte... porque o garoto tinha culhões e era teimoso, e se ele não estava lutando, então ele sabia que Nick estava certo.
Nick sabia que estava certo. Ele estava surpreso com o quão difícil foi. Mas deveria ser a época do ano. Era fácil sentir-se sozinho por causa do feriado, e ele preferia ficar sozinho consigo mesmo do que com Marie.
Ainda sim, se ele ouvisse um “Estarei em Casa para o Natal" mais uma vez, ele atiraria em alguém.
Ele estava empacotando algumas coisas na Véspera de Natal quando alguém bateu em sua porta.
Ele abriu e Perry estava lá. ELe usava uma jaqueta de couro nova – embaixo dela, seu braço estava em uma tipoia. Ele parecia muito magro e pálido – e havia algo em sua expressão...
Ele parecia mais velho.
_ Feliz Natal, - ele disse, e, desajeitado, entregou uma caixa quadrada para Nick.
Nick pegou a caixa sem olhá-la. _ O quê você está fazendo aqui? Você deveria estar fora do hospital? Seus pais vieram te ver, certo? Uma ansiedade repentina o atingiu ao pensar que Perry havia se decepcionado de novo.
Perry balançou a cabeça. _ Sim. Posso entrar?
Nick afastou-se automaticamente e Perry entrou dizendo: _ Eles ficaram por aqui a semana toda. Eles foram me ver todos os dias – o que você não fez.
Nick havia se abaixado para colocar o embrulho no chão, mas ao ouvir isso ele se levantou. _ Nós nos despedimos, - ele disse. Não havia motivos pare sentir-se culpado, mas as palavras o atingiram. _ Enfim, achei que você estivesse indo para casa.
_ Essa é a minha casa, - Perry disse. Ou você mudou de ideia sobre me deixar ficar aqui depois que você for embora?
E agora a ansiedade de Nick transformou-se em preocupação. _ Por que você precisaria ficar aqui? Está tudo bem com seus pais, certo?
_ Claro.
Nick não conseguia entendê-los. _ Então... onde eles estão?
_ Voltando para Rutland.
_ Por que você não está com eles?
Perry o encarava. _ Por que eu estaria? Eu sou um adulto e tenho minha própria vida. Você sabe, aquela que você não quer fazer parte.
O rosto de Nick foi inundado de cor. _ Ei...
Perry perdeu o controle por um momento, e ele disse amargamente: _ Não sou um filhotinho, Nick. Você não precisa me deixar em um bom lar quando você se mudar.
_ Olhe, - Nick disse, avisando-o. Ele não estava bravo, apesar de seu coração estar batendo rapidamente e o calor invadindo seu corpo. Toda aquela adrenalina e nenhum lugar para ir...
_ Está bem, - Perry disse. _ Você foi bem claro desde o começo. É minha culpa se eu achei que você se importasse mais do que você disse que se importava.
_ Eu nunca disse que não me importava.
_ Você nunca disse nada.
_ Você também não.
_ Eu te amo, - Perry disse. _ Mas você já sabe disso. Mas você não acha que sou velho o suficiente para saber o que é amor.
Nick retrucou: _ Eu nunca disse isso.
_ Como eu disse, você nunca disse nada.
_ Certo, bem, para sua informação, eu me preocupo. Eu... me preocupo. Mas.. – Nick engoliu.
_ Mas o que? Perry perguntou. _ Ah, é! Você está indo para a Califórnia e lá é caro.
_ Aquilo não tem nada a ver com isso!
Perry não disse nada e, estranhando-o, Nick disse: _ Bem, é seu quarto agora. Sente-se.
Mas Perry não sentou-se. Ele foi até a janela e olhou para fora. Nick olhou para suas costas duras e ombros quadrados e para o presente de Natal e disse: _ Eu deveria abrir isso agora?
_ Se você quiser. Não é muito o seu tipo, - Perry disse. _ É um globo de neve. Sabe, uma grande casa e a neve de Vermont. Acho que fará você lembrar-se de mim.
_ Não preciso de um globo de neve para lembrar de você, - Nick disse, o que provavelmente foi a coisa mais romântica que ele já se ouviu dizer. Fez com que ele corasse.
Perry não parecia impressionado. Ele afastou-se da janela para olhar para Nick. _ Quando você vai embora?
Nick hesitou. Ele ainda iria? De repente, ele não tinha certeza. Ele disse: _ Amanhã de manhã. Vou passar a noite na cidade.
_ Eu te levo de carro.
_ Com o braço quebrado?
_ Certo, você dirige.
_ Eu vendi meu carro, - Nick disse. _ Teagle vai me levar.
Perry balançou a cabeça, pensando. _ Que tal? Podemos passar a noite juntos e você pega um táxi de manhã.
E Nick reconheceu, de repente, o que era aquela sensação nada familiar passando por ele - o calor e a animação e a ansiedade. Felicidade.
Ele disse: _ Que tal? Por que eu não ligo e adio meu voo? Você vai demorar mais de uma semana para empacotar as coisas? Ele colocou as mãos nos ombros de Perry e o aproximou.
A boca de Perry arqueou. Ele parecia estar pensando, seus cílios apontados para baixo. Então ele olhou para cima e a expressão em seus olhos fez com que Nick prendesse a respiração. _ E se eu demorar?
Contra sua vontade, a boca de Nick curvou-se em um sorriso. Ele teve a sensação desconfortável de que isso aconteceria com frequência. Ele disse: _ Eu espero mais uma semana.
Perry deu um sorriso devagar e contagiante. _ Certo.
Seus lábios se encontraram lento e docemente - eles estavam melhorando - o Naral e a volta para casa uniram-se a algo inesperadamente quente e ávido.
Quando eles pararam para respirar, Nick disse: _ Caramba, Foster. Eu já tinha tudo planejado.
_ É, me desculpe. Perry recostou-se e sua boca sorria contra a boca de Nick.
_ O que? Nick perguntou, suspeitando.
Perry disse: _ Ah, você sabe. Deixe que a jornada comece.