O Fantasma Usava Meias Amarelas

Josh Lanyon · Capítulo 11 de 17

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O Fantasma Usava Meias Amarelas

Capítulo Dez

 

A água estava alta e escura quando eles atravessaram a ponte. As luzes da Alston House brilhavam pelas árvores com a ilusão de aconchego. A chuva dos últimos dias havia deixado as árvores esqueléticas e totalmente brancas quando contrastadas com a lanterna do carro de Nick. Pilhas de folhas esfarrapadas estavam espalhadas pela terra molhada.

Eles estacionaram e andaram até a porta. Conversavam lado a lado e, talvez, Nick tenha pensado que Perry ainda estava um pouco instável – ele repousou a mão levemente nas costas de Perry.

_ Sem carros de polícia, - Perry disse, sendo cuidadoso para não mostrar que ele havia notado a mão de Nick um pouco acima do seu traseiro.

Com certeza o jardim estava livre de carros policiais. As luzes da casa brilhavam no andar debaixo. Mais luzes do que Perry lembrava ter visto alguma vez na velha mansão.

Nick disse: _ Parece que eles estão planejando uma festa.

Perry riu de forma nervosa enquanto abria a porta da frente.

O lustre balançou musicalmente com o vento de inverno. Jane, que usava uma túnica preta, veio cumprimentá-los. _ Aqui estão vocês! Achamos que nunca chegariam aqui. Ela os apressou em direção à sala de recreação pouco usada.

Perry disse: _ Janie, será que podemos pelo menos tirar nossos casacos?

_ Vocês podem tirá-los aqui. Todo mundo estava esperando.

_ Quem é todo mundo? Nick perguntou. Ele havia tirado sua mão das costas de Perry enquanto subiam os degraus da entrada, mas eles ainda estavam tão perto que seus ombros roçavam. Perry não sabia dizer se era acidental, ou se Nick achava que ele precisava de reafirmação.

_ Todo mundo, - Jane respondeu. Adicionando honestamente: _ Quer dizer, o que mais há para se fazer em uma noite como essa?

_ O que aconteceu com os policiais?

Ela fez uma careta. _ Teve um grande acidente perto da fronteira. Acho que eles precisaram de todos lá. Não é como se algo estivesse acontecendo por aqui.

_ Só assassinatos, - disse Perry.

Espantosamente, Jane disse: _ Tiny pode ter sido morto por caçadores. Ele pode ter se arrastado até aqui.

_ Você não está falando sério, - Perry disse.

Ela deu de ombros, sem olhar para ele.

As luzes haviam sido abaixadas quando eles entraram no quarto que servia para as reuniões do condomínio e como sala de recreação – uma sala de estar formal. Havia estantes cheias de livros usados, uma televisão velha que parecia nunca ter funcionado, uma mesa de jantar oval e pesada que era para ser usada para jogos. Dois grandes candelabros estavam no centro da mesa, jogando luzes incertas sobre o papel de parede gasto.

Havia três cadeiras vazias na mesa. Sr. Teagle, Miss Dembecki e Sra. MacQueen estavam todos presentes. David Center sentou-se à ponta da mesa, com o rosto virado atentamente para a porta.

Enquanto Jane escoltava Nick e Perry para dentro do quarto, Center anunciou: _ Os espíritos estão ansiosos para fazer contato hoje à noite.

_ Maravilhoso! Você se sentará perto de mim, Perry, - Jane instruiu.

O maxilar de Perry ficou tenso, e isso combinava estranhamente com sua cara de Christopher Robin. Nick disse calmamente: _ Perry ficará ao meu lado.

Perry olhou agradecido.

_ Bem! disse Jane, seu sorriso era um pouco forçado enquanto ela olhava para todos.

Perry e Nick sentaram-se nas duas cadeiras à mesa. Havia um silêncio estranho.

Sr. Teagle disse: _ Como está o rio, filho?

_ Não acho que vá inundar, - Perry disse. Sra. Mac sentou-se diretamente à frente dele. Ela o encarava. Ele deu um sorriso educado. Ele molhou os lábios e desviou o olhar, como se estivesse lembrando de um de seus cachorros desagradáveis.

_ Se todos pudessem dar as mãos, - David Center instruiu. _ A palma da mão direita fica para cima, para recebermos. A palma da mão direita fica para baixo, para transmitirmos.

Parecia o Além da Imaginação.

Perry deu as mãos para a Sra. Dembecki, à sua esquerda, e para Nick, à sua direita. A pequena mão da Sra. Dembecki estava fria como gelo – tão fria quanto a dele, Perry pensou. A mão de Nick estava quente. Ele apertou a mão de Perry com força e confiança, por mais que Perry não quisesse ficar lá, ele sentiu uma chama de felicidade.

Center disse: _ Para aqueles que nunca fizeram parte de uma sessão espírita, tenho de explicar algumas coisas. Não há nada de assustador ou misterioso ao comunicar-se com os mortos. Espíritos estão à nossa volta o tempo todo. Eles são parte do mundo natural, e se abrirmos nossos corações e mentes, eles estão sempre querendo se comunicar.

Tardiamente, Perry notou que Rudy Stein não estava à mesa. Era difícil imaginar Stein participando de uma sessão, afinal, era difícil imaginá-lo participando de algo.

ELe suspirou e, com o canto dos olhos, viu a boca de Nick retorcer.

Center disse: _ E uma sessão se resume a isso: A comunicação entre o mundo físico e o mundo espiritual. Essa comunicação é mediada por alguém chamado de médium. Hoje eu serei o médium enquanto tentamos falar com os espíritos que ainda estão nessa casa.

Jane estava sorrindo – radiante - para Center. Ele conntinuou falando seriamente sobre as várias sessões que ele havia conduzido e como todas elas foram simples e perfeitamente sem perigo. Tudo em um dia. Se seu emprego for no plano astral.

Perry disse: _ Como vamos contactar o espírito do homem na minha banheira, se nem sabemos o nome dele?

_ Perry! Não interrompa, - disse Jane.

Nick disse: _ Talvez possamos descrever o que ele vestia da última vez que foi visto. Seus olhos foram em direção aos de Perry.

Perry relaxou, mordendo os lábios.

_ Eu entendo que o nervosismo pode resultar em falta de seriedade, - Center disse – mas os espíritos não gostam de ser zombados. Agora preciso que vocês fiquem em silêncio enquanto abrem seus corações e mentes...

Ninguém disse nada. Perry fechou os olhos. Ele pôde sentir a Sra. Dembecki respirando rapidamente ao seu lado. Sua mão ainda estava fria, e ela tremia um pouco. Com certeza estava frio no quarto. A casa era sempre muito gelada. Por outro lado – literalmente – ele podia sentir o calor e a presença sólida de Nick Reno.

Ele abriu os olhos. Nick olhou para ele. Fez uma careta. Todos à mesa estavam com os olhos fechados, os rostos concentrados. Perry mordeu os lábios para segurar uma risada inapropriada. Mas Center estava certo, ele estava nervoso.

_ Perry, - Center disse de repente. Perry levou um susto. _ Tente visualizar o homem que você viu. Tente lembrar como era seu rosto.

Perry fechou os olhos e então os abriu. Ele ficaria tão feliz em não lembrar da face esverdeada, os olhos brancos debaixo das pálpebra entreabertas... Era impossível imaginar como o homem era em vida. Era bem mais fácil lembrar do tecido daquele blazer xadrez e as meias amarelas berrantes.

O quarto estava muito quieto.

A mente de Perry começou a divagar. Perry não conseguia evitar. Ele não acreditava em fantasmas e, mesmo que eles existissem, ele não queria de modo algum chamar a atenção.

_ Você está aí? Center perguntou suavemente, e, por um momento, Perry pensou que Center estivesse falando com ele. _ Você está aí? Você deseja falar com alguém aqui?

Ninguém disse nada, mas o silêncio tornava-se tenso.

_ Eu sinto uma presença, - Center disse de repente.

Perry observou o círculo de rostos. Sr. Teagle estava muito pálido, seu rosto transpirava na luz de velas. O rosto de Jane estava tenso de tanta concentração. Os olhos da Sra. Mac abriram-se. Ela encarou Perry sem expressão, e então fechou os olhos como a Esfinge acomodando-se para dormir.

Center disse com sua voz baixa e hipnótica: _ Por que você veio até aqui? O que você deseja nos contar? Com quem você deseja falar?

E então, como se respondesse a si mesmo, Center disse em com uma voz aguda, fina e feminina: _ Shane! Onde está você? Por quê -

_ Tem alguém no espelho, - A Sra. Dembecki gritou aterrorizada. Os olhos se abriram, as cabeças levantaram, todos viraram para o espelho que estava acima da lareira.

Por um momento, iludido pelas sombras criadas pelas velas, Perry também pensou ter visto um reflexo de uma pessoa no espelho. A silhueta era confusa, mutável...

A mão gelada que o apertava, relaxou de repente e a Sra. Dembecki caiu no chão, desmaiada.

* * * * *

_ Shane! Volte, Shane! Nick zombou em falsete.

Perry deu um leve sorriso e pegou a caneca de chocolate que Nick ofereceu.

Eles estavam de volta ao apartamento de Nick por causa do final brusco e dramático da sessão. A Sra. Dembecki retornou do desmaio em alguns segundos, mas logo após, começou a chorar histericamente. Jane e a Sra. Mac tiveram de acalmá-la e colocá-la na cama.

_ Realmente pareciia que alguém estava atrás do espelho, - Perry disse enquanto Nick deitava-se no sofá.

_ Uma mulher, - Nick concordou. _ Eu também vi. Era o reflexo do quadro da parede oposta.

Perry ficou boquiaberto e depois riu. _ Sou um tolo.

_ Não. Você só é mais imaginativo e mente aberta do que eu.

Perry deu um gole no chocolate. Estava muito quente. Sem marshmallows, mas ele sentiu um pouco de canela e, definitivamente, um toque de alguma coisa alcoólica. Uísque? Brandy? Ele disse: _ Você tem de admitir que foi meio estranho o modo como Center mudou a voz. Ele realmente parecia uma mulher.

Nick deu de ombros. _ É um dos truques do trabalho, ser capaz de brincar com a voz, mudá-la.

_ Você não acha -

_ Não, não acho, – Nick respondeu.

Perry balançou a cabeça. _ Eu sabia que seria perda de tempo. Ele tomou outro gole de chocolate.

_ Eu não sei, - Nick disse pensativamente. _ Gostaria de saber o que Stein estava fazendo enquanto todos nós estávamos juntos no quarto com a imitação do Chico Xavier.

_ O que você acha que ele estava fazendo?

Nick balançou a cabeça.

_ Não sei o que nenhum de nós estava fazendo, sério, - Perry disse. _ Exceto Janie. Ela tem alguma coisa com Center, isso é óbvio.

_ É, ela parece bem afim do cara, - Nick concordou. _ E Center... não sei ao certo, mas acho que ele acredita na própria baboseira.

_ A Sra. Dembecki acredita com certeza, - Perry disse. _ Ela não estava fingindo. Ela estava aterrorizada. Foi um desmaio verdadeiro.

A Sra. Dembecki parecia uma boneca de pano, flexível e branca. Não tinha como fingir.

_ Sim, e isso é interessante também, - Nick disse. _ Especialmente por que você me disse que ela esteve vasculhando o gazebo. Ela mora aqui há quanto tempo?

_ Por anos, eu acho. Ela, o Sr. Teagle e a Sra. Mac moram aqui há mais tempo.

Perry tomou o resto do chocolate e Nick disse: _ Você dorme na cama hoje, garoto. Você precisa descansar bastante.

_ Sabe, eu não tenho doze anos, Nick, - Perry disse.

_ Ei, se você tivesse doze anos eu o faria dormir no sofá, - Nick disse. _ Aproveite a cama hoje à noite.

Perry o estudou com uma seriedade incomum, depois pegou suas coisas e foi tomar banho. Quando ele subiu na cama de Nick, os lençóis e a fronha tinham o cheiro dele. Ele fechou os olhos e deixou que o som da chuva o carregasse para o esquecimento confortável.

* * * * *

Nick esperou até ouvir a respiração suave e uniforme de Perry. Fechando a porta do quarto, ele pegou a pistola e foi até o corredor.

Não havia nenhum sinal de pessoas. As cortinas iam e voltavam com as correntes de ar, as plantas mortas moviam-se com a brisa.

Nick desceu as escada em silêncio; a casa parecia estar vazia.

No segundo andar, ele escutou. E então moveu-se silenciosamente. Ao parar na porta de Center, ouviu apenas silêncio. Havia a possibilidade de Center estar no apartamento de Bridger.

Não havia luz e nem som vindo do apartamento de Stein.

A porta do quarto de Watson estava fechada com a faixa da polícial, mas nada impedia Nick de usar as chaves de Perry para entrar.

Sem fazer barulho, fechou a porta atrás de si. Sua lanterna ilumanava partes do apartamento, encontrando uma garrafa de vinho pela metade na mesa de centro, ao lado de um caderno de desenhos -olhos penetrantes em um rosto angular que pareciam tão suspeitos como o seu próprio rosto desenhado no papel.

Ele foi até o quarto. A luz branca da lanterna iluminou os cartazes dos quadrinhos com mulheres sensuais em vestidos exóticos. As roupas de cama estavam bagunçadas, o despertador no chão, ao lado da cama. As portas do armário estavam abertas e havia o contorno de giz onde o corpo de Tiny estivera quando caiu do guarda-roupas.

Ultrapassando o contorno, Nick passou os dedos no fundo do armário.

Parecia bem sólido. Ele não tentou bater, embora tivesse a tentação de deixar que Center pensasse que seus colegas do mundo espiritual estivessem lá para dizer oi. Ele colocou apoiou o ombro e empurrou.

A parede não cedeu, exatamente, mas Nick sentiu algo oco atrás do painel.

Ao ajoelhar, ele tateou até a parte de baixo, e parecia ter uma ponta afiada na junção entre a parede e o chão. Ele apontou a lanterna para a junção da parede, seguindo a linha e tateando por detrás da prateleira na parte superior do armário. E estava ali. Um pequeno fecho. Ele pressionou e a porta abriu alguns centímetros, revelando a entrada escura de algo que seria, definitivamente, uma passagem entre os quartos.

Nick passou a lanterna pelas junções e pelo chão rústico, desaparecendo na escuridão.

Ele tateou ao seu redor, encontrou um dos sapatos de Watson e passou pela entrada, abaixando-se o suficiente para calçar a porta e evitar que ela fechasse por inteiro.

Ele apontou a lanterna para frente e a passagem traseira parecia aumentar infinitamente.

A porta fechou-se com um clique. Nick olhou para trás. O sapato evitou que a porta fechasse por inteiro. Um quadrado de luz formou-se na parede, iluminando uma lanterna suja. Nick virou-se e o quadrado de luz foi ficando cada vez menor.

* * * * *

Ainda não estava claro quando Perry acordou. Alguma hora da noite, Nick teria dito. O relógio mostrava cinco e meia.

Por alguns momentos ele ficou deitado, piscando sonolento, tentando encontrar-se no ambiente não familiar. Ele lembrou-se que estava na cama de Nick – sem Nick, infelizmente.

E algo o havia acordado.

De novo. Perry sentou-se. Ele não estava sonhando. Ele não estava imaginando aquele barulho de arranhões. Ratos no telhado de madeira? Era muito provável. O único gato da casa era o da Jane, e, de acordo com ela, ele nunca demonstrou interesse em nada que pudesse ser aberto com um abridor de latas.

Havia... não exatamente um som de roedores, mas... algo estava se movendo atrás da parede. Algo maior que um rato. Maior que um gato. Algo grande...

Perry saiu do quarto e foi até a sala de estar.

Na luz lúgubre, ele pode identificar os lençóis e o travesseiro dobrados em cima do sofá. Não havia sinal de Nick.

Aturdido e ainda sonolente, Perry tentou racionalizar. Ele lembrou-se de Nick investigando sozinho na noite em que Perry encontrou o cadáver na banheira. Ele começou a procurar pelas chaves. Elas haviam sumido.

Perry xingou. Qual era o problema do Nick? Ele morreria se pedisse ajuda – ou pelo menos discutisse os planos? Para um cara prático, Reno não demonstrava ter tomado a melhor decisão sem ter certeza de ter algum tipo de apoio.

Pois, provavelmente, ele não achava que Perry servisse de apoio, e talvez Perry não fosse um marinheiro da SEAL, mas ele sabia como ajudar se Nick precisasse.

E se Nick estivesse desaparecido há muito tempo, havia grandes chances dele precisar de ajuda.

Ele voltou para o quarto e colocou as calças, os sapatos e saio do apartamento de Nick, deixando a porta destrancada caso ele não tivesse sorte para encontrá-lo.

Já vestido, foi até o outro lado do corredor para verificar seu quarto, caso Nick estivesse por lá, mas a porta estava trancada – o que era duplamente irritante. Ele não poderia entrar no próprio apartamento se quisesse.

Perry foi silenciosamente para o segundo andar. O cheiro de comida saía dos aposentos de David Center, enchendo o saguão embolorado com o cheiro de mirtilo quente.

Ao ouvir algo na entrada, ele olhou para baixo a tempo de ver a Sra. Dembecki saindo pela porta da frente, furtiva e sem fazer barulho. Ele considerou ir atrás dela, mas a necessidade de encontrar Nick e ter certeza de que ele estava bem era mais forte.

Ele continuou descendo sem fazer barulho e examinou as faixas imponentes da cena do crime na porta de Watson. De alguma forma ele sabia que Nick não acharia aquelas faixas tão assustadores como ele achava.

Ele tentou virar a maçaneta.

A porta abriu.

Perry repartiu as faixas amarelas e entrou. Era difícil enxergar na escuridão – as cortinas estavam fechadas – e o cheiro era das químicas não familiares que os peritos haviam usado na cena do crime.

_ Nick? Ele chamou suavemente.

Não houve resposta. Ele achou que não estivesse esperando por uma. Olhando ao redor, ele gelou ao ver seu caderno de desenhos aberto – e o rascunho mal feito do rosto de Nick. Os policiais devem ter vasculhado suas coisas. Felizmente, Nick não tinha visto aquilo. Ele ficaria mais desconfortável ainda.

Perry entrou no quarto e ligou as luzes, confiante de que, com as cortinas fechadas, ninguém saberia que ele estava dentro do apartamento. A porta do armário abriu.

Algo não estava certo...

Primeiramente, Perry achou que o cabideiro havia quebrado, mas então ele percebeu que era uma ilusão que as sombras faziam no interior do compartimento. O fundo do armário parecia estar desalinhado.

Cuidadosamente, com um olho no contorno de onde Tiny havia morrido, ele entrou no armário. Sim, o fundo do guarda-roupas era, na verdade, uma porta. Uma porta bem sólida. Ele sentiu o contorno – dez centímetros de madeira grossa e sólida. Algo a mantinha aberta. Seu olhar foi até o sapato preso entre a parede e a porta, seu coração parou.

Couro marrom e barato com um buraco na sola. Era o sapato que usado pelo cadáver na banheira de Perry.

Seu coração começou a bater forte com emoção e agitação.

Assim como ele havia pensado – bem, sugerido – havia uma passagem secreta na casa.

Perry empurrou o painel do fundo, tomando cuidado para não mover o sapato que a mantinha aberta. Encarando o que parecia ser uma parede escura, parou. Ele precisava de uma lanterna.

Ele havia visto uma em algum lugar no apartamento de Watson.

Perry abaixou-se e passou pelas roupas que ainda cheiravam ao tabaco de Watson e pós-barba e começou a procurar, até que, do outro lado da cama, ele finalmente encontrou uma lanterna pesada que parecia funcionar.

Preparando-se, retornou ao armário e empurrou a porta, inclinando-se suficientemente para colocar o sapato no mesmo lugar. ELe ligou a lanterna.

Grandes teias de aranha flutuavam gentilmente. Poeira cobria tudo, como se fosse um veludo cinza. Na verdade, ele podia ver pegadas na poeira que iam em direção à escuridão total.

Ótimo. Frio, úmido e empoeirado. O triunvirato da asma. Ele pegou seu lenço e cobriu a boca. Sentiu a bombinha no bolso, reassegurando-se. Ele estava bem. Ele podia fazer isso.

Apontando a lanterna para baixo, Perry começou a seguir as pegas no tapete de pó.

Às vezes uma tábua rangia sob seus passos silenciosos. Ele estava infelizmente ciente de que ele e Nick poderiam não ser as únicas pessoas que se moviam pelas entranhas da mansão. Com certeza agora ele sabia como o corpo do homem morto em sua banheira foi transportado. Alguém usava essa rede de túneis e passagens como seu meio de transporte privado.

E se Nick tivesse encontrado essa pessoa? Com certeza, o fato dele ter sumido a noite toda não trazia boas notícias.

Enquanto Perry caminhava, ele tentava encontrar pontos de referência, caso fosse difícil encontrar o caminho de volta; rapidamente os túneis estreitos eram aparentes, a casa parecia uma toca de coelho. Quantos anos elas tinham? Parecia que algumas partes das passagens estavam mais acabadas do que outras, o que indicava que algumas das partes mais antigas eram parte da estrutura original, enquanto que adições tardias podem ter acontecido durante as muitas extensões para a fazenda - ou até mesmo na época das renovações de Henry Alston. Certamente, esses túneis seriam úteias para as festas de Alston.

Gerações de túneis... quem em Alston Estate sabia delas? A Sra. Mac? Ela gerencia a pensão há anos. O Sr. Teagle tem parentesco com os atuais donos da casa. Mas os donos da casa sabiam sobre essas passagens? Quando a última renovação foi feita—quando a adaptação dos quartos em apartamentos ocorreu, os contrutores teriam notado e mencionado essas passages interiores e túneis.

Mas se o Sr. Teagle e a Sra. Mac soubessem das passagens, eles, definitivamente, teriam dito que não sabiam.

Bruscamente, Perry chegou a um túnel sem saída.

Ele apontou a lanterna para a parede. E estava ali. Uma pequena brecha na parte superior da porta. Ele pressionou. A porta voltou, quase o acertando. Ele viu um lampejo de camisas de seda e casacos de lã bem dobrados. O armário de David Center.

Ele tinha conseguido andar em círculos. Talvez isso explicasse o que Nick fez a noite toda.

Perry pressionou a fenda, fechando a porta rapidamente, e virou-se para o outro lado.

Dessa vez ele prestou atenão na direção em que se movia, tomando nota quando passava pela luz que vinha do quarto de Watson, passando por ela e andando por, aproximadamente, cinco minutos até que ele chegou em uma escada de madeira. A passagem havia ficado notavelmente mais estreita e só havia espaço para as escadas que levavam à nada.

Ele as desceu cuidadosamente, contando - cinquenta degraus e então uma curva e outro túnel apertado – um trecho plano com chão de pedra pelo qual ele passou rapidamente – e então, mais degraus que levavam à uma passagem iluminada, como a do segundo andar.

Era bem mais frio aqui. Ele teve a impressão de estar lá fora – no subsolo talvez. Se ele ainda estivesse dentro da casa, ele não tinha ideia de onde estaria, embora ele soubesse que poderia voltar -

O barulho de passos surgiu a alguns metros. Ele notou que alguém estava vindo em sua direção. Seu coração ficou leve, achando que fosse Nick, mas então, algum instinto o segurou. Ele desligou a lanterna e escutou.

Nick estaria andando tão rápido e confiante?

Os passos pararam e Perry ouviu algo... batendo. Não... batendo de leve. A pessoa à sua frente estava testando os painéis, procurando algo. Outra porta? Um esconderijo?

O que quer que fosse, deu a Perry a chance de retornar. Quem quer que estivesse usando essas túneis, provavelmente já tivesse matado duas pessoas para proteger o segredo.

O mais quieto possível, ele tateou o caminho, mentalmente retomando seus passos. Nessa junção ele tinha ido para a direita... agora iria para a esquerda...

Ele continuou até que o som de batidas sumisse por trás dele. Chegando às escadas, ele subiu, uma mão na frente para guiá-lo e outra segurando a lanterna para usá-la como uma possível arma se necessário.

Inesperadamente ao chegar no topo da escada, sua mão tocou tecido e pele. Uma luz clara focou seus olhos, o cegando momentaneamente. Ele colocou uma mão para cima, instintivamente, mas foi apanhado e jogado pelas escadas.

Mas a escada era tão estreita que suas pernas e braços fizeram com que ele evitasse o acidente. Ao ouvir os passos pesados o seguindo, Perry virou-se e desceu as escadas engatinhando e caindo. Ao chegar no inal, ele pulou e correu pela passagem até bater em outra sala de estar pequena.

Perry gritou.

Mãos segurando seus ombros. _ Perry! Sou eu.

A voz de Nick cortou o pânico e Perry parou de lutar. Era Nick. Como a resposta para suas orações. Era o calor, a força e a segurança e tudo o que ele sempre quis em forma humana.

Os braços de Perry fecharam-se ao redor de Nick. _ Nick.

_ Qual o seu problema?

Havia um problema, isso era certo. Perry balbuciou várias palavras abafadas no ombro de Nick.

_ O que? O que você está fazendo aqui? Depois de hesitar, Nick colocou seus braços ao redor de Perry. _ Shh. Seus lábios encostavam na orelha de Perry. Era uma orelha pequena e delicada. Lembrando Nick de... que? Conchas? Arabescos? E estava gelada. O garoto tremia como vara verde – e por que ele não estava usando uma jaqueta de novo?

_ Ele tentou me matar, - Perry disse em seu pescoço.

Nick bufou. _ Quem?

_ Eu não vi. Eu não sei dizer. Ele colocou a lanterna na minha cara e me empurrou da escada.

Nick pensava rápido, preparando-se para agir até mesmo quando disse: _ Jesus. Você está machucado? Ele passou as mãos pelo corpo trêmulo de Perry.

Perry balançou a cabeça. _ Eu deixei minha lanterna cair. E o meu lenço.

_ Seu – Nick deixou passar. Perry estava andando e consciente, então ele provavelmente estava bem. Apenas chocado. Nick também estava chocado – e furioso. Pensar naquele assassino bastardo indo atrás de Perry o fazia querer matar.

Ele disse bruscamente: _ Se você não está machucado, recomponha-se. Mas antes, ele deixou-se levar e recostou sua bochecha no cabelo suave e arrepiado, antes de soltar-se de Perry, afastando-se, pegando a arma. _ Fique atrás de mim.

_ Ele pode estar esperando por nós, - Perry disse.

_ Ótimo, - Nick disse, sorrindo. _ Porque eu com certeza estou indo atrás dele. Ele já estava cansado desse rato escorregadio escapando pelas passagens toda vez que eles chegavam perto.

Ele foi em direção à escada, movendo-se silenciosamente, mantendo-se de lado. Sua visão noturna era muito boa, mas era como uma caverna lá embaixo e seus sentidos estavam funcionando para guiá-lo com segurança.

Em alguns lugares havia lanternas penduradas nas colunas - ainda havia algumas, mas elas não eram tocadas há anos.

Seu foco estava na sua presa, mas ele estava consciente da proximidade de Perry. A respiração do garoto era rápida e tensa, e Nick sabia, antes mesmo de encontrarem a escada vazia, que ele teria de abandonar a missão e levar Perry de volta para o calor e a segurança.

_ Fique aqui. Ele pegou Perry pelo braço, movendo-o com segurança para o lado antes de ligar sua lanterna. Ele iluminou os arredores.

A lanterna de Perry estava no final da escada. A luz da lanterna de Nick passou pelos degraus. O lenço de Perry estava no topo. Não havia sinal de pessoas.

Quem quer que fosse o inimigo, ele deveria preocupar-se com a descoberta. Ele provavelmente já havia voltado para seu apartamento e estava pensando em como fazer com que todos na casa soubessem que ele não estava andando pelas passagens secretas e empurrando pessoas escada abaixo.

Ou ele poderia estar esperando por eles alguns metros à frente.

Se Nick estivesse sozinho, não há dúvidas do que ele faria, mas ele não podia arriscar a segurança de Perry.

Ele pegou a lanterna de Perry. _ Venha, - ele sussurrou e direcionou o garoto de volta à entrada.

_ O que é isso? Perry perguntou, e Nick estava obscuramente feliz por que o garoto parecia calmo. Tenso, mas calmo. Muito disso era confiança em si mesmo, mas muito também vinha de Perry. Ele não foi feito para isso, mas também não estava desmoronando.

Nick disse: _ Acho que tem uma saída por aqui. Estava tentando abrir quando ouvi você.

Eles voltaram até encontrarem o local onde Nick estava antes. Ele iluminou a parede.

_ Sente a corrente de ar? ele murmurou. _ Tem uma brisa vindo daqui.

Perry murmurou com assentimento.

Nick tateou a parte de cima da parede, mas não havia trinco.

_ Ali, - Perry disse de repende, apontando.

Havia um trinco muito mais primitivo perto da parte de baixo da parede.

_ Essas trancas foram todas limpas e lubrificadas, – ele disse por cima do ombro.

_ Sim, - Perry disse. _ Alguém está usando esses túneis com frequência.

Nick pegou o trinco, pressionou e a porta se abriu.

Eles estavam vendo um lago dentro do que parecia ser um celeiro em ruínas. Havia ripas quebradas no teto acima deles. A luz fria e cinza do dia deixavam retângulos pálidos na água parada e escura. Vários pedregulhos saíam da água. Gelo pulerizava a terra que circulava a água parada.

_ Nós estamos no antigo icehouse, Perry disse. E então sua respiração tornou-se irregular.

Nick o olhou e seguiu a direção do olhar aflito. Demorou um pouco para que seus olhos entendessem a forma pálida, brilhando na água.

Um homem estava de bruços. Seu cabelo estava encharcado e cheio de lama, ele usva um blazer xadrez amarelo e marrom. Sem sapatos, seus pés molhados flutuavam gentilmente usando meias amarelas e berrantes.