O Fantasma Usava Meias Amarelas
Capítulo Cinco
O dia atingia o crepúsculo quando Perry viu a pickup branca de Nick ir embora.
Era estúpido sentir-se tão... chateado. Ele mal conhecia Nick, afinal. E tudo o que ele conhecia era suficiente para alertá-lo de que ele, provavelmente, estivesse enchendo a paciência do outro homem.
A casa pareceu muito silenciosa, assim que o barulho do motor do carro acabou. Da janela do segundo andar do apartamento de Watson, Perry olhava o pomar, brilhando contra o céu escuro. A névoa saía do solo úmido e deslizava como uma cobra fantasma por meio da floresta.
Enfim, não é como se existisse um perigo real. A casa era meio assombrada, meio assustadora, mas sempre foi assim.
Ele viu alguém movendo-se pelo jardim abaixo. A pequena silhueta parecia uma criança, mas Perry reconheceu o casaco rosa e o gorro de ski de bolinhas.
Sra. Dembecki?
Algo nos movimentos furtivos da senhora chamaram sua atenção, aumentaram sua desconfiança e, por que ele não tinha mais nada para fazer, - por que precisava esquecer dos problemas - Perry pegou sua jaqueta e correu para baixo.
Jane e o Sr. Teagle penduravam uma guirlanda suja no corrimão da escada. Sr. Teagle reclamava dos Democratas que Roubaram o Natal, e Jane, com um humor raro e indulgente, o provocava.
_ Qual foi o melhor presente de Natal que você já ganhou, Sr. Teagle?
_ Bem, quando eu era um garoto, não tínhamos muito dinheiro. Não como essas crianças de hoje em dia...
Nenhum dos dois prestou atenção em Perry enquanto ele escapava pela saída dos fundos que o levou até o jardim abandonado. O vento arrancou a porta de suas mãos e ela bateu contra a casa. Ele esperou para ver se o som iria assustar sua presa, mas a Sra. Dembecki flutuava pelo mato alto e pelas ervas daninhas como uma toupeira rosa. Ela parecia conhecer bem o caminho lamacento, mas, até onde podia lembrar-se, ela havia morado em Alston Estate por quase todo o sempre.
Enquanto Perry seguia Sra. Dembecki, ocorreu-lhe que ele estava agindo mais suspeitosamente do que ela. O que ele estava fazendo espionando uma senhora? O que ele achou que iria descobrir? Quais segredos ela poderia ter? Talvez ela tivesse plantado uma horta secreta de tomates, ou estivesse visitando o túmulo do seu periquito falecido.
Ainda sim... havia algo no modo furtivo e secreto de como ela movia-se pelas árvores - e as coisas estavam tão estranhas agora. Perry, automaticamente, aumentou a velocidade, tentando mover-se quietamente pelos arbustos molhados sem chegar muito perto de sua presa.
Parou atrás de um bordo-açucareiro, ele igualou-se à escuridão sombria que cheirava a terra molhada e mofo. Ele podia ouvir a Sra. Dembecki, a cidadâ sênior sinistra, alguns metros à frente, esmagando as folhas mortas.
Não muito distante, ele podia ouvir a correnteza do rio. O gazebo, ele pensou. Ela estava indo em direção ao gazebo. Por quê? Ela encontraria alguém? Um galho quebrou embaixo dos seus pés. Ele agachou-se atrás de um toco de árvore morto.
Cautelosamente, ele espreitou pelo toco.
A Sra. Dembecki havia parado e olhava para os lados com medo. Perry abaixou-se, esperando, cobrindo sua boca com a mão, caso a fumaça de sua respiração com o ar frio o delatasse.
Passou um longo momento. Perry esperava enquanto os joelhos de sua Levi’s ficavam encharcados. A alguns centímetros de seu nariz, formigas rastejavam para dentro e para fora da casca morta.
Ouvia-se um barulho de dobradiças rangendo e o bater de uma porta de madeira. Ao olhar, ele viu que a Sra. Dembecki havia sumido dentro do gazebo.
Ótimo. E agora? Seria difícil chegar até o gazebo sem que ninguém o visse por alguma das janelas. Seus olhos encontraram uma bétula com galhos amarelos que se espalhavam pela construção octagonal.
Escondendo-se atrás de arbustos de rosas, Perry alcançou a árvore e escalou pelos galhos, seus sapatos escorregavam na casca lisa, até encontrar apoio.
Do seu galho ele tinha uma visão desobstruída das janelas encardidas do gazebo. Um raio de luz sem brilho pairava sobre o quarto gentilmente angular.
Era impossível ver mais do que isso na escuridão. O que ela poderia estar fazendo ali? Perry tentou escutar, mas também era impossível por causa do barulho distante do rio, das folhas voando na brisa gelada.
Minutos se arrastaram.
Ela estava escondendo algo? Não demoraria tanto. E, se ela estivesse procurando por algo, bem... o mesmo argumento é válido. Afinal, ela mora por aqui há anos. Pelo quê ela estaria procurando em vinte minutos que ela não tenha encontrado na década passada?
As mãos de Perry estavam dormentes por causa do frio. Sua perna começava a dormir. Começou a se perguntar se já fora mais miserável em sua vida quando a chuva voltou, caindo em sua nuca. Ele começou a pensar sobre o frio e a umidade que agravariam sua asma – não foi algo com que Sam Spade precisou preocupar-se.
Ele massageava sua perna adormecida, observando a luz pálida mover-se pelo quarto mais uma vez. Talvez ele devesse tentar descer e espreitar por uma das janelas. Ou talvez ele devesse apenas entrar e fingir estar surpreso ao encontrar a Sra. Dembecki – ver como ela iria reagir.
A porta acima dele abriu-se, e a Sra. Dembecki saiu do gazebo, assustando Perry – que quase caiu de sua árvore.
Ele estabilizou-se. Pelo espalo entre as folhas, ele pode ver a figura anã de Sra. Dembecki ir embora às pressas. Ele pôde ver que ela segurava alguma coisa, mas ele tinha certeza de que era sua lanterna.
Perry deixou que vários minutos passassem. Ninguém mais havia saído do gazebo, então ele pensou certo. Não foi um encontro; A Sra. Dembecki estava procurando por algo.
O que?
Quem usaria um lugar abandonado para esconder algo? Por quê?
Descendo pelos galhos e ramos enrolados, Perry caiu no chão molhado. ELe foi até o gazebo.
Era pequeno. As oito janelas eram marrons por causa da sujeira, haviauma camada de pó no chão e evidência de esquilos e pássaros. Perry pegou um lenço limpo para tampar sua boca e nariz.
Ao andar pelo quarto, ele teve de admitir que havia uma notável falta de esconderijos – um móvel velho de vime, as almofadas gastas e rasgadas. Era isso.
Nenhuma tábua solta fazia barulho. Ele bateu nas paredes, mas elas pareciam e soavam sólidas o suficiente.
Depois de aproximadamente dez minutos, Perry desistiu e voltou para a casa.
* * * * *
A casa estava escutando.
Esperando.
Perry podia sentir isso no silêncio por trás dos risos falsos e animados de Scooby-Doo. Ele sentou-se no sofá de couro do falecido Sr. Watson, comendo uma tigela de cereais e assistindo a televisão do Watson.
De vez em quando, ele se tranquilizava olhando para as novas e brilhantes fechaduras nas portas. Fechaduras sérias. Difíceis de arrombar. Ninguém entraria por aquela porta – a menos que alguém a quebre. Ele segurou as únicas chaves; havia instruído o chaveiro para fazer uma chave falsa, que ele deu para a Sra. MacQueen.
Então ele estava perfeitamente salvo. Perfeitamente seguro. E, ainda sim, ele não podia livrar-se do sentimento de que ele não estava sozinho.
De que ele estava sendo vigiado.
A casa estava quieta. Muito quieta. Nos quartos isolados da torre, o silêncio era normal; aqui, no segundo andar, Perry esperava sinais de vida. Onde estava o cheiro de comida caseira? Onde estavam os barulhos confortáveis das atividades de qualquer um dos outros quartos? Pelo som das coisas, ele deveria ser a única pessoa nesse andar ou na casa toda.
Ao terminar a segunda tigela de cereal, ele colocou o prato na pia e deu outra volta nos aposentos de Watson. Ele quase desejou estar de volta em seu ambiente familiar, com suas próprias coisas - exceto por que ele nunca mais conseguiria usar o banheiro de seu apartamento novamente.
Ele olhou a estante de vinho perto do aparelho de som do Watson: vários merlots e cabernets. Marcas conhecidas, a maioria da Califórnia. Nada importado ou sem valor, até onde pôde notar. Não que ele fosse um especialista; ele não era de beber. Vinho tinto geralmente o dava dor de cabeça, e vinho branco – de acordo com seu pai – era para maricas. Seu próprio armário estava vazio, mesmo que ele quisesse aventurar-se no deserto terceiro andar. Então, por que não? Watson não ligaria, e os parentes desconhecidos não notariam uma garrafa ou outra faltando. Ele poderia deixar dinheiro para a garrafa em cima do balcão.
Foi até o banheiro, esfregou a banheira de Watson, então desarrolhou uma garrafa de cabernet enquanto a água corria.
Duas taças de Salmon Creek e um banho longo e quente foram o suficiente para relaxá-lo e, assim que Perry saiu da banheira, ele sentia-se agradavelmente limpo e tonto.
Ao puxar os cobertores da cama à pouco arrumada, ele rastejou entre os lençóis. Watson tinha um lençol elétrico. Perry aumentou a temperatura.
Ele folheou um dos quadrinhos que estava empilhado ao lado da cama. Mais mulheres vestidas com pouca roupa, dessa vez lutando contra alienígenas do espaço. Ele olhou a data na capa da revista. Setembro de 1950. Watson deve ter sido um colecionador.
Não dá para adivinhar como as pessoas são. Das poucas vezes em que Perry conversou com Watson, ele havia falado somente sobre esportes e o mercado de ações - nenhum dos tópicos eram de grande interesse para Perry. Mas ele teria ficado fascinado em ouvir sobre os quadrinhos e as graphic novels. Ele adorava as artes, mesmo que moças seminuas não fossem sua praia.
Curiosamente, ele voltou para a guerra intergaláctica.
Depois de um tempo, os seios e os balões de fala ficaram borrados. Ele levantou a mão e desligou as luzes.
* * * * *
O que o acordara? Ele não tinha certeza. Por um minuto, Perry ficou deitado na escuridão nada familiar, tentando reorientar-se.
Perto da cama ele ouviu o barulho suave de números iluminados sendo virados. Da sala de estar vinha o tic-tac do relógio. Mais perto estava o arrarnhar dos galhos na janela. Idenfiticados, ele pôde desconsiderar três sons. Mas ainda havia algo...
E então ele ouviu. Um som estranho como... uma escovação. Não, era como se alguém carregasse algo pesado pelo corredor.
Atirou as cobertas no chão, tropeçando pela escuridão até a porta da frente, olhou pelo olho mágico. Ele tinha uma visão distorcida do carpete discolorido, painéis sombrios, uma luz antiga e fraca. Até as partículas de poiera pareciam velhas.
O corredor estava vazio.
Ele ouvia, tenso. O som parecia ter parado.
Perry ficou em pé, tremendo por alguns minutos, e então ele desistiu e volrou para os lençóis ainda quentes.
Vagarosamente, a adrelalina se foi e ele afundou em uma escuridão aveludada – só acordou quando algo bateu contra a parede do quarto.
_ Quem está aí? ele disse.
Silêncio. Ele começava a reconhecer aquele silêncio.
Perry ligou o abajur.
O quarto parecia ter cantos e sombras escuras.
Seu olhar parou nos romances policiais que ele havia trazido de seu quarto. Um homem que usava um chapéu olhava para um trio de capangas. O home de chapéu parecia-se vagamente com Nick. Não seja um babaca, Perry dizia a si mesmo. O que Nick faria nessa situação?
Nick sairia para verificar.
Perry considerou com tristeza. Ele ficou feliz quando pensou que Nick provavelmente diria que o barulho era apenas imaginação, e que ele deveria voltar a dormir.
Ele desligou a luz e escutou.
Nada.
Talvez ele tivesse sonhado.
Ele virou-se de lado. Devagar, ele deixou-se ir.
Quando os barulhos de algo sendo arrastado começaram novamente, Perry estava dormindo de forma muito profunda para notar.
* * * * *
Na segunda à tarde era possível encontrar Perry sentado em um quartinho na Fox Run Gazette, estudando as imagens projetadas de edições anteriores, enquanto elas apareciam e desapareciam nas paredes sujas.
ESTUDANTES NEGROS SENTAM-SE NO BALCÃO DA WOOLWORTH, dizia a manchete da edição do dia 2 de Fevereiro de 1960.
Perry suspirou. Ele desligou o projetor. Não tinha mais nada para fazer. Ele estava oficialmente de férias e sem ter para onde ir. O sonho em que ele havia planejado seu futuro, havia acabado. A memória dos imagináveis cafés da manhã de Domingo e passeios pela praia, as viagens antecipadas até museus e galerias de arte... relembrar dessas preciosas fantasias era mais doloroso do que a humilhante realidade.
O que dizia algo.
Na verdade, ele nunca havia se sentido assim em um feriado. Ele não podia nem encontrar entusiasmo para pintar – o único refúgio que jamais o falhara. Ele estava muito ansioso para trabalhar. Muito inquieto. Entre Marcel e suas finanças... ele precisava de algo para ocupar a mente, e, de forma estranha, as misteriosas ocorrências do estado providenciavam uma distração útil.
Jane havia passado em seu quarto para tomar café da manhã. Supostamente, ele foi lá para pedir emprestado uma xícara de leite, mas ele suspeitou que ela achava que ele precisava de companhia. Na verdade, talvez Jane precisasse de companhia, por que assim que ela acomodou-se no sofá, ela parecia não ter nada a dizer, inquietamente passando pelos canais com o controle remoto.
_ Você não vai trabalhar hoje? Ele perguntou, surpreso. Ele não havia visto Jane ligar para a imobiliária dizendo que não iria trabalhar.
Ela deu de ombros. _ Eles podem se virar sem mim por um dia ou outro. Não gosto de como as nuvens estão. Odiaria ficar presa do outro lado da ponte. De fato, se eu fosse você, eu pensaria duas vezes antes de ir para a cidade se não for necessário.
Ela tinha razão. A ponte enchia às vezes, mas a ideia de ficar sentado o dia inteiro no quarto de Watson... não, obrigado. Ele preferiria dormir no carro.
Ao assistir Jane impacientemente apertar os botões no controle, ele perguntou, num impulso: _ Você já ouviu falar no fantasma de Witch Hollow?
Jane tirou os olhos da TV. _ Fantasmas antes do almoço? Ah, querido!
_ Mas você não me disse alguma coisa sobre esse lugar ser mal assombrado?
_ Como fui irresponsável, – Jane murmurou. _ Você não acredita em tudo o que eu digo, acredita?
_ Um terço.
Jane riu. _ Garoto espero. Ela pegou o controle de novo, um canal explodia com ideias para presentes de Natal. Ela olhou pare Perry. _ Eu acho que me lembro de ter lido algo no jornal ano passado. Em um daqueles artigos locais, - ela admitiu.
_ E ele mencionava especificamente Alston Estate?
Jane estreitou os olhos, como se estivesse procurando no passado. Ou talvez ela estivesse de ressaca. Ela não parecia estar bem, agora que ele notou. Talvez ela estivesse doente, mas não pudesse admitir. Há pessoas assim; pessoas cansativas que nunca saem de licença médica e acabam infectando todos os colegas de trabalho. Perry era sensível a isso, ele era uma das pessoas que sempre pegava as doenças.
_ Quero dizer que sim, - Jane ponderou. _ Foi na década de vinte. Ou talvez quarenta. Foi um assassinato ou algo assim. Mas é uma casa antiga; naturalmente, tem história.
_ Nunca ouvi falar de assassinato, - Perry disse, suspeitando.
_ MacQueen nunca fala sobre isso. Com medo de que afaste novos inquilinos, eu acho. Você conhece a geração mais velha.
Se a Sra. Mac fosse um modelo, as gerações mais velhas seriam capazer de puxar o sacoo das gerações mais novas com os olhos vendados e com um braço amarrado nas costas.
_ É diferente para pessoas da geração dela, - Jane explicou. _ Assassinato era um grande escândalo na época.
_ Certo, - Perry disse, pensando na ideia de que um assassinato não seria um grande escândalo hoje em dia. _ Então esse fantasma era a vítima de um assassinato?
Jane apertou os botões do controle remoto de novo. _ Você teria de procurar isso, querido. Minha memória é meio vaga.
E foi isso o que Perry decidiu fazer. Procurar. Afinal, ele havia lido muitos romances policiais para saber que ninguém resolve um mistério sentado, assistindo a chuva arrancar as folhas das árvores.
Ele pressionou o botão do projetor e outra página um pouco confusa apreceu na parede. Poderia levar horas ou até mesmo dias para encontrar o que ele estava procurando; se é que existe. A memória de Jane era notoriamente ruim. Ele procurou pela imagem ampliada por qualquer menção de Alston Estate, ou outras casas históricas da área, e então apertou o botão novamennte.
Era um trabalho chato, mas era algo a se fazer. Algo para pensar, além de Marcel.
Ele imaginava como Nick estaria em Los Angeles. Será que ele já havia feito a entrevista? Pensava se Nick iria conseguir o emprego e mudar-se para a California.
Ao chegar no fim do carretel, Perry levantou-se, amarrou a próxima tira de microfilme no projetor. Sentou-se, focou o projetor na parede e fez uma careta. O trabalho de um detetive era muito mais interessante nas páginas de autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Ele estava contente de não ter de lidar com caras durões batendo nele como uma polpa, ou damas astutas tentando dar-lhe um Boa noite Cinderela.
Ele apertou o botão.
Começava a parecer que o último evento interessante na Fox Run foi a Guerra Revolucionária. Ele apertou novamente.
E, quando ele estava ficando de saco cheio, Perry encontrou um artigo sobre os esforços da Sociedade de Preservação local para renovar as casas da área. No mesmo texto havia uma história sobre yuppies que mudavam-se para o vale e compravam casas antigas. O jornal tinha uns cinco anos.
Perry apoiou-se nos cotovelos, lendo ansiosamente.
A história completa e colorida pode ser encontrada no microfilme da Fox Run, localizada no Northeast Kingdom. Alguns dos prédios da área estão preservados para a posteridade na propriedade conhecida como Hennesey Farm. Agora parte do Alston Estate, a casa de campo
do século dezoito ostenta uma icehouse[1], um pombal e um solário.
Bingo, Perry pensou. Ele começou a tomar notas.
A casa foi construída em 1780 pelo Coronel Geoffrey Hennesey como presente de casamento para sua noiva. Hennesey, um comandante da Continental Army, faleceu um mês antes da casa ter sido terminada. Sua viúva vivei lá sozinha até sua morte em 1800. É dito que o espírito solitário da amável e jovem viúva está confinado à estrutura original.
Qual parte da casa é a estrutura original? Perry pensou.
Durante a Lei Seca, a casa foi vendida para o banqueiro de investimentos, Henry Alston, que renovou a estrutura extensivamente. A casa foi o cenário de vários encontros sociais de gala. Em 1923, Alston casou-se com uma das garotas do musical Glorifield Girls, produzido por Ziegfeld, a lenda das telinhas, Verity Lane, e o velho encontrou o novo em uma fúria de titãs. Tipicamente, os entretenimentos da maiorida das tardes incluíam jazz, álcool contrabandeado, e apostas ilegais pela riqueza de Alston e seus amigos. A casa ganhou notoriedade durante o inverno de 1932, quando o famoso gangster Shane Moran e sua gangue invadiram uma festa particular, roubando mais de um milhão de dólares em jóias e objetos de valor dos ricos foliões.
Perry assobiava. Era difícil acreditar que as pareces empoeiradas e escuras da antiga casa já estiveram vivas com risos e música.
Moran foi morto por G-men em um tiroteio a menos de uma semana após o assalto. O parecer do roubo é um mistério até hoje.
Perry pensou na Sra. Dembecki perambulando pelo gazebo. Por que não? Moran havia escapado com seus bens e só encontrou seu destino violento alguns dias depois. E ainda sim...? Ela estava procurando por alguma coisa, com certeza – e procurava de modo que não queria que ninguém soubesse disso.
Como era de se esperar, o fantasma de Shane Moran também foi visto perambulando pelos corredores de Alston Estate. Para mais informações nesses e em outros fantasmas, verifique o New England’s High Spirits e Gay Ghosts.
Perry anotou as datas em seu caderno e leu o artigo novamente.
Então... a casa era, provavelmente, assombrada? Mas, apesar do que David Center pensou, aquilo não foi uma manifestação ectoplásmica na banheira de Perry. Center. Perry tremeu um pouco ao pensar nas maõs úmidas e frias do outro homem, tentando alcançá-lo.
Ao sair do quarto, ele foi atrás de um chocolate e um lanche em um café na mesma rua.
Ele estava terminando de comer um sanduíche de queijo grelhado e batats fritas, quando notou um homem grande com uma jaqueta azul, mostrando uma foto para a garçonete. A moça balançou a cabeça e Perry olhou para a foto com um interesse casual. Ele estava muito longe para ver algo.
O homem no blazer azul olhava com os braços cruzados ao redor do café, quando notou o olhar interessado de Perry. Seus olhos estreitaram, sua expressão endureceu.
Algum problema?
Ele não precisava dizer as palavras em voz alta. Sua expressão dizia tudo. O olhar de Perry voltou-se para seu prato. Ele selecionou uma batata frita com cuidado, como se fosse entregar um prêmio de melhor fatia de batata.
Ele era um policial? Perry considerou essa possibilidade, mas a dispensou. O homem não parecia um policial. Ele parecia com um ex jogador de futebol. O nariz de ninguém tinha aquela forma amassada, seus olhos estreitos tinham um ar de não-sei-lidar-com-outras-pessoas. Esqueça o jogador de futebol, ele parecia um bandido - um bandido com um senso péssimo de moda. O casaco dele era tão feio quanto o que o cadáver na banheira de Perry usava.
Uma luz. Talvez ele fosse um detetive particular.
Mas, de novo, talvez fosse apenas uma ideia na linha de pensamento de Perry. Embora o homem parecesse um detetive particular como os dos romances que ele lia, era duvidoso que detetives tivessem um estereótipo. Todos iguais, poderia existir uma conexão entre o homem com o blazer feio? Esse cara poderia estar procurando pelo homem morto que desapareceu da banheira de Perry?
Alguém deve estar procurando por ele.
Ou isso estava ficando muito fantasioso? Não há motivos pare acreditar que o cadáver fosse um policial ou um bandido. E o brutamontes de blazer azul, a explicação mais sensata, é a de que ele era um possível comprador para um casa específica da área.
Todo o resto era muito improvável, certo? Nem todo mundo com um gosto criminalmente ruim era um bandido. Perry pensava na ideia de uma possível conxão, enquanto continuava encarando seu prato como se estivesse contando as batatas fritas.
Finalmente, o brutamontes de blazer azul terminou de pagar a conta e saiu pela porta de vidro acompanhado do tilintar dos sinos. Perry virou-se para olhar pela janela, e viu o forasteiro desaparecer em seu caminho.
_ Ele está longe de casa, - a garçonete comentou sozinha.
_ De onde ele é? Perry perguntou.
Ela deu de ombros. _ Parecia ser de Nova Iorque. Buffalo, talvez?
_ Ele procurava pelo que?
_ Quem, - a garçonete corrigiu. _ Uma garota que fugiu do marido. Ninguém daqui, isso é certo.