O Fantasma Usava Meias Amarelas
Capítulo Seis
A o voltar para o jornal, Perry pediu para o asiático entediado do balcão, o microfilme de 1930.
O garoto disse, embora Perry já devesse saber antes de perder tempo perguntando: _ Ele já está usando.
_ Ele quem?
Com um suspiro, o garoto passou a prancheta para as mãos de Perry. Ele leu as letras altas e inclinadas: R. Stein.
O dia estava ficando cada vez mais estranho. Sr. Stein não parecia, para Perry, ser um fã de história – e nem alguém que acredita no sobrenatural. O fato de ele estar olhando microfilmes de 1930 teria de ser mais que uma coincidência.
Então, talvez a linha de pensamento de Perry não estivesse tão errada.
Ele perguntou para o garoto, que já havia voltado para seu Game Boy: _ Você sabe se or originais dessas coisas aindam existem?
_ Você quer dizer... os jornais velhos?
_ Sim.
O garoto deu de ombros. _ Aqui não. Sem paciência ele disse: _ É por isso que temos os microfilmes.
_ Você sabe se os originais foram doados para a biblioteca? Ou talvez alguma faculdade?
_ Não. Não faço ideia.
Perry pensou. _ Você poderia perguntar para alguém?
_ Não há ninguém aqui. Todos estão ocupados. Balançando a cabeça para a falta de sensibilidade de algumas pessoas, ele voltou para o resgate dos heróis de Golden Sun.
Perry murmurou um “obrigado” e partiu. Atravessando o estacionamento quase vazio, tentou pensar no que ele aprendeu. Rudy Stein era um ex-policial, então teria algum motivo para ele verificar uma história relacionada a um crime, mas, certamente, a época do crime colocava suas suspeitas fora da categoria de coincidências.
Mas o quanto isso não seria uma coincidência? Talvez Stein fosse um fã de história. Talvez ele estivesse escrevendo um livro sobre a história de Fox Run. A verdade é que Perry não sabia quase nada dos seus colegas de pensão. Desde que ele chegou em Alston Estate, há menos de um ano, sua vida era apenas a pintura e seu romance pela Internet com Marcel.
Stein poderia estar escrevendo um livro sobre a história dos negros no local. A Sra. Dembecki poderia estar procurando por um brinco perdido. Ou talvez ambos estivessem procurando pelo tesouro de Shane Moran.
Ou talvez Perry tivesse lido muitos romances policiais. Talvez Stein estivesse fazendo um curso à noite. Talvez estivesse curioso sobre as histórias de fantasmas também. Talvez, por ser um ex-policial, seus instintos estivessem aguçados. Por que, certamente, algo estranho está acontecendo em Alston Estate.
Ele parou quando percebeu que Sten veria o nome de Perry na prancheta, quando fosse devolver o microfilme.
Não que houvesse algum motivo lógico para que Perry escondesse seu interesse na história da casa. Depois de sua própria experiência ele teria todo o direito de estar curioso sobre histórias de fantasmas em sua casa atual.
Ao mesmo tempo, Perry não queria que ninguém no Estate soubesse que ele estava vasculhando o passado da casa.
Como a presença de Stein havia parado sua investigação, ele entrou em seu carro e dirigiu até a biblioteca.
Como ele deveria estar curtindo as férias em São Francisco, sua aparição repentina foi motivo de surpresa. Perry foi obrigado a inventar uma história sobre uma doença na família de um amigo, e seus colegas de trabalho foram bem simpáticos por alguns minutos, até que as demandas do trabalho os distraíram. Perry ficou feliz por não ter dito a ninguém o propósito romântico de sua viagem. Era doloroso o suficiente sem que todos soubessem que ele havia levado um pé.
Ele recusou a proposta de remarcar as férias para outro mês e foi até o escritório verificar seu e-mail. Ele ligou o computador dos funcionários com um sentimento nauseante.
Como era esperado, havia um e-mail de Marcel.
Perry leu pelo monitor do computador, seu coração pulava, suor frio escorrendo por todo seu corpo como se ele estivesse pegando uma gripe.
Desculpe-me, foi o que Marcel escreveu. Não sei mais o que dizer. Pensei que Gerry e eu tivéssemos terminado – talvez tenhamos, mas preciso dar mais uma chance. Espero que ainda possamos ser amigos. Você é uma pessoa especial em minha vida, e eu sei que em breve você encontrará alguém tão especial quanto você.
Perry sentou-se, respirando devagar e quieto, abstraído de tudo ao seu redor.
Havia acabado. Ele já sabia disso, mas, de alguma forma, ler isso escrito em Times New Roman número 10 fazia com que fosse mais real. Ele esperava que, assim que passassem da fase do sexo de reconciliamento, Marcel e Gerry veriam como eles não foram feitos um para o outro. Mas, claramente, não era o caso. Agora mesmo eles deveriam estar tomando café da manhã, antes de sair para uma longa caminhada na praia, em direção ao Museu de Artes de São Francisco.
É incrível quanta dor podemos sentir e ainda respirarmos...
De repente, Perry viu que o dia já havia acabado para ele. Ele desligou o computador, despediu-se dos seus colegas indiferentes e entrou no carro.
O crepúsculo vespertino aparecia enquanto ele dirigia pela floresta. Ele geralmente gostava dessa parte do dia, o crepúsculo da tarde. As árvores jogavam uma silhueta escura no céu que era frio e, misteriosamente, sem cor. O contorno das folhagens ardentes era preto e irregular à luz que falhava.
Pela primeira vez, Perry notou o quão isolado Alston Estate era. A Floresta de Witch Hollow separava a mansão e seus arredores da fazenda mais próxima, e a vila de Fox Run ficava há 32 quilômetros.
A névoa subia pelas águas sombrias enquanto ele passava pela ponte longa e coberta. Os pneus batiam no silêncio fúnebre.
* * * * *
Por que seus pensamentos estavam com Marcel o dia todo, Perry ficou surpreso ao notar que ele sentia falta de Nick quando chegou na porta da casa antiga.
Ele pensou de novo se Nick aceitaria o trabalho na Califórnia. Ele não conseguia imaginar Nick sendo reprovado na entrevista, qualquer que seja. Era difícil pensar em alguém mais capacitado do que Nick Reno. Claro que isso não importava – não deveria importar - para ele, de qualquer formar, mas o pensamento da partida de Nick era deprimente.
Ele fechou a porta e virou a tranca. A guirlanda verde e esfarrapada estava pendurada desastrosamente no corrimão. Mais guirlandas mal colocadas no lustre. Provavelmente causaria um incêndio, mas o lustre, assim como as outras luminárias originais, não funcionava. Em vez disso, luzes feias e modernas foram instaladas. Elas brilhavam intensamente no quarto vazio, iluminando a poeira, o estofamente puído das cadeiras gastas, a escada descartada ainda parada ao lado da escadaria.
Do saguão ele poia ouvir a televisão da Sra. Mac, gritando as notícias locais: acidentes de trânsito e o resultado de esportes - às vezes era difícil notar a diferença. As luzes iluminava a porta de Jane, e ele considerou por um instante, para para uma visita.
Ao lembrar do Sr. Fluffy, perdeu a coragem, seu peito fechou enquanto pensava em todo aquele pelo de gato. Além disso, ele não tinha forças para ficar de conversa. Ele continuou subindo as escadas, pensando que antes do final de semana desastroso, ele tinha planos prontos para o futuro.
Agora, não havia mais nada.
Mesmo que o pensamento se acomodasse, ele o rejeitou impacientemente. Ele ficaria bem assim que voltasse a pintar. Era apenas a casa o afetando. Ela parecia mais quieta, mais vazia do que o normal.
Assim que ele chegou no segundo andar, ele ouviu alguém batendo na porta no andar debaixo. Espreitando pela escuridão, ele viu Jane, usando jeans e um suéter azul claro, batendo na porta de David Center. Como se ela tivesse notado, virou-se e pulou visivelmente.
_ Eu não te ouvi! Ela disse, acusadoramente.
_ Desculpe. Eu estava indo para o apartamento do Wat – meu apartamento. Ele a fitou, com dúvida. Ela parecia... agitada. Não exatamente brava, mas... também não estava relaxada como sempre. Talvez não ter ido ao trabalho tenha sido um erro. A atmosfera parecia estar afetando-a também, embora antes Jane tenha aparentado impenetrável pela atmosfera.
Ela bateu novamente na porta de Center e perguntou: _ Onde está todo mundo?
_ A televisão da Sra. Mac está ligada. Eu pude ouvir pelo saguão.
_ Eu quis dizer “humanos”, - Jane respondeu sordidamente. _ Eu não vi Dembecki ou Teagle. Stein saiu o dia todo. Eu acho que David – Sr. Center – ainda está no trabalho.
_ Se você considerar jogar tarot como sendo um trabalho.
Jane bufou, mas ela não fez a piada esperada. Perry notou que, nas últimas semanas, a atitude de Jane quanto à David Center havia suavizado. Jane era tão autoconfiante e contida, que ele nunca considerou que ela pudesse desenvolver sentimentos românticos – especialmente por alguém como David Center, a quem Perry não gostava. O fazia sentir-se mais sozinho ainda.
_ Paga as contas, o que é mais que o meu trabalho faz. Abandonando seu posto, Jane juntou-se a ele na frente da porta do Watson. _ Maldito lugar, – ela disse, com certa veemencia.
_ Está tudo bem? Perry perguntou. Claramente nada estava bem, mas ele não gostava de se intrometer.
Ela deu uma olhar meio de lado e murmurou: _ Sim, bem. É esse lugar. Me dá nos nervos.
Ele não conseguia entender aquilo. Mas essa Jane cansada e tensa era tão diferente da Jane que ele conhecia. Todos pareciam diferentes ultimamente. Desde que Perry voltou de suas férias abortadas.
Ou ele não havia notado o quão estranhos todos eram, durante as semanas que ele estivera felizmente envolto nos sonhos de um futuro com Marcel?
Jane adicionou, como se fosse a gota d’água: _ E Tiny foi embora de novo. Quando seu novo amigo, G.I Joe, volta?
_ O que faz você pensar que Tiny foi embora?
Ela fez um som enojado. _ Ele se foi. Ninguém o vê desde ontem.
Ontem, depois que ele abriu o apartamento do Watson, livrou-se dos peixes mortos e esquivou antes que Jane pudesse laçá-lo para consertar as janelas? Isso poderia ser relevante para os outros acontecimentos misterioros na casa? Perry não conseguia ver como. _ Não é a primeira vez que ele vai embora, - ele apontou.
_ Eu não disse que era incomum; Disse que era irritante.
Jane seguiu Perry até o apartamento de Watson, bisbilhotando curiosamente pela coleçãod e CDs e DVDs do falecido. Perry já havia visto ambas. Watson gostava de filmes clássicos como Atrás da Porta Verde e a música do Bread, The Turtles e Bee Gees.
Jane perguntou: _ Você não acha assustador ficar aqui? Até o cheiro é assustador.
_ A casa toda tem o cheiro assustador.
_ Verdade. Jane examinou o quadro da loira voluptuosa e nua que andava em um dinossauro com um sorriso malicioso.
_ É mais assustador no meu apartamento.
O olhar de Jane passeava pelas decorações das paredes. _ Querido, você não acha que viu um cadáver na sua banheira, não é? Ela ria dele, mas não deixava de ser gentil.
_ Eu não acredito que tenha visto um fantasma.
_ Um fantasma? Jane parecia pensar. _ Um fantasma, - ele repetiu devagar. Então, livrando-se de sua preocupação, ela disse: _ Então, o que você fez hoje?
Perry deu de ombros. _ Li alguns jornais velhos. Fui até a biblioteca.
_ Se você for até a biblioteca, é melhor que volte ao trabalho. Ela o observava curiosamente. Ele havia contado para Jane um pouco sobre Marcel, mas nem Jane sabia o quanto ele tinha apostado naquele relacionamento virtual.
Ele foi até a cozinha de Watson e balançou a caixa de Froot Loops que estava sobre o balcão. _ Você queria um pouco?
_ Esse é seu jantar?
Claro. Fortificado com ferro.
_ Querido, você precisa comer bem. Isso é para quem quer encontrar um anel decodificador. Ela assistia Perry jogar leite em uma tigela. _ Então, o negócio da Califórnia acabou?
Ele balançou a cabeça.
_ Sinto muito.
Perry deu de ombros.
Jane passeava pelo quarto, bisbilhotando os pertences de Watson. Ela disse: _ Você deveria reconsiderar conversar com o David – Sr. Center. Afinal, é a especialidade dele. Talvez ele possa fazer uma sessão espírita.
Com a boca cheia de cereais, Perry disse: _ Ahn?
_ Uma sessão espírita, – Jane repetiu. _ Você nunca viu -
_ Como uma sessão espírita me ajudaria com Marcel?
_ Marcel? Ah. Jane mudou de expressão rapidamente. _ Eu não estava pensando no Marcel. Estava pensando se a casa é realmente assombrada...
_ Mas eu não acho que a casa seja assombrada!
_ Eu acho.
Perry ficou boquiaberto. _ Você acredita?
_ Claro, - ela disse, desafiadora.
Jane sempre pareceu ser tão realista. Tão sensata. Ele não podia acreditar nisso. Por quê?
Ela disse – ainda defensiva – _ Eu ouvi coisas. Eu vi coisas. Por que não poderia ser um fantasma?
_ Porque isso não existe?
_ Você está sendo mente fechada. Ao ver sua expressão de surpresa, ela pareceu mudar de ideia sobre dizer mais alguma coisa, em vez disso, foi em direção à porta. _ Bem, tenha um bom jantar.
_ Você não precisa ir embora. Ele não queria ficar sozinho, e a ideia de Jane interessando-se pelo sobrenatural era um pouco fascinante.
O sorriso de Jane foi vago. _ Gostaria de ficar, mas eu tenho coisas para fazer. Boa noite, querido.
Ela vai tentar a porta de Center novamente, Perry pensou. Quando isso havia começado? Talvez sempre fosse assim. Ele esteve tão enrolado em seus próprios sonhos que não havia notado o que estava acontecendo bem debaixo de seu nariz.
Sentou-se em frente à televisão com sua tigela de cerais e começou a mudar os canais. Ele não tinha uma televisão, então era como se fosse um luxo. Ele notou, um pouco chocado, que ele não assistia televisão desde que saíra de casa, há nove meses. Ele deixou no filme Little Caesar, de 1931.
O filme foi feito no começo da Crise de 1929, por volta do mesmo tempo em que Henry Alston e Ziegfeld davam festas para os amigos ricos da sociedade, enquanto o resto do país morria de fome. Não é de se admirar que gangsters como Shane Moran, não foram sempre vistos como os vilões.
Absorto, Perry assistiu a ascenção e a queda de Rico Bandello, como se fosse história, rindo alto quando Edward G. Robinson resmungou: _ É, é isso o que eu ganho por gostar tanto de alguém!
Quando Rico morreu com uma chuva de balas, Perry sentia-se muito mais animado. Ele decidiu que queria um pouco de ar fresco antes de dormir, e uma caminhada o ajudaria a cansar o corpo antes de ir para cama. A última coisa que ele queria era deitar-se, ainda acordado, ouvindo a casa velha ranger com passos invisíveis.
Pegou a jaqueta e desceu as escadas, saindo na noite úmida de inverno. Acima do jardim encharcado, nuvens brancas transformavam-se vagarosamente em cavalos espectrais, montanhas e dragões, e então separavam-se como algodão, mostrando o brilho de estrelas distantes.
Perry pensou como seriam as estrelas em Los Angeles – seria possível vê-las nos céus poluídos de Los Angeles? Ele perguntou-se por quê estaria pensando em Los Angeles. e Nick – mais uma vez. Provavelmente porque ele não conseguia pensar em São Francisco e Marcel.
Ele seguiu o caminho estreito e de tijolos, pelo labirinto de matos altos e arbustos que eram agora um espinheiro, até que o caminho o levou para degraus quebrados, sujeira e lama.
A torre torta e velha do pombal estava diante dele. Na luz irreal das estrelas, parecia uma casa de bruxa. Era um de seus temas favoritos. Ele havia feito vários rascunhos e pintado duas vezes – até vendeu uma das pinturas. Ele pensou na estrutura.
Era um ótimo lugar para esconder-se, realmente, a torre cilíndrica e pequena com paredes feitas de escaninhos – assumindo que ninguém tivesse alergias ou asma. Apenas a ideia daquela escuridão úmida fez com que seu peito apertasse.
Mas não havia motivos para acreditar que Shane Moran e sua gangue deixariam seus bens ilícitos antes de fugir pela floresta – que sentido teria isso?
Os arbustos farfalhavam atrás dele, e ele virou-se, com o coração palpitando de terror. Quando seus olhos viram que havia alguém lá - uma forma sombria e volumosa na escuridão - ele pensou que fosse desmaiar.
_ O que você está fazendo aí? Rudy Stein perguntou. Ele parecia tão abatido quanto Perry.
O coração de Perry voltou ao normal quando ele reconheceu o outro homem. _ Andando.
Stein disse gressivamente, tentando esconder o próprio medo: _ Hora estranha para uma caminhada, se quer saber!
Perry deu de ombros. _ Digo o mesmo de você.
Havia surpresa no silêncio de Stein. Por fim, ele riu de forma engraçada. _ É, bem, você deveria olhar por onde anda, - ele disse, apontando para frente.
Perry olhou para baixo e percebeu que estava em cima de uma poça.
Stein deu outra risada curta. Tenha uma boa noite, - ele disse e foi embora, em direção ao rio.
Perry ficou olhando, mas a silhueta de Stein foi logo engolida pelas sombras.
A noite fechava-se ao seu redor e ele tremeu. Era o suficiente de ar fresco para a noite.
Voltou para a casa, foi até o apartamente de Watson - novamente consciente do silêncio tenso das paredes vazias - e preparou-se para dormir.
Ao escovar os dentes, Perry pensou nas opções que teria no dia seguinte. Ter encontrado Stein parecia ter confirmado sua suspeita de que algo estava acontecendo na velha casa, e, como não era da conta dele, o fato de um cadáver ter sido colocado em sua banheira, desperatava seu interesse.
Decidiu visitar a sociedade histórica no dia seguinte, e ver o que encontraria sobre a casa. Ele poderia procurar nos arquivos da igreja também. Eles eram sempre úteis em romances policiais, embora ele não soubesse o que procurar nesse caso. Registros de nascimentos e mortes eram o comum; talvez Shane Moran fosse um morador local. Isso daria ideias de onde Moran poderia ter guardado os itens do roubo.
Perry pensou um pouco sobre o rumo de seus pensamentos.
Os itens do roubo de Shane Moran? Ele não planejava passar o resto das férias fazendo uma caça ao tesouro, planejava? Como ele foi da curiosidade sobre a história da casa para o último assalto de Shane Moran?
Ele enxagou as mãos e jogou água na pia, fechou as torneiras e retornou para o quarto nada familiar, subindo na cama enorme. Ligou o cobertor elétrico, desligou as luzes e fitou o teto. As sombras piscavam pela superfície branca quando os galhos das árvores fora da casa eram balançados por rajadas de vento.
A próxima tempestade aproximava-se.
Por um tempo, ficou deitado no escuro, ouvindo o vento e a casa velha ranger, enquanto preparava-se para a noite.
Inevitavelmente, seus pensamentos foram até Marcel – Marcel, que não havia pensado nele nem um pouco desde o e-mail de desculpas e adeus. Como ele pôde estar tão errado sobre Marcel? Ele acreditava que os dois se conheciam verdadeiramente, que eles pudessem se conhecer ainda melhor, pois suas relações eram livres do físico. Suas conversas eram abertas, uma manifestação honesta da mente e do coração. Por meses eles compartilharam tudo – das coisas mais mundanas às mais perssoais. Ele sabia que Marcel sentia que estava sendo sexualmente discriminado no trabalho, e que ele não gostava de sua chefe “megera”; que ele era alérgico a mariscos e ambrósia; que ele amava as roscas de maçã e passas da padaria da esquina, mas que ele não as comia com frequência, pois ganhava peso facilmente; que ele tinha dezessete na primeira vez que fez sexo com um homem.
Perry era um especialista em Marcel. Mas ele não sabia da coisa mais importante: que Marcel ainda estava apaixonado por Gerry.
Não era somente o constrangimento de todas as coisas que ele havia revelado para Marcel – todas as confidências construíram a crença de que eles compartilhavam um intimida única. Ele havia contado para Marcel coisas que ele jamais havia dito a ninguém. Mas também não era perceber que ele foi um tolo – embora isso doesse muito.
Ele estava de luto – verdadeiramente – pela morte daquele sonho. Às vezes, agarrar-se àquele sonho era tudo o que o mantinha à tona. E agora tudo estava acabado: a fantasia tola da vida doméstica e aconchegante, ele e Marcel vivendo juntos. Era muito doloroso pensar nisso agora, as cenas que anteriormente traziam conforto e felicidade: fazer as compras juntos na Whole Foods, esbarrar um no outro na pequena cozinha enquanto preparavam uma maravilhosa refeição gourmet, acordar juntos... sorrir com os olhos enquanto começavam a fazer amor...
Ele sabia pelas fotos que Marcel era bonito, e ele era. Alto e jovem, talvez um pouco gordinho – mas de um jeito atraente – cabelo indisciplinado e castanho. É verdade, seu cabelo era mais fino na vida real, e Marcel era um pouco mais velho do que na foto. Ele tinha olhos azuis brilhantes – um azul bem diferente do azul sombrio de Nick Reno. Perry soube que amaria Marcel do minuto em que ele o viu, esperando no portão de desembarque, com um ar apologético e envergonhado, na sua maneira bonita de ser.
Perry fitava os quadros de Armando Drechsler com princesas Maias e dançarinas tribais na parede do quarto de Watson. À luz da lua, eles pareciam cartas de tarot gigantes, ou cartazes de viagem para um destinho desconhecido.
Havia acabado agora. E embora ele soubesse que era bobo e melodramático, Perry sentia que sua vida havia acabado também. Ele nunca mais encontraria alguém. Ele viveria em Alston Estate assim como a Sra. Dembecki, até que ele se tornasse um dos fantasmas.
* * * * *
Tic. Tic. O despertador marcava 12:01 com seus números verdes e brilhantes. Perry abriu os olhos.
Onde ele estava? E então ele lembrou-se. Ele estava no apartamento do Sr. Watson.
Ele estava colocando na balança, ainda com sono, se ele precisava mesmo fazer xixi, pois teria de fazer a caminhada pelo quarto sem aquecimento, quando ouviu: um gemido baixo.
O que..?
Ele deveria ter ouvido errado. Ou estar imaginando. Seus ouvidos captavam o silêncio.
Nada, apenas o som do sangue passando pelas orelhas.
Ele continuou ouvindo com atenção.
Ele desejava não ter acordado. Agora ele ouvia todos os sons da casa: os barulhos estranhos de tábuas rangendo sob pés incertos, o sussurro do vento pela chaminé, como uma voz murmurante.
Ele conseguia pensar no que Nick diria sobre sua imaginação. O pensamento sobre Nick reforçaram sua coragem frouxa. Nick não acreditava em fantasmas e Perry também não.
Claro, se algum humano estivesse do lado de fora do quarto fazendo barulhos assustadores, também não era tranquilizador. Alguém estaria tentando assustá-lo para que saísse de Alston Estate?
Tudo o que eles precisavam fazer era pedir.
Bem, na verdade não. Ele não tinha para onde ir, e poucos lugares era tão baratos quanto os quartos da casa isolada. E ele não era tão covarde, embora ele soubesse que ninguém o confundiria com um cara durão.
Algo moveu-se dentro do guarda-roupas.
Perry ficou tenso. Ele disse a si mesmo que era sua imaginação.
Mas então, a porta do guarda-roupas abriu violentamente, como se alguém a tivesse chutado. Perry sentou-se ereto. Ele tateou tentando achar o abajur, derrubando o despertador de cima da mesa.
Arrastando-se para fora da cama, seus pés se enroscaram no lençol e ele quase caiu. Seus olhos nunca deixaram a porta branca e imóvel do guarda-roupas.
Descalço, ele alcançou o armário. Seu peito subiu e desceu, sua mão tremia, e, ainda sim, algo o fez estender a mão, os dedos roçavam a maçaneta de vidro.
Ele abriu a porta com força.