O Fantasma Usava Meias Amarelas
Capítulo Doze
Quando Jane finalmente desabafou e foi embora, Nick disse: _ Certo, ainda temos luz do dia suficiente para praticar tiro ao alvo. Pegue sua jaqueta.
Perry enrijeceu. Ele disse brevemente: _ Olhe, eu já sei como usar uma arma.
_ Ótimo, - Nick disse. _ Então não vamos demorar.
_ Não vamos demorar mesmo, porque eu não vou treinar.
Nick levantou as sobrancelhas quando ouviu o desafio. Perry, obviamente, morria de medo de armas de fogo – que é o que ele já esperava.
Ele disse pacientemente: _ Preciso saber que você consegue cuidar de si mesmo, e eu não acho que combate corpo-a-corpo é o seu negócio.
_ Nem atirar em pessoas.
Nick engoliu sua resposta imediata. Ele disse: _ Não quero que você se torne um atirador, mas se você encontrar seu amigo da passagem secreta de novo, talvez você ache isso útil. Ele ofeceu sua arma reserva, uma Sig P-228. Pequena, leve, precisa e fácil de esconder, o que fazia dela a escolha perfeita para Perry.
Exceto porque Perry não estava cooperando. Ele encarou a Sig sem se mover. Seus olhos foram até os de Nick. O olhar ingênuo.
Nick endureceu seu coração. _ Quero que você a carregue até que as coisas estejam resolvidas.
Perry levantou um dos ombros. _ Está bem. Ele ainda não havia tocado a arma.
_ Mas antes eu quero me certificar de que você sabe como usá-la.
_ Eu já disse.
_ Eu quero ver com meus próprios olhos.
Perry corou, seus olhos estreitaram-se. _ Você não vai confiar em mim?
Sua afronta pegou Nick de surpresa. Ele disse rapidamente: _ É, eu confio em você, mas eu quero ver se você consegue acertar alguma coisa.
Perry largou sua caneca e levantou-se. _ Está bem. Tanto faz. Vamos acabar logo com isso.
Ele ainda não havia falado nada até entrarem na pickup de Nick. Nick disse a si mesmo que não seria afetado. O garoto podia ficar emburrado por quanto tempo quisesse. Isso era para o seu próprio bem. Como aprender a comer direito ou usar uma camisinha.
Mas era melhor não deixar seus pensamentos tomarem esse rumo, ou eles voltariam para a casa para mais uma tarde de prazer. Era desconcertante. Nick não sentia-se assim... bem, há um bom tempo. Ele não sabia se já tinha se sentido assim, porque ele estava confortavelmente consciente de que ele estava se aproveitando. Papa anjo, é assim que as pessoas dizem. E essa é uma das formas mais legais de chamar alguém.
Ele dirigiu até eles passarem por um campo vazio. Nick estacionou do lado da estrada e eles andaram pelo mato alto. Nick alinhou algumas latas que ele havia pego da lixeira de reciclagem antes deles saírem da casa.
Ele voltou até onde Perry estava esperando, as mãos dentro dos bolsos, uma carranca não típica de Perry em seu rosto pontudo.
Nick demonstrou. _ Certo. Aqui está o carregador. Você -
Perry pegou o carregador de Nick e o colocou na P-228. Ele virou-se, parou na distância certa e atirou três vezes.
Nick piscou enquanto as latas voavam com o blam blam blam da arma, uma depois da outra batiam na parede de pedra.
_ Meu Deus, Foster. Você tem um bom olho...
Perry disparou mais quatro vezes. Tiros certeiros que derrubaram o resto das latas. Ele retirou o carregador e deu a arma vazia para Nick. Ele deu aquele olhar longo e nada amigável que Nick havia visto uma vez quando Perry ficou decepcionado.
_ Onde você -
_ Eu aprendi a atirar quando tinha dez anos. Meu pai achou que era importante que um homem saiba cuidar de si mesmo, e de acordo com ele isso significa saber usar uma arma. Eu consigo atirar em latas o dia todo e nós dois sabemos que isso não conta nada se o alvo for algo vivo.
Ele estava certo. De novo. Estava tornando-se um hábito.
Nick finalmente encontrou sua voz. _ Justo. Mas ao menos eu sei que você consegue acertar alguma coisa se você precisar.
Perry balançou a cabeça. _ Eu não conseguiria atirar em alguém. Não mesmo.
Nick esforçou-se para ser paciente. A perspectiva de Perry não fazia sentido para Nick. _ Você não acha que se sua vida estivesse em perigo...
_ Meu pai costumava me levar para caçar com ele. Ele disse... - Perry mudou de ideia sobre contar o que ele estava lembrando. Em vez disso, ele disse: _ Eu atirei em um coelho uma vez. Ele gritou.
_ Eles gritam às vezes, - Nick admitiu.
_ Eu vomitei.
_ Olhe, francamente, eu também não me empolgo em caçar, - Nick disse. _ Há uma diferença -
_ Vou voltar para o carro. Perry afastou-se.
* * * * *
A Sra. Dembecki o cumprimentou quando eles voltavam para casa. De acordo com Perry, parecia que ela não havia penteado o cabelo há alguns dias - ou trocado as roupas.
O que acontecia com pessoas como a Sra. Dembecki uma vez que elas não consigam mais cuidar de si mesmas. Ela não parecia ter família.
Ela apertou a manga dele, dizendo ansiosa: _ Não é terrível! Essas passagens secretas passam pela casa toda. Mas seus olhos estavam brilhantes de entusiasmo e não de preocupação.
_ Você mora aqui há tanto tempo, - Perry disse. _ Você não sabia das passagens secretas?
_ Ah, não! Nenhum de nós sabia. Nem a Sra. Mac.
Bem, isso era, claramente, mentira. O Sr. Teagle já havia admitido, ainda que inadvertidamente, que sabia dos túneis.
Tiny talvez soubesse – ele rondou o Estate por anos. Certamente, as pessagens serviram para ajudar no seu misterioro desaparecimento. Não parecia que ele havia sido morto na casa. Era possível, embora não provável, que ele foi arrastado para o túnel contra sua vontade. Mas com certeza alguém viria ou ouviria alguma coisa.
Ainda, Raymond Swiss havia desaparecido nessa casa – presumivelmente contra sua vontade – e ninguém havia visto ou ouvido nada. Exceto pelo seu assassino.
E esse era o ponto. Certamente ninguém quer admitir o conhecimento prévio das passagens secretas, porque isso, automaticamente, fará dessa pessoa um suspeito nos assassinatos de Tiny e Swiss.
E o fato da preocupação do Sr Teagle. ter sido com ser pego espionando as pessoas, significava que ele não estava preocupado em ser suspeito de um assassinto porque ele não havia cometido os crimes. <
Como se estivesse lendo sua mente, a Sra. Dembecki disse: _ Os policiais descobriram que Tiny levou um tiro na passagem. Eles acham que o assassinato deve ter pensado que ele estava morto e o abandonou, e então, Tiny deve ter se arrastado até a porta que leva ao apartamento do Sr. Watson. E ele estava muito fraco para continuar.
Nick perguntou: _ Eles tem alguma pista de quem possa ter atirado nele? Eles identificaram a arma?
_ Ah! Eles procuravam por armas no quarto do pobre Sr. Teagle. A Sra. Dembecki afastou-se – assim que Perry e Nick começaram a subir as escadas - ela voltou. _ Eles o prenderam, sabe. O Sr. Teagle.
* * * * *
Eles comeram na mesa da cozinha. Emoldurada na janela acima da pia, uma meia lua enorme e laranja parecia estar se dissolvendo na noite escura.
Nick havia assado um frango para o jantar e ele o serviu com purê da batatas, molho de carne e milho. A comida estava boa - tudo o que Nick cozinhava era bom – mas Perry ficou enrolando para comer.
Ao olhar para ele, as sobrancelhas de Nick franziram. _ Coma.
Eles não haviam conversado desde que voltaram do tiro ao alvo. Nick assumiu que Perry estava emburrado, e ele não tinha intenção de atrapalhar, mas... ele sentia falta da companhia. Ele estava acostumando-se com isso, acostumando-se a ter Perry por perto. Perry olhou para cima. _ Eu não consigo quando eu estou nervoso.
Sem impressionar-se, Nick disse: _ Você está sempre nervoso. Você precisa recuperar sua energia nervosa.
Perry balançou a cabeça e mexeu um pouco na comida.
Nick suspirou. _ O que você está pensando.
Ele achou que já sabia a resposta, mas ficou surpreso quando Perry disse: _ É verdade sobre sua esposa, certo? Você foi realmente casado?
_ Sim, eu fui casado.
_ Mas você...
Nick olhou para os olhos ingênuos de Perry e disse bruscamente: _ Você está perguntando se você foi o primeiro cara com que eu já estive? Não seja burro.
Os olhos de Perry escureceram. Sua boca abriu antes dele conseguir controlar sua expressão facial. Friamente, ele disse: _ Eu não acho que você aprendeu aqueles movimentos por osmose. Eu só não sei se você se considera gay ou algo assim.
Nick quase riu do comentário sobre osmose, mas ele percebeu que se risse para Perry agora, as coisas poderiam acabar ali. E talvez fosse a coisa mais sábia a ser feita - a melhor coisa para Perry antes que isso fosse mais longe e o garoto fizesse algo bobo, como convencer a si mesmo de que estava apaixonado - mas Nick viu que não podia fazer isso.
Ele disse calmamente: _ Sim. Eu sou gay. Eu me casei quando era mais jovem do que você é hoje. Eu não achei que eu tivesse uma escolha na época.
_ E então...?
Era óbvio que Perry não sabia o que perguntar, e Nick disse um pouco mais gentilmente: _ Eu cresci. Eu aprendi que há outras escolhas e outros modos de viver.
Perry o oberservava continuamente. Nick suspirou. _ Marie – minha ex – e eu sabíamos que tínhamos cometido um erro dentro de alguns anos. Ela encontrou o jeito dela de lidar com isso e eu encontrei o meu. Eu não era sempre tão cuidadoso quanto deveria e isso resultou em – Nick respirou fundo. Isso era difícil de admitir até mesmo para si - em ser chutado da marinha.
_ Eles te deram uma dispensa desonrosa? A indignação chocante de Perry foi inesperadamente doce. Os olhos do garoto estavam brilhando de raiva – muito brilhantes – e Nick percebeu de sobresalto que, pela primeira vez em sua vida, alguém estava prestes a chorar em seu favor.
_ Ei, ei. Ele esticou-se e segurou os pulsos de Perry que estavam sobre a mesa de carvalho. _ Ouça, eu fui estúpido. Eu sabia do risco. Eu achei que valia a pena e não vou mudar de ideia agora. Ele apertou levemente a mão de Perry e a soltou. Ele estava surpreso de ver que estava sorrindo. _ Está bem. Eu estou bem.
_ É. Perry suspirou profundamente. _ Bastardos, - ele disse bravamente.
Nick riu – por causa de algo que ele pensou que nunca fosse rir. _ Coma seu jantar, Foster. Não gosto de ver meu trabalho duro indo pro lixo.
* * * * *
Depois do jantar, Nick olhou os panfletos do seu treino - que incluíam várias coisas desde cursos em pesquisa por computador até como escrever relatórios - e Perry foi até seu apartamento para pegar um caderno de desenhos. Ele sentou-se no chão do outro lado do sofá, tentando observar Nick sem ser muito óbvio.
Depois de um minuto ou dois, Nick olhou para cima. Havia um brilho em seus olhos que avisava perry que Nick havia visto o rascunho que ele tinha começado no quarto de Watson.
_ Você está desperdiçando seu talento em uma rosto como meu, - Nick o informou.
Perry disse: _ Você tem um rosto ótimo.
Nick corou e voltou a ler sem comentar nada. Perry desenhou um pouco – isso dava-lhe a desculpa de poder olhar para Nick o quanto quisesse. Era claro que Nick estava totalmente absorvido na leitura, ansioso pela Califórnia e seu novo emprego – sua nova vida.
_ Vou tomar um pouco de ar fresco, - Perry disse, colocando o caderno de lado.
Nick olhou para ele. _ Leve a Sig e fique perto da casa.
Perry levantou-se. _ Eu não acho que seja perigoso agora. Todo mundo sabe sobre os túneis.
_ Nós não sabemos por que Raymond Swiss foi morto e achamos que Tiny morreu por que falou demais. Nós podemos estar na pista errada. E mesmo que não estejamos, nenhuma das mortes tem, necessariamente, algo relacionado com o saque perdido de Shane Moran.
_ Eles estariam procurando pelo quê então? Dembecki vasculhando o gazebo e Rudy Stein procurando as histórias locais daquele período?
_ Dembecki é mais rápida que a própria sombra, e Teagle, que sabia das passagens, revelou-se interessado em outro tipo de jóias.
Perry fez uma careta. _ Não me lembre.
Nick sorriu, seu rosto era inesperadamente jovem sob a luz suave do abajur. _ Apenas dizendo.
_ É, bem, não diga.
Nick riu.
_ E o Stein? Perry perguntou. _ Ele estava procurando sobre essa área na década de trinta.
_ Isso não prova nada.
_ Podemos perguntar o que ele estava procurando, - Perry sugeriu.
Ele estava brincando, mas Nick disse, depois de pensar: _ É, podemos fazer isso.
Então, aparentemente perdendo o interesse, Nick retornou à sua leitura.
Perry desceu as escadas e andou um pouco no jardim, ficando perto da casa. A arma no bolso de sua jaqueta era pesada e estranha. Ele sentia-se ridículo carregando-a. De maneira alguma ele atiraria em alguém. Nick não entendia.
Irritado, ele olhou para a casa e viu a silhueta de Nick na janela da torre – observando-o. A irritação de Perry transformou-se em um tolo calor.
* * * * *
Quando Perry voltou, Nick estava desdobrando o lençol no sofá.
Ele olhou por cima dos ombros e disse bruscamente: _ Você pode ficar com a cama. Pode ser que eu dê uma volta mais tarde. Quando Perry abriu a boca para reclamar, ele continuou: _ Eu sou treinado para isso, certo?
Então ficou bem claro. Eles não dividiriam a cama. Essa tarde foi... bem, o que quer que tenha sido, claramente não seria algo frequente.
_ Certo, - Perry disse. _ Boa noite.
_ Noite, - Nick disse brevemente.
Perry foi até o quarto de Nick e colocou seu pijama. Ele sentou-se na ponta da cama e escutou Nick movendo-se no outro quarto. Então as luzes se apagaram.
Ele ficou sentado por mais alguns minutos e então foi para a sala.
_ Nick.
A silhueta de Nick levantou-se do sofá, uma sombra escura movendo-se sobre as outras sombras. _ O que há de errado? O peso de suas mãos repousaram nos ombros de Perry. O Coração de Perry doeu, pensando nas coisas habilidosas e prazerosas que as mãos de Nick haviam feito anteriormente.
Nunca mais?
_ Eu só... tem muito espaço na cama.
Nick estava parado, sua respiração era quente contra o rosto corado de Perry.
Ele disse, calmamente: _ Olhe, Perry, eu vou embora em uma semana. Eu não voltarei.
_ Eu sei. Perry sorriu com um esforço – ele não sabia se Nick conseguia ver seu rosto sob o luar, mas ele esperava que ele tivesse ouvido em sua voz. _ Sem afeto. Apenas sexo.
Houve uma pausa engraçada. Nick disse: _ Parece errado quando você fala assim.
Perry não disse – não podia dizer – nada.
Ele podia sentir a hesitação de Nick – mas não a relutância. Nick disse: _ Só quero que fiquemos bem.
_ Claro, - Perry assegurou.
Ainda sim, Nick não se moveu. Então ele disse devagar. _ Você está lidando com isso melhor do que eu esperava.
_ Eu gosto de dormir com você, - Perry disse. _ Não quero perder tempo conversando.
* * * * *
E eles não conversaram. Nick era lacônico por natureza e Perry era tímido – e à mercê de sensações não familiares. Eles comunicaram-se pelo toque. Não o carinho gentil e esclarecedor daquela tarde; esse era mais urgente, mais intenso, parcialmente, talvez, por que quase não aconteceu. Ainda poderia ser a última vez.
O corpo de Nick cobriu o de Perry, e ele pôde sentir as batidas rápidas do coração dele contra seu peito. Rápidas como a batida assustada de algo pequeno e gentil – um coelho ou um fauno. Mas quando ele afastou-se para ver o rosto de Perry, ele pôde ver o brilho nos olhos de Perry e a claridade dos seus dentes, ele estava sorrindo, não assustado, apenas excitado. A boca de Nick cobriu a de Perry, e os lábios dele eram quentes, suaves e acolhedores. Sua respiração era leve e rápida, e parecia repentina, estranhamente preciosa para Nick.
Uma onda de emoção inesperada aumentou seu – considerável - apetite sexual.
Ele trouxe Perry para perto, era quente e ele sentia a pele de veludo e os cabelos sedosos do peito da virilha de Perry. Perry colocou os braços em volta de Nick, segurando-o apertado, entregando-se ao beijo de Nick – Nick geralmente não beijava outros homens, mas, de alguma forma, era diferente com Perry. Ele gostava do seu gosto, ele gostava da suavidade e vontade com a qual ele respondia. Ele o afagou, gostando do toque do osso forte contra a pele fina e delicado, e Perry murmurou com aprovação.
Nick acomodou-se entre as pernas de Perry que movia-se instintivamente para acomodá-lo, e novamente, ele sentiu a ansiedade enquanto os dois se encostavam. Perry estava excitado enquanto seus corpos se moviam, a temperatura subia. O pênis de Perry estimulava a barriga de Nick e seu pênis...
Ele disse a si mesmo para ir devagar... embora Perry dificultasse, pois sua boca estava em um dos mamilos de Nick, deixando- o duro como pedra apenas usando a língua. A boca de Perry passava pela linha tensa da garganta de Nick, os músculos do seu peito. Vá devagar, Nick disse para si mesmo, porque Perry ficava na teoria e imaginação, mas a realidade era mais dolorosa.
Ele agarrou Perry e rolou na cama para que ele ficasse por cima. Ele pôde sentir a surpresa do garoto. Nick estava um pouco surpreso consigo mesmo, mas ele afagou Perry, apertou sua bunda, novamente tomando tempo. Com sua mão livre ele alcançou o lubrificante, colocando-o liberalmente naquele pequeno buraco apertado – bem apertado – tornando isso algo sensual.
A relutância inicial de Perry foi embora, e, mesmo quando Nick abriu a camisinha, não havia ansiedade, não havia segundas intenções. Eles entraram no ritmo, embalados pela vontade, o pulsar do desejo, Nick foi tão cuidadoso quanto pôde, pressionando devagar e constantemente.
Perry suspirou e gemeu, mas ele não recuou – ele pressionava o pênis de Nick – teimoso, insistente, tremendo em uma mistura de dor e vontade - e então Nick estava dentro. E ele não se mexeu, e fazer isso era uma das coisas mais difíceis que ele já havia feito. Ele segurou-se, levando o tempo necessário para se acalmar e aproveitar, até que Perry começou, um pouco estranho, mas Nick o encontrou, deixou que ele ditasse o passo, e, logo, eles estavam em um ritmo frenético, empurrando e puxando, colocando e tirando, a fricção vagarosa e deliciosa que se transformava em algo agitado e feroz até que eles rolassem para o lado sentindo puro êxtase.
Eles estavam com os corpos dormentes e tentavam respirar.
* * * * *
Deixe que a jornada comece, era o que o outdoor gasto e descascado mostrava. Um homem jovem usando um uniforme olhava esperançoso para um futuro que, certamente, já havia passado.
_ Vê, - Perry disse. Ele cutucou Nick que estudava o outdoor com um sorriso sarcástico, curvando sua boca.
_ Acho que hoje o slogan seria acelere sua vida.
_ Ah, garoto! Perry disse.
_ Ah!, - Nick concordou, maravilhado.
A manhã estava fria. O homem do tempo profetizava neve no final de semana, embora o céu estivesse azul como a superfície de um iceberg. Nick e Perry haviam acordado cedo, feito um sexo devagar e adorável, e decidido ir até a vila para descobrir o que o delegado havia encontrado.
Não que Nick esperasse muita cooperação do delegado, mas não doía perguntar – ou forçar. Com força.
Uma brisa gelada passou pela rua, balançando as luzes de Natal que estavam penduradas nas árvores da calçada e Perry começou a tossir.
_ Venha, docinho, - Nick disse. _ Vamos pegar um chocolate quente.
Eles entraram na padaria – a mesma em que, Perry havia avisado Nick, onde o Sr. Watson havia morrido – e Nick pegou um café, um chocolate e rosquinhas para Perry.
_ Voltarei em dez minutos; fique aqui porque é quente, - ele disse bruscamente, e com isso, ele se foi, sumindo pela rua com seus passos rápidos e largos.
Perry sentou-se em uma das mesas que ficava contra a parede, embaixo de um calendário de Norman Rockwell e molhou suas rosquinhas no chocolate, olhando para as lojas de Natal na rua.
Quinze minutos se passaram e não havia sinal de Nick. Não havia motivo para ficar nervoso. Provavelmente demorou mais do que ele havia esperado. Se tinha alguém que conseguia se virar, esse alguém era Nick. E Nick não esqueceria dele e voltaria para o Estate. A ansiedade de Perry persistiu.
Ele saiu da loja e olhou para as ruas lotadas.
_ Ei, amigo.
Perry virou-se. Um homem grande usando um casaco azul estava entregando um papel. À primeira vista ele pensou que fosse um panfleto, mas então percebeu que era uma foto.
_ Você já viu esse cara?
Perry encarou o rosto pontudo do homem. Algo sobre ele era familiar, mas ele não conseguia descobrir o que. Ele fitou a forografia.
A mulher na foto era jovem e tinha o rosto magro. Seus cabelos pretos faziam um penteado grande, sua maquiagem era vermelha e chocante.
_ Então? O homem exigiu. _ Viu ela por aí?
Agora Perry o reconhecia. Ele era o cliente feio do restaurante.
Perry concentrou-se na estrutura dos ossos da mulher, mentalmente apagando sua maquiagem, seu penteado... seus olhos estreitaram. Santo...!
Era Jane há seis ou sete anos. Ela parecia dura, cruel – e, ainda sim, havia algo assombrado e vulnerável em seu rosto pintado.
_ Você a conhecer, - o homem disse, observando Perry atentamente.
Perry olhou para ele, sua expressão era vazia. _ Não. Ele deu de ombros. _ Acho que não. Ela se parece com muitas pessoas.
_ Você conhece mais alguém que se pareça com ela?
Perry balançou a cabeça rapidamente. _ Quero dizer, ela não parece nada especial.
O home disse estranhamente: _ Ah, ela é algo especial. Ele colocou a foto de volta no bolso da jaqueta.
_ Você é policial? Perry questionou.
Seus olhos encontraram os de Perry, e ele sentiu uma pontada na nuca. _ É, isso. Mas mantenha segredo.
_ Claro.
Ele olhou ao seu redor e Nik estava vindo na direção deles, seu rosto sem expressão, mas seus olhos alertas. Ele pensou que aquilo era um problema?
Perry meneou a cabeça para o homem e saiu de perto. O homem continuou a observá-lo. Ele havia feito alguma coisa que mostrasse que ele havia reconhecido a foto?
Nick o alcançou, perguntando: _ Quem é o seu amigo?
Perry olhou para trás. O homem estava entrando na padaria.
_ Não acho que ele seja amigo de alguém.
Ele contou para Nick sobre a foto da jovem Jane e Nick disse _ Ele não é policial.
_ Como você sabe?
Nick balançou a cabeça. _ Eu só sei... Você acha que ele acreditou em você quando disse que não reconheceu a foto?
_ Ele pareceu acreditar. Perry olhou para trás, incomodado. _ Não parece que ele está me observando.
Nick colocou sua mão no braço de Perry. _ É, e não vamos ser pegos observando-o, ou ele vai saber que tem problemas ao meio dia.
_ Se ele não é um policial, por que ele estaria perguntando sobre a Jane?
_ Por que não perguntamos à ela? Nick disse.
Eles estavam na pickup e seguindo em direção ao Estate, quando Perry lembrou-se de perguntar: _ Você descobriu alguma coisa na delgacia?
_ Eles vão soltar Teagle. Eles confirmaram o álibi dele. Ele não poderia ter matado Swiss e, até esses idiotas conseguem ver que os dois assassinatos provavelmente estão relacionados.
Perry disse devagar: _ Talvez a Sra. Dembecki tenha pensado que Swiss fosse um ladrão e usou o atiçador de brasas nele.
_ E depois o quê? Nick perguntou. _ Atirou em Tiny quando ele tentou chantageá-la?
Tentar imaginar Tiny conseguindo chantagear alguém era ainda mais difícil do que imaginar a Sra. Dembecki atirando nele com a sua Magnum .44.
Perry deu de ombros. _ Provavelmente não. _ Mas eu acho que Jane está certa. Acho que a Sra. Dembecki está enlouquecendo.
_ É, acho que você está certo.
_ Você viu como ela estava animada com a ideia das passagens?
Nick balançou a cabeça.
_ E ela estava procurando pelo chão, pelo gazebo. Perry suspirou. _ Ela deveria estar no meu quarto por algum motivo.
Nick manteve os olhos na estrada. _ Você acha que ela está procurando pelas jóias também.
_ Eu acho, é. Se ela está ficando senil, então eu acho que deve haver outra explicação, mas...
_ Foi assim que eu pensei, - Nick concordou e Perry sentiu-se tolamente lisonjeado.
_ O que você acha que aconteceu? Shane Moran escoundeu as jóias em uma das passagens secretas e então foi morto antes de conseguir resgatá-las?
_ Sobre isso... eu não faço ideia. Nick considerou, mastigando. _ Acho que é possível. Se é verdade que ele e a esposa de Alston eram amantes, ela deve ter contado sobre as passagens. Na verdade, ele já deveria saber sobre elas – eles devem ter usado os túneis para levar as bebidas para dentro da casa. A pergunta é por que Moran guardaria as jóias? Por que ele não foi embora com elas? O que mais teria lá para ele querer voltar para pegá-las?
_ Por que ele ficou na floresta para ser morto? Perry concordou.
Seus olhos se encontraram.
_ Verity Lane? Perry sugeriu.
Nick franziu a testa. _ Você acha que ele pensou que ela tivesse mudado de ideia?
_ Talvez.
Nick sorriu. _ Então ele era bem estúpido.
_ Talvez ele a amasse muito, - Perry disse.
* * * * *
Havia uma van de um jornal local estacionada ao lado da ponte que levava ao Alston Estate. Um carro de polícia bloqueava seu acesso, mas os policiais saíram do caminho para o carro de Nick passar.
Dentro da cara, Jane estava andando para cima e para baixo no saguão.
_ Vocês viram isso? Havia uma van de um jornal local agora pouco! Eu avisei o delegado sobre eles. Ela passou suas mãos nos braços.
_ Você ainda não está se sentindo bem? Perry perguntou. Agora que ele havia pensando nisso, ele teve certeza que Jane não havia saída do Estate há mais de uma semana.
Ela retrucou: _ Esse maldito lugar está conegelando. Acho que a louca desligou a fornalha.
_ Qual louca? Perry perguntou.
Jane deu uma risada.
Os olhos de Perry encontraram os de Nick, e ele entendeu a mensagem. _ Jane..., - ele começou, estranhamente.
Quando Perry contou para Jane sobre o homem que estava na cidade mostrando a foto dela, Jane ficou cada vez mais pálida até que ele temeu que ela fosse desmaiar. Nick deve ter pensado o mesmo, porque ele a pegou pelo braço e a colocou em uma poltrona perto da lareira.
Jane colocou o rosto nas mãos. _ O quê você disse para ele? ela perguntou abafado.
Perry disse: _ Eu disse que não a reconheci.
Ela olhou para ele, fixando seus olhos verdes. _ Ele acreditou em você?
_ Eu não sei.
Nick disse: _ Mesmo que ele tenha, mais cedo ou mais tarde ele vai cruzar com alguém que a reconhecerá. Essa é uma cidadezinha.
Jane balançou a cabeça. Parecia que ela estava escutando uma voz interna. Uma voz interna que dava más notícias.
_ Quem é ele? Perry perguntou e os olhos de Jane saíram do seu caminho.
_ Não faço ideia.
_ Mas...
ELa disse cuidadosamente: _ Eu não sei quem ele é, mas sei quem o mandou.
_ Quem?
Seu rosto mudou. Finalmente ela disse, bruscamente: _ Vocês já ouviram falar no Michael Cimbelli?
_ Não, - Perry e Nick disseram ao mesmo tempo. Seus olhos se encontraram.
_ Michael é – era - o cabeça da família Martinelli, a dos crimes.
Nick não disse nada. Perry disse: _ Isso vai ser bem ruim, não vai?
Jane disse: _ Eu não sou ex mulher de bandido, se é o que você está pensando. Eu não tive nada a ver com o assassinato daquele investigador particular - ou Tiny. Isso não tem nada a ver com aquilo. Ela molhou seus lábios sem cor. _ Eu fui amante de Michael por quatro anos. Então eu... o deixei.
_ E ele não sabe lidar com a rejeição? Perry perguntou.
_ Ele não sabe, não. Mas esse não era o maior problema. Eu – ela engoliu – eu concordei em testemunhar contra Michael em troca de proteção. Eu entrei no Programa de Proteção à Testemunhas, mas os advogados de Michael conseguiram atrasar o julgamente dizendo que ele era mentalmente incapaz. E eles estagnaram o processo por três anos. Agora Michael foi declarado competente para ser julgado.
_ E os capangas dele estão procurando você? Nick terminou.
Jane balançou a cabeça.
_ As pessoas do programa de proteção não tem como mudá-la de lugar? Perry perguntou.
_ Eles mudariam, - Jane disse. _ Mas eles não sabem onde eu estou e eu não quero que eles saibam.
_ Por quê?
_ Porque eu saí do programa. Eu não queria viver minha vida como um animal em uma jaula, - ela disse apaixonadamente. _ E por causa de David.
_ David?
_ Center, - Nick completou.
_ Eu sei quem é, - Perry disse. _ Eu só não... David?
_ Ei, - Jane disse com uma chama. _ Você não está em posição de falar. Você esteve prestes a apaixonar-se por um cara na Internet chamado Marcel. Pelo menos eu realmente conheço David.
Antes que Perry pudesse responder, Nick disse: _ Eles não mudam esposas e amantes no programa?
Porque, deixando de lado o mal gosto para homens, esse era o ponto crucial do problema. Se Jane voltasse ao programa, ela jamais veria David Center novamente – que, em vez de ser um alívio, seria trágico o suficiente pare ela considerar arriscar sua vida.
Jane mordeu os lábios e meneu a cabeça. _ Eles movem, mas David e eu não estamos nesse ponto do relacionamento. Nós precisamos de mais tempo.
_ Você não tem mais tempo, - Nick disse brevemente.
Perry e Jane o encaravam.
Nick disse: _ Você não pode ficar dentro dessa casa indefinidamente, e mesmo que pudesse, mais cedo ou mais tarde alguém na cidade vai reconhecê-la.
_ Ou, - Perry disse de repente, - sua foto vai parar na Internet.
_ Preciso pensar, - Jane disse, levantando-se.
_ Não há nada a ser pensado, - Nick disse. _ Isso é sobrevivência.
Jane não respondeu. Ela voltou para seu apartamento e fechou a porta atrás dela.
_ O que faremos? Perry perguntou a Nick.
_ Nada, - Nick disse. _ Isso é escolha dela.
_ Mas...
Nick já havia começado a subir as escadas.
_ Deve ter algum jeito de ajudá-la, - Perry estava dizendo quando eles chegaram no quarto de Nick. Eles podiam ouvir o telefone tocando do lado de dentro.
Nick destrancou a porta. _ Ela é adulta. Ela pode fazer as próprias escolhas. Fique fora disso.
Ele abriu a porta e atendeu o telefone, Perry ouviu a conversa enquanto ele olhava pela janela, vendo as árvores e as nuvens movendo-se do norte.
_ Apenas ajeitando as coisas por aqui, - Nick disse depois do cumprimento inicial. Aquele era o Roscoe – o ex amigo da SEAL que tinha a empresa de investigação particular na Califórnia.
Perry ouviu o silêncio de Nick e então ele disse devagar: _ Mais uma semana , mas eu posso me apressar se for necessário.
Perry fechou os olhos. Quando ele os abriu, ele pôde ver o pequeno círculo da sua respiração na janela.
* * * * *
Era um dia estranho.
O Sr. Teagle chegou em casa e foi direto aos seus aposentos, trancando-se. Os policiais retornaram e interrogaram a todos novamente, e Perry passou por todos os passos desde que chegou em casa de São Francisco, até encontrar o cadáver em sua banheira.
_ Eles estão tentando fazer um cronograma, - Nick disse. _ Eles sabem que Swiss morrei na sexta à tarde – o que deixa você e Teagle fora, mas deixa todos os outros como suspeitos.
_ Se Swiss era um investigador particular, o que ele estava investigando?
Nick disse: _ Aparentemente, até sua secretária não sabia. Ela estava de férias quando ele aceitou esse trabalho. Mas aí está... - A expressão de Nick era cautelosa, embora ele soubesse que Perry não iria gostar do que ele estava prestes a contar.
_ O que?
_ Swiss, aparentemente, tinha laços com a máfia.
Perry encarou, tentando entender. Então ele disse, indignado: _ Não é possível que Jane tenha matado aquele cara. E depois? Ela matou Tiny para manter seu segredo? Não deve ser, Nick!
_ Só estou te dizendo -
_ Quem disse que ele tinha laços com a máfia?
_ Roscoe. E ao ver a expressão de Perry, Nick explicou: _ Eu perguntei se ele poderia verificar algumas coisas para nós.
Nós? Não havia nós. Nick queria resolver isso o mais rápido possível para que ele pudesse partir para a Califórnia e não ter de pensar em Perry e nesse lugar novamente.
_ Eu não me importo com o que o idiota do Roscoe acha, Jane não matou ninguém!
As sobrancelhas escuras de Nick levantaram. _ De onde está vindo isso? Roscoe não sabe nada sobre isso. Ele só verificou um nome porque eu pedi.
_ Você compartilhou a informação com o delegado?
Nick encontrou os olhos de Perry, fixos. _ Não, não compartilhei. Mas se você acha que eles não vão descobrir isso rapidamente, sua cabeça está tão enterrada na areia quanto a de Bridger. Mais pacientemente, ele disse: _ Vamos lá, Perry. Você viu como ela estava assustada hoje. Se alguém veio atrás dela, é possível que ela tenha ficado em pânico. Você ouviu o que ela disse sobre acidentalmente matar alguém e não ser capaz de se entregar.
_ Ela não estava falando de si mesma.
_ Você não sabe.
_ E as safiras de Alston? O que aconteceu com aquela teoria? Nós não falamos com o Sr. Stein.
_ Tenho certeza de que os policiais falaram, mesmo que não tenham perguntado sobre as safiras. Além disso, qual outro motivo ele teria para matar um detetive de Nova Jérsei?
_ De acordo com você, motivo não importa muito. É tudo sobre os meios e oportunidade. Isso que você disse antes. E mesmo que ela soubesse sobre a passagem secreta – que eu não acredito – Jane não conseguiria arrastar o Swiss para lugar algum. Ou Tiny. E o mesmo vale para a Sra. Dembecki. O que deixa David Center, Sr. Stein e você.
Nick interrompeu sua resposta imediata e irritada. Ele realmente não queria discutir com Perry sobre isso. Eles tinham pouco tempo juntos. Ele disse: _ O delegado está satisfeito por Center não fingir ser cego. O que não significa que ele não poderia oferecer os músculos caso Bridger precisasse de ajudar para carregar um corpo.
_ Se fosse assim, eu acho que Jane não estaria preocupada com sua saída daqui, - Perry disse bruscamente.
Nick achou que ele tivesse um ponto. O que também trazia o fato de que se Bridger tivesse matado duas pessoas, ela não teria chamado seus amigos da Proteção de Testemunhas para tirá-la de lá para que ela não precisasse lidar com a investigação?
Ele disse: _ Só por que o motivo não é a única coisa que os policiais consideram, não significa que isso não afete o quadro todo. Eu nunca disse isso.
Perry levantou as sobrancelhas com um ceticismo arrogante – uma expressão que não combinava com seus traços afinados. Em vez de Nick ficar aborrecido, ele quis rir, agarrar o garoto e mandar embora seu mal humor do melhor jeito possível.
Ele controlou-se e disse: _ Acho que, talvez nesse caso, motivo seja um fator, e eu acho que o motivo de alguns capangas procurando por safiras perdidas é meio forçado.
_ Você acha que um milhão de dólares é um motivo forçado?
_ Eu acho que essas jóias provavelmente estão jogadas pela floresta. Eu acho que não quero perder tempo discutindo com você.
Essa escapou. Os olhos de Perry encontraram os de Nick, e as linhas tensas de seu rosto, relaxaram.
_ Venha cá, - Nick disse suavemente. _ Eu quero compartilhar uma outra teoria com você...
* * * * *
Outro evento notório do dia foi a Sra. Dembecki quase ter morrido quando um policial, explorando as passagens, abriu uma porta que, inesperadamente, dava na grande escadaria e quase derrubou-a escada abaixo. Felizmente, a Sra. Dembecki foi ágil o suficiente para escapar sem arranhões.
Ela correu para baixo, trancou-se em seus aposentos e recusou-se a responder as perguntas pela porta, alegando sua saúde.
_ O que ela queria fazer ao subir as escadas? Nick perguntou.
_ Eu acho que ela estava tentando entrar no meu quarto de novo, - Perry disse, infeliz. _ Estou dizendo, ela acha que as jóias estão em algum lugar dessa casa.
_ Eu acho que você está dando muito crédito à ela, - Nick disse. _ Eu acho que ela é louca.
Esse parecia ser o consenso da casa. Mas a única pessoa com uma sugestão sobre o que fazer era o Sr. Stein, que disse que a Sra. Mac deveria ligar para o hospício com rapidez.
Na hora do jantar os policiais já haviam saído, e o resto da casa parecia confortavelmente trancado para passar a noite. Nick fez carne assada e comentou que teria de fazer compras em breve – e então ficou estranhamente quieto.
Nick não precisaria reabastecer seus armários. Ele iria embora logo e deveria estar arrumando as malas agora. Claro, ele poderia guardar algumas coisas na esperança de que Perry lembre-se de comer alguma coisa.
Perry não comia muito até agora, mas ele estava animado por causa de uma exposição de arte que ele queria ver em Burlington, e, para sua surpresa, Nick ouviu-se dizendo: _ Se eu ainda estiver aqui, vou com você.
Perry verificou e deu um sorriso encantador para Nick. _ É no mês que vem. Mas é, seria divertido.
Nenhum dos dois falou por um tempo, e a cozinha estava silenciosa exceto pelo barulho dos garfos raspando na porcelana. Nick disse de repente, bruscamente: _ Por que você não liga pros seus pais?
Perry piscou. _ Por quê?
_ Porque você não pode - , Nick parou. O que ele estava fazendo? Mas ele não podia se segurar. _ Porque é uma boa hora para ligar. É quase Natal. Eles provavelmente querem notícias sobre você.
Eles teriam de ser muito frios para tirar Perry de seus corações – e Perry não era o produto de pessoas frias. Ele foi abrigado, protegido e adorado por toda a vida. Mamãe e Papai Foster deveriam estar preocupados com ele. E sozinhos. Ele cativava, isso era certo.
Perry disse friamente: _ Eles sabem onde me encontrar. Se eles quisessem falar comigo, entrariam em contato. Depende deles fazer o primeiro movimento. Não vou pedir desculpas por ser gay.
Não dá para fazer isso sozinho.
Por um segundo horroroso, Nick pensou que ele havia dito as palavras traidoras em voz alta. Não era nem verdade. Perry estava sobrevivendo. Ele estava relativamente saudável, ele tinha um trabalho, um lugar para ficar. Ele estava pintando; ele iria se virar. Não seria fácil, e isso acabaria com sua doçura, inocência e otimismo, mas ele não era covarde.
Nick era o único que estava com medo. E qual sentido isso fazia? Ele fechou a boca para não dizer coisas as quais ele se arrependeria, acenando com a cabeça e terminando de comer enquanto Perry – com o humor sensível – falava sobre arte e pinturas e uma artista local chamada Anna Vreman. Tudo, exceto assassinato, safiras e pessoas loucas.
* * * * *
Sem combinar, os dois deitaram cedo naquela noite, e era tão bom quanto tinha sido até então - mas agora as coisas estavam ficando perigosamente, sedutivamente familiares.
E era seguro ser afetuoso na escuridão - ser gentil um com o outro no doce silêncio. Não pedir nada e dar tudo, carinhos e beijos, toques e gostos até que o querer, a necessidade transbordasse novamente, e eles moviam-se freneticamente, unidos, a respiração forte, os gemidos baixos e suspiros, o sussuro que aumentava até atingir um crescendo - a voz na garganta de Perry que tornava-se um soluço, Nick gritava quando alcançava o prazer.
_ Eu nunca tive a oportunidade de ver a Califórnia, - Perry disse enquanto eles estavam confortavelmente deitados. _ Como é lá?
Nick deu de ombros. _ Quente. Ensolarado. Ele quase abriu a boca e cometeu o erro fatal ao dizer: _ Faria bem para você. Ele parou a tempo, mas o pensamento continuou. Em vez disso, ele disse: _ Caro.
Perry balançou a cabeça. _ Você acha que vai voltar aqui alguma vez?
_ Nessa casa? Ele estava adiando e ficou surpreso ao notar que estava fazendo isso. Desde quando ele se segurava tanto? Ele não voltaria. Jamais. Ele mal podia esperar para deixar esse lugar. Pelo menos... ele havia decidido isso há alguns dias. Agora...
Agora era mais difícil.
Mais difícil do que deveria ser.
Perry disse friamente: _ Para Vermont, eu quis dizer. Algum lugar em que eu possa te ver.
Ele abriu a bora e Perry disse calmamente: _ Digo, casualmente, claro. Apenas amigos. Eu sei como é.
E aquela aceitação fez o peito de Nick doer, como se ele tivesse caído no gelo. Era difícil respirar e ele sentiu frio em seu coração.
Ele disse bruscamente: _ Eu não sei.
Alguns minutos depois ele notou que Perry dormia por causa de sua respiração. Nick beijou sua testa e Perry murmurou com prazer. Nick beijou seus olhos e suas orelhas, e encontrou sua boca e, antes que visse, Perry estava acordado de novo e eles moviam seus corpos.
Ele arrancou a calça do pijama com o sentimento desconfortáve de ser um papa anjo, mas Perry não era um bebê e ele queria isso tanto quanto Nick – e, mais cedo ou mais tarde, ele teria de perceber que os finais felizes ficavam para os filmes. A vida real não terminava daquele jeito. Havia um preço para tudo e o preço para isso é que seria mais difícil para ambos quando Nick partisse – mas, no momento, o preço parecia valer a pena.
* * * * *
Perry acordou e viu-se sozinho. Os lençóis estavam frios onde Nick havia deitado.
É assim que seria todos os dias depois de Nick fosse embora.
Ele levantou-se, colocou as calças e foi para o quarto da frente. Não havia sinal de Nick. Nenhum recado. Ele suspirou. Não valia esperar que Nick mudasse.
Decidiu ir para o outro lado, para seu apartamento para pegar uma troca de roupas, ele deixou um recado caso Nick voltasse e Perry não estivesse lá.
A casa estava silenciosa. Era uma sensação estranha e vazia. Ele olhou pela escada. Nenhuma criatura se movia. Nem mesmo a Sra. Dembecki.
Impulsivamente, ele desceu até o porão para pegar algumas caixas. Nick havia sugerido que ele colocasse suas coisas no apartamento de Nick, pois ele se mudaria para a Califórnia.
O sentimento de ser a única pessoa viva na casa persistia. Ele nunca havia sentido isso. Abandonado.
Imaginando se os policiais ainda estavam parados do outro lado da ponte, ele abriu a porta. Não havia sinal do carro do delegado. Nem sinal da van do jornal.
Uma brisa que pressentia a neve que se aproximava, levantou a cortina da porta e fez com que o lustre balançasse; pareciam pingentes de gelo caindo. Ele contemplou os globos antigos e os prismas coloridos.
Uma ideia logo apareceu.
Olhando ao seu redor, ele viu, ainda esticando-se sobre a escadaria, a escada que Tiny havia usado para consertas as janelas do saguão.
Ele pegou a escada e subiu. O lustre era de 1920. Era um esquema complicado de tons de vidro cor de âmbar e prismas individuais de cristais azuis, dourados e vermelhos todos primorosamente em torno da peça de vidro central.
Perry examinou a peça do centro. Por baixo da sujeira de décadas e formas pintadas à mão usando flores da art nouveau, apareceram mais pedaços de vidro e cristal. Seu coração começou a bater mais forte, agitado.
Era possível.
Como outras luminárias da casa, o lustre não funcionava mais. Em vez de reconectar as luzes antigas e belas, luzes baratas foram colocadas no lugar por todos os corredores e quartos.
Perry olhou por cima para ver se havia alguma forma de desmontar a peça central sem ter de tirar o lustre de lá. Se o que ele suspeitava fosse verdade, teria de ser.
A escada tremeu repentinamente. Ele pensou que havia se mexido demais, mas quando olhou para baixo, viu alguém com as mãos na escada.
Ele segurou-se no único suporte – que era o lustre que balançava. Ele foi arrancado do teto com um barulho horrendo.
Então ele começou a cair. O chão de madeira veio encontrá-lo.