O Fantasma Usava Meias Amarelas
Capítulo Sete
N ick jogou fora o resto do seu Seven and Seven e entregou o copo plástico para a comissária de bordo enquanto ela passava pelo corredor, com uma sacola nas mãos. Ela sorriu para ele, e Nick deu um sorriso largo e insignificante em retorno.
Eu devo estar louco, ele pensou, olhando para o céu negro como ardósia, pela janela quadrada e pequena.
Roscoe queria que ele ficasse e comemorasse – e, finalmente, ele tinha algo para comemorar. Depois de Marie, depois da sua dispensa, depois da monotonia de uma vida sem emprego, finalmente havia algo para ser celebrado.
E o que Nick fez? Ele pegou o primeiro voo para Vermont - que ele odiava e mal podia esperar para sair de lá para sempre. Qual era o problema dele?
Mas ele continuava pensando em Foster. Perry. Havia algo de errado no Estate, e aquele garoto frágil não estava preparado para lidar com isso. Não que fosse problema de Nick – embora agora ele estivesse oficialmente no serviço de investigador particular. Bem, em breve. Depois que terminasse seu treino.
À sua volta, no avião lotado, os passageiros preparavam-se para dormir ou ler. Nick esticou suas pernas longas o máximo possível, passando embaixo do assento da frente - que não era muito longe. Ele gostaria de levantar-se e andar, mas havia uma mulher com um bebê no assento do corredor, e ele preferia açoitamento mútuo ao risco de acordar o bebê que tinha gritos estridentes. Era incrível o poder do pulmão em algo tão pequeno.
Ele acomodou-se em seu assento, tentando ficar mais confortável, e olhou para seu relógio. Mais duas horas até a aterrissagem. Ele teria de passar mais uma hora para pegar as malas e encontrar seu carro, e depois mais uma hora até o Kingdom. Ele suspirou e fechou os olhos. Devo tentar descansar. Já seria mais de meia noite até chegar no hotel assombrado.
* * * * *
Havia um caminhão de bombeiros parado do lado de fora da mansão Alston quando Nick chegou. Os carros do departamento do xerife estavam pelo estacionamento e pela grama. As luzes azuis e vermelhas cortavam a noite enevoada como se fossem lasers. Uma ambulância estava estacionada a alguns metros da porta de entrada.
Nick saiu de sua pickup, ajeitando-se em sua jaqueta de couro. O mal-estar que o rodeava desde que ele saiu do Estate, voltava com toda a força.
Ele andou rapidamente pela grama molhada. Um policial tentou pará-lo. Nick passou, dizendo uma única palavra de explicação. Seu coração batia de forma desagradável; um arrepio premonitório passou por sua coluna.
No saguão frio, os moradores estavam todos reunidos em seus pijamas - aquela coleção multicolorida de pijamas e camisolas, as quais as pessoas sempre vestem para um desastre.
_ O que aconteceu? ele exigiu.
A Sra. MacQueen , que mais parecia com James Cagney em seu roupão de lã grossa e chinelos masculinos, balançou a cabeça.
Ele olhou para os outros. Stein estava mastigando o interior de sua bochecha, nervoso. Teagle estava sentado em uma poltrona ao lado da lareira apagada, sua cabeça balançava, suas mãos grandes e brancas embaixo das sardas. O cadáver ambulante, David Center, estava ao lad de Bridger, sua mão magra repousava na manda esmeralda do quimono verde dela. Bridger parecia estóica, mas Nick a conhecia. O céu poderia estar caindo; ela não se abalaria.
Paramédicos apareceram no segundo andar, com uma maca. A pessoa na maca estava coberta.
Sra. Dembecki sussurou: _ Perry.
O mundou pareceu parar.
Nick precisou limpar a garganta para falar. Sua voz era rouca e engraçada. _ Perry está morto?
Então sua intuição estava certa. Problema. Muito problema.
Jane Bridger quebrou o silêncio. _ Perry não está morto! O que você está dizendo, Sra. Dembecki? Aquele é o Tiny. Perry encontrou Tiny morto no guarda-roupas de Watson.
_ Tiny? A Sra. Dembecki murmurou perplexa. Ela olhou para o círculo de rostos que a observavam. _ Mas então...?
A maca e os paramédicos tomavam cuidado ao descer a escada estreita, batendo contra o corrimão. A carcassa pesada de Tiny não era fácil de carregar.
_ Onde está Perry? Nick perguntou a Jane.
Ela tirou seu olhar da visão cruel na escada. _ Lá em cima, sendo interrogado, eu acho.
Nick esperou até que os paramédicos chegassem até o final da escada, e então subiu correndo, dois degraus de cada vez.
Um policial o parou do lado de fora do apartamento de Watson. Pela porta aberta ele pôde ver Perry conversando com um homem mais velho, de uniforme. O xerife? Perry estava sentado no sofá. Ele usava jeans e uma camisa de pijama listrada, seu cabelo pálido bagunçado pela cama. Ele falava com uma voz tão baixa, que Nick não conseguia escutar o que era dito. Ele pôde ver que o garoto segurava a bombinha.
_ Ouça, você precisará descer com os outros, - o policial disse.
Nick pensou nisso, enquanto o policial o encorajava. Não parecia ter nada a ganhar se ele ficasse -Perry parecia abalado, mas não estava machucado, e ele duvidava que a polícia local fosse tão burra a ponto de considerá-lo um suspeito de homicídio.
Nick voltou para o térreo com os outros.
_ O que raios está acontecendo lá em cima? MacQueen perguntou, encolhida na cadeira do outro lado da lareira. _ Cale a boca! Ela gritou de repente.
Havia um silêncio abismado, e então, do fim do corredor veio o som dos cachorros choramingando e arranhando a porta fechada do apartamento.
_ Eles ainda estão interrogando Perry? Jane Bridger perguntou depois de uma pausa educada de alguns segundos.
_ Parece que sim.
_ Não faz sentido, - David Center disse preocupado. _ Os espíritos não fariam mal a uma alma simples como a de Tiny.
Falando em almas simples. Nick o olhava friamente. Center usava um robe incrível com estampa paisley, azul e roxo, o que provava, na opinião de Nick, que ele era mesmo cego.
Bridger afagou a mão de Center como se o reafirmasse.
_ Bem, vou voltar para a cama, - a Sra. MacQueen anunciou, colocando-se de pé.
Stein riu. _ Boa sorte.
_ Senhora, o xerife vai querer questionar todos na casa, - disse o policial parado na porta de entrada.
_ Então ele pode me acordar! Sra. MacQueen saiu, e o policial olhou à sua volta sem esperanças, antes de seguí-la pelo corredor.
Perry apareceu no topo da escada. _ Eles querem você, Janie, - ele disse, sem emoções.
_ Eu? Por que eu sou a próxima? Bridger protestou, e foi a vez de Center de acalmá-la com sussurros e afagos.
_ Eles querem falar com todos, - Stein disse, Dembecki começou a limpar a garganta, ansiosa.
Murmurando em voz baixa, Jane subiu as escadas, com sua camisola de seda insinuando-a, passando Perry enquanto ele descia.
Nick ficou sem jeito com o turbulência de seu coração enquanto os olhos pesados de Perry encontraram-se com os dele. Apenas alívio pelo garoto estar bem, ele disse a si mesmo. Ele sentiria-se muito culpado caso algo acontecesse com Foster durante sua ausência.
Perry foi até o lado dele. _ Você voltou. Ele cumprimentou Nick, pálido, e conseguiu dar um sorriso torto.
Nick balançou a cabeça rapidamente. _ Como você está?
_ Bem. Ele usou o olhar inoncente em Nick. _ Eles disseram que eu posso voltar para o meu apartamento. Meu apartamento. Eles vão vender o apartamento de Watson. Engoliu seco.
_ Você pode ficar comigo, - Nick disse. Perry parecia esforçar-se para manter sua expressão firme, mas a gratidãoo ardente estava na cara, e se eles estivessem sozinhos, Nick provavelmente teria feito algo imprudente, como colocar um braço sobre os os ombros magros.
O policial voltou. _ Aquela mulher está louca, - ele anunciou.
_ Sem argumentos, - Stein disse, e Teagle mostrou sua preocupação fazendo um barulho de desaprovação.
Dembecki limpou ainda mais a garganta. Nick não ficaria surpreso se a visse alçar voo para fora desse ninho de doidos.
Para o policial, ele disse: _ Estive fora por quarenta e oito horas. Sou um suspeito ou posso ir para a cama?
_ O xerife quer falar com todos que moram aqui.
Nick deu suas chaves à Perry. _ Vá descansar.
Sem dizer uma palavra, Perry pegou as chaves e desapareceu na escada.
Nick o viu partir – um pequeno traseiro apertado e as calças longas e joviais – até que Perry sumiu na curva da escada.
Ele enconstou-se na parede para esperar, discretamente observando os outros. Jane Bridger desceu com o humor pior do que quando ela havia subido. David Center era o próximo. Bridger voluntariou-se para ajudá-lo, mas ele recusou bruscamente.
Bridger retornou ofendida para seus aposentos.
Um pouco depois, o nome de Nick foi chamado.
Ele encontrou o xerife no quarto de Watson. O xerife Butler era um home baixo e magro, com um bigode grisalho e olhos verdes penetrantes. Nick achou que ele tivesse entre cinquenta e cinco e sessenta e cinto anos; ele era do tipo que envelhecia bem.
_ Ex-marinheiro da SEAL, hã? É um papel difícil.
Os olhos de Nick estreitaram. Isso poderia tomar qualquer rumo. Algumas pessoas admiravam a dedicação e disciplina requeridas para ser um SEAL. Outros tinham medo disso e tentavam provar o contrário.
Indicando que Nick deveria sentar-se, Butler coontinuou, perguntando seu nome, idade, profissão, detalhes do voo e o motivo da sua viagem recente, antes de ir direto ao assunto.
_ Então, se eu bem o entendi, Sr. Reno, você esteve fora da cidade desde, - ele não precisou olhar as anotações - domingo, dia oito.
Nick disse, seco: _ Você entendeu perfeitamente.
_ Quando foi a última vez que você viu Jasper Bryant?
_ Quem?
_ O zelador. Tiny.
_ Domingo de manhã. Ele deixou que Perry Foster e eu entrássemos nesse quarto.
_ E?
_ E o quê? Ele tirou alguns peixes mortos do aquário e depois saiu. Desde então não o vi mais.
_ Para onde ele foi quando saiu desse apartamento?
Nick disse bruscamente: _ Você deve estar me confundindo com o médium do quarto ao lado. Ele olhou para as anotações do xerife – Butler escrevia com letras pequenas e pretas que poderiam ter sido impressas por uma máquina. _ Não tenho ideia do que ele fez quando saiu daqui. Eu acredito que ele não tenha morrido de causas naturais.
_ Ele foi morto a tiros.
Nick pensou no pistola de calibre .45 que estava presa - com esperança, ainda presa - na parede do balcão, emabaixo da pia da cozinha. _ Ele não foi morto a tiros nesse apartamento, disso eu sei. Ele com certeza não estava no armário quando eu saí daqui.
_ Você tem certeza disso?
_ Sim, tenho. Eu ajudei o garoto a carregar algumas coisas para esse quarto. Ele pendurou algumas camisetas no guarda-roupas. Eu o vi. Não havia nada naquele armário, além de roupas, sapatos e quadrinhos.
_ Como você sabia que o falecido foi encontrado no guarda-roupas?
_ Bridger mencionou. Os olhos de Nick encontraram o brilho dos olhos do xerife. Ele disse, seco: _ Você não acha mesmo que aquele garoto tenha passado a noite nesse quarto sabendo do cadáver no armário.
Os lábios finos do xerife franziram, mostrando algo que parecia humor negro. _ Não parece provável.
Nick estava quieto, pensando nos comentários de Tiny sobre o fantasma com meias amarelas -pensando nas chaves perdidas. O xerife o observava cuidadosamente.
_ Você tem uma teoria? Ele perguntou.
Nick disse: _ Tenho certeza de que Foster contou sobre o corpo que ele achou na banheira.
_ Nós todos ouvimos falar do cadáver na banheira, - o xerife disse, com um sorriso.
_ Talvez agora você acredite nisso.
Butler fez uma careta. _ Não vejo uma conexão automática entre esse homicídio e a história do garoto.
_ Talvez não, - Nick disse. _ Mas sua vítima falava sobre o fantasma com meias amarelas, assim que alguém decidiu matá-lo.
O xerife o inspecionou com os olhos brilhantes. _ Não me diga, - ele disse, finalmente.
_ O garoto deve ter falado sobre isso.
O xerife suspirou. _ É< ele disse algo parecido e contou uma história distorcida sobre umas chaves perdidas. Mas eu não sei o quão confiável ele é. Ele levantou as sobrancelhas. _ Ele é meio avoado, se é que você me entende.
_ Você só pode estar brincando, - Nick disse, pausadamente. _ O que eu notei é que ele tem um bom olho para detalhes. Ele é um pintor. Ele nota as coisas.
_ talvez, - o xerife Butler disse, não convencido. _ O que importa é que quem está morto é o zelador. Ainda não há sinal desse cadáver da banheira.
Quando Nick não respondeu, o xerife adicionou: _ Obrigado, Reno. Se tivermos mais perguntas, entraremos em contato. Enquanto isso, faça um favor e não saia da cidade sem que saibamos.
* * * * *
Perry estava caído no sofá, quando Nick abriu a porta do apartamento, mas ele levantou-se, cabelo bagunçado, olhos entreabertos.
_ Nick?
_ Está esperando por outra pessoa?
Perry deu um leve sorriso e esfregou os olhos. _ Não pensei que eles fossem te segurar por tanto tempo.
Nick foi em direção à cozinha. _ Quer algo para beber?
_ Ah. Eu já escovei os dentes...
Nick revirou os olhos e pegou uma cerveja na geladeira. Ele olhava da cozinha, bebendo, quando o reflexo de Perry apareceu na janela escura - um fantasma um pouco amarrotado atrás dele.
_ Estou feliz por você ter voltado, - Perry disse. _ E não apenas por que eu prefiro dormir no gazebo do que no meu quarto.
Nick balançou a cabeça na direção da geladeira. _ Sirva-se.
Perry foi descalço até a cozinha – e Nick resistiu a tentação de dizer para ele colocar meias. Ele nunca foi do tipo paternal, mas... alguém precisava cuidar desse garoto. Novamente ele pensava o que teria dado errado com o amigo em São Francisco.
Perry pegou uma cerveja, achou o abridor e tirou a tampa. Ele observou o desenho da tampa, franzindo a testa, e então tomou um gole.
_ Então, o que aconteceu? Nick perguntou. _ Você achou Tiny no armário do Watson?
_ É isso mesmo. Eu ouvi um barulho estranho. E então uma pancada. Eu abri o armário e ele... caiu.
Nick olhou para ele. Os dedos na tampa da garrafa eram brancos, seus olhos focavam no que ele tinha visto no armário do Watson. Abrir o guarda-roupas deve ter exigido muita coragem. Conta a própria vontade, Nick estava impressionado. Claro que a coisa mais sensata seria correr para pedir ajuda.
Não que haja lugares para pedir ajuda nesse hospício.
_ Nós dois o vimos sair do apartamento no domingo, - Nick disse. _ E você trocou as fechaduras para que ele não pudesse voltar.
_ De alguma forma, ele voltou. Nós o vimos sair, mas ninguém o viu depois disso, lembra? Jane estava procurando por ele. Ele nunca desceu.
Nick engoliu a cerveja, pensando nisso.
_ Mas não havia ninguém lá na noite passada, - Perry disse – por que eu olhei o armário. Digo, a porta estava aberta, então eu a fechei - mas antes de fechá-la eu olhei para dentro.
Por quê?
Cores delicadas apareceram no rosto de Perry. _ Ah, você sabe, - ele disse, vago.
E Nick sabia. Perry retrucou com um sorriso. Felizmente, Foster não assistia a muitos filmes de terror. _ Então ele desapareceu no domingo de manhã e reapareceu, morto, no armário do Watson na terça à noite?
_ Certo.
_ Então alguém o matou e, de alguma forma – por algum motivo desconhecido - arrastou o corpo dele para o quarto de Watson.
Perry disse: _ Ele não estava morto.
O olhar de Nick foi aguçado. _ O que você quer dizer com “ele não estava morto”?
_ Quando eu o encontrei ele ainda estava vivo, - Perry disse, inseguro. _ Ele... morreu enquanto esperava pela ambulância.
Nick deixou de lado o desejo inapropriadoo de ofecer conforto, e focou-se nos fatos. _ Ele disse algo? Ele disse quem o matou?
Perry balançou a cabeça. _ Ele disse “somos os mocinhos".
_ Nós somos os mocinhos? Você e eu? Ou ele e outra pessoa?
_ Ele não especificou.
_ Mas o que isso quer dizer?
Perry deu de ombros.
_ Parece uma fala de um filme ruim.
Perry deu uma risada cansada. _ Eu sei. Mas isso é o que ele disse. Pelo menos é a única coisa que eu pude entender. Ele disse outra coisa, mas eu não consegui entender as palavras.
_ Nenhuma? _ Parecia com o que?
Perry fez um som violento de algo borbulhando, e Nick quase engasgou-se com a cerveja. _ Você está tirando uma com a minha cara.
Perry deu um sorriso engraçado, mas disse sério: _ Não pareciam palavras. Eram apenas... sons de alguém morrendo.
_ É. Bem... - mais uma vez Nick teve vontade de oferecer conforto. Se ele não soubesse que seria um erro fatal encorajar o garoto, ele teria...
Mas seria um erro – então ele não o fez.
Foster esfregou os olhos com os pulsos. _ Eu estou morto. Não durmo há duas noites.
Nick ouviu as palavras, mas sem escutar. Ele disse devagar: _ O que eu não entendo é como alguém colocou o corpo de Tiny dentro do armário, mesmo com as fechaduras trocadas.
_ Talvez exista uma passagem secreta, - Perry adicionou.
_ É, certo. Mas quando Nick pensou nisso, suas sobrancelhas juntaram-se. _ Isso é possível?
_ Eu não sei. Nunca ouvi falar de passagens secretas. Perry bocejou, tardiamente cobrindo os dentes e as amígdalas saudáveis.
_ Há alguma planta da casa em algum lugar?
Perry piscou, como se a pergunta não tivesse sido computada.
_ Vá para a cama, - Nick aconselhou. _ Você parece prestes a cair de sono.
Perry disse: _ Boa noite, então, - e cambaleou até o sofá.
Ele estava quase dormindo quando um pensamento ocorreu. Ele levantou-se com os cotovelos e disse: _ Como foi a entrevista?
_ Ótima, - Nick disse. _ Consegui o emprego.
_ Uau, isso é mesmo ótimo, - Perry disse e enterrou seu rosto no travesseiro.
Nick terminou a cerveja, jogou a garrafa fora e foi para a cama.
* * * * *
Perry acordou e olhou para as gotas de chuva que batiam no telhado. Mais um dia no Paraíso, como seu pai costumava dizer.
Ele esticou-se e os lençóis levantaram-se, deixando seus pés descalços expostos ao frio. Tremendo, ele encolheu-se novamente. Nick mantinha o termostato muito baixo; Perry sentia frio e estava dolorido depois de uma noite no sofá.
Na verdade, ele não conseguia lembrar da última vez que teve uma boa noite de sono. Antes de Frisco. Antes de Marcel tornar-se apenas uma parte de sua imaginação.
Ao levantar-se, encontrou uma panela no balcão de Nick, encheu-a de água e a deixou esquentando no fogão, entquanto ele corria para seu próprio apartamento para trocar de roupas e pegar uma lata de chocolate quente.
Ao olhar por cima do corrimão, viu o xerife subindo as escadas. Ele o reconheceu como sendo um dos dois que haviam aparecido na noite que ele descobriu o cadáver na banheira. Esse era o homem mais novo. "Abe”, era como o mais velho o chamava.
_ Bom dia, - o policial Abe disse laconicamente. Sua expressão indicava que ele lembrava bem de Perry – e estava igualmente pouco impressionado.
_ Bom dia,, - Perry retrucou, recuando. Ele tinha uma ideia vaga de ter tirado algumas coisas do apartamento de Watson, mas isso teria de esperar.
Ao entrar em seu próprio apartamento, usou seu medidor de fluxo de pico e anotou os resultados na tabela de asma pendurada na geladeira - feliz em ver que, apesar do estresse e da tensão da semana passada, ele ainda estava na zona verde e segura - pegou roupas limpas e a lata de chocolate da Nestlé, e voltou para o apartamento de Nick.
A porta do quarto de Nik estava fechada, Nick aparentemente ainda descansava após a viagem longa e repentina de ida e volta para Los Angeles. Perry tomou banho, barbeou-se e colocou roupas limpas da Levi’s e uma camiseta verde da Henley. Ele sabia que a cor caía bem para ele; ele havia comprado para usar nas férias com Marcel. Ele olhou-se no espelho. Apesar da noite turbulenta, ele parecia melhor do que antes. Mas ele sentia-se melhor - sobretudo por que Nick estava de volta.
Na noite passada ele estava muito cansado para contar o que ele havia aprendido sobre a história da casa - na noite passada nada disso parecia relevante - mas nessa manhã ele mal podia esperar para ouvir as ideias de Nick.
Servindo uma xícara de chocolate, ele sentou-se à mesa e olhou as anotações que ele havia feito na biblioteca um dia antes. Ele ainda estava lendo quando Nick apareceu.
Com a barba por fazer, os olhos embaçados, ele andou até o fogão a gás. _ Bom dia, - ele rosnou.
_ Bom dia, - Perry disse, animado. _ Tem água quente.
_ Estou vendo. Tomo café com água quente. Ele fez uma careta para a caneca de Perry. _ Me diga que esses não são mashmallows em formato de coelhos.
Perry corou.
_ Você não toma café? Nick soou desacreditado. _ Você não poderia ao menos fazer café para aqueles que não gostam de coelhos na bebida matinal?
_ Não sei fazer café, - Perry confessou.
Nick olhou na direção de Perry. _ Você não está brincando, - ele disse, afinal.
_ Não. Eu não bebo café, por isso nunca aprendi.
Nick estremeceu. Ele abriu as torneiras e encheu a chaleira. _ Como você dormiu? Ele perguntou enquanto a água corria.
_ Bem, - Perry disse, tentando reprimir um sorriso. Ele gostava da companhia de Nick – mesmo quando Nick estava aborrecido.
Nick terminou de encher a chaleira e sentou-se à mesa. Ele balançou a cabeça para as anotações de Perry. _ O quê você está fazendo?
_ Eu estive nos arquivos do jornal ontem. Descobri coisas sobre a casa.
_ Tipo o quê?
_ Bem, que ela é assombrada... - ao ver a expressão de Nick, adicionou rapidamente: _ Mas essa não é a parte interessante.
Nick esfregou o rosto com as mãos. _ Me fale da parte interessante.
Ele tinha mãos largas e hábeis. Elas eram bronzeadas – Nick estava todo bronzeado, até onde Perry podia ver, mesmo sendo o final do outono agora. Ele gostaria de ver se Nick era bronzeado embaixo da camisa e calça de flanela; ele gostaria de sentir as mãos hábeis e largas em seu corpo. Ele pensou brevemente, um pouco chocado com sua superficialidade. Aqui estava ele, apenas dois dias depois de perder o amor de sua vida, e ele estava fantasiando sobre outro homem.
Um home hétero.
Embora... às vezes o modo como Nick o olhava, o fazia pensar. Perry não era muito experiente, mas ele sabia o que aquela vigilância, aquela consciência, significavam no olhar de outra pessoa. Começou na pré-escola e nunca parou, até onde ele sabia.
Ele notou que Nick olhava para ele, esperando para ser atualizado, e disse bruscamente: _ Na década de trinta, houve um grande assalto no Estate e muitas jóias e dinheiro foram roubados dos convidados por um gangster chamado Shane Moran. Ninguém nunca encontrou o saque.
_ Então... os fantasmas dos convidados que foram roubados estão assombrando as paredes da Alston Manor?
_ Não. Shane Moran assombra a área. Ele foi morto em um tiroteio em With Hollow Woods.
Nick murmurou. _ Deixe-me adivinhar. Ele foi morto por que usava um blazer amarelo?
Perry riu. _ Talvez. Mas o cara da minha banheira não estava usando uma fantasia. Aquele casaco veio da Big and Tall World, eu aposto.
_ A coleção dos Sopranos, - Nick disse.
_ Ei. Perry parecia pensar. _ Ele realmente se parecia com um gangster.
_ Nem todo mundo que gosta de xadrez e estampas é um criminoso, embora eu entenda por que você pense assim.
Perry riu.
_ Jesus, você é tagarela pela manhã, - Nick reclamou, mas ele não parecia estar chateado com isso. Ele levantou-se. _ Ovos e bacon, certo?
Perry estava pensando no primeiro comentário de Nick. Sua mãe costumava dizer que ele era “de natureza alegre", e ele achava que era verdade. Os últimos dias passaram em uma névoa de miséria depois do fiasco com Marcel, mas seu otimisto natural estava começando a se acertar. Ele estava maravilhado ao perceber que ele mal havia pensando em Marcel até agora.
_ Acho que sou uma pessoa da manhã, - ele informou Nick.
_ Vou lembrar disso, - Nick disse. _ Mexidos ou fritos?
_ Acho que vou comer cereal.
_ Eu não acho, - Nick disse. _ Você precisa comer comida de verdade. Não é de se espantar que você tenha asma.
_ Asma não tem nada a ver com comida. Perry estava um pouco maravilhado e um pouco defensivo.
_ Não? Bem, não sou médico, mas parece que quanto melhor a forma física, menos problemas você tem com a respiração. Você se exercita?
_ Eu ando bastante. Na floresta.
_ Você precisa se exercitar, - Nick disse. Pesos. Construir seus músculos. Você precisa ser capaz de cuidar de si mesmo nesse mundo.
Enquanto Nick fazia sua palestra sobre boa forma, ele quebrava ovos, cortava cebolas, ralava queijo. O bacon estourava no fogão. O café cheirava. Era caseiro. Aconchegante. Perry avisou a si mesmo para não aproveitar muito isso.
_ Você contou para os policiais sobre isso? Nick perguntou.
_ Não pensei em uma passagem secreta até conversar com você.
_ Não isso, – Nick colocou de lado a ideia de uma passagem secreta. _ Digo, as coisas sobre o roubo de jóias. É isso que você acha que está acontecendo aqui, certo? Alguém está procurando pelo saque de Shane Moran.
Ele levantou as sobrancelhas quando leu qualquer coisa na face de Perry. _ Garoto, não foi tão difícil entender aonde você queria chegar.
Perry nãoo conseguia evitar. Nick era tão perspicaz e experiente. Ele não conseguia imaginar como seria ser alguém assim. Alguém que sempre soubesse o que fazer – e o melhor jeito de fazer.
_ Eu tentei, - Perry disse. _ O xerife continuava me interrompendo e perguntando sobre o Tiny.
Nick colocou o prato na frente de Perry. _ Coma.
Perry colocou suas anotações de lado e pegou o garfo. _ Você é um bom cozinheiro.
_ Minha avó me ensinou a cozinhar. Ela achava que era importante para um homem saber fazer uma refeição caseira quando quisesse. Ainda bem que ela achava isso. Minha esposa era a pior cozinheira. Ela fazia com que a comida da marinha parecesse boa.
_ Eu não sabia que você era casado.
_ Divorciado. Nick adicionou brevemente: _ Peguei os papéis no sábado.
_ Por quanto tempo você foi casado?
_ Muito tempo. Seu tom indicou que o tópico havia encerrado.
Perry comeu seu café da manhã em silêncio enquanto Nick olhava pela janela. O telefone tocou e Nick foi atendê-lo. Perry ouviu ele atender, e, depois de um momento de silêncio, ele disse: _ Logo estaremos aí.
Nick colocou a cabeça na cozinha.
_ Era o Stein. Ele disse que ouviu alguém andando em seu apartamento e então tocou a campainha. Ninguém respondeu. Ele ligou aqui para saber se você tinha ou não voltado para lá. Disse que o encontraríamos lá.
_ Por que ele não contou para o policial?
_ Ele disse que o policial já foi embora.
_ Ele provavelmente está no meu apartamento. Os olhos de Perry arregalaram quando viu Nick agachar, abrir a porta debaixo da pia e pegar uma pistola. Nick colocou a pistola na parte de trás de sua Levi’s, com a casualidade de quem tem familiaridade com armas. O pai de Perry manejava as armas da mesma forma.
Nick olhou para ele, as linhas do rosto eram duras e sérias. _ Por que ele estaria lá?
Perry levou um segundo para lembrar do comentário sobre o policial. _ Provavelmente eu sou um suspeito.
_ Eu dou à polícia mais crédito do que isso. Dito isso, Nick estava a caminho.
Perry afastou-se da mesa para seguí-lo, relutante.