O Fantasma Usava Meias Amarelas
Capítulo 1
H avia um homem estranho na banheira de Perry. Ele vestia um blazer - um blazer horrível. E estava morto.
Perry, que acabara de passar as vinte e quatro horas mais dolorosas e humilhantes de sua vida, e que havia dirigido por mais de uma hora na volta do aeroporto, debaixo de chuva forte, para chegar até a sua paz e privacidade relativas dos quartos isolados que havia alugado no antigo Alston Estate, estava boquiaberto.
Sua dor de cabeça sumiu. Esqueceu que estava exausto, morrendo de fome e ensopado. Esqueceu de ter desejado estar morto, por que havia alguém morto, e não era nada bonito.
Seus dedos ainda estavam sob o interruptor. Ele apagou as luzes. No escuro, ouviu a chuva bater na janela; ouviu sua respiração, que era rápida e assustada; da sala de estar escutou o badalar suave do relógio que ele comprara no brechó em Bethlehem Road. Nove lentas badaladas. Nove horas.
Perry ligou as luzes novamente.
O homem morto ainda estava em sua banheira.
_ Não é possível - sussurrou Perry.
Aparentemente, sua fala não convenceu o cadáver, que continuava olhando fixo para ele com suas pálpebras entreabertas.
O homem morto era um estranho; Perry tinha certeza disso. Isso – ele – tinha meia idade e precisava se barbear. Seu rosto era um pouco vermelho esverdeado, as bochecas fundas, como se seus traços estivessem sumindo. Suas pernas postas ao lado da banheira, como as de um manequim. Um dos sapatos tinha um buraco na sola. Suas meias eram amarelas. Solidago, na verdade. Elas combinavam com o blazer horrível.
O desconhecido estava mesmo morto. Seu tórax não se movia; sua boca estava aberta, mas nenhum som saía de lá. Perry não precisou tocá-lo para saber que estava mesmo morto, mas, mesmo assim, nada no mundo o faria tocar o cadáver.
Ele não viu nenhum sinal de violência. Não parecia ter sangue algum. Nem água. A banheira estava seca e vazia - exceto pelo homem morto. Não parecia que ele fora estrangulado. Talvez ele tivesse morrido de causas naturais?
Talvez fosse um ataque cardíaco?
Mas o quê ele estaria fazendo no apartamento trancado de Perry?
O olhar de Perry passou pelo espelho em cima da pia, e ele começou, não imediatamente, a reconhecer a face pálida e de olhos fundos, como seu reflexo. Seus olhos castanhos eram enormes e escuros em sua face amedrontada; seus pelos loiros pareciam estar arrepiados.
Ao sair do banheiro, Perry fechou a porta. Ele ficou parado, tentando sair da nuvem de cansaço e desnorteamento. Então, com seus olhos ainda fixos na porta fechada, ele deu mais um passo para trás e caiu sobre sua mala, que ainda estava no meio do chão da sala.
A queda colocou os pensamentos de Perry em ordem - ou, pelo menos, em ação. Cambaleando, correu para a porta do apartamento. Seus dedos se apressaram em desfazer a trava.
Ele puxou a porta, mas ela fechou bruscamente como se uma mão fantasmagórica a tivesse puxado, e ele notou que a corrente ainda estava presa. Com os dedos trêmulos, ele soltou a corrente e saiu depressa do apartamento.
Parecia impossível que o corredor estivesse igual a quando ele havia subido as escadas, cinco minutos antes. As arandelas formavam sombras assustadoras no carpete escarlate que levava à escada em espiral.
As longas cortinas de renda se agitavam nas janelas. Nada mais se movia. O corredor estava vazio, ainda sim, a sensação perturbadora de estar sendo vigiado persistia.
Perry ouviu o som da chuva sussurrando na janela, como se a casa estivesse reclamando da umidade, da madeira podre, do mofo que permeava seus ossos envelhecidos. Mas era o silêncio ameaçador do outro lado de sua própria porta que parecia inundar todo o resto.
Ele estava esperando pelo quê? O que ele esperava ouvir?
Apesar do seu desespero para chegar ao andar de baixo, às pessoas e às luzes, sentiu-se peculiarmente apreensivo em fazer o primeiro movimento, em fazer barulho, em fazer algo para chamar a atenção - a atenção de algo que pode estar esperando sem ser visto nos vãos sombrios do longo corredor.
Ele precisava obrigar-se a dar o primeiro passo. Então, deslizou pelo corredor, escapando por pouco das aspidistras quase mortas em seus vasos altos de mármore. Apesar das reafirmações de sua mente racional, ele continuava esperando por um ataque que viria dos cantos empoeirados.
Ao chegar ao topo da escada, ele segurou no corrimão para tomar ar. Seus joelhos estavam bambos. Desconfortavelmente, olhou para trás. Nada além das cortinas mexendo na escuridão. Perry desceu as escadas. Quinze degraus para o próximo nível; ele subia de dois em dois.
Ao chegar no segundo andar, hesitou. O ex-policial Rudy Stein morava nesse andar. Um ex-policial deve saber o que fazer, certo?
O Sr. Watson também morava nesse andar, mas Watson morrera há uma semana em Burlington. Seus quartos estavam trancados, seus pertences acumulavam poeira, esperando por um homem que jamais retornaria.
Não que Perry acreditasse em fantasmas – exatamente – ou que tivesse medo de encarar outro corredor escuro e frio, mas depois daquele momento de hesitação, ele continuou a descer o restante da escada até que, finalmente, chegou ao térreo, que servia de entrada para a pensão da Sra. MacQueen.
Alguém vinha em direção à porta de entrada, empurrando-a, contra a chuva densa. Acima, o lustre tilintava musicalmente com a rajada do bafo da tempestade, jogando misteriosas sombras avermelhadas sobre a imagem do homem.
Ele usava uma parca cor de azeitona e com capuz, e, por um momento, Perry não o reconheceu. Na verdade, ele não conseguia ver nenhum semblante sob o capuz da parca e, (seus nervos dispararam), ele suspirou, o som suave propagava pelo corredor silencioso.
Ao tirar o capuz, o homem encarou Perry. Agora Perry o reconhecia. Ele era novo na pensão da Sra. MacQueen, um ex-fuzileiro naval ou algo do tipo. Alto, negro e hostil.
Perry abriu sua boca para informar o recém-chegado sobre o homem morto no andar de cima, mas as palavras não saíam. Talvez ele estivesse em choque. Sentia-se um pouco engraçado, avulso, um pouco tonto. Esperava não desmaiar. Seria muito humilhante.
_ O que houve? - disse o homem. Ele franzia as sobrancelhas, mas, ele estava sempre fazendo isso, então não era um problema. Ele não era tão alto, na verdade - um pouco acima da estatura média - mas ele era musculoso, sólido. Uma Rocha de Gibraltar humana.
Finalmente, as cordas vocais de Perry funcionaram, mas o homem não parecia entender as palavras engasgadas. Ele se aproximou. Seus olhos eram azuis, azuis como o mar, o que parecia apropriado, Perry pensou, ainda com a cabeça distante.
- O que houve, garoto? - o homem perguntou bruscamente. Obviamente havia um problema.
Sem ar, Perry tentou explicar. Ele apontou para cima, suas mãos tremiam, e tentou balbuciar algumas palavras entre os suspiros.
E agora, o cadáver no andar de cima era o segundo problema, pois o primeiro era que ele não conseguia respirar.
_ Jesus Cristo! - disse o ex-fuzileiro naval, vendo seu sofrimento.
Perry abaixou-se até o último degrau da escadaria e procurou por sua bombinha para asma.
* * * * *
O final perfeito para um dia perfeito, pensou Nick Reno, assistindo ao garoto do outro lado do corredor usando sua bombinha.
Os papéis do divórcio haviam chegado naquela tarde, mas o que deveria ter sido um alívio, pareceu ser uma outra derrota. O emprego na empresa de construções ainda estava pendente. Era um péssimo momento para construções – parecia um péssimo momento para tudo. E agora isso. Nas últimas horas, Nick esteve pensando em uma bebida forte e um pouco de solidão, mas tudo o que conseguiu foi esse garoto tendo um surto.
_ Garoto, controle-se. Qual era seu nome? Alguma coisa Foster. Nick havia notado na caixa de correios na entrada.
O garoto continuava ofegante, seu tórax magro subia e descia com o esforço que ele fazia para respirar. Talvez ele só tivesse perdido um episódio da sua novela favorita. Talvez tivessem descontinuado seu sabor favorito no Starbucks. Quem diabos saberia? Estranhos.
Nick olhou em volta do corredor suspeitosamente silencioso. Onde estavam as pessoas ocupadas que geralmente inundavam os corredores da pensão da Sra. MacQueen?
_ Eu preciso de ajuda aqui – ele disse, para o Onipotente ou para as portas fechadas, ele não tinha certeza. Mas, após um momento, ouviu uma corrente se abrir. Trancas começaram a raspar, travas chiavam, maçanetas viravam. A porta da velha Sra. Dembeck abriu-se um pouco.
O garoto, que corou em um adorável tom de azul, abaixou sua bombinha e disse: _ Tem um... homem morto—. E voltou a puxar o ar.
_ Tem o quê? Nick exigiu. _ Onde?
As pessoas rastejavam para fora de seus quartos em direção ao corredor. A Sra. Dembecki, coberta de bobes rosas no cabelo, enrolou seu corpo magro em um roupão de nylon e algodão. _ O que aconteceu? perguntou queixosamente. _ O quê você fez para ele?
_ Eu não o toquei. Nick olhou para cima enquanto uma tábua rangia.
Logo acima, havia um rosto branco e redondo como a lua. Stein, o ex-policial, olhava para eles. Sua boa fazia um O, tão redondo quanto o resto de seu rosto transpirante: olhos redondos, boca redonda, nariz achatado. _ O que está acontecendo? Alguém se acidentou? Sua voz flutuou.
Sério, Nick olhou para o garoto. _ Eu não sei.
_ Perry, o quê há de errado? disse a senhora com a voz trêmula.
Perry. Depois de lembrar-se, Nick pensou sombriamente. Um nome afeminado, se é que existe um.
Do outro lado do corredor, outra porta se abriu.
Um gato saiu do apartamento da senhora Bridger e andou em direção a eles, seu rabo branco acenava gentilmente. O garoto fez um som de pânico e apontou com sua mão desocupada.
Nick virou-se impacientemente, mas a Srta. Bridger, de um metro e oitenta, cabelos ruivos, e vestida em um quimono esmeralda, já estava recolhendo seu gato ofensivo e o fechando de volta no apartamento.
Dembecki disse: _ Srta. Bridger, talvez você... Algo aconteceu com Perry. Ela deu uma olhada acusadora na direção de Nick.
Nick começou: _Olhe, madame -" e então parou, dando lugar à Jane Bridger, que sussurrou vestindo sua camisola de seda. Havia um dragão bordado nas costas de sua camisola. Ela estava embebida em perfume Poison. Nick o reconheceu como sendo o favorito de Marie, seu estômago embrulhou.
_ Perry, querido – ela balbuciou, juntando-se ao garoto no último degrau. _ O que está acontecendo? E explicou ao Nick: _ Ele tem asma.
_ Eu percebi.
Foster abaixou a bombinha mais uma vez e disse: _ Homem morto... em minha... banheira.
Ele falava com Nick, como se fosse um problema dele; Talvez ele tivesse pensado que Nick seria o único preparado para lidar com o caso do cadáver.
A porta da proprietária dos apartamentos abriu-se, finalmente, e a Sra. MacQueen saiu de uma nuvem de fumaça de cigarro. _ Qual é a festa? ela rosnou. _ O quê vocês estão fazendo agora? Uma rajada de risadas da TV saiu de seus aposentos.
_ Perry está doente – disse a Sra. Dembecki. _ É a asma.
Bridger afagou o ombro de Foster gentilmente. Suas longas unhas eram vermelho sangue, contrastadas com a camisa branca dele. _ Aguente um pouco, querido. Respire com calma e profundamente. Seu roupão abriu-se e revelou o contorno dos seios, tão perfeitos que teriam de ser falsos. Nick levantou os olhos. Se Stein se debruçasse mais no corrimão, ele despencaria.
Dois pequenos cães saíram dos aposentos de MacQueen e, com suas unhas raspando no chão de madeira, encontraram o caminho para a porta de Bridger, latindo histericamente.
De saco cheio, Nick deu um passo para trás, pisando no pé da Sra. Dembecki; Ele não havia visto que ela fora para trás dele. Ela uivou como um gato machucado.
_ Desculpe – Nick exclamou.
_ Por que você não olha por onde anda? a Sra. Dembecki lamentou, mancando até uma de suas poltronas acolchoadas perto da lareira. A lareira estava apagada. Nunca esteve acesa, até onde Nick conseguia lembrar. Talvez fosse só decoração. Só enfatizava o quanto não acolhedora era a maldita casa.
Foster engoliu e disse veementemente: _ Há um cadáver em minha banheira!
Silêncio mortal. Outra rajada de risadas da TV. Alguém olhava nervosamente.
_ O quê isso significa? exigiu MacQueen, finalmente. Ela fazia Nick lembrar-se de James Cagney vestido de drag queen, e ela também soava como ele.
_ Significa que alguém precisa subir e verificar. – Disse Nick.
O garoto olhou agradecido.
_ Quem, eu? MacQueen afastou-se com cara de “nem que me paguem".
_ Você é a dona do lugar. Você é a gerente, não é?
_ Mas, é... quero dizer... sim, mas... - Seus olhos arregalados passavam por todos os presentes. Ela molhou seus lábios sem cor. Os outros faziam barulhos, desculpas inaudíveis, barulhos apologéticos.
_ Esqueça – disse Nick. _ Eu vou. Seria um alívio escapar do show de horrores por um minuto ou mais. _ Onde estão suas chaves, garoto?
Foster disse: _ Eu não... tranquei a... porta. Ele ainda estava ofegante, mas não estava mais azul. Continuava segurando sua bombinha com força.
_ É no terceiro andar. O quarto da torre, em frente ao seu. – MacQueen informou Nick.
_ Entendido. Nick começou a subir as escadas.
No segundo andar, passou por Stein, que sorriu sem motivo, mas não disse nada.
Nick continuou a subir até o terceiro andar. Estava escuro e quieto lá em cima; o cheiro de gatos e o som da TV não chegavam até lá. Nem o calor, na maioria das vezes. Cortinas de renda sobre as janelas semi abertas, voavam como espectros e depois achatavam-se contra a parede. Não tinha a melhor visibilidade: o longo corredor estava mal iluminado; um par de plantas quase mortar em vasos longos, providenciavam um abrigo bom para uma emboscada.
Uma sensação estranha passou pela nuca de Nick. Era uma sensação que ele aprendeu a não ignorar durante seus quatorze anos de serviço—embora inesperado em uma mansão arruinada no meio da floresta de Vermont.
Ele considerou, e ignorou, voltar para seu quarto e armar-se. Ele estava seguro de que poderia lidar com qualquer idiota que possa ter entrado no quarto.
Ao chegar no apartamento do garoto, com cuidado, Nick virou a maçaneta.
A porta abriu-se em um quarto amplo e frio que cheirava a chuva e aguarrás. Parecia um estúdio de arte e não o aposento de alguém. As cortinas haviam sido removidas para permitir mais luz. Um pano respingado cobria boa parte do chão. Uma tela semi coberta com pinheiros, repousava em um cavalete perto da janela. Telas brancas estavam armazenadas contra a parede; Utensílios de pintura cobriam o que parecia ser a mesa da sala de jantar. Havia pinturas por todo o lugar: nas paredes, no chão.
No meio do quarto havia uma mala.
Então o garoto havia dormido fora; isso significa que alguém poderia ter entrado em seu quarto e... morrido.
Exceto que a porta do banheiro estava aberta, a luz acesa. Nick tinha uma visão clara da banheira. Estava vazia.
Surpresa.
Ele realmente esperava encontrar um cadáver na banheira?
Não, mas algo com certeza assustara o pobre Perry. Das poucos vezes que Nick encontrou-se com ele nas escadas, ele parecia quieto, educado e são.
Nick foi em direção ao banheiro.
O banheiro era grande, antigo, igual ao dele. A banheira era uma daquelas de porcelana com pés, que despejava água quente e fria em diferentes torneiras, o que a tornava ideal para escaldar os pés. Havia uma janela pequena e em forma de bala sobre a banheira. Para rir, Nick abriu a janela e olhou para baixo, vendo o solo com lama e o topo das árvores molhadas que refletiam as luzes da casa.
Ninguém e nenhum corpo.
Havia uma mancha marrom dentro da banheira. Ele ajoelhou-se para verificar. Barro vermelho? Tinta? Ferrugem? Aquele borrão poderia ser muitas coisas e, ainda sim, mesmo sem identificar, seus pelos da nuca arrepiaram. Ele coçou a nuca com seu dedão e o cheirou. Estaria ele imaginando o cheiro de cobre, metálico?
Claro que não.
Ele notou marcas pretas raspadas no ladrilho. Como se o salto de alguém tivesse sido arrastado pelo chão?
Os olhos de Nick estreitaram-se enquanto pensava. Levantou-se e foi até o quarto. Quase nada para ver. Uma cama de casal, uma escrivaninha gasta. A única coisa fora de ordem era um sapato marrom em frente ao armário. Ele o pegou. Couro barato. Tamanho 47. Havia um buraco na sola. Nick colocou o sapato no parapeito da janela, olhando para a cama. Uma pilha de livros repousava no criado-mudo. Livros de uma biblioteca. I Like ‘Em Tough, They Can’t All Be Guilty, I Found Him Dead, Secrets of a Private Eye. Uma estante estava lotada de livros exibindo títulos igualmente lúgubres.
Seus lábios curvaram-se ironicamente. Certo, agora algo fazia sentido.
Ainda lembrando do terror naqueles olhos castanhos, ele abriu a porta do guarda roupa. Minha nossa. O garoto ainda havia pendurado o pijama.
Ele olhou embaixo da cama. Alguém havia criado o garotinho de maneira correta. Nenhum pó, nenhum cadáver.
Curiosamennte, Nick olhou os outros quartos e armários. Nenhum cadáver. Havia uma tabela de asma presa na geladeira, que contava sua própria história triste, e uma caixa de Froot Loops em cima do freezer, que Nick achou ser deprimente e divertido.
Assim que ele fechou a porta da frente, os quadros alinhados na sala de estar chamaram sua atenção. Nick não sabia nada sobre arte, mas sabia do que ele gostava. E ele gostou dos quadros. Havia certeza e maturidade nos calmos estudos de pontes cobertas e florestas de outono que surpreendiam qualquer um. Um ponto para o garoto.
O segundo andar estava vazio quando Nick chegou. Stein deveria ter se aborrecido ou caído da varanda. O mesmo cenário no saguão. MacQueen escapou para dentro de seu apartamento e aumentou o volume da TV. Na verdade, as únicas pessoas que ainda estavam lá eram Foster, que parecia ter se recuperado – a bombinha não estava mais por perto – e a voluptuosa Sr. Bridger, que estava em pé em frente a lareira apagada.
_ Tudo certo? ela perguntou animada. Seus cabelos ruivos e sua camisola verde eram como um grito naquele aposento monótono.
_ Sim. Nick lembrou-se da mancha de barro vermelho na banheira, mas deixou para lá.
_ Não mesmo. Não pode ser! O rosto magro de Foster se fechou. _ Então eles o moveram, – ele disse, teimoso.
_ Eles? Espere, é uma conspiração?
Foster enrubesceu. Ele tinha uma pele clara e de bebê que propagava suas emoções como se fosse um outdoor.
_ Querido, querido, - murmurou Bridger. _ Não pode ter sido um sonho ruim?
_ Ou muitas histórias de detetive? Nick adicionou.
Foster ainda estava sentado no último degrau da grande escada. Ele olhou para Nick. _ Eu não estava dormindo! Ele voltou seu olhar bravo para Bridger. _ Eu voltei do aeroporto, entrei e lá estava ele. _ Eu não estava dormindo. Eu não estava alucinando.
_ Não há cadáveres agora.
Foster engoliu seco. _ Acho que deveríamos chamar a polícia.
Bridger olhou para Nick com desânimo. Como seria problema do Nick? Deixe que eles chamem a polícia. Apenas o deixe fora disso.
_Mas, querido, Sr... hm. Sr. —”
_ Reno, - Nick disse relutantemente.
_ Sr. Reno já verificou. A polícia não achará nada agora. Certo? _ Não queremos causar problemas.
Nick olhou para ela. Talvez um pouco durona, mas, ainda sim, surpreendentemente, uma mulher bonita para morar no meio do nada. O quê a preocupava sobre os policiais?
_ A polícia tem o pessoal forense, - Foster disse, insistentemente. _ Pessoas treinadas que têm equipamento que pode achar traços microscópicos de sangue e cabelo.
Nick pensou novamente na mancha sangrenta na banheira. As possíveis marcas de algemas no ladrilho. _ Ouça, garoto -
_ Perry. Perry Foster. Foster levantou-se, como se tivesse decidido.
_ Tanto faz. Foster, a polícia não vai enviar o time forense de maneira alguma, por causa de uma ligação falsa.
_ Não é falsa! Havia um cadáver. Alguém o colocou em meu apartamento trancado e o tirou de lá novamente. Alguém nessa casa.
Bridger olhou apreensiva para a porta fechada de MacQueen. Ela mordeu os lábios inferiores e disse: _ Querido, vamos para o meu apartamento para pensar melhor sobre isso.
Nick abriu a boca, mas Foster disse primeiro. _ Eu não posso entrar, - ele disse, obstinado.
_ Vou tirar os gatos de lá.
_ A raiva deles -
_ Ah, pelo amor de Deus! Nick exclamou. _ Não ligo para o que vocês vão fazer, apenas não me envolvam.
O garoto, Foster, rangeu os dentes, mas seus olhos brilhavam ameaçadoramente enquanto encarava Nick. Claro. Obrigado pela ajuda, – ele disse educadamente.
Nick começou a ir embora. _ A polícia pode querer te questionar, Sr. Reno, - Bridger avisou. Seus olhos brilhavam como vidro verde.
Nick respirou fundo e expirou vagarosamente. _ Vamos entrar e pensar melhor nisso, - ele disse calmamente.
* * * * *
A polícia chegou enquanto eles tomavam café. O café tinha um toque de brandy, o que era um erro na opinião de Nick, mas, claramente, a noite toda foi um erro até então. Chamar a polícia foi o maior erro e ele esbravejou eloquentemente e alto - mais alto do que tudo - sobre o tópico.
Agora ele meditava em silêncio, tomando metade do sofá de Jane, feito de crina. A polícia, após ouvir Perry, correu para o andar de cima para investigar. Nick Reno estava certo. Não havia equipe forense, apenas dois suplentes cansados e molhados, com capas amarelas, nada contentes.
Antes dos suplentes subirem, Nick os avisou sobre a mancha de lama na banheira e as marcas de algema no ladrilho.
_ Por que você não disse isso antes? Perry acusou quando a porta se fechou. _ São pistas.
_ Deixe que os policiais decidam se são pistas ou não, - Nick retrucou.
_ Mais brandy? Jane ofereceu. Ele estendeu o copo e ela completou o café.
Perry olhou para sua caneca. Ele sabia que os outros dois estavam irritados com ele por ter insistido em chamar a polícia; é como se eles estivessem operando em um universo alternativo. Claro que ele chamou a polícia. Qualquer pessoa normal chamaria a polícia.
Agora, os três sentavam, esperando pelos policiais, bebendo café batizado e comendo cookies decorados, tão duros que quebrariam um dente. O brandy estava afetando Jane; ela flertava com Nick.
O olhar de Perry passeava pelo quarto. Havia dois cartões de Natal sobre a mesa. Um deles era de uma companhia de seguros. O outro estava virado para baixo. Jane não era do tipo dona de casa. Seu apartamento era uma bagunça. Ela deve vestir-se e despir-se, indo de quarto em quarto, ele decidiu, olhando uma blusa de seda sobre uma abajur. As mesas tinham pó e havia pelo de gato nos móveis sobrecarregados. Seu peito fechou quando notou isso.
_ Como você está se sentindo, querido? Jane perguntou a Perry, embora lesse sua expressão.
_ Bem. Lançou um olhar tímido para Reno e depois o desviou. Nick Reno olhava para ele como se ele fosse um idiota.
_ O que aconteceu enquanto eu estava lá em cima? Reno questionou de repente.
Jane deu de ombros e ajeitou o ombro onde sua camisola repousava. _ Nada.
_ Sr. Center saiu de seus aposentos, - Perry disse.
_ Por aproximadamente meio minuto. Depois voltou, - Jane explicou. _ Todos fizeram isso. Sra. Dembecki entrou em seu apartamento e trancou a porta. Sra. Mac fez o mesmo. Não é como se todos achassem que você encontraria algo. Afagou a mão de Perry, desculpando-se, e perguntou para Nick: _ Por quê? O que você esperava?
Nick Reno tinha a expressão de quem não dava pistas. Em vez de perguntar diretamente a Jane, ele perguntou: _ Quantas pessoas moram aqui?
_ Sete, agora que a pobre Sra. Watson se foi.
Os olhos de Nick estreitaram-se reflexivamente. _ Aquele é o cara que morreu na vila? E Stein é o gordo no segundo andar?
_ Sim. Ele trabalha como segurança no shopping na maioria das noites. Costumava ser o Sr. Stein, Sr. Center e a Sr. Watson no segundo andar. Nesse andar, somente eu, Sra. Dembecki, Sra. Mac e Sr. Teagle desde... bem, quase sempre. Tenho certeza de que você conheceu o Sr. Teagle. Ele faz questão de conhecer todo mundo. Seu sorriso era sarcástico. Sr. Teagle não gostava de Jane. _ E logo no terceiro andar, estão você e Perry nas torres gêmeas.
Perry estava tentando pensar em um cronograma. Não era possível que alguém entrasse na casa pelo lado de for a, ou, se já estivesse dentro, usasse a escada principal sem ser visto pelos inquilinos no saguão. O que significa que quem quer que tenha movido o corpo, ainda estaria no terceiro andar entre as viagens de Perry e Reno. Talvez o intruso estivesse no quarto de Perry quando ele achou o cadáver. Talvez ele estivesse assistindo por detrás da porta durante o tempo todo.
Era uma ideia desconfortante. _ O corpo deve estar em algum lugar no terceiro andar, - Perry disse a eles.
Jane parou de bater suas unhas vermelhas no copo e encarou-o.
_ Onde? Nos meus aposentos? Reno sugeriu secamente.
Os olhos de Perry estreitaram, focando na razão. Era a explicação mais óbvia. Não havia corpo por que Reno o levou para o seu quarto. Ele estivera lá for a quando Perry desceu. Poderia significar alguma coisa?
Ao assistir Perry montando a cena, Reno comentou: _ Você tem uma baita imaginação, garoto. E, estranhamente, Perry tranquilizou-se.
_ Talvez ele tenha descido pelo duto da lavanderia. O cadáver, quero dizer. Jane passou o prato com os cookies redondos e duros como cimento.
Nick recusou os cookies balançando a cabeça. _ Descreva o homem morto para mim, - ele ordenou.
Perry pensou bem. _ Ele deveria ter uns cinquenta anos, pesado. Ele precisava se barbear. Seu cabelo era avermelhado, como se fosse pintado. Ele usava um blazer quadriculado amarelo e marrom, e meias cor de mostarda. Ele tinha um buraco no sapato esquerdo.
Nick ficou alerta. _ Que tipo de sapato?
_ Um mocassim marrom.
_ Você tem certeza do buraco no sapato esquerdo?
Perry acenou e, lembrou-se repentinamente: _ Ele tinha cabelos espessos no nariz e uma verruga no queixo.
_ É mais do que eu preciso saber, - Jane murmurou.
Uma mão pesada bateu à porta e ela pulou. Perry ficou pálido como um dos cadáveres em seus livros. _ É a polícia, - ele disse.
_ Não brinque. Nós os chamamos, lembra? Como os outros dois pareciam estar paralisados, Nick levantou-se e abriu a porta.
Cansados e ameaçadores, os dois policiais os olharam.
_ Eu preciso perguntar. Vocês estiveram bebendo nessa tarde? o parceiro mais velho perguntou. Com sua capa de chuva e chapéu, ele lembrava Gorton Fisherman – depois de rebocar uma rede vazia.
_ Nós tomamos um pouco para fins medicinais, - Jane disse sob protestos indignados de Perry. _ Nós não estivemos juntos toda a tarde, então não posso dizer mais que isso. Ela esticou-se confortavelmente e os olhares dos policiais voltaram-se par a linha de seu pescoço.
Os policiais pigarrearam. _ Não há ninguém lá em cima. Nenhum corpo.
_ Eu já havia dito isso, – Nick disse. _ E o sangue?
_ Quem disse que é sangue? Pode ser... lama.
_ Você viu muito sangue? O segundo policial perguntou. Ele era mais novo e parecia ser um pouco mais bravo por ter sido arrastado para lá.
_ Chega.
Perry disse. _ E as marcas de algemas?
_ Marcas de algemas não significam nada, - disse o policial. _ E eu não vi lama alguma. Ele olhou para seu parceiro. _ Você viu a lama?
_ Não. A banheira estava limpíssima. Como se alguém a tivesse limpado.
_ O que isso te diz? Jane perguntou.
O homem mais velho a olhou calmamente. Que alguém a limpou. Seus olhos negros repousaram por um momento sobre a garrafa de brandy na mesa de centro.
Perry insistiu. _ Havia um homem morto em minha banheira. Ele não chegou lá por acidente.
_ Talvez ele não estivesse morto. _ Talvez ele fosse um mendigo que foi embora quando você o encontrou.
Havia tantos buracos naquela teoria que Perry não sabia por onde começar. Ele protestou: _ Meu apartamento estava trancado. Como ele pôde entrar?
_ Como um homem morto entraria? Um mendigo teria mais chances de arrombar do que um homem morto.
Lógica inevitável. Perry persistia. Mas ele estava morto. Alguém o trouxe e o retirou de lá novamente para que vocês não acreditassem em mim.
_ Isso não deve ter acontecido, - disse o policial. O policial mais velho olhou-o com reprovação.
_ Olhe, - Reno disse. _ Eu não acreditei no cadáver, mas eu vi uma mancha de alguma coisa naquela banheira e que parecia muito ser sangue. E havia marcas pretas, provavelmente de algemas, no ladrilho. Aliás, Foster disse que o cadáver usava um sapato com um furo na sola. Eu encontrei o sapato. Deixei-o no parapeito.
_ Nós não vimos nenhum sapato com um buraco.
_ Vocês olharam no quarto?
Claro. Nós não procurávamos por sapatos, especificamente.
_ Vocês viram o sapato no parapeito?
Os policiais se olharam indecisos.
_ Eu não vi sapato algum, - disse o policial caricato. _ Se quiser verificar, - ele adicionou - vá em frente.
_ Eu acredito em você, - Jane disse. Ela bocejou e disse para ninguém em particular, _ Cavalheiros, odeio ser estraga prazeres, mas eu preciso do meu sono de beleza. Ela fez um gesto preguiçoso de despedida e os homens da lei, obedientemente, foram para o saguão.
_ Você está certo, verificarei eu mesmo, - Perry disse, levantando-se. Mas ele não pode deixar de ver se Nick o acompanharia.
Nick decidiu acompanhá-lo. Ele marchou escada acima, o garoto e os policiais atrás, e entrou no apartamento de Foster pela segunda vez naquela noite.
Perry o seguiu, fitando os quartos como se nunca os tivesse visto antes. A noite tornava-se alucinante. Com certeza ele estava privado de sono. Ele encarou sua mala no meio do quarto. Parecia ter passado uma vida desde que ele saiu da casa Vitoriana de Marcel e pegou o avião para Vermont.
Ele seguiu Nick até o banheiro. Obviamente, a banheira esta vazia - e limpíssima.
Nick passou os dedos pelas bordas da banheira. _ Úmido, - ele comentou. Perry o encarava. Os policiais, tampando a passagem, também o encaravam.
Passando por eles, Nick foi em direção ao quarto, fitando o parapeito.
Um sapato estava lá à vista de todos. Era preto, pequeno – talvez um tamanho 41 – em bom estado.
Um músculo do queixo de Nick tencionou enquanto ele examinava o mocassim. _ Esse não é o sapato.
_ Veja você mesmo, colega. É o único sapato aqui.
Nick lançou o sapato para Perry, que o pegou e engoliu seco. _ Esse é o meu sapato, - ele disse, como se temesse por seu sapato ser culpado de algo.
_ Sim, é o que havíamos pensado.
_ Achei que vocês não tivessem notado nenhum sapato. Reno retrucou.
_ Não notamos nenhum sapato suspeito.
_ Cale a boca, Abe, - o homem mais velho murmurou.
Nick começou a falar, mas desistiu. Seria uma discussão perdida. Os policiais haviam se decidido há vinte minutos; isso era certo.
Ele olhou para o garoto, e era óbvio que Foster sabia que tudo estava acabado, mas, ainda sim, ele olhava para Nick com expectativa. Por quê? O que ele pensava que Nick poderia fazer? Mesmo que Nick quisesse fazer algo sobre isso.
Ele baixou os olhos e o garoto desviou o olhar, rangendo os dentes. Suas mãos tremiam e ele as enfiou nos bolsos.
Os policiais aproveitaram a deixa.
_ Boa noite, amigos. Fiquem em segurança. O policial mais velho, último a sair, tombou a ponta do seu chapéu respingado de chuva.
Nick fechou a porta antes que ele fechasse sozinha. Olhou novamente para Perry Foster. O garoto focava a banheira, encostado na porta do banheiro.
Os comentários inaudíveis dos policiais silenciaram com os sons das botas na escada.
Situação neutralizada, pensou Nick. Hora de descansar, enfim. _ Acho que é isso, - ele disse. _ Acho que vou dar "boa noite" também.
A cabeça de Foster virou-se. _ Já vai?
_ Sim. Nick foi elaboradamente casual em resposta ao tom que ele não queria ouvir na voz de Foster. _ Está tudo certo por aqui.
Foster era um garoto frágil. Ele morava sozinha e, presumia-se que ele tinha um emprego, então ele não poderia ter quatorze anos, apesar de aparentar. Seus pulsos eram finos e joelhos magros saíam dos buracos de sua calça rasgada da Levi's. Havia veias azuis por baixo da pele pálida de suas mãos. Nick lembrou-se do Froot Loops e da tabela de asma na geladeira.
Droga.
_ Obrigado, - Foster disse roucamente. _ Acho que você também pensa que sou um psicopata, mas agradeço pela ajuda.
_ Não acho que você seja um psicopata. Na verdade, ele não fazia ideia se o garoto era ou não psicopata. _ Eu acho que você viu algo. Mas, o que quer que tenha sido, já se foi agora. Acabou.
Nick pensou no sapato com um buraco; ele deveria ter percebido rapidamente que era muito grande para o tamanho de Foster. Alguém havia trocado o sapato assim que Nick saíra. Alguém havia limpado a banheira e o chão. Alguém tinha culhões. Mas não era problema do Nick. Seu trabalho não é salvar o mundo. Não mais.
_ É, bem..., - o garoto tentou dizer, sorrindo sem convencer. _ Talvez eu consiga um quarto de hotel na cidade. Ele pegou suas malas. _ Não quero ficar aqui essa noite.
O aceno de Nick foi breve. Ótima ideia. A melhor ideia até agora. Exceto por que... uma rajada de vento balançou a casa. As luzes piscaram. Do outro lado do quarto, Reno ouviu Foster engasgar suavemente. Seus olhos pareciam enormes. Assim como os de Bambi, quando sua mãe faleceu na floresta.
Era uma noite escura e vil. Não era uma noite para dirigir, a menos que necessário. O rádio avisava sobre o tempo. Enfim, que tipo de bastardo deixaria um garoto asmático sair em uma tempestade?
_ Droga, - grunhiu. _ Você pode ficar comigo essa noite.
Havia um pouco de cor na face pontuda. _ Não quero incomodar, – Foster disse, esperançoso.
Nick bufou.