O Iluminado

Stephen King · Capítulo 3 de 9 · parte 5/5

Páginas do PDF

O Iluminado

Terceira parte: O ninho de vespas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— É? Só porque afrouxou uns parafusos?

O amiguinho pareceu aborrecido.

— Enlouqueceu. Entendeu? — Scott ficou estrábico, pôs a língua de fora e girou o dedo indicador em grandes círculos em volta das orelhas. — Levaram ele pra CASA DE L OU COS.

— Nossa — disse Danny. — Quando vão deixar ele sair?

— Nunca, nunca, nunca — respondeu Scotty sombriamente.

Durante aquele dia e o seguinte, Danny ouviu que: a) O sr. Stenger havia tentado matar toda a família, inclusive Robin, com a pistola da Segunda Guerra Mundial que guardava como lembrança.

b) O sr. Stenger havia quebrado a casa em pedacinhos enquanto estava BEBUM.

c) O sr. Stenger fora apanhado comendo uma tigela de insetos mortos e grama, como se fossem leite com cereais, e chorava enquanto fazia isso.

d) O sr. Stenger havia tentado estrangular a mulher com uma meia, quando os Red Sox perderam um jogo importante.

No fim, muito confuso para guardar tudo aquilo para si mesmo, ele perguntou ao pai sobre o sr. Stenger. O pai sentou Danny no seu colo, explicando que o sr. Stenger estava sob muita pressão. Eram preocupações relacionadas com a família e com o trabalho, e ninguém, a não ser os médicos, podia entender. Tinha crises de choro e, há três noites, começou a chorar sem parar e quebrou uma porção de coisas em sua casa. Não estava com PARAFUSOS FROUXOS, disse o pai; ele estava tendo uma CRISE NERVOSA, e não estava numa CASA DE LOUCOS, mas num SANATÓRIO. Contudo, apesar das cuidadosas explicações, Danny sentia medo. Não parecia haver diferença nenhuma entre PARAFUSOS FROUXOS e CRISE NERVOSA, e tanto fazia chamar de CASA DE LOUCOS ou SANATÓRIO; o lugar ainda tinha grades nas janelas e não o deixavam sair se quisesse. E seu pai, muito inocentemente, confirmou outra expressão que Scotty havia dito, sem qualquer modificação, uma que enchia Danny de um temor vago e disforme.

No lugar onde o sr. Stenger morava agora, havia OS HOMENS DE JALECO BRANCO. Vieram pegá-lo e o levaram dentro de um furgão sem janelas, um furgão cinza.

Estacionaram em cima da calçada de sua casa e OS HOMENS DE JALECO BRANCO saíram e o levaram para longe da família e o fizeram viver num quarto com paredes macias. E, se quisesse mandar uma carta para casa, tinha que escrever com lápis de cera.

— Quando vão deixar ele voltar? — perguntou Danny ao pai.

— Assim que estiver melhor, velhinho.

— Mas quando? — insistiu Danny.

— Dan — respondeu Jack —, NINGUÉM SABE.

O pior era isso. Era outra forma de dizer nunca, nunca, nunca. Um mês depois, a mãe de Robin o tirou da escolinha, e eles se mudaram de Stovington sem o sr. Stenger.

Isso fazia um ano, depois que o pai parara de fazer a Coisa Feia, mas antes de ter perdido o emprego. Danny ainda pensava com frequência naquela história. Às vezes, quando caía ou machucava a cabeça, ou tinha uma dor de barriga, começava a chorar e então a lembrança tomava conta dele, acompanhada do medo de não conseguir parar de chorar, de que continuasse chorando e gemendo até que o pai fosse ao telefone, discasse e falasse: “Alô?

Aqui é Jack Torrance na estrada Mapleline, no 149. Meu filho não consegue parar de chorar. Por favor, mandem OS HOMENS DE JALECO BRANCO para levá-lo ao SANATÓRIO.

Isso mesmo, ele está com os PARAFUSOS FROUXOS. Obrigado”. E o furgão cinza sem

janelas estacionaria à sua porta, o carregariam para dentro, ainda chorando histérico, e o levariam. Quando veria o pai e a mãe de novo? NINGUÉM SABE.

Era este medo que o fazia calar. Um ano mais velho agora, tinha certeza de que os pais não o deixariam ser levado por pensar que uma mangueira de extintor de incêndio fosse uma cobra. Seu raciocínio estava certo disso, mas, ainda assim, quando pensava em contar aos pais, essa lembrança antiga surgia como uma pedra enchendo sua boca e bloqueando as palavras. Não era como Tony; Tony sempre pareceu perfeitamente natural (até a chegada dos pesadelos, claro), e seus pais sempre pareceram aceitar Tony como um fenômeno mais ou menos normal. Coisas como Tony aconteciam por ele ser INTELIGENTE, o que os dois presumiam que fosse (da mesma forma que também se achavam INTELIGENTES). Mas uma mangueira de extintor que se transformava em cobra, ou ver sangue e pedacinhos de cérebro na parede da Suíte Presidencial quando ninguém mais via... coisas desse gênero não seriam naturais. Já tinha sido levado a uma consulta médica. Não seria razoável admitir que OS HOMENS DE

JALECO BRANCO viriam em seguida?

Ainda assim, contaria aos pais se tivesse a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, eles o levariam embora dali. E ele queria desesperadamente se ver livre do Overlook. Mas também sabia que esta era a última oportunidade do pai, que estava aqui no Overlook para fazer algo além de tomar conta do lugar. Estava aqui para escrever sua peça. Para se conformar com a perda do emprego. Para amar mamãe/Wendy. E, até muito recentemente, parecia que todas essas coisas estavam acontecendo. Só ultimamente o pai começava a ter problemas. Desde que encontrou aqueles papéis.

( Este lugar desumano cria monstros humanos. ) O que isso significava? Rogava a Deus, mas Deus não respondia. E o que o pai faria se perdesse o emprego? Tentara ler a mente dele, e ficava cada vez mais convencido de que o próprio pai não sabia. A prova mais forte era de hoje à tardinha, quando tio Al telefonou e falou coisas malvadas, e o pai não se atreveu a retrucar, pois tio Al poderia demiti-lo, assim como o sr.

Crommert, o diretor de Stovington, e o Conselho Diretor o demitiram do cargo de professor. E o pai morria de medo disso, por Danny, mamãe, assim como por si próprio.

Então ele não se atrevia a dizer nada. Só se limitava a observar e esperava que, na realidade, não existissem índios de jeito algum. Ou, se existissem, que se contentassem em esperar por uma presa mais importante e deixassem o pequeno trem de três vagões passar ileso.

Mas não conseguia acreditar, não importava o quanto tentasse.

As coisas estavam piores agora no Overlook.

A neve estava chegando e, quando viesse, qualquer simples opção que ele tivesse seria liquidada. E depois? E quando permanecessem trancados e à mercê daquilo que até agora estava apenas se divertindo à custa deles?

( Venha e tome seu remédio! )

E então? REDRUM.

Sentiu um arrepio na cama e se virou mais uma vez para o outro lado.

Agora, conseguia ler mais. Amanhã, talvez pudesse chamar Tony, tentaria fazer com que Tony mostrasse exatamente o que era REDRUM, e se havia algum modo de impedi-lo. Arriscaria os pesadelos. Precisava saber.

Danny ainda estava acordado muito depois de o falso sono dos pais se tornar verdadeiro. Rolava na cama, torcendo os lençóis, lutando contra um problema muito maior do que ele, acordado na noite como uma única sentinela na guarita. Depois da meia-noite adormeceu também e, então, só o vento ficou acordado, espreitando o hotel e uivando em sua cumeeira sob o brilho das estrelas.

22

NO CAMINHÃO

Vejo uma lua ruim nascendo,

Vejo problemas a caminho.

Vejo terremotos e relâmpagos.

Vejo momentos difíceis para hoje.

Não saia por aí hoje à noite,

Você pode perder sua vida,

Há uma lua ruim nascendo.

Alguém havia instalado um rádio muito velho de um Buick sob o painel do caminhão do hotel, e agora, fraca e com chiados de estática, a voz de John Fogerty, do grupo Creedence Clearwater Revival, saía pelo alto-falante.

Wendy e Danny iam para Sidewinder. O dia estava ensolarado. Danny brincava com a carteirinha cor de laranja da biblioteca e parecia alegre, mas Wendy o achava abatido e cansado, como se não tivesse dormido o suficiente e se mantivesse apenas com energia nervosa.

A música terminou e o locutor falou:

“Esse foi o Creedence. E, por falar em lua ruim, parece que muito em breve vamos ter um tempo ruim na região onde chegam as ondas da nossa

KMTX, o que é difícil de acreditar com esse lindo e primaveril tempo que a gente teve nos últimos três dias. O infalível Serviço de Meteorologia da KMTX informa que a zona de alta pressão do ar dará lugar, por volta de uma hora da tarde, a uma vasta área de baixa pressão, que vai parar completamente sobre a região da KMTX, onde o ar é rarefeito. A temperatura vai cair rapidamente, e a precipitação deverá começar ao anoitecer. Elevações abaixo de dois mil metros, incluindo a região de Denver, poderão apresentar uma combinação de granizo e neve, talvez congelamento em algumas estradas. E por aqui nada além de neve, amigos. Esperamos de três a sete centímetros nas regiões abaixo de dois mil metros de altitude e, possivelmente, acúmulos de quinze a vinte centímetros na região central do Colorado e nas montanhas. A Polícia Rodoviária avisa que, se você está pretendendo passear de carro pelas montanhas hoje à tarde ou à noite, deve lembrar-se de que a lei das correntes nos pneus está em vigor. Não vá a lugar algum a menos que precise. Não se esqueça”, e acrescentou em tom jocoso, “foi assim que os pioneiros Donner se complicaram. Não estavam tão perto da loja de conveniência mais próxima quanto pensavam.”

Wendy se abaixou e desligou o rádio quando começou um anúncio.

— Você se importa?

— Não, tudo bem. — Danny olhou para o céu azul-claro. — Acho que papai escolheu o dia certo para aparar os arbustos dos animais, não é?

— Acho que sim — respondeu Wendy.

— Mas não parece mesmo que vai nevar — acrescentou Danny, esperançoso.

— Está querendo desistir? — perguntou Wendy. Ainda estava pensando na piada do locutor sobre os pioneiros.

— Não, acho que não.

Bem, chegou a hora. Se é para tocar no assunto, fale agora, ou cale-se para sempre.

— Danny — começou a mãe, fazendo a voz o mais casual possível —, você ficaria mais feliz se fôssemos embora do Overlook? Se não passássemos o inverno lá?

Danny baixou os olhos.

— Acho que sim. Mas é o emprego do papai.

— Às vezes — disse ela, com cuidado —, fico pensando que papai também poderia ser mais feliz longe do Overlook. — Passaram por uma placa que dizia SIDEWINDER 30 KM, e então Wendy cuidadosamente fez uma curva

muito fechada e engatou a segunda. Não se arriscava nos declives. Tinha um medo tolo deles.

— Você acha mesmo? — perguntou Danny. Olhou para ela com interesse por um momento e depois balançou a cabeça. — Não, eu não acho.

— Por que não?

— Porque ele está preocupado com a gente — respondeu Danny, escolhendo as palavras com atenção. Era difícil explicar, ele próprio entendia tão pouco sobre o assunto. Lembrou-se de um incidente que contara ao sr.

Hallorann, do rapaz olhando para as televisões da loja de departamentos e desejando roubar uma. Aquilo havia sido doloroso, mas, até mesmo para Danny, que naquela ocasião era um pouco maior do que um bebê, a situação estava bem clara. Os adultos, porém, estavam sempre metidos em conflitos, todas as possíveis ações influenciadas pelas consequências, pela dúvida, pela própria imagem, por sentimentos de amor e responsabilidade. Toda e qualquer escolha parecia ter desvantagens, e às vezes ele não entendia por que as desvantagens eram desvantagens . Era difícil.

— Ele acha… — Danny recomeçou e olhou rapidamente para a mãe. Ela observava a estrada, sem olhar para o lado, e ele sentiu que podia prosseguir.

— Ele acha que talvez a gente fique muito sozinho. Além disso, ele acha que gosta daqui e que é um bom lugar para nós. Ele ama a gente e não quer que a gente se sinta solitário… Ou triste… mas ele acha que, mesmo que a gente fique, pode ser bom a LONGO PRAZO. Você sabe o que é LONGO PRAZO?

Ela assentiu.

— Sim, meu bem. Sei.

— Ele está preocupado em sair daqui e não conseguir outro emprego. A gente teria que mendigar ou coisa parecida.

— Só isso?

— Não, mas o resto está confuso. Porque agora ele está diferente.

— Sim — ela concordou quase suspirando. O declive ficou mais suave e, com cuidado, ela engatou de volta a terceira.

— Não estou inventando, mamãe. Juro.

— Sei disso — falou Wendy, sorrindo. — Foi Tony quem lhe contou?

— Não. Eu simplesmente sei. Aquele médico não acreditou no Tony, acreditou?

— Não se importe com aquele médico. Eu acredito no Tony. Não sei o que ele é ou quem é, se é uma parte de você, ou se vem de… outro lugar, mas acredito nele, Danny. E se você… ele… achar que devemos ir embora, nós

iremos. Nós dois iremos embora e estaremos de volta com papai na primavera.

Ele olhou para a mãe com uma esperança aguda.

— Pra onde? Um hotel?

— Não poderíamos pagar um hotel, meu bem. Teria que ser a casa de minha mãe.

A esperança morreu no rosto de Danny.

— Eu sei… — respondeu e parou.

— O que houve?

— Nada — murmurou o garoto.

O declive ficou íngreme novamente, e Wendy engatou mais uma vez a segunda.

— Não, velhinho, por favor não fale assim. Acho que já deveríamos ter tido essa conversa há semanas. Então, por favor. Você sabe o que é. Não vou ficar aborrecida. Não posso ficar aborrecida, porque isto é muito importante.

Seja franco comigo.

— Eu sei como você se sente em relação a ela — Danny suspirou.

— Como me sinto?

— Mal. Triste. Aborrecida. É como se ela não fosse sua mãe. Como se ela quisesse engolir você. — Ele a olhava com medo. — E eu não gosto de lá.

Ela está sempre pensando em como pode ser melhor para mim do que você. E

em como poderia me afastar de você. Mamãe, não quero ir para lá. Prefiro ficar no Overlook.

Wendy estava abalada. A situação entre ela e a mãe seria tão ruim assim?

Deus, e se fosse, que desgraça para o filho. E ele realmente lia os pensamentos de cada um. De repente, sentiu-se completamente despida, como se tivesse sido flagrada em um ato obsceno.

— Muito bem — concluiu. — Muito bem, Danny.

— Você está aborrecida comigo — disse ele, baixinho, quase chorando.

— Não, não estou. Não estou mesmo. Só estou um pouco abalada. —

Passavam pela placa SIDEWINDER 25 KM, e Wendy ficou mais tranquila. A estrada era melhor dali adiante.

— Queria fazer mais uma pergunta, Danny. Quero que responda com a maior sinceridade. Pode ser?

— Está bem, mamãe — concordou ele, quase sussurrando.

— Seu pai tem bebido novamente?

— Não — respondeu ele, sufocando as duas palavras que brotaram dentro

da boca, depois da simples negativa: Ainda não.

Wendy ficou um pouco mais tranquila. Pousou a mão sobre a perna de Danny, vestida no jeans, e a apertou.

— Seu pai tem se esforçado — falou suavemente. — Porque nos ama. E

nós o amamos, não é?

Ele assentiu muito sério.

Quase falando consigo mesma, Wendy prosseguiu:

— Ele não é um homem perfeito, mas tem se esforçado… Danny, tem se esforçado muito! Quando ele… parou… passou por uma espécie de inferno.

Ainda está passando. Acho que, se não fosse por nós, ele simplesmente não aguentaria. Quero fazer o que for certo. Mas não sei. Devemos ir? Ficar? É

como uma escolha entre a cruz e a espada.

— Eu sei.

— Pode me fazer um favor, velhinho?

— O quê?

— Tente fazer Tony aparecer. Agora mesmo. Pergunte a ele se estamos seguros no Overlook.

— Já tentei — Danny comentou, com calma. — Hoje de manhã.

— O que aconteceu? — perguntou Wendy. — O que ele disse?

— Ele não apareceu. Tony não apareceu. — E, de repente, Danny começou a chorar.

— Danny — disse ela alarmada. — Meu bem, não chore. Por favor… — O

caminhão deslizou para a outra pista, e ela o controlou, amedrontada.

— Não me leve para a casa da vovó — Danny pediu, em meio às lágrimas.

— Por favor, mamãe, não quero ir para lá, quero ficar com papai.

— Tudo bem — ela respondeu com calma. — Tudo bem, é isto o que vamos fazer. — Tirou um lenço de papel do bolso da blusa e o entregou ao filho. — Vamos ficar. E tudo vai ficar bem. Tudo bem.

23

NO PARQUINHO

Jack foi até a varanda, fechando o zíper do casaco até o pescoço, e estranhou a luminosidade do dia. Na mão esquerda, carregava um aparador elétrico de arbustos. Com a mão direita, tirou do bolso de trás um lenço limpo, secou os lábios e o enfiou de volta no bolso. Neve, disseram no rádio. Era difícil acreditar, mesmo vendo as nuvens se reunindo longe, no horizonte.

Caminhou para o jardim, passando o aparador de uma das mãos para a outra. Não levaria muito tempo, pensou; bastava um pequeno retoque. As

noites frias certamente tinham desacelerado o crescimento das plantas. As orelhas do coelho pareciam um pouco felpudas, e brotavam esporas verdes de duas patas do cachorro, mas os leões e o búfalo continuavam bem. Um pequeno corte bastava e depois era só esperar a neve chegar.

O caminho pavimentado terminava tão abruptamente quanto um trampolim. Jack saiu dele, passando pela piscina vazia para o caminho de cascalho, cercado pelas esculturas em arbustos, dirigindo-se ao parquinho .

Passando pelo coelho, acionou o botão do cortador. O aparelho ganhou vida com um zumbido baixo.

— Olá, seu coelho — cumprimentou Jack. — Como está hoje? Vamos tirar um pouco aqui de cima e outro bocado das orelhas? Muito bem. Me diga, conhece aquela piada do caixeiro-viajante e da velhinha com o cachorrinho?

Sua voz soava artificial e idiota em seus ouvidos e ele parou de falar, se dando conta de que não gostava muito destes animais. Sempre lhe parecera um pouco de maldade cortar e transformar um velho arbusto em algo que ele na verdade não era. Em uma das estradas de Vermont, havia um outdoor feito de arbusto no alto de uma colina, contemplando a estrada e anunciando determinado sorvete. Transformar a natureza num mascate de bobagens era simplesmente errado. Era grotesco.

( Você não foi contratado para filosofar, Torrance. ) Ah, isso era verdade. Como era verdade. Aparava as orelhas do coelho, juntando os galhos na grama. O aparador trabalhava com um desagradável zumbido surdo e metálico, próprio dos aparelhos movidos a bateria. O sol brilhava, mas sem calor, e agora não era tão difícil acreditar que a neve estivesse chegando.

Jack trabalhava rapidamente, sabendo que parar para pensar, quando se está neste tipo de tarefa, geralmente significa cometer um erro. Retocou o focinho do coelho (assim, tão próximo, não se parecia em nada com um focinho, mas ele sabia que, à distância de seis metros ou mais, o jogo de luz e sombra sugeria um focinho, isso além da imaginação do observador) e, em seguida, a barriga.

Feito isso, desligou o aparador, caminhou para o parquinho e virou-se abruptamente para ver o coelho inteiro. Sim, estava bom. Em seguida, apararia o cachorro.

— Mas, se o hotel fosse meu — falou —, eu deceparia tudo. — Ia mesmo.

Simplesmente deceparia eles, refaria a grama onde estavam e colocaria no

lugar meia dúzia de mesas de metal com guarda-sóis coloridos. As pessoas poderiam tomar coquetéis na grama do Overlook sob o sol de verão. Sloe gin fizzes, margaritas e pink ladies, todos esses drinques doces de turista. Um rum com tônica, talvez. Jack tirou o lenço do bolso traseiro e, devagar, o esfregou nos lábios. — Vamos, vamos — disse calmo. Isso não era coisa para se estar pensando.

Ia recomeçar, quando um impulso fez com que mudasse de ideia, e ele seguiu para o parquinho . Era engraçado como nunca conseguiam entender as crianças, pensou. Wendy e ele pensavam que Danny fosse adorar o parquinho; tinha tudo o que um garoto quisesse. Mas Jack achava que o menino tinha ido ali apenas umas seis vezes, se muito. Pensava que, se houvesse outra criança com quem brincar, seria diferente.

O portão rangeu enquanto entrava, e o cascalho estalava sob seus pés. Foi primeiro à casinha de boneca, a miniatura perfeita do Overlook. Ela batia na altura da sua coxa, exatamente o tamanho de Danny. Jack se acocorou e olhou pelas janelas do terceiro andar.

— O gigante veio comer vocês todos em suas camas — falou com voz cavernosa. — Adeus, cinco estrelas. — Mas isso também não era engraçado.

Podia abrir a casa simplesmente levantando o telhado… ele abria por meio de uma dobradiça embutida. O interior era decepcionante. As paredes eram pintadas, o lugar estava quase todo vazio. Mas tinha que ser, disse consigo mesmo, do contrário, como é que as crianças conseguiriam entrar? A mobília de brinquedo que combinava com o lugar havia desaparecido, provavelmente estaria encaixotada no depósito. Jack fechou o telhado e ouviu o pequeno clique do trinco.

Caminhou para o escorrega, pousou o aparador no chão, olhou para a estrada para se certificar de que Wendy e Danny não tinham voltado, subiu e se sentou. Era um escorrega grande para crianças, mas desconfortavelmente apertado para sua bunda grande de adulto. Quanto tempo fazia que não se sentava num escorrega? Vinte anos? Não era possível que fizesse tanto tempo, não parecia tanto tempo, mas provavelmente era isso, ou até mais.

Lembrava-se de seu pai o levando ao parquinho em Berlin, quando tinha a idade de Danny e andara em todos os brinquedos: escorrega, balanços, gangorras, tudo. Ele e o velho comiam cachorro-quente e amendoim, que compravam do homem da carrocinha. Sentavam-se num banco para comer, e uma nuvem escura de pombos pousava em volta de seus pés.

— Seus urubus desgraçados — dizia o pai. — Não dê nada a eles, Jacky.

— Mas os dois acabavam dando comida aos pombos e rindo do jeito como corriam atrás do amendoim, da ganância com que corriam atrás do amendoim. Jack não achava que o velho tivesse algum dia levado seus irmãos ao parque. Jack era o predileto e, mesmo assim, apanhava quando o pai ficava bêbado, o que acontecia frequentemente. Mas Jack o amara até onde fora possível, mesmo quando o resto da família só o odiava e temia.

Escorregou, mas a descida não foi satisfatória. O escorrega, fora de uso, estava áspero, e por isso não dava para pegar velocidade. Além do mais, sua bunda era simplesmente muito grande. Seus pés de adulto bateram na pequena depressão onde milhares de pés de crianças haviam pisado antes dele. Levantou-se, limpou a calça e olhou para o aparador. Mas, em vez de pegá-lo, foi para os balanços, que também foram uma decepção. As correntes tinham enferrujado desde o encerramento da temporada, e rangiam como se sentissem dor. Jack prometeu a si mesmo que iria passar lubrificante nelas na primavera.

É melhor parar por aqui, advertiu a si mesmo. Você não é mais uma criança. Não precisa deste lugar para constatar o fato.

Mas ainda assim seguiu rumo aos tubos de concreto — eram muito pequenos para ele, que logo desistiu —, e, depois, foi para a cerca que delimitava os terrenos. Enroscou os dedos no arame e percebeu que, através dele, o sol sombreava desenhos em seu rosto como um homem por trás das grades. Ao reconhecer a semelhança, sacudiu a cerca, fez cara de louco e sussurrou:

— Me solte! Me solte! — Mas, pela terceira vez, não achou engraçado.

Era hora de voltar ao trabalho.

Foi quando ouviu um ruído.

Virou-se rapidamente, franzindo as sobrancelhas, envergonhado, se perguntando se alguém o teria visto brincar ali como uma criancinha.

Verificou o escorrega, os ângulos opostos das gangorras e os balanços, nos quais apenas o vento sentava. Para além do portão até a cerca baixa que dividia o parquinho do jardim da topiaria — os leões unidos, protetores, em volta da alameda; o coelho curvado, como que para colher grama; o búfalo, pronto para investir; o cachorro agachado. Adiante deles, o verde e o hotel.

Daqui, podia ver até a borda alta da quadra de roque no lado oeste do Overlook.

Tudo estava exatamente como antes. Então por que sentira calafrios? Por que se arrepiara?

Olhou de soslaio para o hotel mais uma vez, mas não obteve resposta. O

prédio estava ali, suas janelas escuras, um fiozinho de fumaça saindo da chaminé, vindo da lareira do saguão.

(Cara, é melhor ir andando, ou eles vão voltar e pensar que você não fez nada esse tempo todo.)

Claro, ir andando. Pois a neve estava chegando e ele tinha que cortar aqueles arbustos desgraçados. Fazia parte do acordo. Além do mais, não se atreveriam…

(Quem não se atreveria? O que não se atreveria? Atreveria a quê?) Começou a caminhar de volta ao aparador, pousado ao lado do escorrega grande, e o ruído do seu pisar no cascalho parecia muito alto. A pele dos testículos também ficou arrepiada, e as nádegas endureceram, ficando pesadas como pedra.

( Jesus, o que é isto? )

Parou ao lado do aparador, mas não fez o menor movimento para tirá-lo do chão. Sim, havia algo estranho. Na topiaria. E era tão simples, tão fácil de ver, que só ele não percebia. Vamos, ralhou consigo mesmo, você aparou apenas a porra do coelho, e daí qual é o

(é isso aí)

Ficou asfixiado.

O coelho estava com as quatro patas na grama. O ventre contra o solo.

Mas, há menos de dez minutos, estava apoiado nas patas traseiras, claro que estava, tinha aparado suas orelhas… e sua barriga.

Lançou os olhos para o cachorro. Quando chegara ao pátio, ele estava sentado, como que pedindo um doce. Agora, estava agachado, a cabeça inclinada, a boca parecendo rosnar silenciosamente. E os leões…

(ah não, ah não, de jeito nenhum)

os leões estavam junto à alameda. Os dois à direita haviam mudado sutilmente de posição, tinham se aproximado um do outro. A cauda do leão à esquerda agora quase encostava na alameda. Quando Jack havia passado por eles e pelo portão, aquele leão estava à direita, e ele tinha certeza de que a cauda estava enrolada.

Não estavam mais guardando a alameda; estavam bloqueando ela.

Jack, de repente, colocou as mãos nos olhos e depois tirou. O quadro não havia mudado. Soltou um suspiro suave, muito calmo para ser um gemido.

Na época em que bebia, tinha medo de que alguma coisa assim acontecesse.

Mas, quando era um alcoólatra, chamava isso de delirium tremens… Era

como o velho Ray Milland em Farrapo humano, vendo insetos saindo das paredes.

Que nome se dava a isso, quando se estava sóbrio?

A pergunta tinha o propósito de ser retórica, mas sua mente respondeu (chama-se loucura)

mesmo assim.

Olhando fixamente para os animais, concluiu que mais alguma coisa havia mudado enquanto suas mãos estavam sobre os olhos. O cachorro se aproximara. Não mais agachado, parecia estar em posição de corrida: coxas flexionadas, uma pata dianteira para a frente, a outra para trás. A boca aberta, os galhos podados de maneira aguda e forte. E agora ele imaginou que podia ver indistintos traços de olhos na folhagem também. Olhando para ele.

Por que precisam ser aparadas?, pensou histericamente. Estão perfeitas.

Escutou outro som suave. Involuntariamente, deu um passo atrás ao olhar para os leões. Um dos dois à direita parecia ter se movido um pouco adiante do outro. A cabeça estava baixa. Uma pata estava esticada sobre quase todo o caminho para a cerca baixa. Deus do céu, o que iria acontecer em seguida?

( em seguida, ele salta e devora você como numa fábula de terror) Era como aquele jogo que costumava brincar quando criança. Uma pessoa designada como chefe ficava na berlinda, virava de costas e contava até dez, enquanto os outros jogadores avançavam. Quando chegava a dez, o chefe virava rapidamente, e quem fosse apanhado se mexendo estava fora do jogo.

Os outros ficavam imóveis como estátuas até que o chefe virasse de costas e contasse novamente. Eles iam chegando cada vez mais perto e, finalmente, entre cinco e dez, o chefe sentia uma mão nas costas…

O cascalho chocalhava na alameda.

Jack sacudiu a cabeça para ver o cachorro, e o animal estava na metade do caminho para a alameda, agora exatamente atrás dos leões, a boca aberta, bocejando. Antes, era apenas um arbusto aparado no formato genérico de um cachorro, que perdia toda a definição quando alguém se aproximava. Mas agora Jack podia ver que havia sido aparado para parecer um pastor alemão, e estes podiam ser ferozes. Podiam ser treinados para matar.

Um ruído baixo.

O leão, à esquerda, tinha agora avançado para a cerca; o focinho tocava as bordas. Parecia estar sorrindo maliciosamente para ele. Jack deu mais dois passos para trás. A cabeça latejava, e ele sentia a garganta seca. Agora, o búfalo também se movera, voltado para a direita, atrás e junto do coelho. A

cabeça baixa, os chifres de arbusto verde apontados em sua direção. O

problema é que não se podia observar todos, não de uma só vez.

Começou a emitir um som lamuriento, sem saber o que estava fazendo. Os olhos passavam de uma criatura-arbusto para outra, tentando vê-las se movendo. O vento batia forte, provocando um chocalhar nos galhos. Que espécie de ruído teria se os bichos o pegassem? Mas é claro que sabia. Um estalo, algo quebrando. Seria…

( não não NÃO NÃO VOU ACREDITAR NISSO EM HIPÓTESE

ALGUMA! )

Jack tapou os olhos com as mãos, agarrando os cabelos, a testa, sentindo as têmporas pulsando. E assim ficou por muito tempo, com o pavor crescendo até não aguentar mais, até que tirou as mãos com um grito.

Ao lado da grama que o cercava, o cachorro estava sentado, como que pedindo um pedaço de doce. O búfalo olhava desinteressadamente para a quadra de roque, como estava quando Jack descera com o aparador. O coelho apoiado nas patas traseiras, com as orelhas em pé para captar o menor ruído, a barriga recém-aparada exposta. Os leões, enraizados no lugar, permaneciam ao lado da alameda.

Jack ficou parado, congelado, por um longo tempo, com a respiração áspera finalmente diminuindo o ritmo. Pegou o maço de cigarros, deixando cair quatro deles sobre o cascalho. Parou e os recolheu tateando, sem tirar os olhos dos arbustos, com medo de que os animais voltassem a se mover.

Enfiou três cigarros de volta na carteira e acendeu o quarto. Depois de duas grandes tragadas, jogou o cigarro fora e o amassou com o pé. Foi até o aparador e o apanhou.

— Estou muito cansado — disse, e agora parecia excelente falar em voz alta; não parecia maluquice. — Estive sob muita tensão. As vespas… a peça… O telefonema de Al. Mas está tudo bem.

Começou a se arrastar de volta ao hotel. Parte de sua mente o chamava para dar uma volta em torno dos animais de arbusto, mas Jack caminhou direto pela alameda de cascalho, passando no meio deles. Farfalhavam com a brisa, apenas isso. Tudo aquilo tinha sido fruto de sua imaginação. Tinha dado um susto feio em Jack, mas agora já terminara.

Na cozinha do Overlook, ele parou para tomar dois Excedrins e, em seguida, desceu ao porão. Ficou olhando os papéis até que ouviu o barulho do caminhão do hotel e subiu para encontrar Wendy e Danny. Estava se sentindo bem. Não viu necessidade alguma de mencionar suas alucinações. Tinha

levado um susto terrível, mas agora já terminara.

24

NEVE

Anoitecia.

Estavam na varanda, sob a luz fraca; Jack no meio, o braço esquerdo em volta dos ombros de Danny, e o direito em volta da cintura de Wendy. Juntos, impotentes, só podiam observar, já que a decisão havia sido tomada sem que eles fossem consultados.

O céu ficou encoberto por volta de duas e meia, e uma hora depois começou a nevar. Desta vez, não era necessário consultar a previsão de tempo para saber que era neve séria; não uma nevada temporária que se derreteria ou que seria levada embora quando o vento da noite começasse a assobiar.

No início, caía em perfeita linha reta, formando uma capa que cobria tudo por igual, mas agora, uma hora depois de ter começado, o vento noroeste começou a soprar, e a neve começou a cair contra a varanda e as laterais na entrada de carros do Overlook. Para além daqueles limites, a estrada desaparecera sob o cobertor branco. Os animais de arbusto também desapareceram, mas, quando Wendy e Danny chegaram em casa, ela elogiou o bom trabalho que Jack tinha feito. Você acha?, perguntou ele e não comentou mais nada. Agora, os arbustos estavam enterrados sob o amorfo manto branco.

Curiosamente, todos eles pensavam coisas diferentes, mas sentiam a mesma emoção: alívio. A ponte fora atravessada.

— A primavera voltará algum dia? — murmurou Wendy.

Jack a abraçou apertado.

— Antes do que imagina. O que acha de entrarmos para jantar? Está frio aqui fora.

Ela sorriu. Durante toda a tarde, Jack parecera distante e… bem, estranho.

Agora, falava como ele mesmo.

— Por mim, tudo bem. E você, Danny?

— Claro.

Entraram juntos, deixando o vento gritar em tom baixo, pelo resto da noite

— um som que acabariam por conhecer bem. Flocos dançavam e giravam pela varanda. O Overlook enfrentava a neve, como sempre o fizera por aproximadamente três quartos de século, com as janelas escuras forradas de branco, indiferente ao fato de que agora estava isolado do mundo. Ou possivelmente estava satisfeito com o quadro. Dentro de sua concha, os três

viviam a rotina do anoitecer, como micróbios presos no intestino de um monstro.

25

DENTRO DO 217

Uma semana e meia depois, sessenta centímetros de neve branca e endurecida cobriam toda a extensão do Overlook. O pequeno zoológico de arbustos estava enterrado até as coxas; o coelho, congelado sobre as patas traseiras, parecia estar pulando de uma piscina branca. Algumas das camadas chegavam a um metro e meio. O vento as modificava constantemente, esculpindo nelas formatos de dunas sinuosas. Por duas vezes, Jack caminhara desajeitado com sapatos de neve até o depósito à procura da pá para limpar a varanda; na terceira vez encolheu os ombros, limpou apenas um caminho pela montanha de neve diante da porta e deixou Danny se divertir escorregando à esquerda e à direita do caminho. As camadas verdadeiramente heroicas cobriam a parte oeste do Overlook; algumas se acumulavam a uma altura de seis metros, e adiante delas o terreno estava limpo devido à constante ação do vento. As janelas do primeiro andar estavam cobertas, e a vista do restaurante, que Jack tanto admirara no dia de encerramento da temporada, não era agora mais excitante do que a vista de uma tela branca de cinema. O telefone ficara mudo nos últimos oito dias, e o radiotransmissor, no escritório de Ullman, era seu único meio de comunicação com o mundo exterior.

Agora nevava diariamente, às vezes apenas uma neve rápida que se pulverizava na superfície brilhante; às vezes neve pesada, o assobio baixo do vento provocando um uivo meio feminino, que fazia o velho hotel sacudir e gemer assustadoramente mesmo no seu berço branco. À noite, a temperatura não era nunca superior a doze graus abaixo de zero e, apesar do termômetro da entrada de serviço ter subido a cinco graus negativos, as constantes agulhadas do vento faziam o ato de sair sem a máscara de esqui se tornar algo desagradável. Mas eles saíam nos dias em que o sol aparecia, geralmente com muita roupa e de luvas. Sair era praticamente obrigatório, e o hotel estava circundado pela marca dupla do trenó de Danny. As variações eram quase infindáveis: Danny sentado no trenó, com os pais puxando; o pai sentado, sorrindo, enquanto Wendy e Danny tentavam puxar (quando a neve congelava era possível puxá-lo, mas ficava totalmente impossível quando estava fresca); Danny e a mãe sentados; Wendy sentada enquanto os homens puxavam e bufavam fumaça branca como cavalos, fingindo que ela era mais

pesada do que na realidade. Os três riam muito nesses passeios de trenó em volta da casa, mas o assobio e a voz impessoal do vento, tão grandes e fantasmagoricamente sinceros, faziam suas risadas parecerem pequenas e forçadas.

Viram pegadas de rena na neve, e uma vez as próprias renas, um grupo de cinco, imóveis abaixo da cerca de segurança. Os três se revezaram com o binóculo Zeiss-Ikon de Jack para vê-las melhor, e isso fez Wendy ter uma sensação estranha e irreal. Os animais estavam ali parados com as pernas afundadas na neve que cobria a estrada, e ela pensou que, no espaço de tempo até o degelo da primavera, a estrada pertenceria mais às renas do que a eles.

Agora, criações humanas, aqui, eram neutralizadas. A rena entendia isso, acreditava Wendy. Ela baixou o binóculo e falou algo sobre começar o almoço, e na cozinha chorou um pouco, tentando se livrar da terrível sensação de opressão que às vezes caía sobre ela como uma mão grande que apertava seu coração. Pensou nas renas. Pensou nas vespas que Jack havia deixado na área de serviço, sob o pirex, para congelar.

Havia muitos sapatos de neve pendurados em estacas no depósito, e Jack encontrou um par para cada um, apesar de terem ficado um pouco grandes em Danny. Em Jack couberam perfeitamente. Apesar de não ter usado esses sapatos desde a infância em Berlin, New Hampshire, reaprendeu rápido. Já Wendy não gostou muito deles — bastavam alguns minutos de caminhada, com os pés enfiados naquelas raquetes enormes, para que suas pernas e tornozelos doessem muito. Danny estava interessado e se esforçando por adquirir prática; ainda caía com frequência, mas Jack estava satisfeito com o progresso. Disse que, por volta de fevereiro, Danny estaria fazendo círculos em volta dos dois.

A manhã nasceu nublada e, ao meio-dia, o céu já começara a cuspir neve. O

rádio prometia outros vinte a trinta centímetros de neve, entoando louvores à Precipitação, a grande deusa dos esquiadores do Colorado. Sentada no quarto, tricotando um cachecol, Wendy pensava consigo mesma que sabia exatamente onde mandaria os esquiadores enfiarem aquela neve toda.

Jack estava no porão. Havia descido para verificar a fornalha e a caldeira

— essas verificações já tinham se tornado um ritual desde que a neve os fechara ali — e, depois de se certificar de que tudo estava indo bem, atravessou o arco, acendeu a lâmpada e se sentou numa cadeira velha que encontrou, cheia de teias de aranha. Folheava os registros velhos e papéis, o tempo todo esfregando a boca com o lenço. O confinamento tirara de sua pele

o bronzeado de outono, e, sentado, debruçado sobre as folhas amarelas e secas, com o cabelo loiro avermelhado despenteado caindo na testa, ele se assemelhava um pouco a um lunático. Encontrara objetos estranhos enfiados no meio das faturas, conhecimentos, recibos. Objetos inquietantes. Um pedaço de lençol ensanguentado. Um ursinho de pelúcia desmembrado que parecia ter sido cortado em pedaços. Uma folha violeta, de papel de carta feminino, um resquício de perfume ainda grudado sob o cheiro do tempo, um parágrafo iniciado e deixado inacabado, com uma tinta azul esmaecida:

“Querido Tommy, não consigo pensar tão bem por aqui quanto esperava que pudesse... quero dizer, pensar sobre nós, claro, quem mais? Ah! Ah! As coisas estão seguindo seu curso. Tive sonhos estranhos sobre coisas sendo golpeadas durante a noite, acredite, e” . Era só. A carta estava datada de 27

de junho de 1934. Jack também encontrou uma marionete que parecia uma bruxa ou um feiticeiro… em todo o caso, tinha dentes grandes e um chapéu pontudo. Estava enfiado entre um pacote de recibos de gás natural e um de recibos de água mineral. E algo que parecia ser um poema, rabiscado com lápis preto no verso de um cardápio: “Medoc/ está aqui?/ Voltei a ser sonâmbula, meu querido./ As plantas se movem sob o tapete”. Nenhuma data no cardápio, nenhuma assinatura no poema, se é que era um poema.

Indecifrável, mas fascinante. Jack tinha a impressão de que essas coisas eram como pedaços de um quebra-cabeça, coisas que eventualmente se encaixariam, se ele pudesse encontrar os pontos certos de ligação. E assim continuou olhando, assustando-se e esfregando os lábios cada vez que a fornalha rugia atrás dele.

* * *

Danny estava mais uma vez parado diante do 217.

A chave mestra estava em seu bolso. Olhava para a porta com uma espécie de ansiedade entorpecida, e seu tronco parecia se contrair e sacudir sob a camisa de flanela. Ele cantarolava baixinho e de maneira aleatória.

Não queria ter vindo, pelo menos depois da mangueira do extintor. Estava com medo de vir. Estava com medo, pois mais uma vez havia pegado a chave mestra, desobedecendo ao pai.

Queria ter vindo. A curiosidade

(a curiosidade matou o gato)

era como um anzol em seu cérebro, uma espécie de canto de sereia

incômodo que não se apaziguava. E o sr. Hallorann não tinha dito: “Não acho que algo aqui possa machucar você”?

(Você prometeu.)

( Promessas foram feitas para serem quebradas.) Ele levou um susto com aquilo. Era como se esse pensamento tivesse vindo de fora, como se fosse de um inseto, zumbindo, suavemente tentando persuadi-lo.

( Promessas foram feitas para serem quebradas, meu caro redrum, para serem quebradas, partidas, despedaçadas, marteladas. ADIANTE! ) O cantarolar nervoso transformou-se em música desafinada: “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar. Vamos dar a meia-volta…”.

O sr. Hallorann não estaria certo? Não seria essa, afinal, a razão de o menino ter se mantido calado e permitido que a neve os prendesse ali?

Basta fechar os olhos e aquilo desaparecerá.

O que ele tinha visto na Suíte Presidencial desaparecera. E a cobra tinha sido apenas uma mangueira que caiu no tapete. Sim, até o sangue na Suíte Presidencial era inofensivo, coisa velha, algo que desapareceu muito antes de ele ter nascido ou sequer pensar em nascer. Alguma coisa que já tinha acabado. Como um filme que só ele podia ver. Não havia nada, nada mesmo, neste hotel, que pudesse machucá-lo, e, se tivesse que provar isso a si próprio entrando neste quarto... por que não deveria fazê-lo?

— Ciranda, cirandinha…

( A curiosidade matou o gato, meu caro redrum, a satisfação o trouxe de volta são e salvo, dos pés à cabeça; da cabeça aos pés ele estava são e salvo.

Sabia que essas coisas)

( são como filmes de terror, não podem machucar você, mas ó meu deus) ( que dentes grandes você tem, vovó, e isso é um lobo fantasiado de BARBA AZUL ou um BARBA AZUL fantasiado de lobo e eu estou tão) ( contente por você ter perguntado, porque a curiosidade matou aquele gato e foi a ESPERANÇA de satisfação que o trouxe de volta) corredor adiante, pisando macio no tapete emaranhado de mata azul.

Passou diante do extintor de incêndio, colocou a boca de latão de volta no quadro, e então a cutucou repetidas vezes com o dedo, o coração batendo, sussurrando: “Venha e me machuque. Venha e me machuque, sua pão-dura escrota. Não consegue, consegue? Hein? Você não é nada, além de uma simples mangueirinha. Não consegue fazer nada, só ficar aí. Venha, venha”.

Sentiu-se louco com o desafio. E nada aconteceu. Afinal de contas, era só

uma mangueira, só lona e latão, poderia parti-la em pedaços e ela não se queixaria, nem se mexeria, nem lançaria ou sangraria lodo verde pelo tapete azul inteiro, pois era apenas uma mangueira, não fedia nem cheirava, não era uma cobra modorrando… e ele se apressara, se apressara porque era (“tarde, é tarde”, disse o coelho branco)

o coelho branco. Sim. Agora havia um coelho branco junto ao parquinho.

Já tinha sido verde, mas agora estava branco, como se alguma coisa tivesse lhe dado choques repetidas vezes nas nevascas e ventos noturnos, e o tivesse envelhecido…

Danny tirou a chave mestra do bolso e a enfiou na fechadura.

— Vamos todos cirandar…

( o coelho branco estava a caminho de uma partida de croquet da Rainha Vermelha, onde as cegonhas serviam de bastões, e os ouriços, de bola) Tocou a chave, deixou os dedos se moverem sobre ela. Sua cabeça latejava. Virou a chave e os ferrolhos sacudiram.

( CORTEM-LHE A CABEÇA! CORTEM-LHE A CABEÇA! CORTEM-LHE

A CABEÇA!)

( este jogo não é croquet, pois os bastões são muito curtos, este jogo é ) ( UAC-BUM! Direto no arco.)

( CORTEM-LHE A CABEEEEEEÇA…)

Danny abriu a porta, que se moveu suave, sem ruído. Viu-se diante de um grande conjugado de quarto e sala, e, apesar de a neve não ter chegado a tanto — as elevações maiores ainda estavam trinta centímetros abaixo das janelas do segundo andar —, o quarto estava escuro, pois o pai fechara todas as persianas do lado oeste, duas semanas atrás.

Parou na entrada, tateou à direita e encontrou o interruptor. Duas lâmpadas num lustre de vidro se acenderam. Danny deu um passo à frente e olhou ao redor. O tapete era espesso e macio, rosa-claro. Suave. Uma cama de casal com uma colcha branca. Uma escrivaninha

( Por obséquio, responda-me: Por que o corvo se parece com uma escrivaninha? )

junto à janela de veneziana. Durante a temporada, o Escritor Permanente ( me divertindo muito, desejo que esteja com medo) teria uma bonita vista das montanhas para descrever para o pessoal em casa.

Avançou. Nada aqui, nada. Apenas um quarto vazio, frio, pois hoje era o dia de o pai aquecer a ala leste. Uma cômoda. Um armário com a porta aberta

exibindo uma porção de cabides do hotel, do tipo que não se consegue roubar. Uma Bíblia sobre uma mesa de canto. À esquerda, a porta do banheiro, um espelho em toda sua extensão refletindo sua própria imagem pálida. Essa porta estava entreaberta e…

Viu seu reflexo assentindo com a cabeça, devagar.

Sim, era onde estava, fosse o que fosse. Ali dentro. No banheiro. Seu reflexo avançou, como se fosse escapar do espelho. Estendeu a mão, pressionando-a contra a de Danny. Em seguida desapareceu num ângulo, ao abrir da porta do banheiro. Danny olhou o interior.

Um cômodo comprido, antigo, como um vagão de trem. Pequenos ladrilhos hexagonais no chão. No fundo, um vaso com a tampa levantada. À

direita, um lavatório e acima um outro espelho, do tipo que esconde um armário de remédios. À esquerda, uma imensa banheira branca com pés, a cortina do chuveiro fechada. Danny entrou no banheiro e caminhou em direção à banheira como num sonho, como se estivesse sendo impelido, como se tudo isto fosse um dos sonhos que Tony trouxera, como se talvez fosse ver alguma coisa boa ao abrir a cortina do chuveiro, algo que o pai tivesse esquecido, ou a mãe tivesse perdido, algo que faria os dois felizes…

Então abriu a cortina do chuveiro.

A mulher na banheira estava morta há muito tempo. Estava inchada e roxa, a barriga cheia de gases emergindo da água fria, as bordas congeladas, como uma ilha de carne. Os olhos dela fixos nos de Danny, vidrados e imensos como bolas de gude. Sorria maliciosa, os lábios roxos arreganhados numa careta. O peito flácido. Os pelos púbicos boiando. As mãos geladas nas bordas de porcelana da banheira como garras de um caranguejo.

Danny gritou. Mas o som não escapou de seus lábios; voltava cada vez mais para dentro e caiu na escuridão, como uma pedra num poço. O menino deu um único passo desajeitado para trás, ouvindo os calcanhares estalando contra os ladrilhos hexagonais, e ao mesmo tempo sentiu a urina se desprendendo, escorrendo sem esforço para fora dele.

A mulher estava se levantando.

Ainda sorrindo maliciosa, os imensos olhos vidrados fixos nele, estava se levantando. As palmas das mãos mortas faziam ruídos na porcelana. Seus seios balançavam como sacos de pancada antigos e murchos. Houve o som minúsculo da quebra dos pedaços de gelo. Ela não respirava. Era um cadáver, morto há anos.

Danny virou-se para trás e correu. Disparando pela porta do banheiro, os olhos saltando das órbitas, o cabelo arrepiado, como um ouriço a ponto de ser transformado numa bola sacrificial,