O Iluminado

Stephen King · Capítulo 3 de 9 · parte 2/5

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O Iluminado

Terceira parte: O ninho de vespas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Sentou-se na cama de Danny e balançou o filho em seus braços, acalmando-o com palavras soltas repetidas. Olhou para Jack, e agora só havia preocupação em seu olhar. Ele levantou as sobrancelhas como se perguntasse alguma coisa. Wendy meneou levemente a cabeça.

— Danny, Danny — ela repetia. — Danny, Danny, Danny. Está bem, velhinho. Tudo bem.

Finalmente ele se acalmou, com leves tremores em seus braços. Ainda assim, foi com o pai que falou primeiro. Jack estava agora sentado na cama, ao lado deles, e ela sentiu um impulso

(Ele é, e sempre será o primeiro)

de ciúme. Jack havia gritado com ele, ela o confortara, mas ainda assim foi com o pai que Danny falou:

— Desculpe se fui mau.

— Não precisa se desculpar, velhinho — Jack respondeu, afagando seus cabelos. — Que diabos aconteceu lá dentro?

Danny balançou a cabeça devagar, meio tonto.

— Não… não sei. Por que me disse para parar de gaguejar, papai? Não sou gago.

— Claro que não — Jack concordou, afetuoso, mas Wendy sentiu um aperto no coração. Jack de repente havia ficado apavorado, como se tivesse visto alguma coisa, um fantasma.

— Alguma coisa sobre o cronômetro… — resmungou Danny.

— O quê? — Jack se inclinou, e Danny se retraiu nos braços da mãe.

— Jack, você está assustando ele! — exclamou ela, com a voz alta e acusatória. De repente, se deu conta de que todos estavam apavorados. Mas com o quê?

— Não sei, não sei — repetia Danny ao pai. — O quê… o que eu disse, papai?

— Nada — desconversou Jack. Tirou o lenço do bolso e enxugou a boca.

Wendy teve, por um momento, aquela sensação nauseante de voltar no tempo. Era um gesto que lembrava bem os dias de embriaguez do marido.

— Por que você trancou a porta, Danny? — perguntou ela, gentil. — Por que fez isso?

— Tony — ele respondeu. — Tony mandou.

Trocaram um olhar por sobre a cabeça do filho.

— E o Tony disse por quê, filho? — indagou Jack, com calma.

— Eu estava escovando os dentes e pensando em minha leitura. Pensando mesmo. E… e vi Tony lá no fundo do espelho. Ele disse que precisava me mostrar de novo.

— Quer dizer que ele estava atrás de você? — perguntou Wendy.

— Não, ele estava dentro do espelho. — Danny foi enfático neste ponto.

— Lá no fundo. E então eu entrei pelo espelho. Depois, só me lembro quando papai me sacudiu e pensei que estivesse sendo mau de novo.

Jack estremeceu como se tivesse sido atingido.

— Não, velhinho — ele falou calmamente.

— Tony falou para você trancar a porta? — perguntou Wendy, acariciando os cabelos do filho.

— Disse.

— E o que ele queria mostrar?

Danny ficou tenso em seus braços; era como se os músculos do corpo do garoto estivessem esticados como uma corda de piano.

— Não me lembro — ele respondeu perturbado. — Não me lembro. Não me pergunte. Eu… eu não me lembro de nada!

— Shh — fez Wendy, alarmada. E começou a balançá-lo de novo. — Se você não se lembra, está tudo bem, amor. Claro que está.

Finalmente, Danny voltou a relaxar.

— Quer que eu fique aqui um pouquinho? Quer que eu leia uma história?

— Não. Só a luminária. — Olhou timidamente para o pai. — Você fica, papai? Só um pouquinho?

— Claro, velhinho.

Wendy suspirou.

— Vou para a sala, Jack.

— Está bem.

Ela se levantou e olhou Danny, que se enfiava debaixo das cobertas.

Parecia muito pequeno.

— Tem certeza que está bem, Danny?

— Tô bem. Só acende o Snoopy, mamãe.

— Claro.

Colocou o Snoopy na tomada e acendeu, Snoopy dormindo no telhado de sua casinha de cachorro. Até se mudarem para o Overlook, ele nunca fizera

questão de ter uma luz acesa de noite, e então pediu uma luminária. Ao sair, Wendy apagou o abajur e a luz de teto, e olhou mais uma vez para eles, o pequeno círculo branco do rosto de Danny e Jack acima. Hesitou ( e então eu entrei pelo espelho)

e os deixou rapidamente.

— Está com sono? — perguntou Jack, afastando o cabelo de Danny da testa.

— Tô.

— Quer um copo d’água?

— Não…

Durante cinco minutos permaneceram em silêncio. As mãos de Jack ainda estavam sobre a cabeça de Danny. Pensando que o menino adormecera, estava praticamente se levantando para sair, quando Danny falou quase dormindo:

— Roque.

Jack virou-se, sem entender nada.

— Danny…?

— Você não machucaria a mamãe, né, papai?

— Não.

— Nem eu?

— Não.

Silêncio novamente, prolongado.

— Papai?

— O quê?

— Tony veio e me falou sobre roque.

— Foi, velhinho? O que foi que ele contou?

— Não me lembro bem. Somente Tony dizendo que os turnos são contados como no beisebol. Não é engraçado?

— É. — O coração de Jack batia forte. Como era possível o menino saber uma coisa dessas? Roque era jogado por turnos, não como no beisebol, mas como no críquete.

— Papai…? — Estava quase dormindo.

— O quê?

— O que é redrum?

— Red drum? Parece alguma coisa que os índios levam para a guerra.

Silêncio.

— Ei, velhinho?

Mas Danny dormia, ressonando, longa e lentamente. Jack se sentou, olhando o filho por um momento, e foi arrebatado por ondas de amor. Por que gritara com o menino? Era perfeitamente normal gaguejar um pouco.

Saíra de um estado de torpor ou alguma espécie estranha de transe, e a gagueira era perfeitamente normal naquelas circunstâncias. Perfeitamente. E

não teria dito cronômetro, de forma alguma. Devia ter sido outra coisa, bobagem, linguagem inarticulada.

Como sabia que roque era jogado em turnos? Quem teria lhe contado?

Ullman? Hallorann?

Olhou suas mãos. Os punhos cerrados e apertados pela tensão ( Deus, preciso de um gole)

e as unhas enterradas nas palmas como pequenas cicatrizes. Aos poucos, foi forçando para que abrissem.

— Eu amo você, Danny — sussurrou. — Só Deus sabe quanto.

Saiu do quarto. Mais uma vez perdera a calma, só um pouco, mas o bastante para se sentir mal e com medo. Um gole abrandaria essa sensação.

Ah, sim, abrandaria isso

(Alguma coisa a ver com o cronômetro)

e tudo o mais. Não havia a menor dúvida quanto àquelas palavras.

Nenhuma. Cada uma fora tão clara quanto o soar de um sino. Parou no corredor, olhou para trás e, automaticamente, enxugou os lábios com o lenço.

As silhuetas eram apenas formas negras no brilho do abajur. Wendy, já de pijama, foi até a cama de Danny e o cobriu novamente; ele havia se descoberto. Jack parou na porta, observando a esposa colocar a mão na testa do filho.

— Está com febre?

— Não. — Beijou seu rosto.

— Graças a Deus você marcou a consulta — disse ele, quando a mulher voltou para o quarto. — Acha que o cara entende esse tipo de coisa?

— O caixa do mercado disse que ele é muito bom. É só o que sei.

— Se houver algo de errado, vou mandar vocês dois para a casa de sua mãe, Wendy.

— Não.

— Eu sei como se sente — Jack falou enquanto a abraçava.

— Você não tem ideia de como me sinto em relação a ela.

— Wendy, não há outro lugar para onde vocês possam ir. Você sabe disso.

— Se você viesse…

— Sem este emprego, estamos liquidados — ele sentenciou, objetivo. —

Você sabe disso.

Sua silhueta concordou, vagarosa. Ela sabia.

— Quando fiz a entrevista com Ullman, achei que fosse conversa fiada.

Agora, não estou tão certo disso. Talvez não devesse ter me submetido a isso, junto com vocês. A sessenta quilômetros da civilização.

— Eu amo você. E Danny ama ainda mais. Se é que isso é possível. Ele ficaria com o coração partido, Jack. Vai ficar, se você nos mandar embora.

— Não coloque as coisas dessa maneira.

— Se o médico disser que há algo errado, vou procurar emprego em Sidewinder — informou ela. — Se não conseguir, Danny e eu voltaremos para Boulder. Não posso ir para a casa da minha mãe, Jack. Não nesta situação. Não me peça isso. Simplesmente… não posso.

— Acho que entendo. Vamos ter ânimo. Talvez não seja nada.

— Talvez.

— A consulta é às duas?

— Sim.

— Vamos deixar a porta do quarto aberta, Wendy.

— Está bem. Mas acho que ele vai dormir a noite inteira.

Mas não dormiu.

Bum… bum… bumbumBUMBUM…

Fugia dos sons pesados e estilhaçantes que ecoavam pelo labirinto de corredores, os pés descalços deslizando sobre uma espessa selva de azul e negro. Cada vez que ouvia o taco de roque ser batido contra a parede em algum ponto atrás de si, sentia vontade de gritar bem alto. Mas não devia.

Não devia. Gritando, se trairia e então

(então REDRUM)

( Venha aqui tomar seu remédio, seu chorão miserável! ) Ele ouvia o dono daquela voz vindo, à sua procura, correndo pelo corredor como um tigre numa selva hostil azul e negra. Um canibal.

( Venha aqui, seu pequeno filho da puta! )

Se conseguisse descer as escadas, se conseguisse sair deste terceiro andar, poderia ficar bem. Até o elevador. Se pudesse lembrar o que tinha sido esquecido. Mas estava escuro e, aterrorizado, perdera o rumo. Dobrava um corredor, e outro, o coração na boca como fogo e gelo, temendo que cada curva o levasse face a face com o tigre humano nos corredores.

O barulho agora estava bem atrás dele, o terrível grito rouco.

A cabeça do taco assobiava cortando o ar ( roque… ponto… roque… ponto… REDRUM)

antes de ser arremessado sobre a parede. O deslizar macio dos pés no tapete de selva. Na boca, o gosto amargo de pânico.

( Vai se lembrar do que foi esquecido… mas lembraria? O que era?) Fugiu por um outro corredor e notou, desesperado, que estava em um beco sem saída. Pelos três lados, as portas pareciam olhar para ele com censura. A ala oeste. Estava na ala oeste e podia ouvir a tempestade que gritava lá fora, uma garganta negra cheia de neve, parecendo sufocar.

Encostou-se na parede, chorando de medo, o coração agora batendo como o de um coelho apanhado numa armadilha. Quando suas costas estavam apoiadas no papel de parede azul-claro, suas pernas perderam a força e ele desabou, ofegante, sobre o tapete, as mãos abertas sobre a selva de trepadeiras e plantas trançadas.

Mais alto. Mais alto.

Havia um tigre no corredor, e agora estava já no outro corredor, ainda berrando naquela ira aguda, dominadora e alucinada, o taco de roque batendo, pois o tigre andava sobre duas patas e era…

Acordou sufocado, de repente; sentou-se na cama, de olhos arregalados e fixos no escuro, as mãos cruzadas sobre o rosto.

Alguma coisa na mão. Mexendo.

Vespas. Três.

Elas picaram a mão dele, todas de uma vez, como se fossem agulhas. E, quando todas as imagens se diluíram, caindo e caindo sobre ele como uma avalanche negra, Danny começou a gritar no escuro, as vespas agarradas à sua mão esquerda, picando sem parar.

As luzes se acenderam, e papai estava ali parado de calção, olhos penetrantes. Mamãe, atrás dele, sonolenta e apavorada.

— Tirem elas de mim! — gritava Danny.

— Ai, meu Deus — disse Jack. E viu.

— Jack, o que está acontecendo com ele? O quê?

O marido não respondeu. Correu para a cama, pegou o travesseiro de Danny e bateu com ele sobre a mão esquerda do filho. De novo. Wendy viu insetos grandes levantarem voo, zumbindo.

— Pegue uma revista! — gritou ele. — Mata elas!

— Vespas? — ela perguntou, e por um momento viu-se presa em si própria, praticamente sem ação. A raiva crescendo, e o raciocínio ligado à

emoção. — Vespas, Santo Deus, Jack, você disse…

— Cale a porra da boca e acabe com elas! — gritou ele. — Faça o que estou mandando!

Uma delas pousara sobre a escrivaninha de Danny. Wendy pegou um livro de colorir e bateu com ele sobre a vespa, deixando no local uma mancha marrom e viscosa.

— Tem mais uma na cortina — preveniu ele, passando por ela com Danny nos braços.

Levou o menino para seu quarto, deitando-o na cama de casal improvisada, no lado que pertencia a Wendy.

— Fique aí, Danny. Não volte até eu avisar. Entendeu? — Com o rosto cheio de lágrimas, Danny assentiu.

— Meu menino valente.

Jack correu até as escadas. Atrás, ouviu o barulho do livro de colorir sendo golpeado duas vezes e, em seguida, a mulher gritando de dor. Não parou e continuou escada abaixo, descendo os degraus de dois em dois, até o saguão escuro. Passou pelo escritório de Ullman a caminho da cozinha, batendo a coxa contra a quina da mesa de madeira do gerente, quase sem sentir.

Esbarrou nos objetos pendurados na parede da cozinha e foi à pia. Os pratos lavados do jantar ainda estavam empilhados no escorredor, onde Wendy os arrumara. Pegou a tigela grande de pirex que estava em cima. Um prato caiu no chão e quebrou. Jack ignorou, voltou pelo escritório e subiu as escadas.

Wendy estava parada na porta do quarto de Danny, ofegante. O rosto da cor de uma folha de papel. Os olhos brilhando e sem vida; o cabelo desalinhado caindo sobre o pescoço.

— Peguei todas — informou ela, estupidamente —, mas uma me picou.

Jack, você garantiu que estavam todas mortas. — Começou a chorar.

Jack passou por ela sem dizer nada e levou a tigela de pirex até o ninho, que estava imóvel ao lado da cama de Danny. Não havia nada ali. Pelo menos, no lado de fora. Abafou-o com a tigela.

— Isso — disse ele. — Vamos.

Voltaram ao quarto.

— Onde você foi picada?

— Meu… meu pulso.

— Vamos ver.

Ela mostrou. Exatamente em cima das linhas que separam a palma da mão do pulso, havia um pequeno círculo. A pele ao redor estava inchada.

— Você tem alergia a picadas de insetos? — perguntou. — Tente se lembrar! Se você for alérgica, Danny pode ser também. Os desgraçados picaram ele umas cinco ou seis vezes.

— Não — respondeu ela, mais calma. — Eu… só as odeio, é só. Odeio.

Danny estava sentado aos pés da cama, segurando a mão esquerda e olhando as picadas. Os olhos, cheios de susto, se voltaram para Jack de maneira reprovadora.

— Papai, você disse que tinha matado todas. Minha mão… tá doendo muito.

— Vamos ver, velhinho… não, não vou tocar. Isso faria doer ainda mais.

Só me mostre.

Mostrou e Wendy gemeu.

— Ah, Dann… Sua mãozinha!

Mais tarde, o médico contaria onze picadas diferentes. Agora, tudo o que conseguiam ver era uma mancha com pequenos buracos, como se a palma da mão e os dedos tivessem sido salpicados com pedacinhos de pimenta vermelha. Estava muito inchada. A mão começava a parecer com aquela de desenhos animados, quando o Pernalonga ou o Patolino se machucam com um martelo.

— Wendy, vá buscar aquele spray no banheiro — ele pediu.

Ela saiu, e Jack sentou-se junto do filho, passando um braço sobre seus ombros.

— Depois que aplicar o spray em sua mão, quero tirar umas fotos com a Polaroid, velhinho. E aí você vai dormir o resto da noite conosco, tá bom?

— Tá bom — respondeu Danny. — Mas por que você vai tirar fotos?

— Para a gente talvez processar uns canalhas.

Wendy voltou com o tubo de spray em formato de extintor de incêndio.

— Não vai doer, velhinho — disse ela, destampando o objeto.

Danny mostrou a mão e ela passou o spray dos dois lados, até a pele ficar brilhando. Ele deu um suspiro profundo.

— Dói muito? — perguntou Wendy.

— Não. Melhorou.

— Agora tome isto. Mastigue. — Falou enquanto lhe entregava cinco aspirinas infantis, sabor laranja.

Danny colocou as pastilhas na boca e as mastigou, uma por uma.

— Não é aspirina demais? — questionou Jack.

— Foram muitas picadas— retrucou ela, rispidamente. — Vá se livrar

daquele ninho, Jack Torrance. Agora mesmo.

— Um minuto só.

Jack foi ao armário e tirou a Polaroid da gaveta de cima. Procurou no fundo e encontrou alguns cubos de flash.

— Jack, o que está fazendo? — perguntou, um pouco histérica.

— Ele vai tirar umas fotos de minha mão — respondeu Danny, muito sério

— e aí a gente vai processar uns canalhas. Né, papai?

— É — confirmou Jack, sorrindo. Pôs um flash na máquina. — Estenda a mão, filho. Calculo uns cinco mil dólares por picada.

— Do que você está falando? — Wendy quase gritou.

— Vou te explicar. Segui as instruções daquela porra de bomba. Vamos processar esses canalhas. Aquela porcaria está com defeito. Só pode estar. De que outra forma se pode explicar isso?

— Ah — disse ela baixinho.

Jack tirou quatro fotografias, entregando cada revelação para Wendy escrever o horário. Ela o consultava no pequeno relógio que trazia pendurado no pescoço, como um medalhão. Danny, fascinado com a ideia de que suas picadas poderiam valer milhares e milhares de dólares, começou a perder o medo e ficar ativamente interessado. A mão latejava forte, e ele sentia um pouco de dor de cabeça.

Quando Jack guardou a máquina e espalhou as fotos sobre o gaveteiro para secar, Wendy perguntou:

— Será que a gente devia levá-lo ao médico hoje à noite?

— Não, a não ser que esteja doendo muito — respondeu Jack. — Se uma pessoa tem uma alergia séria ao veneno de vespas, reage em trinta segundos.

— Reage? O que você…

— Coma. Ou convulsões.

— Ah! Ai, meu Deus. — Cruzou os braços com força, pálida e abatida. —

Como está se sentindo, filho? Acha que consegue dormir?

Danny piscou. O pesadelo havia se transformado num cenário inexpressivo e estúpido em sua mente, mas ele ainda sentia medo.

— Se eu puder dormir com vocês…

— Claro — disse Wendy. — Ah, meu bem, desculpe.

— Tá tudo bem, mamãe.

Ela voltou a chorar, e Jack pousou as mãos sobre seus ombros.

— Wendy, juro que segui as instruções.

— Vai se livrar daquilo amanhã de manhã? Por favor?

— Claro que vou.

Os três foram para a cama juntos, e Jack já estava quase dormindo, quando resolveu se levantar de novo.

— Vou tirar uma foto do ninho também.

— Não demore.

— Já volto.

Foi ao armário, pegou novamente a máquina e o último flash. Fez um sinal de positivo para Danny, que sorriu e fez o mesmo sinal com a mão sadia.

Que garotão, pensou, enquanto ia para o quarto de Danny. Como se já não bastasse o que aconteceu.

A tigela ainda estava lá. Jack cruzou o beliche e, quando olhou para a mesa ao lado, ficou completamente arrepiado. Os cabelos do pescoço ficaram em pé.

Só com dificuldade podia ver o ninho através do vidro transparente da tigela. O interior do pirex estava cheio de vespas. Era difícil dizer quantas.

Pelo menos cinquenta. Talvez cem.

Com o coração batendo forte e devagar no peito, tirou as fotografias e pousou a máquina do lado enquanto esperava que as fotos fossem reveladas.

Enxugou os lábios com a palma da mão. Um pensamento se repetia em sua mente, ecoando com

( Perdeu o controle. Perdeu o controle. Perdeu o controle.) um temor quase supersticioso. Voltaram. Ele havia matado as vespas, mas elas voltaram.

Em sua mente, ouvia sua própria voz gritando no rosto do filho apavorado e chorando: Não gagueje.

Enxugou os lábios novamente.

Foi até a escrivaninha de Danny, fez uma busca nas gavetas e encontrou um quebra-cabeça com base de madeira. Voltou à mesinha de cabeceira e, com cuidado, deslizou o pirex e o ninho por cima da base. As vespas zumbiram raivosas dentro de sua prisão. Em seguida, pressionando a mão sobre o pirex para que não escorregasse, saiu para o corredor.

— Você vem para a cama, Jack? — perguntou Wendy.

— Vem pra cama, papai?

— Tenho que ir lá embaixo um instante — respondeu ele, fazendo voz suave.

Como isso foi acontecer? Como, pelo amor de Deus?

A bomba tinha funcionado. Ele vira a fumaça espessa e branca saindo,

quando puxou o anel. E, quando voltou duas horas depois, sacudira um mar de corpúsculos mortos do buraco.

Então, como? Regeneração espontânea?

Loucura. Besteira do século XVII. Insetos não passavam por regeneração espontânea. E, mesmo que ovos de vespas amadurecessem e se tornassem insetos adultos em doze horas, esta não era época de a rainha botar ovos.

Acontecia em abril ou maio. O outono era época de sua extinção.

Em uma contradição biológica, as vespas zumbiam furiosas debaixo do pirex.

Jack desceu com elas e passou pela cozinha. Nos fundos, havia uma porta que dava para fora. O vento frio da noite soprava contra seu corpo semidespido. Seus pés ficaram dormentes quase instantaneamente, descalços no piso de concreto frio da plataforma, onde as entregas de leite eram feitas durante a temporada do hotel. Pousou com cuidado a caixa e o pirex no chão e, quando se levantou, olhou o termômetro pendurado do lado de fora da porta.

O termômetro marcava quatro graus abaixo de zero. O frio mataria todas as vespas até o sol levantar. Entrou e fechou a porta com firmeza. Depois de refletir por um momento, resolveu trancá-la também.

Atravessou a cozinha novamente, apagou as luzes. Ficou parado por um instante na escuridão, pensando, desejando beber algo. De repente, o hotel parecia estar repleto de milhares de sussurros: estalos, gemidos e um assobio furtivo do vento sob as telhas, onde talvez mais ninhos de vespas estivessem pendurados como frutos venenosos.

Elas haviam voltado.

Num relance, descobriu que não gostava do Overlook tanto quanto antes.

Era como se não tivessem sido as vespas que picaram o filho, vespas que miraculosamente sobreviveram à bomba contra insetos, mas o próprio hotel.

O último pensamento antes de subir ao encontro da mulher e do filho ( daqui para a frente você vai conter seu gênio. Não importa como. ) foi firme, decidido e definitivo.

Enquanto atravessava o saguão, limpou os lábios com a mão.

17

NO CONSULTÓRIO

Só de cueca, deitado na maca de exame, Danny Torrance parecia muito pequeno. Olhava para o dr. (“Podem me chamar de Bill”) Edmonds, que empurrava uma grande máquina preta sobre rodinhas para o seu lado. Danny

o acompanhava com os olhos.

— Não se assuste com isso, cara — disse Bill Edmonds. — É uma máquina de eletroencefalograma, e não machuca.

— Eletro…

— O apelido é EE G. Vou grudar uma porção de fios em sua cabeça… Não, não vou colar, vou só prender com uma fita adesiva… e as canetinhas deste dispositivo vão registrar suas ondas cerebrais.

— Como no Homem de seis milhões de dólares?

— Mais ou menos a mesma coisa. Você quer ficar igual ao Steve Austin quando crescer?

— De jeito nenhum — respondeu Danny, enquanto a enfermeira começava a grudar os fios em pequenos pontos raspados de seu couro cabeludo. — Meu pai falou que, qualquer dia desses, ele vai dar um curto-circuito e vai… vai embarcar em canoa furada.

— Sei bem o que são essas canoas — comentou o dr. Edmonds muito cordialmente. — Já passei por isso algumas vezes e sem remo. Um EE G pode nos dizer uma porção de coisas, Danny.

— Como o quê?

— Como, por exemplo, se você tem epilepsia. Esse é um probleminha que…

— Sim. Eu sei o que é epilepsia.

— Sabe mesmo?

— Claro. Tinha um menino na escolinha em Vermont… ia para a escolinha quando era pequeno… e ele tinha epilepsia. Ele não podia usar o quadro luminoso.

— O que era isso, Dan? — O médico se voltou para a máquina. Traços finos começaram a riscar um caminho pelo papel.

— Tinha luzes de todas as cores. Quando você ligava, algumas luzes coloridas se acendiam, mas não todas. E você tinha que contar as cores e, se apertasse o botão certo, podia desligar. Brent não podia fazer isso.

— É porque luzes brilhantes, às vezes, causam um ataque epiléptico.

— O senhor quer dizer que ele poderia ter um chilique se usasse o quadro luminoso?

Edmonds e a enfermeira trocaram um olhar rápido e divertido.

— Não é muito elegante, mas colocado acuradamente, Danny.

— O quê?

— Falei que você está certo, mas é melhor dizer “acesso” em vez de

“chilique”. Essa palavra não é muito simpática… Vamos lá, fique parado como um poste.

— Tá bem.

— Danny, quando você tem esses… seja lá o que for, você se lembra de ver luzes brilhantes antes?

— Não.

— Ruídos engraçados? Campainhas? Sinos?

— Hã-hã.

— E o que me diz de um cheiro estranho, talvez laranjas ou serragem? Ou um cheiro de alguma coisa podre?

— Não, senhor.

— Às vezes tem vontade de chorar antes de desmaiar, mesmo não se sentindo triste?

— De jeito nenhum.

— Muito bem, então.

— Tenho epilepsia, dr. Bill?

— Acho que não, Danny. Fique quietinho aí. Está quase pronto.

A máquina zuniu e rabiscou por mais uns cinco minutos, e então o dr.

Edmonds a desligou.

— Tudo pronto, cara — Edmonds anunciou, alegre. — Deixe Sally tirar esses eletrodos e depois venha para a sala ao lado. Quero conversar um pouco com você. Está bem?

— Tá bem.

— Sally, continue e aplique o teste de agulha antes de ele vir.

— Sim.

Edmonds destacou o longo rolo de papel que a máquina expelira e foi para a outra sala, examinando-o.

— Vai ser só uma picadinha — informou a enfermeira, depois que Danny vestiu as calças. — É para termos certeza de que você não tem tuberculose.

— Aplicaram isso na minha escola, no ano passado — Danny comentou, sem interesse.

— Mas isso foi há muito tempo, e você agora já está crescido, certo?

— Acho que sim. — Danny suspirou, oferecendo o braço para o sacrifício.

Quando já estava vestido e calçado, passou pela porta e entrou na sala do dr. Edmonds. Ele estava sentado no canto da mesa, balançando as pernas pensativamente.

— Oi, Danny.

— Oi.

— Como está a mão agora? — Apontou para a mão esquerda de Danny, que estava levemente enfaixada.

— Quase boa.

— Ótimo. Verifiquei seu EE G e parece bom. Mas vou enviá-lo a um amigo meu de Denver que é especializado na leitura dessas coisas. Só quero ter certeza.

— Sim, senhor.

— Dan, eu gostaria de saber um pouco sobre Tony.

Danny arrastou os pés.

— Ele é apenas um amigo invisível — respondeu o garoto. — Inventei para me fazer companhia.

Edmonds riu e colocou as mãos sobre os ombros de Danny.

— Isso é o que seu pai e sua mãe dizem. Mas só entre nós, cara. Sou seu médico. Conte a verdade e prometo que não vou dizer nada a ninguém, a menos que você me autorize.

Danny pensou a respeito. Olhou para Edmonds e então, com um pequeno esforço de concentração, tentou captar os pensamentos do médico, ou pelo menos a cor do seu espírito. E, de repente, obteve uma imagem estranhamente reconfortante em sua cabeça: arquivos, gavetas deslizando uma após outra, sendo trancadas com um clique. Escrito nas pequenas plaquinhas, no centro de cada gaveta, estava: A-C, SECRETO; D-G, SECRETO; e assim por diante. Isso fez Danny se sentir mais tranquilo.

— Não sei quem é Tony — ele disse cautelosamente.

— Ele tem a sua idade?

— Não. Ele tem pelo menos onze anos. Acho que pode ser até mais velho.

Nunca vi o Tony de perto. Ele pode ter idade até para dirigir um carro.

— Você só o vê à distância, então?

— Sim, senhor.

— E ele sempre aparece justamente antes de você desmaiar?

— Bem, eu não desmaio. É como se eu fosse com ele. E ele me mostra coisas.

— Que tipo de coisas?

— Bem… — Danny relutou por um momento e então contou a Edmonds sobre o baú do pai com todos os seus escritos dentro, como os carregadores, afinal de contas, não o haviam perdido no caminho entre Vermont e o Colorado. O baú estivera embaixo da escada o tempo todo.

— E seu pai encontrou o baú onde Tony disse que ele encontraria?

— Sim, senhor. Só que Tony não me disse. Ele me mostrou.

— Entendo. Danny, o que Tony mostrou pra você ontem à noite? Quando você se trancou no banheiro.

— Não me lembro — respondeu Danny, rapidamente.

— Tem certeza?

— Sim, senhor.

— Há poucos momentos eu disse que você trancou a porta do banheiro.

Mas me enganei, não foi? Tony trancou a porta.

— Não, senhor. Tony não poderia trancar a porta, porque ele não é real.

Ele ordenou que eu fizesse isso, e obedeci. Tranquei a porta.

— Tony sempre lhe mostra onde estão as coisas perdidas?

— Não, senhor. Às vezes, ele me mostra coisas que ainda vão acontecer.

— É mesmo?

— É. Teve uma vez que Tony me mostrou os brinquedos e o parque de animais selvagens de Great Barrington. Tony me disse que papai ia me levar até lá no meu aniversário. E ele levou.

— O que mais ele mostra?

Danny franziu a testa.

— Cartazes. Está sempre me mostrando uns cartazes idiotas. E nunca consigo ler o que está escrito neles.

— E por que você acha que Tony faz isso, Danny?

— Não sei. — Os olhos de Danny brilharam. — Mas meu pai e minha mãe estão me ensinando a ler e tenho me esforçado.

— Assim você vai conseguir ler os cartazes de Tony.

— Bem, eu quero aprender de verdade. Mas isso também.

— Você gosta do Tony?

O garoto olhou para o chão ladrilhado e não disse nada.

— Danny?

— É difícil dizer — respondeu. — Eu gostava. Eu costumava esperar que ele viesse todo dia, porque sempre me mostrava coisas boas, principalmente depois que mamãe e papai pararam de pensar em divórcio. — Os olhos do dr.

Edmonds se aguçaram, mas Danny não percebeu, pois estava olhando fixamente para o chão, concentrado em se expressar bem. — Mas agora, sempre que ele vem, só me mostra coisas ruins. Coisas horríveis. Como no banheiro ontem à noite. As coisas que ele mostra me ferroam como as vespas me ferroaram. Só que as coisas do Tony me ferroam aqui em cima. — O menino apontou muito sério o dedo à testa, como uma arma. Uma criança inconscientemente parodiando o suicídio.

— Que coisas, Danny?

— Não consigo me lembrar! — gritou o menino, agoniado. — Se eu conseguisse, eu diria! Acho que não me lembro porque é tão ruim que não quero me lembrar. Tudo que me lembro quando acordo é REDRUM.

— Red drum ou red rum?

— Rum.

— O que é isso, Danny?

— Não sei.

— Danny?

— Senhor?

— Você conseguiria fazer Tony aparecer agora?

— Não sei. Ele nem sempre aparece. Eu nem sei se quero que ele apareça mais.

— Experimente, Danny. Vou ficar aqui.

Danny olhou para Edmonds, em dúvida. O médico balançou a cabeça, encorajando-o.

Danny emitiu um longo suspiro e concordou.

— Mas não sei se vai funcionar. Nunca fiz na frente de outra pessoa. E, de qualquer forma, o Tony não aparece sempre.

— Se não aparecer, não apareceu — disse Edmonds. — Só quero que você experimente.

— Está bem.

O garoto olhou para baixo em direção aos mocassins de Edmonds que balançavam devagar e dirigiu sua mente para o pai e a mãe. Estavam aqui em algum lugar… exatamente por trás daquela parede com o quadro pendurado.

Na sala de espera por onde entraram. Sentados lado a lado, mas em silêncio.

Folheando revistas. Preocupados. Com ele.

Concentrou-se mais profundamente, as sobrancelhas franzidas, tentando localizar o pensamento da mãe. Era sempre mais difícil quando não estavam com ele. Começou então a captar. Mamãe pensava na irmã. Irmã dela. A irmã estava morta. Wendy pensava que aquilo fora a principal coisa que transformara sua mãe numa

( vaca? )

velha chata. Porque sua irmã morrera. Quando menina, ela era ( atropelada ai deus não poderia nunca aguentar alguma coisa assim

novamente como aileen mas e se ele estivesse doente realmente realmente doente com câncer meningite leucemia tumor cerebral como o filho de john gunther ou distrofia muscular ai minha nossa crianças nessa idade têm leucemia radioterapia o tempo todo quimioterapia não temos condições para pagar coisas desse tipo mas naturalmente não podem em absoluto deixá-lo morrer no meio da rua e de qualquer forma ele está bem bem bem você não devia ficar pensando)

( Danny…)

( sobre aileen e)

( Dannii…)

( aquele carro)

( Danni…)

Mas Tony não estava ali. Somente sua voz. Enquanto a voz se afastava, Danny a seguia pela escuridão, caindo e rolando por algum buraco mágico entre os mocassins do dr. Bill que balançavam, passando por ruídos altos de pancadas, mais adiante, uma banheira navegava silenciosamente na escuridão com alguma coisa horrível dentro dela, passando pelo doce dobrar dos sinos da igreja, e, ainda, por um relógio dentro de uma redoma de vidro.

A escuridão foi então penetrada por uma única lâmpada fraca, ornada com teias de aranha. O brilho frágil exibia um chão de pedra que parecia úmido e desagradável. De algum lugar não muito distante, ouvia-se um ruído mecânico constante, mas em surdina, sem assustar. Soporífero. O tipo da coisa que podia ser esquecida, pensou Danny, com vaga surpresa.

Quando seus olhos se adaptaram às trevas, pôde ver a silhueta de Tony na sua frente. Tony observava alguma coisa e Danny forçou os olhos para ver o que era.

( Seu pai. Está vendo seu pai? )

Claro que via. Como poderia deixar de vê-lo, mesmo sob a lâmpada fraca do porão? Papai estava ajoelhado no chão, jogando a luz da lanterna em cima de caixas de papelão e caixotes de madeira. As caixas de papelão eram velhas e apodrecidas; algumas estavam estouradas, deixando papéis caídos no chão.

Jornais, livros, pedaços de papel impresso que pareciam notas fiscais. Papai examinava tudo com grande interesse. Em seguida, papai olhou para cima e virou a lanterna para outra direção. O feixe de luz iluminou outro livro, um livro grande, branco, amarrado com um cordão dourado. A capa parecia de couro branco. Era um álbum de recortes. Danny, de repente, sentiu necessidade de chamar o pai, avisar que deixasse o álbum ali, que alguns

livros não deviam ser abertos. Mas o pai subia para apanhá-lo.

Danny agora reconhecia o rugido mecânico como vindo da caldeira do Overlook, aquela que papai conferia três ou quatro vezes ao dia. O ruído que produzia era ritmado e profético. Começava a soar como… como pancada. E

o cheiro de mofo, umidade e papel podre transformava-se em outra coisa…

em cheiro forte do Coisa Ruim. Flutuava sobre o pai como vapor enquanto ele subia para pegar o livro… e agarrá-lo.

Tony estava em algum lugar na escuridão

( Este lugar desumano cria monstros humanos. Este lugar desumano) repetindo sem parar a mesma coisa sem nexo.

( cria monstros humanos)

Mergulhou novamente na escuridão, acompanhado pelo forte trovão de pancadas, que já não era mais da caldeira, mas um som de um taco assobiador batendo contra as paredes de papel de seda, lançando baforadas de pó de gesso e rastejando inutilmente sobre o tapete de selva azul e negra.

(Saia)

( Este lugar desumano)

( e tome seu remédio! )

( cria monstros humanos. )

Com um suspiro que ecoou em sua própria cabeça, ele se arrancou da escuridão. Sentiu mãos sobre ele. A princípio ficou apavorado, pensando que aquela coisa sombria no Overlook, do mundo de Tony, o tinha seguido, de alguma forma, ao mundo das coisas reais… mas logo depois escutou a voz do dr. Edmonds:

— Está tudo bem, Danny. Está bem. Está tudo bem.

Danny reconheceu o médico e os contornos do consultório. Começou a tremer sem parar. Edmonds o abraçou.

Quando a reação começou a diminuir, Edmonds perguntou:

— Você falou alguma coisa sobre monstros, Danny… O que era?

— Este lugar desumano — disse o garoto, roucamente. — Tony me falou… este lugar desumano… cria… cria… — Balançou a cabeça. — Não consigo me lembrar.

— Tente!

— Não consigo.

— Tony apareceu?

— Sim.

— O que foi que ele lhe mostrou?

— Escuro. Pancadas. Não me lembro.

— Onde estava?

— Me deixe em paz! Não me lembro! Me deixe em paz! — Começou a soluçar, sem parar, de medo e frustração. Tudo havia desaparecido, dissolvido na desordem, como uma pilha de documentos em papel molhado, a memória ilegível.

Edmonds foi ao bebedouro e trouxe um copo d’água. Danny bebeu, e Edmonds trouxe outro.

— Melhor?

— Sim.

— Danny, não quero incomodar você… nem que fique chateado com isso, realmente não quero. Mas consegue se lembrar de alguma coisa antes de Tony aparecer?

— Minha mãe — respondeu Danny devagar. — Ela está preocupada comigo.

— As mães sempre se preocupam, cara.

— Não… Mamãe tinha uma irmã que morreu quando era menina. Aileen.

Ela estava pensando em como Aileen foi atropelada por um carro, e por isso ela está preocupada comigo. Não me lembro de mais nada.

Edmonds o olhava fixamente.

— Ela estava pensando nisso agora mesmo? Na sala de espera?

— Sim, senhor.

— Danny, como sabe?

— Não sei — disse Danny pálido. — Acho que é a iluminação.

— O quê?

Danny meneou a cabeça devagar.

— Estou muito cansado. Posso ver minha mãe e meu pai? Não quero mais responder. Estou cansado. E meu estômago está doendo.

— Vai vomitar?

— Não, senhor. Só quero ver minha mãe e meu pai.

— O.k., Dan. — Edmonds se levantou. — Vá, fique com eles por um minuto e depois peça para eles entrarem. Gostaria de conversar com eles.

Está bem?

— Sim, senhor.

— Há livros lá fora para você olhar. Você gosta de livros, não gosta?

— Sim, senhor — falou Danny obediente.

— Você é um bom menino, Danny.

O menino respondeu com um vago sorriso.

— Não encontrei nada de errado nele — o dr. Edmonds informou aos Torrance. — Fisicamente, nada. Mentalmente, ele é inteligente e muito imaginativo. Isso é normal. As crianças precisam de estímulos para extravasar a imaginação. E a de Danny é muito grande. Seu Q.I. já foi testado alguma vez?

— Não acredito nesses testes — respondeu Jack. — Eles delimitam as expectativas tanto dos pais quanto dos professores.

Dr. Edmonds concordou.

— Pode ser. Mas, se testarem, apurarão que ele não está na escala de sua faixa etária. Sua habilidade verbal, para um menino de cinco, quase seis anos, é extraordinária.

— Nós conversamos normalmente com ele, sem usar vocabulário infantil

— falou Jack, com traços de orgulho.

— Duvido que vocês precisem simplificar a fala para se fazerem entender.

— Edmonds fez uma pausa, batendo com a caneta. — Ele entrou em transe enquanto esteve comigo. A meu pedido. Exatamente como vocês o descreveram no banheiro ontem à noite. Os músculos frouxos, o corpo caído, os olhos girando. Auto-hipnose. Fiquei assombrado. Ainda estou.

Os Torrance se inclinaram mais para a frente.

— O que aconteceu? — perguntou Wendy tensa. Edmonds, com cuidado, relatou o transe de Danny, a frase murmurada, da qual só conseguira arrancar as palavras “monstros”, “escuro”, “pancada”. As lágrimas, a quase histeria e a dor de estômago nervosa, como consequência.

— Tony outra vez — falou Jack.

— O que isso tudo significa? — perguntou Wendy. — O senhor tem alguma ideia?

— Algumas. Podem não gostar delas.

— Continue, mesmo assim — pediu Jack.

— Pelo que Danny me contou, seu “amigo invisível” era realmente um amigo até que vocês se mudaram da Nova Inglaterra para cá. Tony só se tornou uma figura ameaçadora depois da mudança. Os lapsos, antes agradáveis, tornaram-se pesadelos ainda mais assustadores, pois Danny não consegue se lembrar deles com clareza. Isso é bastante comum. Todos nós conseguimos nos lembrar com mais clareza de nossos sonhos agradáveis do que daqueles que nos amedrontam. Parece haver um tampão em algum lugar entre o consciente e o subconsciente, e uma porção de censores puritanos

mora ali. Estes censores só permitem a entrada de algumas poucas informações e, em geral, o que entra é apenas simbólico. É simplificar demais Freud, mas descreve razoavelmente o que sabemos sobre a interação da mente com ela própria.

— O senhor acha que a mudança perturbou Danny tanto assim? — indagou Wendy.

— Pode ser, se aconteceu sob circunstâncias traumatizantes — respondeu Edmonds. — Aconteceu?

Wendy e Jack trocaram olhares.

— Eu era professor em uma escola preparatória — disse Jack, devagar. —

Perdi o emprego.

— Entendo — falou Edmonds, colocando a caneta com que brincava firmemente no porta-caneta. — Temo que haja mais uma coisa. Pode ser doloroso para vocês. Ele parece acreditar que vocês dois tenham considerado seriamente a possibilidade de um divórcio. Falou disso, muito por alto, mas apenas porque acredita que não estejam mais cogitando o fato.

Jack ficou boquiaberto, e Wendy recuou como se tivesse levado um tapa.

O sangue fugiu de seu rosto.

— Nós nunca nem discutimos isso! — ela exclamou. — Nem diante dele, nem mesmo diante um do outro! Nós…

— Acho que seria melhor se o senhor entendesse tudo, doutor —

interrompeu Jack. — Pouco tempo depois que Danny nasceu, eu me tornei um alcoólatra. Tive problemas com a bebida durante toda a faculdade. Depois que Wendy e eu nos conhecemos, diminuiu um pouco, mas reapareceu ainda pior depois que nosso filho nasceu, pois minha capacidade de escrever, o que considero meu verdadeiro trabalho, diminuiu. Na época em que Danny tinha três anos e meio, derramou cerveja numa porção de papéis em que eu estava trabalhando… papéis que, de qualquer forma, eram só uma peça teatral… e eu… bem… que merda. — Sua voz falhou, mas os olhos continuaram secos e firmes. — Parece que eu sou uma porra de animal, quando se diz isso em voz alta. Quebrei o braço dele, quando fui virá-lo para lhe dar umas palmadas.

Três meses depois, larguei a bebida. E desde então não toquei mais nela.

— Entendo — Edmonds disse, impassível. — Sabia que o braço havia sido quebrado, evidentemente. A fratura está sendo bem cicatrizada. — Afastou-se um pouco da mesa e cruzou as pernas. — Se posso ser franco, fica claro que ele não sofreu mais nenhum tipo de abuso desde então. Exceto pelas picadas, não há nada errado com ele. Apenas machucados e cicatrizes normais que

qualquer criança tem em abundância.

— Claro que não há nada — Wendy respondeu com violência… — Jack não quis…

— Não, Wendy — interrompeu Jack. — Quis sim. Acho que lá no fundo de mim mesmo fiz com ele realmente o que queria. Ou alguma coisa ainda pior. — Olhou de volta para Edmonds. — Sabe de uma coisa, doutor? Esta é a primeira vez que a palavra divórcio é mencionada entre nós. E alcoolismo.

E violência contra crianças. Três primeiras vezes em cinco minutos.

— Isso pode ser a raiz do problema — falou Edmonds. — Não sou psiquiatra. Se quiserem que Danny seja consultado por um psiquiatra infantil, posso recomendar um médico muito bom que trabalha no Centro Médico de Boulder. Mas estou seguro do meu diagnóstico. Danny é um menino inteligente, com muita imaginação e sensibilidade. Não creio que esteja tão triste com seus problemas conjugais quanto vocês acham. Crianças pequenas aceitam bem as coisas. Não entendem a vergonha, ou a necessidade de esconder coisas.

Jack estudava as mãos. Wendy segurou uma delas com firmeza.

— Mesmo assim, ele percebeu as coisas que estavam erradas — continuou o médico. — A principal delas, do ponto de vista dele, não era o braço quebrado, mas a quebra do laço entre vocês dois. Mencionou o divórcio para mim, mas não o braço quebrado. Quando a enfermeira mencionou a redução da fratura para ele, ele simplesmente ignorou. Não era nada de mais para ele.

“Foi há muito tempo”, acho que ele disse.

— Esse menino — resmungou Jack. Os maxilares apertados, os músculos da face salientes. — Nós não merecemos esse menino.

— Mas vocês o têm, apesar de tudo — respondeu Edmonds secamente. —

De qualquer forma, ele se isola, por vezes, no mundo da fantasia. Não há nada de incomum; muitas crianças fazem isso. Até onde me lembro, eu mesmo tive meu amigo invisível quando era da mesma idade, um galo falante chamado Chug-Chug. Naturalmente ninguém via Chug-Chug, a não ser eu.

Tinha dois irmãos mais velhos que sempre me deixavam para trás, e nessas horas Chug-Chug era muito útil. E, é claro, vocês dois devem entender por que o amigo invisível de Danny se chama Tony, em vez de Mike, Hal ou Dutch.

— Sim — afirmou Wendy.

— Alguma vez já explicaram isso a ele?

— Não — respondeu Jack. — Deveríamos?

— Por que se preocupar? Deixem que ele perceba na hora certa, por sua própria lógica. Vejam bem, as fantasias de Danny eram consideravelmente mais profundas do que as que crescem em torno da síndrome de amigo invisível em geral, mas ele sentia que precisava de Tony. O amigo aparecia e mostrava coisas agradáveis. Às vezes, coisas surpreendentes. Mas sempre coisas boas. Uma vez Tony mostrou onde estava o baú do pai que estava perdido… debaixo da escada. Outra vez, Tony mostrou que papai e mamãe o levariam a um parque de diversões no aniversário…

— Em Great Barrington! — exclamou Wendy. — Mas como poderia saber essas coisas? É estranho como ele diz algumas vezes certas coisas.

Quase como se…

— Fosse um vidente? — completou Edmonds, sorrindo.

— Ele nasceu com a cabeça envolta no saco amniótico — Wendy comentou, vacilante.

O sorriso de Edmonds transformou-se numa gargalhada. Jack e Wendy trocaram olhares e, em seguida, também sorriram, ambos espantados com a simplicidade da conversa. As “felizes suposições” que Danny fazia sobre os fatos eram outro assunto sobre o qual não haviam discutido muito.

— Daqui a pouco vocês vão me dizer que ele levita — brincou Edmunds, ainda sorrindo. — Não, não, não, acho que não. Não há nada de extrassensorial, mas apenas a velha percepção humana. No caso de Danny, é extraordinariamente aguda. Sr. Torrance, ele me contou que o baú estava debaixo da escada, porque o senhor já havia procurado por todos os outros lugares. Processo de eliminação. É tão simples que Ellery Queen riria disso.

Mais cedo ou mais tarde, vocês mesmos concluiriam. Por exemplo, o parque de diversões de Great Barrington, de quem foi a ideia original? De vocês ou dele?

— Dele, claro — respondeu Wendy. — Anunciavam em todos os programas infantis matinais. Ele estava louco para ir. Mas o negócio, doutor, é que não tínhamos condições de levá-lo. E a gente disse isso a ele.

— Então, uma revista masculina, onde eu havia publicado um conto em 1971, me enviou um cheque de cinquenta dólares — disse Jack. — Iam republicar meu conto na edição anual, ou coisa do gênero. Então, decidimos gastá-los com Danny.

Edmonds encolheu os ombros.

— A satisfação de um desejo somada a uma feliz coincidência.

— Diabos. Você tem razão — concordou Jack.

Edmonds sorriu.

— E o próprio Danny me disse que frequentemente Tony mostrava coisas que nunca aconteciam. São apenas visões baseadas em falsa percepção.

Danny está fazendo, subconscientemente, o que as pessoas conhecidas como místicas e leitores da mente fazem, porém com consciência e cinismo. Isso é admirável nele. Se a vida não se encarregar de inibir suas antenas, acho que será um grande homem.

Wendy concordou com a cabeça — claro que pensava que Danny seria um grande homem —, mas a explicação do médico era uma lenga-lenga. Tinha mais gosto de margarina do que de manteiga. Edmonds não morava com eles.

Não estava lá quando Danny encontrou botões perdidos, quando soube que o Guia de TV estava debaixo da cama. Nem quando Danny falou que achava melhor usar galochas para ir à escolinha, mesmo fazendo sol lá fora… e mais tarde, naquele dia, tiveram que voltar para casa usando guarda-chuva.

Edmonds não podia saber do modo curioso como Danny previa coisas. Ela decidia, de repente, tomar uma xícara de chá; ia à cozinha e encontrava a xícara já com o saco de chá dentro. Lembrava que precisava devolver os livros para a biblioteca, e os encontrava arrumados e empilhados na mesa da sala, com o cartão da biblioteca em cima. Ou Jack resolvia encerar o fusca e encontrava Danny já lá fora, escutando seu rádio de pilha, sentado na calçada, para observar o pai.

Ela disse alto:

— Então, por que os pesadelos? Por que Tony mandou que ele trancasse a porta do banheiro?

— Creio que seja porque Tony já perdeu sua utilidade — respondeu Edmonds. — Ele nasceu… Tony, não Danny… em uma época em que a senhora e seu marido se esforçavam por manter seu casamento de pé. Seu marido bebia demais. Houve o incidente do braço quebrado. O silêncio agourento entre vocês.

Silêncio agourento. Sim, aquela expressão era verdadeira em todas as formas. As refeições duras e tensas onde a única conversa era por favor, passe a manteiga, ou Danny, coma o resto das cenouras, ou com licença, por favor. As noites em que Jack saía e a mãe se deitava no sofá, os olhos vermelhos, enquanto Danny assistia à televisão. As manhãs em que Jack e ela se espreitavam silenciosamente, como dois gatos enfurecidos com um rato tremendo de medo entre eles… Era tudo verdade,

(santo Deus, cicatrizes antigas algum dia param de doer?)

verdade nua e crua.

Edmonds prosseguiu.

— Mas as coisas mudaram. Vocês sabem, o comportamento esquizoide é algo perfeitamente comum em crianças. É aceitável, pois todos nós, adultos, temos uma opinião inexprimível de que as crianças são lunáticas. Têm amigos invisíveis. Podem se sentar no armário quando deprimidas, esquivando-se do mundo. Dão uma importância talismânica a um cobertor em especial, ou a um ursinho, ou a um tigre de pelúcia. Chupam o dedo.

Quando um adulto vê coisas, o consideramos pronto para o asilo de loucos.

Quando uma criança diz ver alguma coisa em seu quarto ou um vampiro na janela, nós nos limitamos a rir, indulgentes. Temos uma frase que serve de explicação para tais fenômenos em crianças…

— “Vai passar” — completou Jack.

Edmonds piscou.

— É exatamente o que penso — concordou o médico. — Sim. Agora, diria que Danny esteve numa situação propícia para desenvolver uma psicose total.

Vida familiar infeliz, imaginação fértil, o amigo secreto, que era tão real para ele e que se tornou real também para vocês. Em vez de a esquizofrenia infantil ter passado, Danny poderia ter muito bem mergulhado nela.

Continuar: parte 3 de 5