O Iluminado

Stephen King · Capítulo 3 de 9 · parte 4/5

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O Iluminado

Terceira parte: O ninho de vespas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Então ele tinha caído, e daí? Era apenas um extintor de incêndio, nada mais. Era bobagem pensar que parecia uma cobra venenosa do Mundo dos animais que escutara seus passos e resolvera acordar. Simplesmente passaria por cima e caminharia em direção à escada, indo um pouco mais rápido, talvez para ter certeza de que a mangueira não sairia correndo atrás dele e não se enrolaria em seu pé.

Enxugou os lábios com a mão esquerda, numa imitação inconsciente do pai, e deu um passo à frente. Nenhum movimento da mangueira. Outro passo.

Nada. Está vendo como você é bobo? Ficou esse tempo todo imaginando tudo isso, pensando naquele apartamento idiota e naquela história idiota de Barba Azul, e provavelmente essa mangueira estivesse pronta para desabar há anos. Só isso.

Danny olhou fixo para a mangueira no chão e pensou nas vespas.

A oito passos de distância, o bocal reluzia pacificamente como se dissesse: Não tenha medo. Sou só uma mangueira, só isso. E, mesmo que não fosse só isso, o que eu faria a você não seria pior do que a ferroada de uma abelha.

Ou a ferroada de uma vespa. O que eu poderia fazer com um menininho bonzinho como você… senão morder… morder… e morder?

Danny deu mais um passo, depois outro. A respiração seca e áspera na garganta. O pânico agora estava próximo. Começou a desejar que a mangueira se movesse, e então finalmente saberia, teria certeza. Deu mais um passo e estava agora surpreendentemente próximo. Mas ela não vai bater em você, pensou histérico. Como pode bater, morder, sendo somente uma mangueira?

Talvez esteja cheia de vespas.

Sentia como se estivesse congelado por dentro. Olhou fixamente para o buraco negro no meio do bocal, quase hipnotizado. Talvez estivesse cheio de vespas, vespas secretas, marrons e inchadas de veneno; tão cheias de veneno do outono, que escorria de seus ferrões em gotas claras de fluido.

De repente, descobriu que estava mesmo quase congelado de terror; se não fizesse com que seus pés andassem agora, eles ficariam presos ao tapete e ele permaneceria ali, olhando para o buraco negro no meio do bocal de latão como um passarinho olhando uma cobra. Ficaria ali até que o pai o encontrasse. E, então, o que aconteceria?

Com um gemido alto, se obrigou a correr. Ao chegar à mangueira, uma ilusão de ótica fez o focinho parecer movimentar-se, remexer como se fosse atingi-lo, e o menino saltou alto por sobre a mangueira. Em seu estado de pânico, parecia que as pernas o empurraram quase até o teto, que podia sentir os cabelos rígidos que formavam seu topete tocando o teto de gesso do corredor, apesar de mais tarde ter percebido que nada disso havia acontecido.

Danny passou pelo outro lado da mangueira e correu. De repente, podia escutá-la seguindo-o, o ríspido ranger daquela cabeça de cobra de latão enquanto ela escorregava pelo tapete atrás dele como uma cascavel se movimentando velozmente por um gramado seco. Ela vinha em sua direção e, de repente, a escada parecia muito distante; parecia recuar um passo para cada passo que Danny dava tentando alcançá-la.

Papai! Tentou gritar, mas a garganta fechada não deixava o som passar.

Estava sozinho. Atrás dele o ruído aumentava, o som seco da cobra deslizando rapidamente sobre as fibras secas do tapete. Agora estava perto dos seus calcanhares, talvez se levantando com a saliva venenosa escorrendo do focinho de latão.

Danny chegou à escada e teve que girar os braços de modo frenético, para se equilibrar. Por um momento, pensou que acabaria dando cambalhotas até chegar ao primeiro andar.

Olhou para trás.

A mangueira não tinha se movido. Estava ali, estática, uma parte fora do suporte, o bocal de latão no chão apontando desinteressadamente para longe dele. Está vendo, idiota?!, censurou-se. Você imaginou tudo, seu gatinho assustado. Foi tudo sua imaginação, gatinho assustado, gatinho assustado.

Agarrou-se ao corrimão, as pernas trêmulas.

( Aquilo nunca seguiu você)

sua mente repetia, e prosseguiu com este pensamento, brincando com ele.

( Nunca seguiu você, nunca seguiu você, nunca fez isso, nunca fez isso) Não havia nada a temer. Assim, poderia voltar e pôr a mangueira no suporte, se quisesse. Poderia, mas não achava que iria. Mas, e se ela tivesse resolvido segui-lo, e desistido quando viu que não podia… na verdade…

pegá-lo?

A mangueira repousava sobre o tapete, parecendo perguntar se ele não gostaria de voltar e tentar novamente.

Ofegante, Danny desceu as escadas.

20

CONVERSANDO COM O SR. ULLMAN

A biblioteca pública de Sidewinder era um edifício pequeno e insignificante, a um quarteirão do comércio da cidade. Era um prédio modesto, coberto de trepadeiras, e a calçada larga de concreto que ia até a porta estava forrada de flores do último verão, já secas. No jardim havia uma estátua de bronze de um general da Guerra Civil, de quem Jack nunca ouvira falar, apesar de na adolescência ter sido um estudioso da história norte-americana.

Os arquivos de jornais eram mantidos no subsolo. O acervo consistia na Gazeta, de Sidewinder, falida em 1963, no Diário, de Estes Park, e no Boulder Camera. Nenhum jornal de Denver.

Suspirando, Jack escolheu o Camera.

Quando os arquivos chegaram a 1965, os jornais haviam sido substituídos por carretéis de microfilmes (“Uma verba concedida pelo governo federal”, dissera a bibliotecária alegremente. “Esperamos poder microfilmar de 1958 a 1964, quando o próximo cheque chegar, mas eles demoram tanto, não é? Vai ter cuidado, não vai? Sei que você vai. Se precisar de mim, é só chamar.”) A única máquina de leitura tinha uma lente que, sabe-se lá como, havia ficado distorcida. Quando Wendy pousou a mão sobre seu ombro, cerca de quarenta e cinco minutos depois de Jack ter largado os jornais e passado a utilizar a máquina, ele estava com uma tremenda dor de cabeça.

— Danny está no parque — disse ela —, mas não quero que fique lá fora muito tempo. Quantos minutos acha que vai levar ainda?

— Dez minutos — pediu Jack. Na realidade, acabava de descobrir o último tópico da fascinante história do Overlook: os anos entre o massacre e a entrada de Stuart Ullman e Cia. Mas sentiu a mesma resistência em contar a Wendy.

— O que você está fazendo, afinal? — perguntou ela, bagunçando o cabelo

dele enquanto falava, porém com uma ponta de ironia na sua voz.

— Pesquisando a história antiga do Overlook — respondeu ele.

— Alguma razão especial?

— Não,

( e por que diabos você está tão interessada? ) só curiosidade.

— Encontrou alguma coisa interessante?

— Nada de mais — falou, fazendo um esforço para manter um tom de voz agradável. Ela estava se intrometendo, da mesma maneira que sempre se intrometia na vida dele quando estavam em Stovington e Danny ainda era um bebê. Onde vai, Jack? A que horas volta? Está levando dinheiro? Quanto?

Vai de carro? Al vai com você? Algum dos dois vai ficar sóbrio? E assim por diante. Ela, perdoem a expressão, foi quem o levou a beber. Talvez essa não fosse a única razão, mas, por Nosso Senhor Jesus Cristo, vamos ser sinceros aqui, e admitamos que foi uma delas. Reclamando, reclamando, reclamando até você sentir vontade de lhe dar um soco para que ela calasse a boca e acabasse com

( Onde? Quando? Como? Está? Vai? )

a avalanche de perguntas. Dava realmente

( dor de cabeça? ressaca? )

dor de cabeça. A lente. A desgraçada da lente que distorcia a impressão.

Era por isso que estava com uma dor de cabeça tão filha da puta.

— Jack, você está bem? Está pálido…

Ele afastou a cabeça dos dedos da esposa com um gesto violento.

— Estou bem.

Wendy recuou diante dos olhos raivosos do marido com um sorriso sem graça.

— Bem… se você está… vou esperar no parquinho com Danny… — E, ao se afastar, o sorriso se transformou em uma confusa expressão de dor.

— Wendy? — chamou Jack.

Ela voltou o olhar e, do pé da escada, respondeu:

— Que foi, Jack?

Ele se levantou e caminhou até ela.

— Desculpe, amor. Acho que não estou bem. Aquela máquina… a lente está ruim. Estou com uma dor de cabeça desgraçada. Tem algum remédio aí?

— Claro. — Tateou a bolsa e tirou uma caixinha de aspirina. — Fique com ela.

Ele pegou a caixinha.

— Não tem Excedrin? — Percebeu a pequena retração no rosto da esposa e entendeu. Existia uma espécie irônica de piada entre os dois, antes de a bebida ter se tornado algo muito sério para brincadeiras. Ele alegava que Excedrin era o único remédio vendido, sem prescrição médica, capaz de curar uma ressaca. Simplesmente, o único. Começou a classificar as dores de cabeça causadas por ressacas como Dores de Cabeça Excedrin No Vat 69.

— Nada de Excedrin — respondeu Wendy. — Desculpe.

— Sem problemas — afirmou ele. — Estes servem. — Mas é claro que não serviriam, e ela deveria saber. Às vezes, ela conseguia ser uma vaca estúpida.

— Quer um copo d’água? — perguntou Wendy, alegre.

( Não, só quero que você VÁ PARA O INFERNO! )

— Eu pego um pouco no bebedouro quando subir. Obrigado.

— Está bem. — Começou a subir as escadas, as pernas bonitas movendo-se graciosamente debaixo de uma saia curta de lã bege. — Estaremos no parque.

— Certo. — Jogou a caixinha de aspirina no bolso, voltou para a lente e a desligou. Quando se certificou de que a esposa tinha ido embora, ele subiu as escadas. Deus, que dor de cabeça terrível. Se era preciso aguentar uma pressão absurda como esta, você deveria ter pelo menos a permissão para tomar alguns drinques, como compensação.

Tentou afastar esse pensamento, mais nervoso do que nunca. Caminhou até o balcão principal, segurando uma caixa de fósforos com um número de telefone escrito na capa.

— Madame, a senhora tem telefone público?

— Não, senhor, mas pode usar o meu, se a ligação for local.

— É interurbano, desculpe.

— Bem, então acho que a farmácia seria o melhor lugar. Eles têm uma cabine.

— Obrigado.

Saiu, passou pelo desconhecido general da Guerra Civil. Começou a andar em direção ao comércio, mãos enfiadas nos bolsos, a cabeça batendo como um sino de chumbo. O céu também estava como chumbo: era 7 de novembro, e com o novo mês o tempo tornava-se ameaçador. Houve algumas nevascas.

Caiu neve em outubro também, mas essa já derretera. As nevadas recentes haviam permanecido, uma cobertura leve sobre tudo, brilhando ao sol como

puro cristal. No entanto, o sol não brilhara hoje e, quando Jack chegou à farmácia, estava nevando mais uma vez.

A cabine telefônica ficava nos fundos do prédio, e Jack estava no meio da ala de remédios controlados, sacudindo as moedas dentro do bolso, quando seus olhos bateram nas caixas brancas com letras verdes. Pegou uma, levou uma ao caixa, pagou e voltou à cabine telefônica. Fechou a porta, colocou as moedas e a caixa de fósforos na prateleira e discou zero.

— Sua chamada, por favor?

— Telefonista, para Fort Lauderdale, Flórida. — Informou o número de lá e o número da cabine. Quando foi avisado que a ligação custaria um dólar e noventa centavos pelos primeiros três minutos, depositou oito moedas de 25

centavos, estremecendo a cada vez que o sinal batia em seu ouvido.

Em seguida, atento aos sinais distantes da ligação sendo feita, tirou o vidro verde de Excedrin do bolso, examinou a tampa branca e jogou o chumaço de algodão no chão da cabine. Apoiando o telefone entre a cabeça e o ombro, pegou três comprimidos brancos e os alinhou sobre o balcão, ao lado das moedas restantes. Tampou o vidro e guardou de volta no bolso.

Do outro lado, o telefone foi atendido ao primeiro sinal.

— Surf-Sand Resort, como podemos ajudar? — perguntou uma voz feminina muito viva.

— Gostaria de falar com o gerente, por favor.

— O senhor quer dizer o sr. Trent ou…

— Quero dizer o sr. Ullman.

— Creio que o sr. Ullman esteja ocupado, mas se quiser posso verificar…

— Eu quero. Avise a ele que é Jack Torrance, ligando do Colorado.

— Um momento, por favor.

A antipatia que Jack sentia por aquele babaquinha pretensioso e pão-duro do Ullman o inundou novamente. Ele pegou um dos Excedrins da prateleira, ficou olhando para ele por um instante, enfiou o comprimido na boca e começou a mastigá-lo, devagar e com gosto. O sabor aflorou em sua memória, fazendo a saliva fluir numa mistura de prazer e infelicidade. Um sabor seco, amargo, mas instigante. Engoliu com uma careta. Mastigar remédio tinha se tornado um hábito para ele nos tempos de alcoólatra; desde então, nunca mais havia mastigado nenhum. Mas, quando a dor de cabeça era suficientemente forte, uma dor de cabeça de ressaca ou algo do gênero, mastigar o remédio parecia acelerar seu efeito. Lera em algum lugar que isso podia se tornar um vício. Onde foi que leu isso? Franzindo a testa, tentou lembrar. E então Ullman veio ao telefone.

— Torrance? O que houve?

— Não houve nada. A caldeira está em ordem e ainda nem cheguei a matar minha mulher. Estou esperando para depois das festas de fim de ano, quando ficar entediado.

— Muito engraçado. Por que está telefonando? Sou um homem…

— Homem ocupado, sim, entendo. Estou ligando para conversar a respeito de algumas coisas que você não mencionou ao contar sua história, no grandioso e nobre passado do Overlook. Como, por exemplo, o fato de Horace Derwent ter vendido o hotel a um bando de vigaristas de Las Vegas, que o negociaram através de tantas empresas laranja que nem a Receita Federal sabia quem era o dono de verdade. Também não me contou como eles esperaram até o momento certo e então o transformaram num playground para os mandachuvas da máfia, e como teve que ser fechado em 1966, quando um deles ficou um pouquinho morto. Junto com seus guardas-costas, que estavam à porta da Suíte Presidencial. Grande lugar, a Suíte Presidencial do Overlook. Wilson, Harding, Roosevelt, Nixon e Vito, o Açougueiro, certo?

Houve um momento de silêncio surpreso no outro lado da linha, e então Ullman respondeu baixinho:

— Não vejo como isso pode ter qualquer relação com o seu serviço, sr.

Torrance. É…

— A melhor parte aconteceu depois que Gienelli foi assassinado, não acha? Mais dois passes de mágica, e então o Overlook foi repentinamente comprado por uma mulher chamada Sylvia Hunter… que por coincidência foi a sra. Sylvia Hunter Derwent, de 1942 a 1948.

— Seus três minutos acabaram — a telefonista interrompeu. — Sinalize quando terminar.

— Meu caro sr. Torrance, tudo isso é de conhecimento público… e história antiga.

— Não era de meu conhecimento — afirmou Jack. — E duvido que muita gente saiba. Pelo menos, não de tudo. As pessoas talvez se lembrem do assassinato de Gienelli, mas duvido que alguém tenha percebido as magníficas e estranhas operações em que o Overlook esteve metido desde 1945. E parece que é sempre Derwent ou um sócio de Derwent que surge como o premiado. O que Sylvia Hunter fazia por lá em 1967 e 1968, sr.

Ullman? Era um puteiro, não era?

— Torrance! — O choque de Ullman soou, sem perder a força, através dos três mil quilômetros de cabo telefônico.

Sorrindo, Jack jogou outro Excedrin na boca e o mastigou.

— Ela vendeu tudo depois que um senador americano muito conhecido teve um ataque cardíaco lá em cima e morreu. Havia rumores de que ele foi encontrado nu, usando apenas meias de náilon pretas, ligas e um par de sapatos de salto alto. De couro legítimo, diga-se de passagem.

— Isso é uma maldita mentira maldosa! — gritou Ullman.

— É mesmo? — provocou Jack. Começava a se sentir melhor. A dor de cabeça estava indo embora. Pegou o último Excedrin e o mastigou, apreciando o gosto amargo do comprimido despedaçado na boca.

— Foi um acontecimento muito infeliz — explicou Ullman. — Agora, aonde você quer chegar? Se está pretendendo escrever algum artigo maldoso… se isto é alguma ideia maluca de fazer uma chantagem idiota…

— Nada disso — interrompeu Jack. — Telefonei porque achei que você não jogou limpo comigo. E porque…

— Não joguei limpo? — gritou Ullman. — Meu Deus, você achava que eu lavaria a roupa suja diante do zelador do hotel? Quem diabos você pensa que é? E como essas histórias velhas poderiam afetá-lo? Ou você acha que existem fantasmas rondando pelos corredores da ala oeste cobertos por lençóis e gritando “Uuuh!”?

— Não, não acho que existam fantasmas. Mas você revolveu um bocado de minha vida privada, antes de me admitir no emprego. Você me humilhou, questionando minha capacidade de tomar conta de seu hotel, como se eu fosse uma criança diante do professor, sendo repreendida por ter feito xixi no armário. Você me constrangeu.

— Eu simplesmente não consigo acreditar na sua cara de pau, na sua maldita impertinência — disse Ullman. Soava como se estivesse engasgado.

— Gostaria de demitir você. E talvez o faça.

— Acho que Al Shockley poderá levantar objeções. Energicamente.

— E eu acho que você está definitivamente superestimando o comprometimento do sr. Shockley com o senhor, sr. Torrance.

A dor de cabeça de Jack voltou, em toda a sua glória martelante, e ele fechou os olhos de dor. Ouviu Ullman falando, como se à distância:

— Quem é o dono do Overlook agora? Ainda é a Derwent Enterprises? Ou você é muito insignificante para saber?

— Acho que isso já é o bastante, sr. Torrance. O senhor é um empregado do hotel, em nada diferente de um carregador ou um faxineiro. Não tenho intenção nenhuma de…

— Muito bem, vou escrever para Al — interrompeu Jack. — Ele saberá; além do mais, ele é membro do Conselho. E pode ser que eu acrescente um pequeno P.S. ao fato de que…

— Derwent não é o dono.

— O quê? Não entendi bem.

— Disse que Derwent não é o dono. Os acionistas são todos do Leste. Seu amigo, sr. Shockley, é o dono do maior bloco de ações, mais de trinta e cinco por cento. Você saberia mais do que eu se ele tem qualquer tipo de ligação com Derwent.

— Quem mais?

— Não tenho intenção de divulgar os nomes dos demais acionistas, sr.

Torrance. Pretendo levar o assunto ao conhecimento de…

— Uma outra pergunta.

— Não tenho nenhuma obrigação para com o senhor.

— A maior parte da história do Overlook, seja agradável ou não, eu encontrei em um álbum de recortes, que estava no porão. Um livro grande com capa de couro branco. Encadernado com fio dourado. Você faz ideia de quem poderia ser o dono?

— Nenhuma.

— É possível que tenha sido de Grady? O zelador que se matou?

— Sr. Torrance — disse Ullman, com o tom mais gélido possível. — Não tenho nem certeza se o sr. Grady sabia ler, muito menos se ele tinha interesse em descobrir os podres com os quais o senhor está me fazendo perder tempo.

— Estou pensando em escrever um livro sobre o Hotel Overlook. Pensei que, se eu realmente fizer isso, o dono do álbum vai gostar de ter uma nota de agradecimento na primeira página.

— Acho que escrever um livro sobre o Overlook não seria algo muito inteligente — afirmou Ullman. — Especialmente um livro feito sob o seu…

ahn, ponto de vista.

— Sua opinião não me surpreende. — A dor de cabeça desapareceu.

Houve apenas aquele único clarão de dor, e foi tudo. Sua mente estava aguçada e acurada, atenta aos mínimos detalhes. Era como geralmente se sentia quando o ato de escrever ia extremamente bem, ou quando estava na onda de três drinques. Era outro detalhe que havia esquecido sobre o Excedrin; não sabia se dava bons resultados para os outros, mas, para ele,

mastigar três comprimidos dava um barato instantâneo.

Em seguida, Jack disse:

— O senhor gostaria é de uma espécie de guia turístico autorizado e contratado, que pudesse ser entregue gratuitamente aos hóspedes no momento do check-in. Algo com uma porção de fotos brilhantes das montanhas ao amanhecer e ao crepúsculo, e um texto água com açúcar para acompanhar. Teria também uma seção para as pessoas famosas que estiveram aqui, é claro, excluindo os realmente exóticos como Gienelli e seus amigos.

— Se eu tivesse cem por cento de certeza de que poderia demitir o senhor sem perder o meu emprego, em vez de noventa e cinco por cento —

respondeu Ullman, num tom engasgado —, eu o demitiria agora mesmo, pelo telefone. Mas, já que tenho esses cinco por cento de incerteza, pretendo telefonar para o sr. Shockley assim que o senhor desligar… O que será em breve, assim espero ardentemente.

— Não vai ter nada que não seja verdade no livro, sabe? Não terei necessidade de fantasiar nada.

( Por que está provocando ele? Quer ser despedido? )

— Não me interessa se o capítulo 5 for sobre o papa trepando com a Virgem Maria — retrucou Ullman, levantando a voz. — Quero que você dê o fora do meu hotel.

— Não é o seu hotel! — Jack gritou e bateu o telefone.

Sentou-se no banquinho, ofegante, um pouco assustado, (um pouco? Nossa, muito)

se perguntando, em primeiro lugar, por que, em nome de Deus, havia telefonado para Ullman.

( Perdeu o controle mais uma vez, Jack.)

Sim, sim, perdeu. Não fazia sentido negar. E o pior de tudo é que não tinha ideia da influência que aquele babaquinha pão-duro poderia exercer sobre Al, como também não sabia quanta merda Al aguentaria dele, em nome do que já passou. Se Ullman era tão bom quanto achava e desse a Al um ultimato, tipo

“ou ele ou eu”, Al não seria obrigado a aceitar? Fechou os olhos e tentou se imaginar dizendo a Wendy: Adivinhe, amor? Perdi outro emprego. Dessa vez precisei usar três mil quilômetros de cabo telefônico para encontrar alguém que eu pudesse agredir, mas dei um jeito.

Abriu os olhos e enxugou a boca com o lenço. Queria beber. Merda, precisava beber. Havia um bar exatamente naquela rua, e com certeza daria tempo para uma cervejinha até chegar ao parque, só para baixar a poeira…

Apertou as mãos, desamparado.

A pergunta persistia: em primeiro lugar, por que havia telefonado para Ullman? O número do Surf-Sand em Lauderdale estava escrito em uma caderneta ao lado do telefone e do radiotransmissor no escritório… telefones de bombeiros, carpinteiros, vidraceiros, eletricistas e outros. Jack copiara o número na aba da caixa de fósforos pouco depois de acordar naquele dia, com a ideia de telefonar para Ullman completamente amadurecida e alegre em sua mente. Mas, com que propósito? Certa vez, durante a fase de bebedeira, Wendy o acusara de ter um desejo de autodestruição, sem possuir a fibra moral necessária para amadurecer um desejo de morte. Então, ele criara meios pelos quais outras pessoas pudessem destruí-lo, arrancando aos poucos pedaços de si mesmo e de sua família. Será que era verdade? Temia, em seu íntimo, que o Overlook pudesse ser exatamente o que ele precisava para terminar o espetáculo. Estava se entregando? Por favor, meu Deus, não, não permita que seja assim. Por favor.

Fechou os olhos, e imediatamente uma imagem surgiu na tela escura de suas pálpebras: enfiando a mão pelo buraco nas telhas, a repentina espetadela, seu próprio grito de dor e pavor no ar parado e pesado. Ai, sua filha da puta desgraçada…

A imagem foi substituída por uma de dois anos atrás, dele cambaleando pela casa às três da manhã, bêbado, caindo por cima da mesa, tombando estirado no chão, xingando e acordando Wendy, que dormia no sofá. Wendy acendendo a luz, vendo as roupas dele, rasgadas e sujas por causa de alguma briga de rua que aconteceu numa espelunca qualquer, na fronteira de New Hampshire, horas antes, sangue seco no nariz, olhando agora para sua mulher, ele piscando os olhos estupidamente sob a luz, e Wendy dizendo melancolicamente, seu filho da puta, acordou Danny! Se não se importa consigo mesmo, não pode pelo menos se importar um pouco conosco? Ah, por que perco tempo falando com você?

O telefone tocou e assustou Jack, que tirou o fone do gancho, com a certeza ilógica de que só poderia ser Ullman ou Al Shockley.

— O quê? — gritou ele.

— Seu tempo extra, senhor. Três dólares e meio.

— Tenho que trocar umas moedas — respondeu. — Espere um pouco.

Colocou o telefone na prateleira, depositou as suas seis últimas moedas de vinte e cinco centavos e foi então ao caixa para trocar mais dinheiro. Fez a transação de modo automático, a mente rodando em um mesmo círculo,

como um cachorro atrás do rabo.

Por que havia ligado para Ullman?

Por que Ullman o humilhara? Já tinha sido humilhado antes por verdadeiros mestres — o Grande Mestre, claro, sendo ele mesmo.

Simplesmente para tripudiar sobre ele, desmascarando sua hipocrisia? Jack não achava que poderia ser tão mesquinho. Sua cabeça tentava buscar no álbum de recortes uma razão válida, mas não fazia sentido. As possibilidades de Ullman saber quem era o dono eram de duas em mil. Na entrevista, ele havia se referido ao porão como se fosse um outro país… pelo visto, um país subdesenvolvido. Se quisesse realmente saber, teria ligado para Watson, cujo número de telefone estava também na caderneta do escritório. E mesmo Watson não seria uma certeza, porém havia mais chances de ele saber do que Ullman.

E mencionar a ideia do livro havia sido outra idiotice. Uma idiotice inacreditável. Além de pôr o emprego em risco, poderia estar fechando amplas fontes de informação, uma vez que Ullman poderia dizer às pessoas que tomassem cuidado com essa gente da Nova Inglaterra fazendo perguntas sobre o Hotel Overlook. Podia ter feito suas pesquisas com calma, escrevendo cartas atenciosas, talvez até marcando entrevistas na primavera…

e, quando o livro fosse publicado e ele estivesse muito longe dali, então riria livremente da raiva de Ullman… O Autor Mascarado Ataca Novamente. Em vez disso, tinha feito aquele telefonema insensato, perdido o controle, se indisposto com Ullman e revelado as tendências de gângster em ascensão do gerente do hotel. Por quê? Se não era um esforço para se ver demitido do bom emprego que Al lhe arranjara, então o que era?

Depositou o resto do dinheiro no telefone e o desligou. Realmente, aquele tinha sido o tipo de coisa insensata que teria feito se estivesse bêbado. Mas estava sóbrio; profundamente sóbrio.

Ao sair da farmácia, mastigou outro Excedrin, fazendo careta, mas ainda sentindo o prazer do gosto amargo.

Na calçada, encontrou Wendy e Danny.

— Oi, estávamos procurando você — disse Wendy. — Está nevando, veja só!

Jack olhou para cima.

— É mesmo. — Nevava muito. A rua principal de Sidewinder estava toda branca, o asfalto já coberto. A cabeça de Danny estava erguida para o céu branco, com a boca aberta e a língua de fora para apanhar alguns flocos que

caíam.

— Será que agora é para valer? — perguntou Wendy.

Jack sacudiu os ombros.

— Não sei. Esperava por mais uma ou duas semanas de benevolência do tempo. Pode ser que tenhamos.

Benevolência, isso mesmo.

( Desculpe, Al. Benevolência. Tenha piedade. Mais uma oportunidade.

Estou sinceramente arrependido…)

Quantas vezes, em quantos anos, tinha ele — um homem feito —

implorado por piedade, por outra oportunidade? De repente, estava tão cansado de si, tão revoltado, que poderia ter suspirado alto.

— E a dor de cabeça? — ela perguntou, olhando para ele mais de perto.

Jack pôs os braços em volta dela e a abraçou apertado.

— Melhor. Venham, vamos para casa, enquanto podemos.

Andaram até o caminhão estacionado no declive, encostado ao meio-fio.

Jack, no centro, envolveu os ombros de Wendy com o braço esquerdo, a mão direita segurando a de Danny. Pela primeira vez chamara o hotel de casa.

Quando se sentou ao volante do caminhão, se deu conta de que, apesar de estar fascinado pelo Overlook, na realidade não gostava muito do hotel. Não estava certo de que fosse bom para a esposa, para Danny ou para si próprio.

Talvez tenha sido por isso que telefonara para Ullman.

Para ser demitido enquanto havia tempo.

Deu ré no caminhão, seguiu rumo à saída da cidade e subiu as montanhas.

21

PENSAMENTOS NOTURNOS

Eram dez horas da noite. Nos quartos, os três fingiam dormir.

Jack estava deitado de lado, virado para a parede com os olhos abertos, escutando a respiração baixa e ritmada de Wendy. O gosto do remédio dissolvido ainda estava em sua língua, que estava áspera e levemente dormente. Al Shockley havia telefonado às 5h45, 7h45 no horário do Leste.

Wendy estava com Danny, sentada em frente à lareira no saguão, lendo.

— Chamada pessoal para o sr. Jack Torrance — anunciou a telefonista.

— É ele. — Passou o fone para a mão direita, arrancou o lenço do bolso traseiro com a mão esquerda e enxugou os lábios macios. Em seguida, acendeu um cigarro.

A voz de Al soou, então, forte em seu ouvido:

— Jack, rapaz, o que você está aprontando, pelo amor de Deus?

— Oi, Al. — Tragou o cigarro e tateou à procura do vidro de Excedrin.

— O que está acontecendo, Jack? Recebi um telefonema esquisito de Stuart Ullman hoje à tarde. E, quando Stu Ullman paga uma ligação interurbana do próprio bolso, prepare-se, pois lá vem merda.

— Ullman não tem nada com que se preocupar, Al. Nem você.

— O que é exatamente esse nada com o qual não precisamos nos preocupar? Stu fez soar como se fosse uma mistura de chantagem com manchete sensacionalista sobre o Overlook. Fale comigo, rapaz.

— Eu quis cutucar ele um pouco — respondeu Jack. — Quando vim até aqui para ser entrevistado, ele quis trazer à tona toda a minha roupa suja. Meu problema com bebida. Como perdi o último emprego por ter arrebentado um aluno. Fico pensando se você é o homem certo para isto etc. O que me chateou é que ele levantou tudo isso porque adorava o desgraçado do hotel. O

maravilhoso Overlook. O tradicional Overlook. O sagrado Overlook. Bem, encontrei um álbum de recortes no porão. Alguém juntou todos os aspectos menos agradáveis da Catedral de Ullman, e me pareceu uma longa cerimônia de missa fúnebre.

— Espero que isso seja uma metáfora, Jack. — A voz de Al soou assustadoramente fria.

— É. Mas realmente descobri…

— Conheço a história do hotel.

Jack passou a mão pelo cabelo.

— Telefonei, então, para dar uma cutucada nele. Reconheço que não foi muito brilhante de minha parte e não faria de novo. Fim de papo.

— Stu diz que você está pretendendo lavar a roupa suja em público.

— Stu é um imbecil! — Jack gritou ao telefone. — Eu contei a ele que tinha ideia de escrever sobre o Overlook, sim. Tenho. Acho que este lugar representa bem um pouco da personalidade americana do pós-guerra. Dito dessa maneira parece meio exagerado… Sei disso… Mas está tudo aqui, Al!

Meu Deus, seria um grande livro. Mas a longo prazo, posso assegurar a você, tenho mais que o necessário, e…

— Jack, isso não é bom o bastante.

Jack se virou, boquiaberto ao telefone, sem poder acreditar no que estava ouvindo.

— O quê? Al, você quer dizer…

— Isso mesmo. Qual é o longo prazo, Jack? Para você podem ser dois anos, talvez cinco. Para mim, trinta ou quarenta, pois espero estar ligado ao

Overlook por muito tempo. A ideia de ver você escrevendo um lamaçal sobre o meu hotel e publicando a história como uma grande obra da literatura americana me deixa enjoado.

Jack ficou mudo.

— Tentei ajudar você, Jacky, meu garoto. Passamos juntos pela guerra e achei que lhe devia ajuda. Lembra-se da guerra?

— Lembro — resmungou, mas os carvões do ressentimento começavam a incandescer em seu coração. Primeiro Ullman, depois Wendy, agora Al. O

que era isso? Semana Nacional de Esculachar Jack Torrance? Apertou os lábios, estendeu a mão para pegar os cigarros e os derrubou no chão. Será mesmo que Jack algum dia tinha gostado desse babaca pão-duro que falava com ele de seu gabinete revestido de mogno em Vermont? Tinha gostado de verdade?

— Antes de agredir aquele menino, o Hatfield — Al continuou —, tentei convencer o Conselho a não demitir você, e até mesmo a considerar lhe dar estabilidade. Foi você quem estragou tudo. Arranjei esse negócio do hotel, um lugar calmo e bonito para você se ajustar, terminar sua peça e esperar até que Harry Effinger e eu pudéssemos convencer o resto dos caras de que haviam cometido um grande erro. Agora, parece que você quer sair lucrando nas minhas costas. É assim que agradece a um amigo, Jack?

— Não — sussurrou.

Não se atrevia a dizer mais nada. A cabeça latejava com as palavras quentes que queriam sair. Tentou desesperadamente pensar em Wendy e Danny, no seu vício, em sua família, sentada calmamente lá embaixo diante do fogo e trabalhando na cartilha da segunda série, acreditando que estivesse tudo maravilhoso. E se perdesse o emprego? Iriam rumo à Califórnia, naquele Volkswagen velho e cansado com a bomba de gasolina caindo aos pedaços, como se fosse uma família de flagelados, da seca dos anos 1930?

Falou a si mesmo que se ajoelharia e imploraria a Al antes que tudo isso acontecesse, mas, ainda assim, as palavras relutavam em sair, e ele não conseguia conter sua raiva.

— O quê? — Al inquiriu com gravidade.

— Não — repetiu Jack. — Não é assim que trato meus amigos. E você sabe disso.

— Como que eu sei disso? Na pior das hipóteses, você está planejando sujar a reputação do meu hotel exumando corpos que foram devidamente enterrados há anos. Na melhor das hipóteses, você telefonou para meu

gerente temperamental, mas extremamente competente, e o deixou enfurecido, como parte de um… jogo idiota de crianças.

— Foi mais do que um jogo, Al. Tudo é mais fácil para você. Você não precisa aceitar a caridade de um amigo rico. Você não precisa de um amigo no tribunal, pois você é o próprio tribunal. Você consegue manter em segredo o fato de que esteve a um passo de se tornar alcoólatra, não consegue?

— Suponho que sim — respondeu Al. A voz baixara, e ele parecia cansado de tudo. — Mas Jack, Jack… não posso fazer nada. Não posso mudar isso.

— Sei — sua voz soou oca. — Estou despedido? Acho melhor você me dizer se estou.

— Não estará, se fizer duas coisas para mim.

— Tudo bem.

— Não seria melhor ouvir as condições antes de aceitar?

— Não. Apenas dê as cartas do jogo. Tenho que pensar em Wendy e Danny. Se quiser minhas bolas, mandarei por via aérea.

— Tem certeza de que pode se dar ao luxo da autopiedade, Jack?

Fechou os olhos e enfiou um Excedrin por entre os lábios secos.

— A esta altura, sinto que é o único luxo a que posso me dar. Sem brincadeira.

Al ficou calado por um momento, então disse:

— Primeiro, nada de telefonemas para Ullman. Nem se o hotel pegar fogo.

Se isso acontecer, ligue para o chefe de manutenção, aquele cara que fala palavrão o tempo todo, sabe a quem me refiro…

— Watson.

— Isso.

— Certo.

— Em segundo lugar, prometa, sob palavra de honra. Nenhum livro sobre o famoso hotel das montanhas do Colorado.

Por um momento, sua raiva era tanta que Jack literalmente não conseguiu falar. O sangue fervia nas veias. Era como receber um telefonema de um príncipe Médici do século XX… nenhum retrato de minha família com as verrugas aparecendo, por favor, ou você cai em desgraça. Não financio pintura que não seja bonita. Quando pintar a filha de meu bom amigo e sócio, por favor, omita a mancha de nascença, ou você cai em desgraça. Claro que somos amigos… somos, ambos, homens civilizados, não somos? Já compartilhamos a mesma casa, a mesma comida, a mesma bebida. Seremos sempre amigos; a coleira com a qual eu prendo você será sempre ignorada

por consentimento mútuo, e serei bom e benevolente para com você. Tudo que peço em troca é sua alma. Coisa pequena. Podemos até ignorar o fato de que você a entregou a mim, da mesma forma que ignoramos a coleira.

Lembre-se, meu talentoso amigo, existem Michelangelos mendigando por todos os lugares de Roma…

— Jack, está ouvindo?

Fez um ruído sufocado, que significava sim.

A voz de Al era firme e segura.

— Realmente, não acho que esteja pedindo muito, Jack. Você escreverá outros livros. Apenas não pode esperar que eu vá financiá-lo, enquanto…

— Tudo bem, concordo.

— Não quero que pense que estou tentando controlar sua vida literária, Jack. Você me conhece bem. É só…

— Al?

— Sim?

— Derwent ainda está envolvido com o Overlook? De algum modo?

— Não vejo como isso possa ser da sua conta, Jack.

— Não — respondeu ele distante. — Imagino que não. Ouça, Al, acho que estou ouvindo Wendy me chamar. Telefono depois.

— Claro, meu amigo. Bateremos um bom papo. Como vão as coisas?

Sóbrias?

(JÁ CONSEGUIU SEU QUILO DE CARNE, SANGUE E TUDO MAIS. AGORA, QUER ME DEIXAR EM PAZ?)

— De corpo e alma.

— Por aqui também. Na verdade, estou começando a gostar de ficar sóbrio. Se…

— Ligo depois, Al. Wendy…

— Claro, tudo bem.

E, assim que desligou, sentiu cólicas que o atingiram como relâmpagos.

Como um penitente, ele se curvou diante do telefone, as mãos segurando a barriga, a cabeça latejando como um balão gigante.

A vespa, depois de ferroar, segue em frente…

Melhorou um pouco quando Wendy subiu, perguntando quem era no telefone.

— Era Al — respondeu. — Telefonou para perguntar como estavam as coisas. Falei para ele que estava tudo bem.

— Jack, você está péssimo. Está se sentindo bem?

— A dor de cabeça voltou. Vou para a cama cedo. Não faz sentido tentar

escrever.

— Quer que eu traga um copo de leite quente?

Ele sorriu, pálido.

— Seria bom.

Agora estava deitado ao lado dela, sentindo a perna quente e adormecida da esposa encostada na sua. Pensar na conversa com Al, em como tinha se rebaixado, ainda lhe provocava ondas de frio e calor. Algum dia haveria o ajuste de contas. Algum dia ainda escreveria o livro, não uma obra leve e reflexiva como a princípio considerou fazer, mas um trabalho duro de pesquisa, com fotografias e registros. Um livro que contaria a história completa do Overlook, as sórdidas negociações de compras ilícitas e todo o resto. Exporia tudo ao leitor como um peixe dissecado. E, se Al Shockley tivesse ligações com o império de Derwent, então Deus que o ajudasse.

Esticado como uma corda de piano, deitado, olhando a escuridão, sabia que se passariam horas até que conseguisse dormir.

Wendy Torrance estava deitada, de olhos fechados, ouvindo o ressonar do marido: a longa inspiração, a pausa breve, a expiração levemente gutural.

Onde ia quando dormia?, pensava ela. Para algum parque de diversões, um Great Barrington de sonhos, onde os brinquedos eram grátis e não existiam esposas para censurar a quantidade de cachorros-quentes ou para advertir que já era hora de ir embora, se quisessem chegar em casa antes do escurecer? Ou seria um bar, onde a bebida nunca acabava e as portas estavam sempre abertas e todos os velhos companheiros se reuniam em torno de um jogo eletrônico de hóquei, com copos nas mãos, Al Shockley se sobressaindo entre eles com a gravata afrouxada e o colarinho desabotoado? Um lugar de onde ela e Danny eram excluídos, e a festa seguia infindável?

Wendy estava preocupada com ele. Era a velha e inútil preocupação que ela esperava ter ficado para trás em Vermont, como se a preocupação de algum modo não pudesse cruzar as fronteiras dos estados. Não gostava do que o Overlook parecia estar fazendo a Jack e a Danny.

A pior preocupação, não mencionada — nebulosa e não mencionada, talvez até imencionável —, era que todos os sintomas de alcoolismo de Jack estavam de volta, um por um… todos, exceto a própria bebida. O constante movimento das mãos ou do lenço nos lábios, como se estivesse tirando o excesso de umidade. As longas pausas na máquina de escrever, mais bolas de papel na cesta de lixo. O vidro de Excedrin na mesa de telefone hoje à noite, depois do telefonema de Al, mas nenhum copo d’água… Jack estava

mastigando os comprimidos de novo. Ficava irritado com pequenas coisas.

Inconscientemente, estalava os dedos num ritmo nervoso, quando as coisas ficavam muito calmas. Estava falando mais palavrões do que o normal.

Wendy começava a se preocupar com o temperamento dele também. Seria até um alívio se ele perdesse a calma, se isso funcionasse como uma válvula de escape, da mesma forma que a pressão da caldeira era diminuída à primeira hora da manhã e à noite, quando ele descia ao porão. Seria quase bom ver Jack xingando e chutando os móveis pelo quarto ou batendo uma porta. Mas essas coisas, um traço integral de seu temperamento, haviam praticamente cessado. Ainda assim, ela sentia que Jack ficava cada vez mais irritado com ela ou Danny, mas se recusava a extravasar. A caldeira tinha um manômetro velho, rachado, cheio de óleo, mas que ainda funcionava. Jack não tinha nenhum. Nunca conseguira entendê-lo muito bem. Danny podia, mas o filho não falava.

E o telefonema de Al. Quase ao mesmo tempo, Danny perdera todo o interesse pela história que a mãe estava lendo. Ele a deixou sentada junto à lareira e correu para o balcão de recepção, onde Jack construíra uma estrada para seus carrinhos e caminhões. O Violento Volkswagen Violeta estava ali, e Danny começou a empurrá-lo rapidamente para a frente e para trás.

Fingindo ler, mas na realidade observando Danny por cima do livro, ela viu nele um estranho amálgama dos modos como ela e Jack expressavam ansiedade. O esfregar dos lábios. O passar nervoso das mãos pelo cabelo, como ela fazia enquanto esperava Jack voltar para casa da ronda pelos bares.

Não acreditava que Al tivesse telefonado apenas para “perguntar como iam as coisas”. Se você quisesse jogar conversa fora, ligava para Al. Mas, quando era Al quem telefonava, aí então era algo sério.

Mais tarde, ao descer novamente, Wendy viu Danny agachado junto à lareira, lendo com absoluta atenção a cartilha da segunda série das aventuras de Joe e Rachel no circo. A agitação havia desaparecido por completo.

Observando o filho, foi mais uma vez tomada pela estranha certeza de que Danny sabia e entendia mais do que a vã filosofia do dr. (“Podem me chamar de Bill”) Edmonds podia alcançar.

— Ei, velhinho, hora de ir dormir — disse ela.

— Tá bem. — O garoto marcou o livro ao fechar e se levantou.

— Lave o rosto e escove os dentes.

— Certo.

— Não se esqueça de usar o fio dental.

— Não vou esquecer.

Ficaram lado a lado por um momento, olhando o fogo tremeluzir. Quase todo o saguão estava frio e com correntes de ar, mas este círculo em torno da lareira encontrava-se magicamente aquecido e difícil de se abandonar.

— Era tio Al ao telefone — ela comentou casualmente.

— Era? — falou Danny, sem surpresa alguma.

— Fico pensando se tio Al está zangado com papai — continuou Wendy, ainda como se não quisesse nada.

— Ah, sim, ele está mesmo — respondeu Danny, observando o fogo. —

Ele não quer que papai escreva o livro.

— Que livro, Danny?

— Sobre o hotel.

A pergunta que estava em seus lábios era a mesma que ela e Jack faziam mil vezes a Danny: Como você sabe disso? Mas não chegou a enunciá-la.

Não queria aborrecer o filho antes de dormir. E também não queria que Danny descobrisse que, às vezes, seus pais discutiam o conhecimento que ele possuía sobre fatos que não tinha a menor possibilidade de saber. E ele sabia, estava convencida disso. A conversa fiada do dr. Edmonds sobre raciocínio indutivo e lógica do subconsciente era apenas isso: conversa fiada. Sua irmã… como Danny poderia saber que ela estava pensando em Aileen, na sala de espera naquele dia? E

( Sonhei que papai sofreu um acidente. )

sacudiu a cabeça, como que afastando o pensamento.

— Vá lavar o rosto, velhinho.

— Tá bem. — Subiu as escadas correndo para o quarto dos pais. Franzindo a testa, a mãe foi à cozinha, para esquentar o leite de Jack numa chaleira.

E agora, deitada acordada na cama, ouvindo o ressonar do marido e o vento lá fora (miraculosamente, caíra apenas um pouco de neve à tarde; ainda nenhuma tempestade), voltou o pensamento para o amado filho que a preocupava. Danny havia nascido com o saco amniótico sobre a cabeça, uma simples membrana que os médicos viam talvez uma vez em cada setecentos nascimentos; uma membrana que a crendice popular dizia indicar o sexto sentido.

Estava na hora de conversar com o filho sobre o Overlook… e mais do que na hora de tentar fazer Danny se abrir com ela. Amanhã. Com certeza. Os dois iriam à Biblioteca Pública de Sidewinder para ver se encontravam livros no nível da segunda série para todo o inverno, e ela conversaria com ele. E de

maneira franca. Com esse pensamento, sentiu-se melhor, e finalmente começou a adormecer.

Danny estava deitado acordado no quarto, os olhos abertos, o braço esquerdo em volta do ursinho Pooh velho e levemente gasto (Pooh tinha perdido um olho, e seu enchimento vazava por vários remendos desfeitos), ouvindo o ressonar dos pais. Sentiu-se como um guarda relutante dos dois. As noites eram o pior de tudo. Odiava as noites e o constante uivar do vento na ala oeste do hotel.

O aviãozinho flutuava seguro por um cordão. Sobre a escrivaninha, a miniatura do fusca, trazida da pista montada no saguão, emitia um vago e fluorescente brilho violeta. Os livros estavam na estante, os cadernos de colorir, sobre a escrivaninha. Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar, dizia mamãe. Assim você sabe onde está, quando precisar. Mas agora tudo estava fora de lugar. As coisas estavam perdidas. Pior, havia mais coisas, coisas que não dava pra ver bem, como um daqueles quadrinhos que diziam CONSEGUE VER OS ÍNDIOS? Se você forçasse a vista e apertasse os olhos, poderia ver alguns deles — o que parecia ser um cacto, à primeira vista, era na realidade um guerreiro pele-vermelha com uma faca presa entre os dentes, e havia outros escondidos nas pedras, e era possível ver até suas faces impiedosas e cheias de maldade emergindo dos raios de uma roda da carruagem coberta. Mas nunca dava pra ver todos eles, e era isso que incomodava. Pois os que não podiam ser vistos eram os que chegavam por trás, com uma machadinha em uma das mãos, e uma faca na outra…

Danny se remexeu na cama, inquieto, os olhos buscando o reconfortante tremeluzir da lâmpada que ficava acesa. As coisas andavam piores aqui.

Estava certo disso. No começo não eram tão ruins, mas aos poucos… O pai pensava mais em beber. Às vezes, ele se aborrecia com mamãe e não sabia por quê. Andava pelos cantos esfregando os lábios com o lenço, com os olhos distantes e nebulosos. Mamãe se preocupava, e Danny também. Não precisava entrar no pensamento dela para saber; estava claro no modo ansioso como ela o questionara no dia que a mangueira do extintor de incêndio pareceu ter se transformado em cobra. O sr. Hallorann dissera que achava que todas as mães eram um pouco iluminadas, e naquele dia ela sabia que alguma coisa tinha acontecido. Só não sabia o quê.

Ele quase contou a ela, mas algo o impediu. Sabia que o médico em Sidewinder tinha desconsiderado Tony e as coisas que Tony lhe mostrara como sendo perfeitamente

(bem, quase)

normais. Sua mãe poderia não acreditar, se ele contasse a ela sobre a mangueira. Pior, poderia entender errado, poderia pensar que estava com os PARAFUSOS FR OU XOS. Ele entendia um pouco sobre PARAFUSOS FR OU XOS, não tanto quanto sobre COMO FAZER UM FILHO, o que a mãe explicara com alguns detalhes no ano anterior, mas o suficiente para ele entender.

Certa vez, na escolinha, seu amigo Scott apontou um menino chamado Robin Stenger, que estava embasbacado junto aos balanços, com a cara tão comprida que quase podia pisar nela. O pai de Robin ensinava aritmética na escola de papai, e o pai de Scott era professor de história. A maioria dos alunos da escolinha tinha pais que trabalhavam ou na Academia de Stovington ou na pequena fábrica da IBM fora da cidade. As crianças da Academia formavam um grupo, e as crianças da IBM, outro. Tinham amigos de diferentes grupos, é claro, mas era bastante natural que os alunos, cujos pais se conheciam, permanecessem mais unidos. Quando havia um escândalo no grupo dos adultos, a informação quase sempre se distorcia de forma desenfreada entre as crianças, mas raramente passava de um grupo para outro.

Ele e Scotty estavam sentados na nave espacial de brinquedo, quando Scotty apontou o dedo para Robin e disse:

— Sabe aquele menino?

— Sei — respondeu Danny.

Scott se inclinou.

— O pai dele ficou com os PARAFUSOS FR OU XOS ontem à noite. Levaram ele embora.

Continuar: parte 5 de 5