O Iluminado

Stephen King · Capítulo 3 de 9 · parte 3/5

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O Iluminado

Terceira parte: O ninho de vespas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— Ele poderia se tornar autista? — perguntou Wendy, que havia lido sobre autismo. A própria palavra a aterrorizava; soava como medo e alienação.

— Possível, mas não necessariamente. E poderia simplesmente ter entrado no mundo de Tony algum dia e nunca mais ter voltado ao que ele chama de

“coisas reais”.

— Meu Deus! — exclamou Jack.

— Mas, agora, a situação de base mudou drasticamente. O sr. Torrance não bebe mais. Vocês estão em um lugar novo, onde as condições obrigaram os três a uma unidade familiar mais estreita do que nunca… com certeza mais estreita do que a minha própria, onde posso ver minha esposa e meus filhos apenas duas ou três horas por dia. Na minha opinião, ele está perfeitamente saudável. E acho inclusive que o fato de ele ser capaz de diferenciar com tanta nitidez o mundo de Tony das “coisas reais” significa muito sobre seu estado mental, fundamentalmente sadio. Ele afirmou que vocês dois não estão mais pensando em divórcio. Ele está certo?

— Está — respondeu Wendy, e Jack apertou sua mão com uma força quase dolorosa. Ela também apertou a dele.

Edmonds balançou a cabeça.

— Realmente, Danny não precisa mais de Tony. Ele está expulsando o amigo de seu sistema. Tony não traz mais visões agradáveis, mas pesadelos hostis que são aterrorizantes para serem lembrados, a não ser por fragmentos.

Ele interiorizou Tony durante uma difícil… desesperada… situação de vida, e Tony não vai embora facilmente. Mas irá. Seu filho é um pouco como um viciado largando o hábito.

Levantou-se, e os Torrance também.

— Como disse, não sou psiquiatra. Sr. Torrance, se os pesadelos persistirem quando seu trabalho no Overlook terminar, na primavera, recomendo seriamente que o leve para se consultar com este especialista em Boulder.

— Levarei.

— Bem, vamos lá fora avisar que ele pode ir para casa — anunciou Edmonds.

— Quero lhe agradecer — disse Jack, com dificuldade. — Há muito tempo eu não me sentia tão bem.

— Eu também — falou Wendy.

À porta, Edmonds parou e olhou para Wendy.

— A senhora tem ou teve uma irmã, sra. Torrance? Chamada Aileen?

Wendy olhou para ele com espanto.

— Sim, tive. Ela morreu em frente à nossa casa em Somersworth, Nova Hampshire, quando tinha seis anos, e eu, dez. Corria atrás de uma bola no meio da rua e foi atropelada por um furgão.

— Danny sabe disso?

— Não sei, não creio que saiba…

— Ele falou que a senhora estava pensando nela na sala de espera.

— Estava — Wendy falou devagar. — Pela primeira vez em… Puxa, não sei há quanto tempo.

— A palavra REDRUM significa alguma coisa para vocês?

Wendy balançou a cabeça em negativa, mas Jack disse:

— Ele mencionou esta palavra ontem à noite, antes de dormir. Red drum.

— Não, rum — corrigiu Edmonds. — Ele enfatizou muito isso. Rum.

Como a bebida. A bebida alcoólica.

— Ah! — exclamou Jack. — Combina, não?

Tirou o lenço do bolso e enxugou os lábios.

— A expressão “iluminação” significa algo especial para vocês?

Desta vez, ambos negaram com a cabeça.

— Acho que não importa — disse Edmonds. Abriu a porta que dava para a sala de espera. — Tem alguém aqui chamado Danny Torrance que gostaria de ir para casa?

— Oi, papai! Oi, mamãe! — Ele se levantou da mesinha, onde estivera folheando devagar um exemplar de Onde vivem os monstros e murmurando as palavras que conhecia.

Correu para Jack, que o segurou nos braços. Wendy afagou seus cabelos.

Edmonds observou por um instante.

— Se não gostar de seus pais, pode ficar aqui com o amigo Bill.

— Não, senhor! — respondeu Danny, enfático. Jogou um braço em torno do pescoço de Jack, o outro em torno de Wendy, parecendo radiante.

— Muito bem — Edmonds falou, sorrindo. Olhou para Wendy. — Se tiver algum problema, ligue.

— Está bem.

— Não creio que terá — concluiu Edmonds, ainda sorrindo.

18

ÁLBUM DE RECORTES

Jack encontrou o álbum de recortes no dia primeiro de novembro, enquanto a esposa e o filho faziam uma caminhada pela estrada velha que ia dos fundos da quadra de roque a uma serraria abandonada, a três quilômetros dali. O

tempo ainda estava bom, e os três tinham um improvável bronzeado de outono.

Ele havia ido ao porão para baixar a pressão da caldeira. Lá, num impulso, tirou a lanterna da prateleira, onde estavam as plantas do sistema hidráulico, e resolveu olhar alguns papéis velhos. Procurava também lugares estratégicos para montar as ratoeiras, apesar de não pretender realizar a tarefa até o mês seguinte — quero os bichos fora daqui antes do verão, dissera a Wendy.

Acendeu a lanterna, passou pelo cabo do elevador (diante da insistência de Wendy, eles não usavam o elevador desde que haviam se mudado) e pelo pequeno arco de pedra. Franzia o nariz por causa do cheiro de papel mofado.

Atrás, a caldeira engasgava, num estrondo que sempre o assustava.

Dirigiu a luz em volta, assobiando. Havia ali uma miniatura dos Andes: dúzias de caixas e caixotes cheios de papel, a maior parte deles branca e sem forma, devido ao tempo e à umidade. Outras estavam abertas, derramando folhas amareladas de papel no chão de pedra. Havia também pilhas de jornais amarrados por uma corda. Algumas caixas continham o que pareciam planilhas de contabilidade, e outras, notas atadas por elástico. Jack arrastou

uma e jogou sobre ela a luz da lanterna.

EXPRESSO ROCKY MOUNTAINS INC

Para: HOTEL OVERLOOK

De: ARMAZÉM SIDEY — Rua 16, 1210 — Denver, COLORADO

Via: ESTRADA DE FERRO CANADIAN PACIFIC

Conteúdo: 400 CAIXAS DE PAPEL HIGIÊNICO DELSEY

144 UN. /CAIXA

Assinado: D.E.F.

Data: 24 de agosto de l954

Sorrindo, Jack deixou o papel cair de volta na caixa.

Lançou a luz para cima e viu uma lâmpada pendurada, quase perdida entre as teias de aranha. Estava desligada.

Ficou na ponta dos pés e tentou torcer a lâmpada, que acendeu uma luz muito fraca. Pegou mais uma vez a nota fiscal do papel higiênico e a usou para limpar algumas teias de aranha. O brilho, no entanto, não foi muito maior.

Ainda com a lanterna, Jack caminhou por entre as caixas e caixotes de papel, procurando sinais de ratos. Haviam passado por ali, mas há muito tempo… talvez anos. Encontrou restos de excrementos esbranquiçados pelo tempo, vários ninhos muito bem arrumados, feitos de papel picado velho e abandonado.

Ele puxou um jornal de uma das pilhas e olhou a manchete.

JOHNSON PROMETE TRANSIÇÃO TRANQUILA

Ele Afirma Que o Trabalho Iniciado por JFK Continuará no Próximo Ano O jornal era o Rocky Mountain News, de 19 de dezembro de 1963. Jack jogou o exemplar de volta à pilha.

Ficou fascinado com a sensação de banalidade em relação à história que qualquer pessoa pode sentir ao olhar as notícias que foram de primeira mão há dez ou vinte anos. Encontrou hiatos nas pilhas de jornal e documentos; nada de 1937 a 1945, de 1957 a 1960, de 1962 a 1963. Períodos em que o hotel ficou fechado, pensou. Quando pertencera a otários que tentavam fazer fortuna.

As explicações de Ullman a respeito da história esburacada do Overlook ainda não lhe soavam como verdadeiras. Parecia que a localização

espetacular do hotel já seria o bastante para garantir a continuidade de seu sucesso. Ainda antes de surgir o jatinho, já existia um jet set americano, e Jack tinha a impressão de que o Overlook devia ser uma espécie de parada obrigatória nas viagens dessas pessoas. Faz algum sentido. O Waldorf em maio, o Bar Harbor House em junho, o Overlook em agosto e princípio de setembro, antes da mudança para as Bermudas, Havana e Rio, ou qualquer lugar que fosse. Encontrou uma porção de registros antigos de check-in que o ajudaram. Nelson Rockefeller em 1950. Henry Ford e família em 1927. Jean Harlow em 1930. Clark Gable e Carole Lombard. Em 1956, todo o andar superior fora reservado durante uma semana para Darryl F. Zanuck e convidados! O dinheiro deve ter rolado pelos corredores e entrado na máquina registradora como uma mina de ouro do século XX.

O porão estava repleto de história, sim, e não eram só as das manchetes dos jornais. Havia história enterrada nestas planilhas, nos livros de contas e notas de serviço de quarto, documentos nos quais algumas informações se perdiam. Por exemplo, em 1922, Warren G. Harding pedira um salmão inteiro às dez horas da noite e uma caixa de cerveja Coors. Mas com quem estaria ele comendo e bebendo? Teria sido um jogo de pôquer? Uma reunião de estratégia? O quê?

Jack olhou o relógio e ficou surpreso, pois quarenta e cinco minutos haviam se passado voando, desde que descera até o porão. Seus braços e suas mãos estavam sujos, e ele provavelmente cheirava mal. Resolveu subir e tomar um banho, antes que Wendy e Danny voltassem.

Caminhou devagar por entre as montanhas de papel, a mente viva remoendo possibilidades numa velocidade tal que o divertia. Havia anos não se sentia assim. De repente, parecia que o livro que se prometera, quase de brincadeira, realmente poderia acontecer. Poderia, inclusive, estar perdido no meio dos amontoados. Poderia ser um trabalho de ficção, de história ou ambos: um livro longo explodindo neste lugar central, em centenas de direções.

Parou ao lado da lâmpada com as teias, puxou o lenço do bolso traseiro e enxugou os lábios de maneira automática. Foi quando viu o álbum de recortes.

Uma pilha de cinco caixas dispunha-se à sua direita como uma espécie de Pisa, quase em queda. A caixa de cima estava recheada de mais notas e planilhas de contabilidade. Equilibrado no topo dela e mantendo seu ângulo de repouso Deus sabe há quanto tempo, estava um grosso álbum de recortes

com capa de couro branco. As páginas atadas com duas tiras de cordão dourado formavam laços enfeitando a capa.

Curioso, Jack foi até lá e pegou o álbum. A capa da frente estava coberta de poeira. Ele o segurou diante do rosto, no nível da boca, soprou a poeira numa nuvem e o abriu. Um cartão esvoaçou e ele o agarrou no ar, antes que caísse no chão de pedra. Era de bom gosto e cor creme, com uma gravura impressa em alto-relevo do Overlook com todas as luzes acesas. O jardim e o parque de recreação eram decorados com lanternas japonesas iluminadas.

Parecia quase como se pudesse entrar por ele, um Hotel Overlook que existiu há trinta anos.

Horace M. Derwent tem o

prazer de convidar V. Exa

para o Baile de Máscaras que

fará celebrar na Grande Abertura do

HOTEL OVERLOOK

A ceia será servida às 20h.

Retirada das Máscaras e Baile à Meia-Noite

29 de agosto de 1945

RSVP

Ceia às oito da noite! Retirada das máscaras à meia-noite!

Quase podia vê-los na sala de jantar: os homens mais ricos da América e suas mulheres. Smokings e camisas engomadas; vestidos longos; a orquestra tocando; saltos altos cintilantes. Os brindes, o alegre estourar das rolhas de champanhe. A guerra terminara ou estava quase acabando. O futuro se abria, límpido e resplandecente. Os Estados Unidos eram o colosso do mundo e, finalmente, o país descobria e aceitava o fato.

E mais tarde, à meia-noite, podia ouvir o próprio Derwent gritando: Retirem as máscaras! Retirem as máscaras! As máscaras sendo retiradas e…

( A Máscara da Morte Rubra dominava tudo! )

Jack franziu a testa. De onde viera isso? Era Poe, o grande nome da literatura americana. E é claro que o Overlook — este Overlook iluminado, cintilante no convite que segurava em suas mãos — era algo extremamente distante do mundo de E. A. Poe.

Guardou o convite e virou a página. Um recorte colado de um dos jornais

de Denver, com a data escrita embaixo: 15 de maio de 1947.

RESORT ELEGANTE NAS MONTANHAS REABRE COM HÓSPEDES DE

PRIMEIRA CATEGORIA

Derwent Diz que o Overlook Será “o Destino da Moda”

Por David Felton, Editor Especial

O Hotel Overlook foi aberto e reaberto inúmeras vezes ao longo dos trinta e seis anos de sua história, mas nunca com tanta pompa e esplendor, conforme prometido por Horace Derwent, o misterioso milionário da Califórnia e atual proprietário do hotel.

Derwent, que não faz segredo do fato de ter investido mais de um milhão de dólares em sua mais recente aventura — e alguns dizem que a cifra está próxima dos três milhões —, afirma que “O novo Overlook será um dos destinos da moda, o tipo de hotel do qual você se lembrará durante trinta anos”.

Derwent, sobre quem corre o boato de deter uma substancial quantidade de propriedades em Las Vegas, foi indagado se a compra e a reforma do Overlook assinalavam o marco na batalha para a legalização dos cassinos no Colorado. O magnata de aviões, cinemas, munições e navios negou… com um sorriso. “O Overlook se desvalorizaria com o jogo”, disse ele, “e não pense que eu esteja criticando Las Vegas! Há dinheiro meu suficiente por lá para eu me permitir fazer isso! Não tenho interesse algum em tentar obter a aprovação de um projeto para a legalização do jogo no Colorado. Seria malhar em ferro frio.”

Quando o Overlook abrir oficialmente (houve uma enorme e bem-sucedida festa lá, há algum tempo, quando as obras atuais foram concluídas), os apartamentos recentemente pintados, forrados e decorados serão ocupados por uma lista de astros e estrelas, que vão desde o elegante desenhista Corbat Stani até…

Sorrindo confuso, Jack virou a página. Olhava agora para um anúncio de página inteira no New York Times de domingo, Caderno de Turismo. Na página seguinte, uma história sobre o próprio Derwent, um homem careca e com olhar penetrante em uma foto de jornal. Usava óculos sem aro, e, mesmo

com o bigodinho fino dos anos 1940, não conseguia lembrar um astro como Errol Flynn. Sua fisionomia era a de um contador. Seus olhos o denunciavam.

Jack leu o artigo às pressas. A maior parte da informação ele já tinha, pois havia lido uma matéria sobre Derwent, publicada no Newsweek do ano anterior. Nascido pobre em St. Paul, nunca concluiu o secundário; em vez disso, decidiu alistar-se na Marinha. Subiu rapidamente, apesar de ter sido derrotado ao tentar patentear um novo tipo de hélice propulsora que ele desenhara. Na guerra entre a Marinha e esse jovem desconhecido chamado Horace Derwent, Tio Sam sagrou-se o previsto vencedor. Mas Tio Sam nunca obteria outra patente, e houve uma porção delas.

No fim da década de 1920 e início da de 1930, Derwent dedicou-se à aviação. Comprou uma companhia falida de pulverizadores de plantação, transformou o empreendimento em serviço de correio aéreo e prosperou.

Mais patentes se seguiram: um novo desenho da asa de um monoplano, um carregador de bomba, usado pelas fortalezas voadoras que fizeram chover fogo sobre Hamburgo, Dresden e Berlim, uma metralhadora refrigerada a álcool, um protótipo de assento ejetável, usado mais tarde nos aviões americanos.

E, ao longo dos anos, o contador, que vivia na mesma pele do inventor, ia acumulando investimentos. Uma insignificante rede de fábricas de munição em Nova York e Nova Jersey. Cinco indústrias têxteis na Nova Inglaterra.

Indústrias químicas no falido e doloroso Sul. No fim da Depressão, sua fortuna se constituía de uma porção de ações compradas a preços baixíssimos e vendidas a preços ainda mais baixos. A certa altura, Derwent se gabava de poder vender tudo e conseguir apenas o suficiente para comprar um Chevrolet velho.

Houve rumores, Jack se lembrava, de que alguns dos meios que Derwent empregou para tirar a corda do pescoço eram ilícitos. Envolvimento com contrabando de bebida alcoólica. Prostituição no Centro-Oeste. Contrabando na Costa Sul, onde ficavam suas fábricas. Finalmente, uma associação com os crescentes lucros do jogo no Oeste.

É provável que o investimento mais famoso de Derwent tenha sido a compra do estúdio Top Mark. Falido, que não tivera um ídolo desde que sua estrela infantil, a Pequena Margery Morris, morrera aos catorze anos de uma dose excessiva de heroína em 1934. A

Pequena Margery, que se consagrara interpretando papéis de doces menininhas de sete anos que salvavam casamentos e vidas de cachorros injustamente acusados de matar galinhas,

teve o maior funeral da história de Hollywood, patrocinado pelo Top Mark. A versão oficial foi de que a Pequena Margery havia contraído uma tuberculose enquanto cantava para um orfanato de Nova York, e alguns cínicos sugeriram que o estúdio exibira toda aquela cena porque sabia que estava enterrando a si próprio.

Derwent empregou um esperto homem de negócios e maníaco sexual feroz, chamado Henry Finkel, para dirigir o Top Mark. Nos dois anos antes de Pearl Harbor, o estúdio produziu sessenta filmes, cinquenta e cinco dos quais geraram conflitos com a censura, conflitos esses que não deram em nada. Os outros cinco foram filmes de propaganda do governo. Os longa-metragens tiveram enorme sucesso. Durante um deles, um figurinista desconhecido improvisou um sutiã sem alças, especialmente para que a estrela do filme aparecesse na cena do grande baile, onde revelava tudo —

exceto, talvez, uma possível marca de nascença abaixo do traseiro. Derwent também recebeu crédito pela invenção, e sua reputação — ou notoriedade —

cresceu.

A guerra enriquecera Derwent, e agora estava ainda mais rico. Morando em Chicago, raramente era visto, a não ser nas reuniões de conselho da Derwent Enterprises (que dirigia com mão de ferro). Comentava-se que ele era o dono da companhia aérea United Airlines, além de dono de Las Vegas (onde era sabido que tinha o controle acionário de quatro hotéis-cassinos e alguma participação em pelo menos outros seis), de Los Angeles e dos próprios Estados Unidos. Conhecido como amigo da realeza, de presidentes e chefões do submundo, muitos supunham que era o homem mais rico do planeta.

Mas não conseguiu fazer o Overlook dar certo, pensou Jack. Deixou o álbum de lado por um momento e pegou a caderneta e a lapiseira que sempre levava no bolso da camisa. Rabiscou “Verificar H. Derwent, Biblioteca de Sidewinder”, guardou a caderneta e apanhou novamente o álbum. O rosto estava concentrado, os olhos distantes. Limpava a boca com as mãos, repetidas vezes, enquanto virava as páginas. Passou os olhos no material que se seguia, fazendo anotações mentais para lê-lo mais atentamente depois.

Havia recortes colados em muitas das páginas. Fulano de tal é esperado no Overlook na próxima semana, beltrano dará um show no salão (no tempo de Derwent era o Salão Olho-Vermelho). Muitos dos artistas eram figuras de Las Vegas, e muitos dos convidados eram executivos e astros do Top Mark.

Depois, num recorte datado de 1o de fevereiro de 1952:

EXECUTIVO MILIONÁRIO VENDE INVESTIMENTOS NO COLORADO

Acordo Feito com Investidores no Overlook,

Outros Investimentos, Derwent Revela

Por Rodney Conklin, Editor Financeiro

Um comunicado breve realizado ontem em Chicago, nos escritórios da monolítica Derwent Enterprises, revelou que o milionário (talvez bilionário) Horace Derwent vendeu tudo no Colorado, em um surpreendente jogo financeiro que estará concluído por volta de 1o de outubro de 1954. Os investimentos de Derwent incluem gás natural, carvão, usina hidrelétrica e uma companhia de desenvolvimento imobiliário chamada Colorado Sunshine, Inc., que possui ou detém ações preferenciais de mais de quinhentos mil acres no território do Colorado.

A mais famosa propriedade de Derwent no Colorado, o Hotel Overlook, já foi vendida, revelou Derwent numa rara entrevista ontem.

O comprador foi um grupo de investidores da Califórnia liderado por Charles Grondin, ex-diretor da Empresa de Desenvolvimento Imobiliário da Califórnia. Apesar de Derwent se recusar a divulgar cifras, informaram as fontes…

Ele tinha vendido tudo, até a pia da cozinha, não apenas o Overlook. Mas de algum modo… de algum modo…

Jack enxugou os lábios com a mão e desejou um gole. Seria melhor com um gole. Virou mais páginas.

Os empresários da Califórnia mantiveram o hotel aberto durante duas temporadas e, em seguida, o venderam novamente a um grupo do Colorado chamado Mountainview Resorts. O grupo faliu em 1957, em meio a acusações de corrupção, desfalque e trapaça praticados contra os acionistas.

O presidente da companhia se suicidou, dois dias depois de ser intimado a comparecer diante do tribunal.

O hotel ficou fechado durante o resto da década. Havia uma única matéria a respeito, uma manchete de domingo: ANTIGO GRANDE HOTEL EM DECADÊNCIA. As fotos que acompanhavam partiram o coração de Jack: a pintura da entrada principal estava descascando; o gramado estava numa desordem escabrosa, sem

qualquer vestígio de vegetação; janelas quebradas por tempestades e pedras.

Esta seria uma parte do livro, se é que ele na realidade escreveria — a fênix queimada para renascer das cinzas. Prometeu a si mesmo que cuidaria do lugar com muito cuidado. Parecia que até ontem não tinha entendido realmente a extensão de sua responsabilidade para com o Overlook. Era quase como se tivesse responsabilidade para com a própria história.

Em 1961, quatro escritores, dois deles vencedores do prêmio Pulitzer, alugaram o Overlook e o reabriram como uma escola de escritores. Isso durou um ano. Um dos alunos se embriagou no apartamento do terceiro andar, pulou da janela, caiu no terraço de cimento e morreu. O jornal sugeria suicídio.

Todo grande hotel tem seus escândalos, comentara Watson, assim como todo grande hotel tem um fantasma. Por quê? Diabos, as pessoas vêm e vão…

De repente, parecia que quase podia sentir o peso do Overlook sobre suas costas, 110 apartamentos, os depósitos, cozinha, despensa, frigorífico, salão, saguão, restaurante…

( No salão as mulheres vêm e vão)

( … e a Máscara da Morte Rubra dominava tudo. ) Esfregou os lábios e virou as páginas do álbum. Estava agora no último terço, e pela primeira vez se questionou sobre quem poderia ser o dono do livro, deixado por cima da pilha mais alta de registros no porão.

Uma nova manchete, datada de 10 de abril de 1963:

GRUPO DE LAS VEGAS COMPRA RENOMADO HOTEL NO COLORADO

Pitoresco Overlook Torna-se Clube Privado

Robert T. Leffing, representante de um grupo de investidores sob o nome de High Country Investments, anunciou hoje em Las Vegas que o High Country negociou um acordo para o famoso Hotel Overlook, uma estância localizada no topo das Rochosas. Leffing não mencionou os nomes dos investidores, mas disse que o hotel se transformará em um clube privado. Declarou ainda que o grupo representado por ele espera vender títulos a grandes executivos de empresas americanas e estrangeiras.

O grupo High Country possui também hotéis em Montana, Wyoming e Utah.

O Overlook tornou-se conhecido mundialmente nos anos de 1946 a 1952, quando era de propriedade do misterioso multimilionário Horace Derwent, que…

O tema da próxima página era uma mera nota, datada de quatro meses mais tarde. O Overlook reabrira sob a nova direção. Aparentemente, o jornal não conseguira descobrir, ou não estava interessado em saber quem eram os investidores, pois nenhum nome foi mencionado, exceto o de High Country Investments — o nome de empresa mais anônimo que Jack já ouvira, perdendo apenas para uma cadeia de lojas de bicicletas e peças a oeste da Nova Inglaterra, sob o nome de Business, Inc.

Virou a página e deu uma olhada no recorte colado ali.

MILIONÁRIO DERWENT RETORNA AO COLORADO PELA PORTA DOS

FUNDOS?

Executivo da High Country Identificado como Charles Grondin Por Rodney Conklin, Editor Financeiro

O Hotel Overlook, um deslumbrante e pitoresco palácio nas montanhas do Colorado, durante um tempo o brinquedo pessoal do milionário Horace Derwent, está no centro de um embaraço financeiro que só agora começa a ser esclarecido.

No dia 10 de abril do ano passado, o hotel foi comprado por uma firma de Las Vegas, High Country Investments, para se tornar um clube privado para executivos ricos, de origem estrangeira ou local. Agora, fontes afirmam que o High Country é presidido por Charles Grondin, cinquenta e três anos, presidente do Grupo de Desenvolvimento Imobiliário da Califórnia até 1959, quando se demitiu para assumir o cargo de vice-presidente executivo, no escritório central da Derwent Enterprises.

O fato levou a especulações sobre a possibilidade de o High Country Investments ser controlado por Derwent, que pode ter adquirido o Overlook pela segunda vez e, decididamente, sob circunstâncias estranhas.

Grondin, que foi acusado e absolvido por sonegação de imposto de renda em 1960, não foi localizado para comentários, e Horace Derwent, que zela suspeitosamente por sua privacidade, não fez comentários quando consultado por telefone. O deputado Dick Bows, de Golden, solicitou completa investigação do…

Aquele recorte era datado de 27 de julho de 1964. O próximo era uma coluna de um jornal dominical, de setembro do mesmo ano. Era de autoria de Josh Brannigar, um investigador para casos de corrupção da turma de Jack Anderson. Torrance lembrava-se vagamente de que Brannigar havia morrido em 1968 ou 1969.

ZONA FRANCA DA MÁFIA NO COLORADO?

Por Josh Brannigar

Parece agora possível que o mais recente local de descanso e recreação dos chefes supremos da Organização nos Estados Unidos esteja localizado num hotel afastado, aninhado no centro das Rochosas. O

Hotel Overlook, um elefante branco que foi, sem sorte, dirigido por quase uma dúzia de diferentes grupos e indivíduos desde sua inauguração em 1910, está agora sendo operado como um clube privado muitíssimo fechado, aparentemente para homens de negócios que precisam de descanso. A pergunta é, realmente, em que negócio estão metidos os associados do Overlook?

Os sócios presentes à reunião da semana de 16 a 23 de agosto podem nos dar uma ideia. A lista abaixo foi obtida por um ex-funcionário do High Country Investments, companhia a princípio tida como testa de ferro de uma empresa pertencente a Derwent Enterprises. Ao que tudo indica, parece que o interesse de Derwent no High Country (se é que há algum) só é ultrapassado pelos interesses dos diversos barões do jogo de Las Vegas. E estes mesmos gângsteres estiveram, no passado, ligados a suspeitos e condenados chefes do submundo.

Durante a ensolarada semana de agosto estiveram presentes no Overlook:

Charles Grondin, presidente do High Country Investments. Em julho deste ano, tornou-se pública a notícia de que ele estava capitaneando o barco High Country. Consideravelmente depois do fato, foi anunciado

que Grondin havia anteriormente se desligado de seu cargo na Derwent Enterpresis. Grondin, com sua juba prateada, foi uma vez julgado e absolvido por sonegação de impostos, em 1960. Ele se recusou a conversar comigo para esta coluna.

Charles “Baby Charlie” Battaglia, um empresário de Las Vegas, de sessenta anos, acionista do Greenback e do Lucky Bones, na área de Strip. Battaglia é amigo íntimo de Grondin. Seus antecedentes criminais remontam a 1932, quando foi julgado e absolvido como assassino da quadrilha de Jack “Holandezinho” Morgan. As autoridades federais suspeitam de envolvimento com tráfico de drogas, prostituição e crimes por encomenda, mas “Baby Charlie” foi preso apenas uma vez, por sonegação de imposto em 1955-6.

Richard Scarne, o principal acionista da Fun Time Automatic Machines. A empresa fabrica caça-níqueis para o pessoal de Nevada, e mesas de pinball e jukeboxes (Moeda Melódica) para o resto do país.

Cumpriu pena por assalto a mão armada (1940), porte de arma oculta (1948) e por fraude de imposto (1961).

Peter Zeiss, importador baseado em Miami, com aproximadamente setenta anos. Durante os últimos cinco anos, tem lutado contra a deportação como persona non grata. Foi condenado por acusações de receptação e ocultação de propriedades roubadas (1958), e por fraude de imposto (1954). Charmoso, distinto e elegante, Peter Zeiss é chamado de “Poppa” pelos íntimos. Foi julgado sob acusação de assassinato e de ter participado como cúmplice em outros homicídios.

Grande acionista da Fun Time de Richard Scarne, tem também participação nos lucros de quatro cassinos de Las Vegas.

Vittorio Gienelli, também conhecido como “Vito, o Açougueiro”, julgado duas vezes pelo homicídio de mafiosos, sendo um deles o assassinato a machado do vice-chefe de atividades ilegais de Boston, Frank Scott. Gienelli foi acusado 23 vezes, julgado 14, e condenado apenas uma vez por furto em 1940. Informaram que nos últimos anos Gienelli tornou-se poderoso na operação oeste da organização, que é centralizada em Las Vegas.

Carl “Jimmy-Ricks” Prashkin, investidor de San Francisco, famoso por ser o provável herdeiro do poder comandado agora por Gienelli.

Prashkin detém grande número de ações da Derwent Enterprises, do High Country Investments, da Fun Time Automatic Machines e de três

cassinos de Las Vegas. Prashkin tem ficha limpa nos Estados Unidos, mas foi acusado de fraude no México, suspeita que foi rapidamente afastada três semanas depois de levantada. Comenta-se que Prashkin pode ser acusado de lavar o dinheiro de operações do cassino de Las Vegas e de direcionar a fortuna de volta às legítimas operações oeste da organização. E, agora, tais operações podem incluir o Hotel Overlook, no Colorado.

Outros visitantes durante a estação incluem…

Havia mais informações, mas Jack apenas passou os olhos por cima, sempre enxugando os lábios com a mão. Um banqueiro com ligações em Las Vegas.

Homens de Nova York que aparentemente mantinham outras atividades no Garment District, além de vestuário. Homens citados por envolvimento com drogas, vícios, roubos, assassinatos.

Deus, que história! E estiveram todos aqui, exatamente aqui em cima, naqueles apartamentos vazios. Talvez trepando com putas de luxo no terceiro andar. Bebendo litros de champanhe. Fazendo negócios que se transformariam em milhões de dólares, talvez na mesma suíte onde presidentes tinham se hospedado. O hotel tinha história, isso sim. Uma tremenda história. Um pouco frenético, Jack tirou a caderneta do bolso e rabiscou outro lembrete para verificar toda essa gente na biblioteca de Denver, quando o trabalho de zeladoria estivesse concluído. Se todo hotel tem seus fantasmas, o Overlook tinha uma assembleia inteira deles. Primeiro suicídio, depois a máfia, o que mais viria depois?

O recorte seguinte era uma reação furiosa de Charles Grondin contra as acusações de Brannigar. Jack sorriu maliciosamente.

O recorte da outra página era tão grande que estava dobrado. Jack o abriu e levou um susto. A foto ali parecia saltar para ele: o papel de parede tinha sido mudado em junho de 1966, mas aquela janela e a vista ainda eram as mesmas. Era a paisagem a oeste da Suíte Presidencial. O assassinato veio a seguir. A parede da saleta junto à porta, que levava ao quarto, estava salpicada de sangue e do que só poderiam ser partículas de cérebro. Um segurança, com o rosto impassível, estava de pé, ao lado de um cadáver escondido por um cobertor. Fascinados, os olhos de Jack correram para a manchete.

ASSASSINATO DA MÁFIA EM HOTEL DO COLORADO

Suposto Chefe de Quadrilha Assassinado em Clube Privativo Mais Dois Mortos Sidewinder, Colorado (UPI) — A sessenta quilômetros desta pacata cidade do Colorado, uma execução ocorreu no coração das Montanhas Rochosas. O Hotel Overlook, comprado há três anos por uma firma de Las Vegas com o objetivo de funcionar como um clube privado, foi o cenário de um assassinato triplo. Dois dos homens eram companheiros ou guarda-costas de Vittorio Gienelli, também conhecido como “o Açougueiro” devido ao seu envolvimento em um assassinato em Boston, há vinte anos.

A polícia foi chamada por Robert Norman, gerente do Overlook, que disse ter ouvido tiros, e alguns hóspedes informaram que dois homens, com o rosto coberto por meias e empunhando armas, fugiram pela escada de incêndio, escapando num conversível marrom de modelo recente.

O oficial Benjamin Moorer descobriu dois homens mortos do lado de fora da Suíte Presidencial, onde já se hospedaram dois presidentes americanos. Mais tarde foram identificados como Victor Boorman e Roger Macassi, ambos de Las Vegas. No interior, Moorer encontrou o corpo de Gienelli no chão. Gienelli estava aparentemente fugindo dos criminosos, quando foi assassinado. Moorer afirmou que Gienelli foi morto à queima-roupa por tiros de escopeta de grosso calibre.

Charles Grondin, o representante da companhia que agora é proprietária do Overlook, não pôde ser encontrado para…

Abaixo do recorte, em rabiscos fortes de esferográfica, alguém escreveu:

“Levaram as bolas dele junto”. Jack olhou fixo para aquilo durante muito tempo, sentindo frio. A quem pertencera esse álbum?

Finalmente, virou a página, engolindo em seco. Outra coluna de Josh Brannigar, datada de 1967. Leu apenas a manchete: HOTEL FAMOSO VENDIDO APÓS ASSASSINATO DE

PERSONALIDADE DO SUBMUNDO.

As folhas que se seguiam estavam vazias.

( Levaram as bolas dele junto. )

Folheou de volta para o começo, procurando um nome ou endereço.

Mesmo um número de apartamento, pois tinha certeza de que, fosse quem fosse, a pessoa que fizera o álbum de recortes havia se hospedado no hotel.

Mas não havia nada.

Ele se preparava para repassar os recortes, desta vez mais atento, quando uma voz o chamou das escadas.

— Jack? Amor?

Wendy.

Levou um susto, quase se sentindo culpado, como se estivesse bebendo às escondidas, e ela pudesse sentir o cheiro do álcool. Ridículo. Esfregou os lábios com a mão e respondeu:

— Sim, meu bem. Estou procurando ratos.

Ele a escutou descendo as escadas, e em seguida passando pela sala da caldeira. Rapidamente, sem pensar por quê, escondeu o álbum sob uma pilha de notas e faturas. Levantou-se enquanto ela atravessava o arco.

— Que diabos está fazendo aqui embaixo? São quase três horas.

Ele sorriu:

— Já é tão tarde? Estava aqui mexendo nestas coisas. Tentando descobrir onde os corpos estão enterrados, acho.

As palavras ecoaram maldosamente dentro de sua cabeça.

Ela se aproximou, com os olhos fixos nele, e Jack inconscientemente se afastou, sem conseguir se conter. Sabia o que ela estava fazendo: tentava sentir o cheiro de bebida. Talvez nem ela mesma soubesse, mas estava, e isso o fez se sentir culpado e furioso.

— Sua boca está sangrando — ela informou num tom curiosamente neutro.

— Hum? — Levou a mão aos lábios e se assustou com a dor leve que sentiu. O dedo indicador ficou sujo de sangue. Seu sentimento de culpa aumentou.

— Ficou esfregando a boca de novo, não foi?

Ele baixou os olhos e encolheu os ombros.

— É, acho que sim.

— Tem sido um inferno para você, não tem?

— Não, nem tanto.

— Está pelo menos um pouco mais fácil?

Ele levantou os olhos e começou a caminhar. Andando, ficava mais fácil.

Foi até a esposa e passou um braço em volta de sua cintura. Afastou uma mecha de seu cabelo louro e deu um beijo em seu pescoço.

— Sim — respondeu. — Onde está Danny?

— Ah, ele está por aí, em algum lugar. Começou a ficar nublado lá fora.

Com fome?

Com uma sensualidade simulada, escorregou a mão sobre o traseiro da mulher, coberto pela calça jeans justa.

— Como um urso, madame.

— Olhe aí, seu atrevido. Não comece o que não pode terminar.

— Uma trepadinha, madame? — perguntou ele, ainda a acariciando. —

Fotos obscenas? Posições bizarras?

Enquanto atravessavam o arco, Jack deu uma olhada para a caixa onde o álbum

( de quem? )

estava escondido. Com a luz apagada, era apenas uma sombra. Sentiu-se aliviado por ter conseguido afastar Wendy. Ao se aproximarem da escada, o apetite sexual ficou menos simulado, mais natural.

— Talvez — sentenciou ela. — Depois de comermos um sanduíche… ai!

— Fugiu dele, rindo. — Isso faz cócegas!

— Isso não é nada comparado ao que Jack Torrance gostaria de fazer, madame.

— Caia fora, Jack. O que me diz de um misto quente… como aperitivo?

Subiram as escadas juntos, e Jack não olhou para trás de novo. Mas pensou nas palavras de Watson:

Todo grande hotel tem um fantasma. Por quê? Diabos, as pessoas vêm e vão…

Wendy então fechou a porta do porão, que ficou atrás deles na escuridão.

19

EM FRENTE AO 217

Danny lembrou-se das palavras de Hallorann, sobre a funcionária que trabalhara no Overlook durante a estação:

Ela disse ter visto alguma coisa em um dos quartos onde… bem, onde aconteceu algo ruim. Era o apartamento 217, e quero que me prometa que não vai entrar lá, Danny. O inverno inteiro. Fique bem longe.

Era uma porta comum, cinza-escuro, em nada diferente das outras portas que havia nos dois primeiros andares do hotel. Ficava na metade de um corredor que fazia um ângulo de noventa graus com o corredor principal do segundo andar. Os números na porta não pareciam diferentes dos números dos apartamentos no edifício onde moraram em Boulder. Um 2, um 1 e um 7.

Grande coisa. Exatamente abaixo deles, um pequenino círculo de vidro, um olho mágico. Danny já tinha experimentado vários deles. De dentro, a pessoa tinha uma visão maior do corredor. De fora, podia enterrar os olhos de todas

as formas imagináveis e ainda assim não veria nada. Um truque sujo.

( Por que está aqui? )

Depois do passeio por trás do Overlook, Danny e a mãe voltaram. Ela preparou seu almoço favorito, um sanduíche de queijo e mortadela, e também sopa de feijão Campbell’s. Comeram na cozinha de Dick e conversaram. O

rádio de pilha estava ligado, tocando baixinho e chiando músicas da estação Park Estes. A cozinha era seu lugar favorito no hotel. Ele acreditava que mamãe e papai provavelmente sentiam a mesma coisa, porque após fazerem as refeições no restaurante por dois ou três dias, concordaram em começar a comer na cozinha, colocando cadeiras em torno da tábua de carne de Dick Hallorann, que era quase tão grande quanto a mesa de jantar em Stovington.

O restaurante era muito deprimente, mesmo com as luzes acesas e a música do toca-fitas do escritório. Você era, apenas, uma das três pessoas sentadas a uma mesa, cercada por dúzias de outros assentos vazios e cobertos com estes forros de plástico transparente. Mamãe disse que era como jantar no meio de um conto de Horace Walpole, e papai, rindo, concordou. Danny não tinha ideia de quem era Horace Walpole, mas sabia que a comida de mamãe começara a ficar mais gostosa logo que passaram a comer na cozinha. Danny descobria pequenos traços da personalidade de Dick Hallorann por ali, e esses traços o tranquilizavam, como um carinho.

Mamãe comeu meio sanduíche, sem sopa. Falou que papai provavelmente tinha ido dar um passeio a pé, já que tanto o fusca quanto o caminhão do hotel estavam no estacionamento. Disse que estava cansada e que iria deitar durante mais ou menos uma hora, e perguntou se Danny achava que podia ficar sozinho, sem se meter em confusão. Danny respondeu com a boca cheia de queijo e mortadela que achava que podia.

— Por que não vai brincar no parquinho ? Eu achei que você ia adorar aquele lugar, com a caixa de areia para seus caminhões e tudo o mais.

O menino engoliu, e a comida desceu por sua garganta como um amontoado seco e duro.

— Talvez eu vá — respondeu, voltando-se para o rádio e prestando atenção nele.

— E aqueles animais bacanas feitos de plantas — ela continuou, retirando o prato sujo. — Seu pai vai ter que aparar eles logo, logo.

— É…

(São apenas coisas ruins. Uma vez, foi algo relacionado com a droga daqueles arbustos, podados para parecerem animais…)

— Se você encontrar seu pai antes de mim, diga que estou deitada.

— Tá bem, mamãe.

Ela pôs os pratos sujos na pia e depois se virou para ele.

— Está feliz aqui, Danny?

Ele a olhou com sinceridade, um bigode de leite sobre o lábio.

— Aham.

— Nenhum pesadelo?

— Não. — Tony havia aparecido uma vez, chamando seu nome de muito longe, uma noite quando Danny estava deitado na cama. Danny fechara os olhos bem apertados até que Tony desapareceu.

— Tem certeza?

— Tenho, mamãe.

Ela parecia satisfeita.

— Como está a mão?

Ele esticou o braço para ela:

— Bem melhor.

Wendy assentiu com a cabeça. Jack já havia levado o ninho e o pirex, cheio de vespas congeladas, para queimar no incinerador, atrás do galpão de equipamentos. Desde então, nunca mais viram nenhuma vespa. Ele escrevera para um advogado em Boulder, anexando as fotos da mão de Danny, e o advogado telefonara, havia dois dias — o que deixou Jack com um péssimo humor a tarde inteira. O advogado duvidava que tivessem sucesso caso processassem o fabricante da bomba de inseticidas, pois havia apenas Jack para testemunhar que seguira as instruções impressas na embalagem. Jack indagou ao advogado se não poderiam comprar outras bombas e testar se tinham o mesmo defeito. O advogado respondeu que sim, mas que os resultados seriam altamente duvidosos, mesmo que todas as bombas de teste não funcionassem bem. E contou sobre um caso que envolvera uma companhia que fabricava escadas e um homem que havia fraturado a coluna.

Wendy ficou com pena de Jack, mas, no fundo, sentia-se feliz por Danny ter se recuperado sem sequelas. Era melhor deixar ações judiciais para quem entendesse delas, e aí não se incluíam os Torrance. E desde então nunca mais viram vespas.

— Vá brincar, velhinho. Divirta-se.

Mas Danny não se divertiu. Caminhou sem rumo pelo hotel, remexeu os armários das camareiras e os quartos dos zeladores, procurando algo interessante, sem encontrar. Um menino se arrastando ao longo de um tapete

azul-escuro trançado com linhas pretas sinuosas. De vez em quando tentava abrir porta por porta, mas, naturalmente, estavam todas trancadas. As chaves estavam penduradas no escritório, e ele sabia onde, mas papai havia dito que ele não deveria pegar nenhuma. E ele não queria. Queria?

( Por que está aqui? )

Afinal, não tomou aquele rumo à toa. Danny foi levado ao apartamento 217 por uma curiosidade mórbida. Lembrava-se de uma história que papai contara certa vez, quando estava bêbado. Já fazia muito tempo, mas a história estava tão vívida agora como na época em que papai a contara. Mamãe brigou com papai, perguntando o que ele estava fazendo, lendo para uma criança de três anos algo tão horrível. O nome da história era Bluebeard.

Aquela memória estava bem nítida em sua mente, pois a princípio ele achou que papai estivesse dizendo Bluebird, mas não havia pássaros azuis na história, ou pássaros de qualquer espécie. Na verdade, a história era sobre a esposa de Barba Azul, uma mulher bonita, de cabelos louros como os da mamãe. Depois que Barba Azul se casou com ela, foram morar em um castelo grande e bonito, que não era muito diferente do Overlook. Todos os dias Barba Azul saía para trabalhar, e todos os dias dizia para a sua bela esposa não abrir a porta de determinado quarto, apesar de a chave dele estar pendurada em um gancho, exatamente como a chave mestra estava pendurada na parede do escritório. A esposa de Barba Azul foi ficando cada vez mais curiosa. Tentou espiar pelo buraco da fechadura, da mesma forma que Danny tentara olhar pelo olho mágico do apartamento 217, também não conseguindo. Havia até um desenho da mulher se ajoelhando e tentando olhar por baixo da porta, mas a fresta era muito estreita. A porta se abriu e…

O velho livro de histórias retratava a descoberta dela em detalhes pavorosos. A imagem tinha sido marcada como cicatriz na mente de Danny.

As cabeças degoladas das sete esposas do Barba Azul estavam no quarto, cada uma em seu pedestal, os olhos virados e completamente brancos, as bocas tortas e abertas em gritos silenciosos. De alguma forma, elas se equilibravam sobre pescoços irregulares decepados pelo golpe da espada larga e havia sangue escorrendo pelos pedestais.

Apavorada, a esposa tentou fugir do quarto e do castelo, mas encontrou Barba Azul no corredor, os olhos terríveis, irados. “Eu disse para não entrar no quarto”, falou ele, desembainhando a espada. “Infelizmente, você é tão curiosa quanto as outras sete, e, apesar de eu ter amado você mais do que todas, seu fim será como o delas. Prepare-se para morrer, mulher ordinária!”

Danny tinha a vaga lembrança de que a história tivera um final feliz, mas isso estava ofuscado diante das duas imagens dominantes: a porta enlouquecedora e provocadoramente trancada, que guardava um grande segredo, e o próprio segredo terrível, repetido mais de meia dúzia de vezes. A porta trancada e atrás dela as cabeças, as cabeças degoladas.

Sua mão se ergueu e furtivamente tocou a maçaneta da porta. Ele havia perdido a noção de quanto tempo estivera ali, parado, hipnotizado diante da insípida porta cinzenta trancada.

( E talvez, uma meia dúzia de vezes, pensei ter visto coisas… coisas ruins…)

Mas o sr. Hallorann — Dick — também disse que não acreditava que essas coisas pudessem machucar. Eram como desenhos assustadores em um livro, só isso. E talvez ele não visse nada. Por outro lado…

Enfiou a mão esquerda no bolso e tirou a chave mestra. Estivera ali o tempo todo, claro.

Danny a segurava pela aba quadrada de metal que havia na extremidade, com a palavra ESCRITÓRIO gravada. Girou a chave na corrente, observando-a rodar e rodar. Depois de alguns minutos, parou e enfiou a chave mestra na fechadura. Ela entrou facilmente, sem embaraços, como se quisesse ter estado ali todo o tempo.

( Pensei ter visto coisas… coisas ruins… prometa que não vai entrar lá. ) ( Prometo. )

Claro, uma promessa era muito importante. Ainda assim, sua curiosidade causava comichões alucinadas, como uma hera venenosa que coça onde não devia. Era uma espécie terrível de curiosidade, aquele tipo que faz a pessoa espiar por entre os dedos, nas partes mais assustadoras de um filme de terror.

O que estava por trás da porta, porém, não seria nenhum filme.

( Não acho que algo aqui possa machucar você… como desenhos assustadores em um livro…)

De repente, sem ter certeza do que ia fazer, ergueu a mão esquerda até retirar a chave mestra da fechadura e guardá-la de volta no bolso. Olhou fixo para a porta por mais tempo, os olhos azul-acinzentados arregalados, em seguida virou-se e rapidamente caminhou em direção ao corredor principal, que formava um ângulo de noventa graus com aquele onde estava.

Algo o fez parar ali e, por um momento, não tinha certeza do que era.

Depois lembrou que adiante, a caminho das escadas, havia uma dessas mangueiras antigas de incêndio enrolada na parede. Enrolada como uma

cobra modorrando.

Papai tinha dito que os extintores não eram químicos, apesar de haver vários deles na cozinha. Eram os precursores dos modernos sprinklers. As mangueiras de lona estavam conectadas diretamente ao sistema hidráulico do Overlook, e ao acionar uma única válvula você sozinho podia tornar-se um Corpo de Bombeiros. Papai disse também que os extintores químicos, que pulverizam espuma de CO2, eram muito melhores. Os químicos apagavam os incêndios e retiravam o oxigênio de que as chamas necessitavam para queimar, enquanto um pulverizador de alta pressão poderia alastrar as chamas. Papai contou que o sr. Ullman deveria substituir as mangueiras antigas, assim como as grelhas antigas, mas o sr. Ullman talvez não fizesse nenhuma das duas coisas, pois era um PÃO-DURO ESCROTO. Danny sabia que este era um dos piores adjetivos que o pai usava, pois era como sempre se referia a certos médicos, dentistas e mecânicos, e também ao chefe do Departamento de Inglês de Stovington, que rejeitara alguns dos pedidos de livros que papai fizera, dizendo que as solicitações estavam acima do orçamento. “Acima do orçamento, merda nenhuma”, Danny uma vez ouviu do quarto, onde deveria estar dormindo. “Está apenas guardando os últimos quinhentos dólares para si, o PÃO-DURO ESCROTO.”

Danny olhou ao redor do corredor.

O extintor estava lá, uma mangueira achatada, enrolada dezenas de vezes sobre si mesma, o tanque vermelho preso na parede. Sobre ele, um machado numa caixa de vidro, como uma obra em um museu, com palavras brancas em fundo vermelho: EM CASO DE EMERGÊNCIA QUEBRE O VIDRO. Danny conseguia ler a palavra emergência, que era também o nome de um de seus programas favoritos na televisão, porém não tinha certeza do resto. Mas não gostava da forma como a palavra era usada se relacionando com aquela mangueira longa e achatada.

EMERGÊNCIA significava fogo, explosões, acidentes de carro, hospitais, às vezes morte. E não gostava da forma como a mangueira se pendurava ali tão suavemente na parede. Quando estava sozinho, sempre apressava o passo diante dos extintores. Nenhuma razão especial. Mas se sentia melhor indo depressa. Era mais seguro.

Agora, o coração batia forte no peito. Fez a curva, olhando ao redor.

Depois do extintor, a escada! Mamãe estava lá embaixo, dormindo. E, se papai estivesse de volta de seu passeio, provavelmente estaria sentado na cozinha, comendo um sanduíche e lendo um livro. Danny passaria pelo extintor velho e desceria as escadas.

Começou a caminhar, aproximando-se da parede até que seu braço direito estava roçando no caro papel de seda. Vinte passos de distância. Quinze.

Uma dúzia.

Quando ele estava a dez passos de distância, o bocal de aço da mangueira subitamente rolou de onde estivera pousado,

(dormindo?)

e caiu sobre o tapete do corredor, fazendo um barulho surdo. Ali estava, o buraco escuro de seu focinho apontando para Danny. O garoto parou imediatamente, estremecendo de pavor; o sangue latejando forte em seus ouvidos e têmporas. A boca seca e amarga, as mãos cerradas. No entanto, o focinho da mangueira continuava apenas ali, com seu revestimento de latão brilhando suave, a lona dando uma volta e subindo em direção ao suporte pintado de vermelho aparafusado na parede.

Continuar: parte 4 de 5