O Morgado de Fafe em Lisboa
Acto I
Sala ricamente guarnecida. Algumas mesas ocupadas por pessoas que jogam
CENA I
BARÃO e BARONESA DE CAÇURRÃES, D. LEOCÁDIA, AS TRÊS
DAMAS, LUIZ PESSANHA, e FRANCISCO DE PROENÇA.
(Ao correr do pano ouvem-se as ultimas notas do alegro de uma ar ia que D. Leocádia canta acompanhando-se ao piano.)
VOZES. (dos que jogam e dos que estão na frente da cena.)
Muito bem! Excelentemente! Deliciosamente, minha senhora!
PESSANHA (A D. Leocádia, que sai do piano.)
Cantou angelicamente, prima Leocádia.
PROENÇA
E o anjo que cantava só podia ser dignamente acompanhado pelo anjo que tocava.
D. LEOCÁDIA
Já ouviram cantar os anjos?
PESSANHA
Em sonhos, já. Ouvem-se os anjos em sonhos, quando adormecemos com a alma cheia da voz melodiosa da mulher amada.
BARONESA (À parte.)
Que palavreado!
PESSANHA
Vossas excelências, se nunca ouviram em sonhos as harmonias dos anjos, é que ainda não amaram daquele amor que nos repassa a alma das músicas de Anfião e Orpheu.
D. LEOCÁDIA (Irónica.)
Sublime, magnifico, primo!
1ª DAMA
Os meus anjos cantam muito desafinados.
2ª DAMA
Os meus constipam-se nos gelos da alma.
BARONESA
Isso parece-me esquisito, menina... Torna a dizer, Cassilda.
PROENÇA
Foi uma bela ideia, a da sua sobrinha, senhora baronesa... (À 3ª dama.) E os anjos de V. Exa?
3ª DAMA
Os meus foram todos escriturados para cantarem no coração da prima Leocádia.
D. LEOCÁDIA
Ai! Estás enganada, Carolina... Eu já não creio em anjos... Estou cética, estranhamente cética.
PESSANHA
Cética, prima!? Que blasfémia! Isso é desagradecer o raio de graça com que a Providencia lhe ilumina o que para outras almas se esconde em trevas.
BARONESA
Ó primo Pessanha, não esteja a fazer vaidosas estas meninas.
PESSANHA
A vaidade, prima Baronesa, é um adorno das almas distintas, quando se não vangloria em deslumbrar a vaidade alheia.
BARONESA
Assim será; mas eu não gosto de ouvir expressões inconvenientes... Que é estar aí a falar em anjos que se constipam, em anjos escriturados?! Forte irreverencia!
D. LEOCÁDIA
Não se falia dos anjos do céu, minha mãe, é dos anjos dos poetas que descem muitas vezes do céu para o inferno deste mundo.
AS TRÊS DAMAS (Rindo e falando simultaneamente):
1ª DAMA É verdade, prima Leocádia.
2ª DAMA Os anjos dos poetas são assim.
3ª DAMA Disseste divinamente, menina.