O Morgado de Fafe em Lisboa

Camilo Castelo Branco · Capítulo 1 de 53

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O Morgado de Fafe em Lisboa

Acto I

Sala ricamente guarnecida. Algumas mesas ocupadas por pessoas que jogam

CENA I

BARÃO e BARONESA DE CAÇURRÃES, D. LEOCÁDIA, AS TRÊS

DAMAS, LUIZ PESSANHA, e FRANCISCO DE PROENÇA.

(Ao correr do pano ouvem-se as ultimas notas do alegro de uma ar ia que D. Leocádia canta acompanhando-se ao piano.)

 

VOZES. (dos que jogam e dos que estão na frente da cena.)

Muito bem! Excelentemente! Deliciosamente, minha senhora!

 

PESSANHA (A D. Leocádia, que sai do piano.)

Cantou angelicamente, prima Leocádia.

 

PROENÇA

E o anjo que cantava só podia ser dignamente acompanhado pelo anjo que tocava.

D. LEOCÁDIA

Já ouviram cantar os anjos?

 

PESSANHA

Em sonhos, já. Ouvem-se os anjos em sonhos, quando adormecemos com a alma cheia da voz melodiosa da mulher amada.

 

BARONESA (À parte.)

Que palavreado!

 

PESSANHA

Vossas excelências, se nunca ouviram em sonhos as harmonias dos anjos, é que ainda não amaram daquele amor que nos repassa a alma das músicas de Anfião e Orpheu.

D. LEOCÁDIA (Irónica.)

Sublime, magnifico, primo!

 

1ª DAMA

Os meus anjos cantam muito desafinados.

 

2ª DAMA

Os meus constipam-se nos gelos da alma.

 

BARONESA

Isso parece-me esquisito, menina... Torna a dizer, Cassilda.

 

PROENÇA

Foi uma bela ideia, a da sua sobrinha, senhora baronesa... (À 3ª dama.) E os anjos de V. Exa?

3ª DAMA

Os meus foram todos escriturados para cantarem no coração da prima Leocádia.

 

D. LEOCÁDIA

Ai! Estás enganada, Carolina... Eu já não creio em anjos... Estou cética, estranhamente cética.

 

PESSANHA

Cética, prima!? Que blasfémia! Isso é desagradecer o raio de graça com que a Providencia lhe ilumina o que para outras almas se esconde em trevas.

 

BARONESA

Ó primo Pessanha, não esteja a fazer vaidosas estas meninas.

 

PESSANHA

A vaidade, prima Baronesa, é um adorno das almas distintas, quando se não vangloria em deslumbrar a vaidade alheia.

 

BARONESA

Assim será; mas eu não gosto de ouvir expressões inconvenientes... Que é estar aí a falar em anjos que se constipam, em anjos escriturados?! Forte irreverencia!

 

D. LEOCÁDIA

Não se falia dos anjos do céu, minha mãe, é dos anjos dos poetas que descem muitas vezes do céu para o inferno deste mundo.

 

AS TRÊS DAMAS (Rindo e falando simultaneamente):

1ª DAMA É verdade, prima Leocádia.

2ª DAMA Os anjos dos poetas são assim.

3ª DAMA Disseste divinamente, menina.