O Morgado de Fafe em Lisboa
Morgado
Faliam todas à pancada! Ora, diga lá cada uma pela sua vez o que tem na ideia.
3ª DAMA
Eu disse que invejava a sorte da sua esposa.
BARONESA (Descendo.)
Menina! (Com severidade.) Seja comedida no seu entusiasmo, e não interrompa.
MORGADO
Liberdade de imprensa, minha rica senhora. Deixe-a falar. Eu não casei com a tal menina, minha senhora.
AS TRÊS DAMAS (falando simultaneamente):
2º DAMA Ah! Não!
3ª DAMA Traiu-o, talvez; que injustiça!
1ª DAMA E que mau gosto!
MORGADO
Não há que ver; são como as rãs; em falando uma faliam todas.
SOARES (À parte, a D. Leocádia).
É muito grosseiro!
BARÃO
Deixem falar o senhor morgado, meninas, o morgado. Chamava-se Maria, a menina; mas ela gostava que lhe chamassem Mareia, porque Mareia é poético; e lá a casa do pai dela ia um poeta jantar que lhe chamava Mareia. Estava marcado o dia do casamento, quando fui jantar a casa do meu sogro. A noiva ficou à minha esquerda, e estava vermelha como uma ginja. Era a inocência, pelos modos; mas eu pensei que seria indisposição de dentro, e perguntei-lhe se estava entoirida com o jantar. Disse-me que não tinha provado nada; e eu, pensando que era fraqueza o seu mal, botei-lhe ao prato uma perna de peru. E que há de ela fazer? Ergue-se assarapantada, e foge. O que é, o que não é, que será, erguem-se todos; uns vão, outros vêm, tudo se mexe menos eu, que fiquei comendo o peito do peru, bocado porque sou doido. Tratei de saber o que tivera a rapariga. Vi o poeta e perguntei-lhe: «O senhor sabe dizer-me o que teve a Sra. D. Mareia?» Que há de dizer-me o homem? A menina retirou-se porque V. S.A. a envergonhou com a perna do peru.» — «Homem, essa! — disse-lhe eu — Aposto que o senhor poeta, lá nos seus versos, lhe disse que uma menina inocente devia envergonhar-se da perna de um peru?!» No dia seguinte, meus caros senhores, escrevi uma carta ao pai de Mareia, dizendo-lhe que na minha casa se comia muita soma de peru, e que eu não estava para ir atrás de minha, mulher todas as vezes que viesse à mesa um peru com pernas. — Em quanto a mim, a rapariga fugiu envergonhada de ver que eu comia à portuguesa, ao passo que o poeta e outros que lá estavam, com os guardanapos postos à laia de babeiros, diziam uma coisa, que eles chamavam espichos, do tamanho da légua da Povoa, e lavavam os dedos numa tigela de água, que eu ia bebendo, por não saber que é moda agora fazer da mesa lavatório. Isto veio ao caso de dizer que não sou homem de cerimónias. Como em casa dos amigos em quanto tenho vontade, e quem vai à minha casa há de comer até lhe tocar com o dedo. As meninas querem disto? (Puxa de um cartuxo de rebuçados que quer repartir aos punhados.) São de avença legítimos; trouxe-os do Porto. Sirvam-se. (As damas, sufocando o uso, saem de corrida da sala.)
BARONESA
São crianças, senhor morgado, não faça caso.
MORGADO
Agora faço! Não faço, não senhora. Goma V. Exa., se quiser.
BARONESA (Tomando um rebuçado.)
Agradecida. Eu vou repreendê-las.
MORGADO
Deixe-se disso que perde o tempo. Isto de senhoras só se castigam bem com as disciplinas do deus Cupido. (A baronesa sai rindo.) Até a sua velha se ri, senhor barão. É uma santa mulher, acho eu.
SOARES
É um tipo!
PESSANHA (Irónico.)
É um homem único, Sr. Morgado! Invejo-lhe o espirito e a felicidade!
MORGADO
Quer rebuçados?
BARÃO
Joga, Sr. Morgado?