O Morgado de Fafe em Lisboa
Juiz
Já sei ; mas também é verdade que a mais nobre e santa expressão da poesia, a condolência dos males alheios, e o remedia-los à custa mesmo de sacrifícios próprios, é realizar a mais augusta poesia do evangelho.
MORGADO
O homem parece um missionário!
JUIZ
E, portanto, Sr. Soares, se me permite que eu seja o intérprete dos seus generosos sentimentos, asseguro ao Sr. barão de Caçurrães, que por parte de V. S. A. há desistência deste mal agourado consórcio.
SOARES
Eu seria capaz de mendigar por portas para sustentar minha mulher, mas não a julgo bastante forte para sustentar o infortúnio.
D. LEOCÁDIA
Isso é uma injustiça que faz à minha coragem. Eu aceitaria contente a pobreza do meu esposo ; mas não posso consentir que ele seja desgraçado por mina causa.
SOARES
Aceito a desgraça como um heroísmo do amor; mas não posso arrastar na minha queda a mulher que eu queria erguer sobre um trono.
D. LEOCÁDIA
Desprezo as pompas do mundo e a vã ostentação dos espíritos fracos: ser-me-ia porém eternamente angustioso ver privado pela minha causa desses bens o homem que hei de amar até ao último suspiro.
MORGADO (À parte)
Estão bonitos. (Levantam-se todos).
JUIZ
Das amantíssimas expressões que se trocaram, inferimos todos, que ambos se amam extremamente, mas que nenhum dos dois aceita a responsabilidade de fazer desgraçado o outro. São duas inocentes almas que nunca tinham pensado nisto. O raio da razão veio muito a tempo felizmente. Congratulo-me de novo com os excelentíssimos pães da Sr. D. Leocádia, dou por cumprida a minha missão de juiz, e, despedindo-me, peço licença para dizer também a minha missão de amigo. O Sr. Soares tem na minha sege um lugar à sua disposição. Os meus senhores...
BARÃO
Os donos desta casa oferecem-se ao amigo que lhe foi deparado por um desgosto. Há males que trazem bens, Sr. juiz. . . (O Juiz corteja e sai com o escrivão e Soares).