O Morgado de Fafe em Lisboa

Camilo Castelo Branco · Capítulo 30 de 53

Páginas do PDF

O Morgado de Fafe em Lisboa

Morgado

 

A heroína! Pois sua filha é heroína! Oh! Isso é má coisa!

 

BARÃO

Talvez que o Sr. Morgado não ligue à palavra a justa ideia. Heroína quer dizer, no nosso caso, motivo dos sucessos vergonhosos que se deram.

 

MORGADO

Ah! Agora percebo. E porque meu mano frade, quando diz muito mal de uma nossa parenta que tem muito maus costumas, chama-lho heroína... E uma heroína! Diz ele. Agora já sei o que quer dizer heroína; verbim gracia,

Se eu quiser dizer que não venho cá jantar por motivo de não estar bem do estomago, posso dizer: por heroína do estomago. O senhor ri-se? Ninguém nasce ensinado, meu amigo. Eu alguma coisa hei de vir aprender a Lisboa.

BARÃO

Vinha eu dizendo, que conheço e reconheço os favores que V. S.* me fez, obstando ao desafio. Sei que o morgado se apresentou no Campo grande, à hora em que deviam bater-se Soares e João Leite. Sei que os quis quietar. Com boas razões, e que chegou a ameaça-los...

 

MORGADO

De dar tanto num como neutro pancada de criar bicho, isso é verdade; e se não se acomodam, os tais ferrunchos com que se queriam furar um ao outro, tinham de ir em cata deles com as canas dos braços.

 

BARÃO

Sei que depois, o infame Soares, para convencer o auditório de que tinha direitos de preferência ao coração de Leocádia, apresentou um maço de cartas, e teve o despejo de ler uma em que a minha perdida filha o autorizava a tirar-ma judicialmente. Sei mais, que o morgado lhe quis arrancar as cartas, o que decerto faria, se as testemunhas do duelo se não opusessem vigorosamente a isso...

 

MORGADO

Estava eu para bater em todos; mas neste comenos chegou um rancho de mulheres, que vinham em passeio de burrinhos, e acabou-se a pendencia.

 

BARÃO

Tudo sei. Agora saiba o meu amigo, que fui avisado de que vem hoje aqui o juiz buscar minha filha para depósito, a requerimento dela para casar com António Soares.

 

MORGADO

Que me diz?! Quer o meu amigo que eu a leve para o Minho?

BARÃO

Mil vezes grato ao seu novo obséquio; há remédio menos violento e mais salutar. O meu amigo verá como vem a terra todos os castelos que o pobre visionário

Levantou na sua fantasia, e terá ocasião de ver como são as paixões d estes peralvilhos, que veem as mulheres através da riqueza dos pais.

 

MORGADO

Acho que é bem feito; mas se vir que a rapariga não tem juízo, eu vou leva-la a minha casa, e entrego-a ao mano frade, que é um santo varão. Lá há de ser tratada como uma princesa. Tenho a casa petrechada à moderna, e agora quando for hei de levar um piano e outros instrumentos, para quando eu casar, ter a mulher com que se entretenha.

 

BARÃO

Pois tenciona casar brevemente, morgado?!