O Morgado de Fafe em Lisboa

Camilo Castelo Branco · Capítulo 6 de 53

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O Morgado de Fafe em Lisboa

Soares

Quem trouxe aqui este mentecapto?!

(Os que jogam suspendem o jogo para observarem.)

 

LEITE (Entre eles.)

Fui eu, e pedirei ao Sr. António Soares que não se ofenda de um gracejo cuja intenção é inofensiva. (Passa ao barão.)

 

MORGADO (Com seriedade.)

Vossa Senhoria chamou-me mentecapto. Mentecapto, pelos modos quer dizer tolo. Eu não vou à parede, esteja descansado. É ditado velho — aonde se dão, aí se apanham. — Mas o Sr. Há de acreditar uma coisa que eu vou dizer: pareço tolo, mas não sou, não sou, acredite.

 

SOARES

Nesse caso é grosseiro, (Movimento geral) e deveria ter pedido, a quem o apresentou, que o civilizasse primeiro. (As damas.) Peço perdão, minhas senhoras. (Agitado.)

 

BARONESA (Mostrando-se aflita.)

Eu estou banzada e perplexa!

 

MORGADO (Gravemente.)

A minha mania é dizer o que sinto, e rir do que me alegra cá no interior. Palavra de honra que me regalei de o ver assim ao senhor, e ri-me pensando que o senhor gostava de que se risse a gente. Não pensei que o senhor vinha assim amanhado de cara para a gente estar sério. Mas à vista disso, perdoará.

 

(Entram os criados com bandejas de chá e doce. Soares vai a uma bandeja tomar uma chave na e dá-a a D. Leocádia. Proença e Pessanha fazem, o mesmo ás outras senhoras. O morgado vai tirar uma chávena da bandeja ao criado da direita.)

BARÃO (No meio deles.)

 

Está dada a satisfação; vamos ao chá. (Sobe.)

 

LEITE (À baronesa.)

Eu sinto amargamente este desgosto, senhora baronesa.

 

BARONESA

Foi bem feito. Não gosto deste peralvilho. Não se a Mija por isso.

 

D. LEOCÁDIA (A Soares que lhe oferece a chávena.)

Incomodam-te as chocarrices de um idiota?!... Vamos fazer o nosso bobo... Hás de rir muito à custa dele.

 

SOARES

Escreveste o requerimento?

D. LEOCÁDIA

Já está na mão do escudeiro para ser-te entregue. (Sentam-se as damas.)

 

BARÃO

Senhor morgado, sirva-se de doce.

 

MORGADO (Servindo-se.)

Venha de lá isso. (Tira uma mão-cheia de biscoitos que vai sopeteando na chávena, posta comodamente sobre os joelhos) Vossemecê que quer? (Ao criado que está junto dele com a bandeja do açucareiro.)

 

CRIADO

Se precisa açúcar...