O Morgado de Fafe em Lisboa
Morgado
Bote mais uma colher dele. (Gargalhada de Soares, e riso mal reprimido das damas.) Olá! O senhor já se ri! Ainda bem! Estava daí a enguiçar-me com os luzios por detrás das vidraças, que nem me prestava o chá... Olhe lá se eu me zango porque o Sr. Se ri de mim! Venha de lá outra, se me faz favor. (Toma segunda chávena de chá.)
LEITE (À parte.)
Estou vexadíssimo! (Sobe e desce.)
BARÃO (Galhofeiro.)
Nada de cerimonia, Sr. Morgado,
MORGADO
Cerimónia! Ora essa! Então o Sr. Barão ainda não sabe com quem está falando! (O criado vem oferecer-lhe doce.) Eu lhe vou contar uma passagem da minha vida. (Ao criado que serve o doce) Chegue cá o sólido. O melhor é pôr o tabuleiro em cima desta tripeça. (O barão sobe pura conter o riso. O morgado puxa para junto de si o banquinho do piano.)
BARONESA (Ás damas que retêm dificilmente o riso.)
Seio! Seio!
MORGADO
Deixe rir as raparigas. Eu quando vou a alguma casa não é para-fazer chorar ninguém.
PESSANHA
Vamos à passagem da sua vida, senhor morgado.
MORGADO (Com a boca cheia.)
Lá vou já. Este doce não está mal amanhado. A como se vende o arrátel disto cá em Lisboa, ó Sr. Leite?
LEITE (Com enfado.)
Não sei, nem a ocasião é agora oportuna para semelhantes averiguações. Trataremos depois disso.
MORGADO
Quando o caminho de ferro chegar a Fafe, hei de mandar ir destas cavacas em quanto estão frescas. Ó Sr. João Leite, o senhor, que eu fiz deputado, e mais os meus caseiros e foreiros, porque não arranja um caminho de ferro para Fafe?! V. Exas damas.) Podiam aqui comer em Lisboa batatas muito boas, e baratíssimas. A como pagam os senhores cá na capital o milho e os feijões?
(Leocádia ergue-se.)
1ª DAMA
Conte-nos a passagem, senhor morgado... Estamos ansiosas.