O Negro no Mundo dos Brancos
Raça Sempre Deu o que Falar
Pode-se dizer que o tema da raça é quase “tradicional” nessa nossa
história das ciências sociais brasileiras; que nada tem de tradicional. Ou
melhor, desde os primeiros relatos de viajantes, ainda no século XVI, o
Brasil já era definido por suas gentes de cores e costumes tão distintos. A
humanidade é “vária”, teria afirmado Montaigne, quando descreveu a forma
como os Tupinambás faziam a guerra e concluiu que: “por certo há tão
grande diferença que ou o são bárbaros ou somos nós”.1
Não há como resumir essa história feita de termos, nomes e cores. O que
se pode, sim, afirmar é que raça sempre deu muito que falar sobre o e no
Brasil. Já fomos “bons selvagens”, na expressão cunhada por Rousseau;
mas baseada na representação dos nativos presente nos relatos de Jean de
Léry e Thevet;2 um espelho para os modelos de naturalistas como Buffon;3
um laboratório para pensar na degeneração que adviria do cruzamento de
raças, como apostou a geração realista de 1870.4 O fato é que raça, cor, ou
mistura foram sempre assuntos essenciais entre nós e sobre nós, surgindo
ora como motivo para exaltação, ora como sinal de descrédito. A questão
também se vinculou à ideia da identidade nacional, uma vez que, sobretudo
a partir do século XIX, era por meio da raça que definíamos a nossa
particularidade: um Brasil branco e indígena na imagem idealizada do
Segundo Reinado; um país branqueado na concepção corrente na virada do
XIX para o XX5 ou, já nos anos 1930, uma nação “divinamente mestiça”,
nesse contexto em que o cruzamento de raças e culturas virava símbolo do
Estado. Essa era, porém, uma representação basicamente retórica, sem que
qualquer contrapartida que levasse à valorização dessas populações fosse
implementada: os negros continuavam à margem das maiores benesses do
Estado, tendo acesso diferenciado ao trabalho, ao lazer, à educação e à
infraestrutura mais básica.
No entanto, sob o jargão da “democracia racial” – expressão que parecia
resumir uma “autenticidade” nacional – uma série de símbolos mestiços
tornavam-se nacionais, tanto dentro como fora do Brasil. A feijoada, de
prato de escravos virava quitute brasileiro (com o arroz a representar o
branco da população e o feijão o preto); o samba antes proibido era agora
exaltado e até mesmo a capoeira de prática coibida transformava-se em
esporte local. Isso sem esquecer de símbolos como Carmen Miranda (a
portuguesa mais mestiça e brasileira), o futebol (que de inglês tornava-se
tropical) e Zé Carioca, que criado por Walt Disney em 1942 resumia a
malandragem e a mestiçagem exaltadas no Brasil.6
Obra fundamental para a compreensão desta guinada – emblemática na
conformação desses ícones de identidade – é Casa-grande & senzala, cuja
primeira edição data de 1933. Retomando a temática da convivência entre
as “três raças”, Gilberto Freyre trazia para seu livro a experiência privada
das elites nordestinas e fazia desse caso, um exemplo de identidade. O livro
oferecia um novo modelo para a sociedade multirracial brasileira, ao
inverter o antigo pessimismo, dos anos 1870, e introduzir os estudos
culturalistas de análise: “Foi o estudo de antropologia sob a orientação do
professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo
valor, separados dos traços da raça os efeitos do ambiente ou da experiência
cultural”.7
O “cadinho das raças” aparecia como uma versão otimista do mito das
três raças, que seria por aqui mais evidente do que em qualquer outro lugar.
“Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não
na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e ou do
negro”,8 afirmava Freyre fazendo da mestiçagem uma questão de ordem
geral. Era o cruzamento de raças que passava a singularizar a nação, nesse
processo que fazia que miscigenação surgisse como sinônimo de tolerância
e hábitos sexuais da intimidade se transformassem em modelos de
sociabilidade.
O impacto desse tipo de interpretação, que destacava a situação racial
idílica vivenciada no país, levou entre outros, à aprovação, em 1951, de
uma grande pesquisa financiada pela Unesco e intermediada por Alfred
Métraux. O projeto era resultado do trabalho de Arthur Ramos que, em
finais de 1949, dois meses após assumir um posto oficial junto à Unesco,
concebeu um plano de trabalho no qual estava previsto “o desenvolvimento
de estudos sociais e etnológicos no Brasil”. O estudioso acreditava que seu
país poderia oferecer “a solução mais científica e mais humana para o
problema, tão agudo entre os povos, da mistura de raças e de culturas”.9
Esse tipo de conclusão não impedia que o antropólogo reconhecesse a
existência de “preconceito de cor”; não obstante, o importante é que o
projeto de Ramos correspondia às expectativas da organização e de
cientistas sociais europeus e norte-americanos, preocupados com as
concepções ideológicas e políticas sobre raça e cultura que haviam de certa
forma resultado do nazismo.10
O consenso momentâneo só pode ser entendido, portanto, levando-se em
conta o contexto do pós-guerra, sendo que a crítica alcançava ainda a
persistência do racismo nos Estados Unidos e na África do Sul, bem como
os novos problemas criados pela descolonização na África e na Ásia. É fato
que a Instituição não desconhecia as desigualdades sociais existentes no
país, mas é evidente, também, que, confiante nas análises de Freyre e
Pierson, a Unesco alimentava o propósito de usar o caso brasileiro como
material de propaganda e com esse objeto inaugurou o Programa de
pesquisas sobre relações raciais no Brasil. Nos termos de Arthur Ramos
“éramos um laboratório de civilização”; nas palavras de Freyre, uma
“democracia étnica”; “uma sociedade multirracial de classes”, conforme
afirmava Donald Pierson. A hipótese sustentada era que o Brasil significava
um caso neutro na manifestação de preconceito racial e que seu modelo
poderia servir de inspiração para outras nações, cujas relações eram menos
“democráticas”.11
Para o desenvolvimento da investigação foram contatados especialistas
como C. Wagley, Thales de Azevedo, René Ribeiro, Costa Pinto, Roger
Bastide, Oracy Nogueira e, entre outros, Florestan Fernandes, que deveriam
pesquisar “a realidade racial brasileira”.12 Da parte da Unesco havia a
expectativa de que os estudos apresentassem um elogio da mestiçagem,
assim como enfatizassem a possibilidade do convívio harmonioso entre
diferentes grupos humanos nas sociedades modernas. No entanto, se
algumas obras – como As elites de cor (1955), de Thales de Azevedo –
engajaram-se no projeto de ideologia antirracista desenvolvido pela
instituição, outras realizaram uma revisão nesses modelos quase oficiais.
Esse é o caso das análises de Costa Pinto para o Rio de Janeiro e de Roger
Bastide e Florestan Fernandes para São Paulo, que nomearam as “falácias
do mito”: em vez de democracia surgiam indícios de discriminação; em
lugar da harmonia, o preconceito.
Florestan Fernandes e o elogio da ciência
Conforme explica Florestan Fernandes em O negro no mundo dos
brancos, o livro fora publicado em 1972, mas seria o resultado de uma
longa jornada: os ensaios teriam sido redigidos entre 1965 e 1969,
elaborados, porém, na época da pesquisa da Unesco: entre 1942 e 1943 e
1951 e 1958. E a posição do sociólogo seria diretamente contrária à
explicação culturalista e, ainda mais, à noção de democracia racial;
dominante à época. Se para Freyre não havia conflito racial, uma vez que
“não existia problema racial no Brasil”; já para Fernandes se não existia um
conflito explícito havia, sim, um “problema”. Os estudos do sociólogo
abordariam, dessa maneira, a mesma temática racial, mas pela outra fresta
da janela: a partir do ângulo da desigualdade e da discriminação. Enquanto
Freyre e Pierson viam no branqueamento um modelo de harmonização e
destacavam uma certa mestiçagem cultural, a novidade da pesquisa
paulistana estaria na retomada dos dados numéricos do censo, que permitiam entender o processo de exclusão existente no país; mais evidente
a partir da vigência de uma nova ordem social capitalista e competitiva.
Mas vale a pena recuar um pouco, com o intuito de entender como
Florestan Fernandes acaba “entrando nessa história”. Até então, e nas
palavras do colega Ruy Coelho, Fernandes era “entendido como uma ilha
de sociologia cercada de letrados por todos os lados”. Descrito sempre com
seu avental branco,13 ou a partir do rigor de sua postura e metodologia –
dizia ele que “tese é aquela que fica em pé” –, o sociólogo parecia pouco
afeito a temas desse tipo. Autor de estilo reconhecidamente difícil,
Florestan Fernandes não poucas vezes afirmou que sua “complexidade” era
proposital, uma vez que um de seus propósitos era fundar uma sociologia
científica no Brasil; uma teoria e uma produção engajadas e que lidassem
com os impasses existentes no próprio país. Pode-se dizer que Florestan
tinha para o Brasil pretensões semelhantes às de Durkheim para a França.
Ou seja, a partir da sociologia clássica, das teorias de Weber, Manheim e de
Marx, e de um programa de erudição teórica invejável, o autor tinha como
objeto abordar com o rigor necessário questões que diziam respeito à nossa
própria realidade.
Destaca-se também a filiação institucional, de alguma forma inédita, deste
pensador, ao menos no panorama intelectual brasileiro. Basta lembrar não
só de sua inserção na Escola Livre de Sociologia e Política, como de sua
atuação na Universidade de São Paulo e a preocupação com o ensino
universitário. Para Fernandes ensino e produção científica não se separavam
de sua vasta obra, e, desdobrada em muitos temas, parece convergir quando
se trata de compreender os impasses que a modernização teria gerado no
país.
A questão do negro no Brasil não é, dessa forma, tema exógeno no
conjunto da produção de Fernandes. Ela estará presente, inclusive, nas
primeiras reflexões do autor: particularmente em seus estudos sobre
folclore. Já em seu trabalho de 1961 – Folclore e mudança social na cidade de São Paulo – Fernandes colige, coleta e recupera dados, a exemplo dos
estudos realizados por Sílvio Romero e Mário de Andrade; apenas sua
interpretação é distinta. Nos ensaios de 1941, “Contribuição para o estudo
sociológico das cantigas de ninar”; e de 1944 – “As trocinhas do Bom
Retiro” e “Aspectos mágicos do folclore paulistano” –, o sociólogo
estabelece um diálogo com o pensamento social brasileiro, mas procura ao
mesmo tempo distanciar-se dele. Está interessado não em resquícios (a
serem preservados), mas antes em processos de mudança. Segundo
Fernandes, o sentido do folk perdia-se com o processo de modernização e
levava a um novo problema: como entender a passagem de uma sociedade
estamental para uma sociedade de classes? De que maneira pensar na
oposição entre o homem rústico e de laços cooperativos versus o homem
urbano moderno e marcado pela competição?
É importante notar que, já nesses estudos de folclore, São Paulo surgia
como lócus da pesquisa; o local por excelência para captar a mudança
social: era lá que se concentrava não só a urbanização acelerada, como um
processo imigratório sem paralelo no Brasil. Por outro lado, é possível notar
que também nesses primeiros textos a questão do negro estará anunciada,
mesmo que não diretamente: tratava-se de entender o papel desse ator social
no processo de modernização vivenciado no país.
Mas Fernandes ficaria, de fato, conhecido a partir de seu trabalho de
mestrado, defendido em 1949, na Escola Livre de Sociologia e Política, sob
orientação de Baldus – A organização social dos Tupinambá – e de seu
doutorado de 1952, defendido na Universidade de São Paulo, sob
orientação de Fernando de Azevedo: A função social da guerra na
sociedade Tupinambá. Além do mais, a análise funcional e o manejo teórico
das pesquisas davam novos elementos para a Livre Docência de 1953:
Ensaio sobre o método de interpretação funcionalista na Sociologia. Nessa
época, Florestan Fernandes já era professor reconhecido e fazia escola. Não sabia, porém, que um convite desavisado mudaria o rumo de suas pesquisas
e mesmo de sua atuação política.
Questão racial e conflito
Fernandes iniciou suas investigações sobre relações raciais quando já
havia completado sua formação acadêmica. E a entrada nesse campo deu-se
a partir do convite de Bastide, que, por sua vez, teve a pesquisa
encomendada pela Unesco. Como vimos, o Brasil aparecia como um
modelo de boa convivência racial e os grandes embaixadores do tema eram
Freyre e Pierson, que defendiam um certo “mulatismo” da cultura brasileira
e a ausência de conflito. E, se o objetivo da instituição era confirmar a
existência de um verdadeiro paraíso racial, as conclusões de Fernandes e
Bastide viriam a desautorizar o consenso. Na visada teórica desses dois
estudiosos, as relações raciais passam a ser entendidas como estruturas
sociais e modelos de exclusão; impasses efetivos para que o país construísse
uma ordem democrática e promovesse uma integração efetiva.
Em 1953, Florestan Fernandes publica, com Roger Bastide, Brancos e
negros em São Paulo. Mas é nos livros A integração do negro na sociedade
de classes (de 1965) e em O negro no mundo dos brancos que o autor
aborda, de forma contundente, os impasses que a situação racial estaria
gerando no Brasil.14 Nessas obras, estarão em questão não só a tese da
democracia racial, como as bases de sua construção. “A ausência de tensões
abertas e de conflitos permanentes é, em si mesma, índice de ‘boa’
organização das relações raciais?”,15 perguntava o sociólogo questionando a
frágil decorrência entre uma e outra afirmação e introduzindo a ideia de
mito: o mito da democracia racial.
Ao enfrentar as ambiguidades criadas por essa sociedade recém-egressa
da escravidão, o sociólogo problematizava a noção de “tolerância racial”,
contrapondo-a a um certo código de decoro que, na prática, funcionava
como um fosso a separar diferentes grupos sociais. O autor notava, ainda, a existência de uma forma particular de racismo: “um preconceito de não ter
preconceito”. Ou seja, a tendência do brasileiro seria continuar
discriminando, apesar de considerar tal atitude ultrajante (para quem sofre)
e degradante (para quem a pratica).16 Resultado da desagregação da ordem
tradicional, vinculada à escravidão e à dominação senhorial, essa
polarização de atitudes era, segundo Fernandes, uma consequência da
permanência de um ethos católico. Seriam os mores cristãos os
responsáveis por tal visão de mundo cindida, que fazia com que se seguisse
uma orientação prática adversa às obrigações ideais. É por isso mesmo que
o preconceito de cor no Brasil seria condenado sem reservas, como se
representasse um mal em si mesmo; não obstante, a discriminação presente
na sociedade continuava intocada. O resultado levava a que se confundisse
miscigenação com ausência de estratificação e a construção de uma
idealização voltada para o branqueamento. Aí estaria o paradoxo da
situação racial brasileira: uma alentada mobilidade social teria eliminado
algumas barreiras existentes no período escravocrata, mas criado outras; de
ordem econômica e moral. Um racismo dissimulado e pouco sistemático
era, então, diagnosticado por Fernandes, que introduzia de forma inovadora
dados estatísticos do censo de 1950 para calçar suas interpretações.
O conjunto das pesquisas do autor apontava, dessa forma, para novas
facetas da “miscigenação brasileira”. Sobrevivia, enquanto legado histórico,
um sistema enraizado de hierarquização social que introduzia gradações de
prestígio a partir de critérios como classe social, educação formal, origem
familiar e de todo um carrefour de cores. Quase como uma referência
nativa o “preconceito de cor” fazia as vezes da raça, tornando ainda mais
escorregadios os mecanismos de compreensão da discriminação. Chamado
por Fernandes de “metamorfose do escravo”,17 o processo brasileiro de
exclusão social desenvolveu-se de modo a empregar termos como “preto”
ou “negro” – que formalmente remetem à cor de pele – em lugar da noção
de classe subalterna; nesse movimento que constantemente apaga o conflito. Invertia-se, pois, a questão: a estrutura social brasileira é que era
um problema para o negro, uma vez que bloqueava sua cidadania plena.
São Paulo é, portanto, não um pretexto, mas a unidade do estudo
empírico. Nessa cidade é que o processo de urbanização teria se instalado
de forma irreversível e que a escravidão permanecia como herança
intocada. Por outro lado, a questão racial surgia como tema estratégico para
entender os problemas vividos pela sociedade brasileira, em sua passagem
da ordem patriarcal, para a ordem competitiva e supostamente democrática.
A pergunta que orienta o livro de Fernandes é direta: como se coaduna a
modernidade com a integração do negro? Como combinar ordem capitalista
e racional com ordem estamental e escravocrata? Por isso mesmo, pode-se
dizer que o autor não estudou propriamente a questão negra no Brasil, mas
antes as descontinuidades da modernidade, tendo como suporte a
problemática racial. Para responder a estas perguntas o sociólogo recupera
uma pesquisa histórica abrangente, uma investigação etnográfica original;
tudo isso combinado com uma investida intelectual ambiciosa, que se
coaduna, cada vez mais, com a militância e o projeto político do autor,
anunciados, de forma pioneira, neste livro.
Além do mais, a análise é calcada no ponto de vista das classes populares
e retoma a tradição dos estudos sobre folclore e etnologia realizados
anteriormente. No entanto, desta vez o problema central desloca-se para a
dualidade – ordem social moderna versus estamental – no sentido de
entender a situação do negro a partir de perspectivas não só sincrônicas
como diacrônicas. Sincrônicas, pois tais relações estariam condicionadas
pelo modelo social praticado antes de 1888 e seriam, assim, “não
modernas”. Diacrônicas, uma vez que São Paulo, palco da revolução
burguesa, representaria o modelo mais acabado de uma ordem social
competitiva. São assim dois tempos distintos que se articulam neste livro:
“a discussão do mito da democracia racial liga-se ao atraso da ordem racial
(à ideologia da ordem estamental), de ajustamento mais lento às mudanças em relação à ordem social mais sincronizada com as alterações
econômicas”.
Dessa maneira, os desajustes experimentados pelos negros na dinâmica de
modernização ilustram impasses próprios à nossa sociedade. A rápida
transformação ocorrida em São Paulo teria impossibilitado a inserção do
negro/mulato no estilo de vida urbano e o inferiorizado na competição com
a mão de obra imigrante. O resultado é a pauperização e desorganização
social dessa população; condicionada pelos mores da ordem estamental. Os
ensaios permitem, dessa forma, pensar e contrastar permanências e
mudanças: de um lado a herança, de outro a modernidade. O mito da
democracia racial surge como um legado da escravidão, um falseamento da
realidade, que implicou o desenraizamento dessa população, que carregaria
consigo pesadas marcas históricas.
O negro no mundo dos brancos sintetiza, pois, as conclusões de tantos
anos de estudo de Florestan Fernandes. Nos diferentes ensaios que
compõem esse livro o autor denuncia a supremacia da “raça branca”, acusa
a “acomodação racial vigente” e seu papel no sentido de obstar ao negro seu
lugar como protagonista da própria história. Por isso, Fer-nandes não se
restringe aos dados das obras anteriores, mas introduz o teatro, a poesia e a
religião para chegar ao que chama de “alma do homem negro”, com suas
ambições e frustrações. A obra de 1972 significou e ainda significa uma
delação contundente às “convicções etnocêntricas” de nossa sociedade: “a
ideia de que o negro não tem problemas; a ideia de que por conta da índole
do povo brasileiro não existem distinções raciais; a ideia de que houve
igualdade no acesso à riqueza, ao poder e ao prestígio; a ideia de que ‘o
preto está satisfeito’; a ideia de que não existiu nem existe problema de
justiça social com referência ao negro”.18 Apontando as clivagens sociais
como centrais na análise e condução desses problemas, o autor desmonta
um mito nacional e clama para que a população negra tome papel ativo na
construção de seus destinos ou que não se identifique com o “branqueamento psicossocial e moral” desse “mundo dos brancos”. Não foi
à toa que O negro no mundo dos brancos se converteria numa espécie de
bíblia do Movimento Negro, assim como Florestan se transformaria num
arauto da causa. Não por coincidência, também, data dessa época o
surgimento do Movimento Negro Unificado,19 que apoiado nas conclusões
da Escola Paulista de Sociologia tornou mais forte o coro daqueles que
demonstravam o lado mítico da democracia racial. Em um momento em
que, com a ditadura, as esferas tradicionais de manifestação política
estavam controladas ou reprimidas, o discurso de Florestan Fernandes
ganhava nova força acadêmica e política.
É por essas e por outras que, passados tantos anos, O negro no mundo dos
brancos continua vivo: virou pauta dos movimentos sociais, palavra de
ordem quando se trata de denunciar as desigualdades e o regime de
diferenças praticado no Brasil. Resta pensar, porém, por que o mito, apesar
de desconstruído, continua operante. É certo que as ideias de Fernandes
tiveram tal impacto que, hoje em dia, parece mais fácil denunciar o mito da
democracia racial do que defendê-lo. No entanto, é também evidente como
no Brasil criou-se um modelo de sociabilidade, sem dúvida, particular. Não
é o caso de culturalizar a questão ou encontrar soluções imunes ao tempo;
mas vale a pena insistir, como Fernandes bem mostrou, numa interpretação
mais atenta a essa experiência particular. Ao mesmo tempo que
convivemos, não com a realidade, mas com um ideal de democracia racial,
um racismo brutal vigora entre nós. Assim, demonstrar as falácias do mito
talvez seja tão importante quanto refletir sobre sua eficácia, enquanto
representação, e acerca da dificuldade que temos em lidar com o tema. Não
se “manipula” ou “dissimula” apenas o mito. Mesmo se tomarmos as
respostas obtidas pelo sociólogo em sua primorosa pesquisa de campo,
pode-se dizer que é a ambivalência e a ambiguidade que impregnam tais
reações (presentes também na literatura e no teatro negro), revelando como mitos só são eficazes porque fazem sentido numa comunidade imaginada e
partilhada.20
Por isso mesmo, o preconceito não é apenas um “legado”; ele se refaz no
presente e mostra como a ideia de democracia racial vem ganhando novos
contornos. Ou seja, a “desconstrução” de Fernandes, de certa maneira,
circunscreveu o mito e o tema da raça a uma questão de classes e
abandonou a cultura. Em meio a um contexto marcado pela radicalização
política, o tema racial aparecia como uma questão menor; condicionada à
estrutura econômica. Era via a modernização e a democratização que a
questão racial, entre outras, se solucionaria no Brasil e não a partir do
enfrentamento de suas especificidades.
Interessante notar que, nos anos 1980 e 1990, uma série de estudos
recuperou o tema, assim como as análises de base demográfica, e
demonstrou como o preconceito de cor não está apenas atrelado a questões
econômicas e sociais. Retomando as teses de Fernandes, novas pesquisas
quantitativas investiram na análise das diferenças que separam brancos de
não brancos, “racializando”, de outra maneira, o argumento. A tese geral é
que tais desigualdades apresentam um componente racial inequívoco e
relevante, que não pode ser resumido a partir de uma perspectiva
socioeconômica.21 Em questão está pensar não só a “herança”, mas a
reposição do preconceito.
Por outro lado, uma nova historiografia expandiu a ideia de “coisificação
do escravo” e mostrou como os cativos não eram só passivos, mas agiam,
reagiam e encontravam respostas criativas à sua situação; eram “sujeitos” e
não só “objetos” de sua condição. Por isso o modelo construído por
Fernandes (e Elkins,22 para os Estados Unidos), que localizava uma certa
personalidade patológica do escravo, também passou por uma revisão;
nomeadamente o suposto de que os escravos careciam de vida cultural e
familiar.
No que se refere à historiografia norte-americana basta lembrar do
trabalho de Gutman, The black family in slavery and freedom (de 1976),
que mostrou a influência das famílias na vida dos escravos locais; ou
mesmo da redefinição do conceito de paternalismo empreendida por
Genovese em Roll Jordan Roll (1969).23 Já no Brasil, um conjunto de
pesquisas alertou para a importância da “resistência escrava”, opondo-se à
tese da alienação. Trabalhos sobre a história social dos escravos, acerca da
família, da vida cultural e mesmo comunitária, tomaram vulto nos anos
1980, mostrando como era possível ir além da ideia da “sobrevivência”.
Estamos distanciados do tempo em que uma certa bibliografia de viés
culturalista pretendeu ver na escravidão brasileira um ambiente mais
benigno, quase dócil e contraposto ao modelo norte-americano. Se é preciso
destacar o lado mercantil e violento do sistema, como bem demonstrou
Fernandes, não é por isso que se apaga a atuação cotidiana dos escravos,
que se utilizavam das frestas do sistema e negociavam sua condição.24
Não é o caso de, nessa introdução, retomar toda a produção atual sobre a
escravidão ou acerca da questão racial no Brasil. Melhor é mostrar como o
livro que o leitor tem em mãos é seminal para entender todo esse
movimento de revisão e como foi fundamental para responder e levantar
uma série de questões que continuam atuais. A verdadeira obra não é a que
termina, mas é aquela que continua e não deixa colocar um confortável
ponto final.
Lilia Moritz Schwarcz
É professora titular no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Foi professora visitante nas universidades de Oxford, Leiden e na Brown University. É fellow da
Guggenheim Memorial Foundation e faz parte do comitê científico do escritório brasileiro de Harvard. É autora, entre outros, de Retrato em branco e negro – jornais, escravos e cidadãos em São Paulo de finais do século XIX (São Paulo, Companhia das Letras, 1987), O espetáculo das raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil do século XIX (São Paulo, Companhia
das Letras, 1993, e New York, Farrar Strauss & Giroux, 1999), Raça e diversidade (com Renato Queiroz, São Paulo, Edusp, 1997), Negras imagens (com Letícia Vidor Reis, São Paulo, Edusp, 1997), As barbas do imperador – D. Pedro II, um monarca nos trópicos (São Paulo, Companhia
das Letras, Prêmio Jabuti/Livro do Ano, e New York, Farrar Strauss & Giroux, 2004), No tempo das certezas (coautoria Angela Marques da Costa, São Paulo, Companhia das Letras, 2000),
Símbolos e rituais da monarquia brasileira (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000), Racismo no Brasil (São Paulo, Publifolha, 2001), A longa viagem da biblioteca dos reis (com Paulo Azevedo, São Paulo, Companhia das Letras, 2002), O livro dos livros da Real Biblioteca (Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional/Odebrecht, 2003) e Registros escravos (Rio de Janeiro, Biblioteca
Nacional, 2006). Coordenou o volume 4 da História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea (São Paulo, Companhia das Letras, 1998).
1 Montaigne, “Os canibais” (1580), Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural: p. 101-105.
2 Jean de Léry, Histoire d’un Voyage Fait en la Terre du Brésil; Thevet, Cosmologia Universal; Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens (1775)
3 Buffon, Histoire naturelle (1749).
4 Cf., por exemplo, Nina Rodrigues, As raças humanas e a responsabilidade penal. 1894.
5 Tese defendida por intelectuais como João Batista Lacerda e Oliveira Viana.
6 Para um maior desenvolvimento do tema, cf. Lilia Katri Moritz Schwarcz, “Nem preto, nem branco, muito pelo contrário”, História da vida privada número IV, São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
7 Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala, Rio de Janeiro, Maia & Schmidt, 1933, p. 18.
8 Idem, ibidem, p. 307.
9 Arthur Ramos, Guerra e relações de raça, Rio de Janeiro, Departamento Editorial da União Nacional dos Estudantes, 1943, p. 179.
10 Cf. “Unesco Launches Major World Campaign Against Racial Discrimination”, Paris, Unesco, 19/7/1950, p. 1, Paris, 1950, p. 40, e Marcos Chor Maio, A história do projeto Unesco: estudos raciais e ciências sociais no Brasil, Rio de Janeiro, Iuperj, tese de doutorado, 1997.
11 Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos, p. 21.
12 A Unesco publicou apenas as pesquisas referentes à Bahia, mas vários trabalhos resultaram desse projeto: Wagley et al. (1952), Azevedo (1953, 1955), Costa Pinto (1953), Roger Bastide e Florestan Fernandes (1955), Nogueira (1955), Ribeiro (1956). As investigações ocorreram no período compreendido entre 1951 e 1952 e seus resultados foram divulgados em artigos e livros no intervalo entre 1952 e 1957. O mesmo projeto foi em seguida ampliado por meio de novas pesquisas conduzidas pela cadeira de Sociologia I da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (a partir de então mais conhecida como Escola Paulista de Sociologia).
13 Cf. Heloisa Pontes, Destinos mistos, São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
14 Cf. também Maria Arminda Arruda, “Dilemas do Brasil moderno: a questão racial na obra de Florestan Fernandes”, Marcos Chor Maio (org.), Raça, ciência e sociedade, Rio de Janeiro, FioCruz/CCBB, 1996.
15 Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos, São Paulo, Difel, 1972, p. 21.
16 Idem, ibidem, p. 23.
17 Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, 1965.
18 Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1965/1978, p. 256.
19 O momento de fundação do MNU é geralmente associado ao ato público de 7 de julho de 1978 em São Paulo.
20 Cf. Benedict Anderson, Comunidades imaginadas, São Paulo, Ática, 1976.
21 Cf. Pesquisas como as de Carlos Hasenbalg, Nelson do Valle e Silva, Telles, Lovel, Castro e Guimarães.
22 Stanley Elkins, Slavery, a problem in American institutional and intellectual life, Nova York, The Universal Library, 1959.
23 Cf. Herbert G. Gutman, The black family in slavery and freedom, 1750-1925. Nova York, Pantheon Books, 1976. Eugene D. Genovese, A terra prometida, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.
24 Cf. Flávio Gomes, João Reis, Mary Karash, Sidney Chalhoub, Manolo Florentino, Hebe Mattos e Eduardo Silva. Para uma boa revisão cf. Stuart B. Schwartz, “A historiografia recente da escravidão brasileira”, in Escravos, roceiros e rebeldes, São Paulo, Edusp, 2001.
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