O Negro no Mundo dos Brancos
Primeira Parte
AS BARREIRAS DA COR
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Capítulo I
Aspectos da Questão Racial27
Nos últimos vinte anos tem surgido uma volumosa bibliografia sobre a
situação racial brasileira. O principal motivo desse interesse foi um projeto
de pesquisa, de que foi intermediário pela Unesco o inesquecível Alfred
Métraux, e que conseguiu no Brasil a colaboração de especialistas como
Wagley, Thales de Azevedo, René Ribeiro, Costa Pinto, Roger Bastide,
Oracy Nogueira, Aniela Ginsberg, Virginia Bicudo e outros... Esse projeto,
de 1951, permitiu que se conhecesse melhor aquilo que se poderia chamar
de “realidade racial brasileira”. Em seguida, ele foi ampliado, através de
pesquisas encetadas pela Cadeira de Sociologia I da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, ao sul do Brasil. Fernando
Henrique Cardoso, Octávio Ianni e Renato Jardim Moreira estenderam as
indagações a uma área na qual a proporção de negros na população é a
menor em todo o Brasil e em que a escravidão se manifestou de modo
peculiar.
O que se descobriu? Na verdade, a hipótese sustentada pelo dr. Donald
Pierson, de que o Brasil constitui um caso neutro na manifestação do
“preconceito racial”, teve de ser revista, mau grado o empenho da Unesco
pela confirmação da hipótese. Ao que parece, essa instituição alimentava o
propósito de usar o “caso brasileiro” como material de propaganda. Se os
brancos, negros e mestiços podem conviver de “forma democrática” no
Brasil, por que o mesmo processo seria impossível em outras regiões? Não
obstante, o que é uma democracia racial? A ausência de tensões abertas e de
conflitos permanentes é, em si mesma, índice de “boa” organização das
relações raciais? Doutro lado, o que é mais importante para o “negro” e o
“mestiço”: uma consideração ambígua e disfarçada ou uma condição real de ser humano econômica, social e culturalmente igual aos brancos? Além
disso, se os brasileiros conhecem um clima de tolerância racial, praticando
um código de decoro nas relações em que entram em contato como
“brancos”, “mestiços” e “negros”, não seria melhor que esse fato tivesse
importância em si mesmo, independentemente de qualquer fantasia a
respeito de uma “igualdade racial” que não poderia existir numa sociedade
recém-egressa da escravidão e na qual a concentração da riqueza, do poder
e do prestígio social abre um fosso intransponível mesmo nas relações de
diferentes segmentos da “população branca”?
Neste pequeno artigo, não possuo espaço suficiente para tratar de todos os
aspectos suscitados pelas perguntas, que me foram formuladas por O tempo
e o modo. Por isso, já que a bibliografia sobre o assunto pode esclarecer os
leitores mais interessados no aprofundamento do debate,28 vou limitar-me a
emitir certas opiniões sobre três temas levantados por aquelas perguntas: 1)
a natureza do comportamento do brasileiro diante do “problema racial”; 2)
o que há de mito e de realidade atrás da ideia de uma “democracia racial
brasileira”; 3) o que o futuro parece reservar ao Brasil em matéria de
“integração racial”. Essas opiniões se fundam em fatos ou em conclusões
extraídas de fatos. Contudo, são ainda assim meras opiniões. Não quero
apresentar-me como o paladino da verdade. Nesse assunto, as controvérsias
vêm de longe. Já Perdigão Malheiro se refere “ao preconceito mais geral
contra a raça africana”,29 como “preconceito de nossa sociedade”; e, depois
dele, muitos foram os que assinalaram os aspectos sombrios do chamado
“mundo que o português criou”. A tais autores, que eu chamaria de
realistas, se opõem fortemente os que acreditam mais nas “boas intenções”
que na qualidade de ações. Não lhes quero fazer a injustiça que eles nos
fazem, de supor que seja mentira ou inverdade (para não dizer falsidade)
tudo que não puder ser sancionado por convicções que deitam raízes nas
racionalizações exploradas pelos senhores de escravos para legitimar
moralmente a escravidão. O ângulo em que se colocam garante certa veracidade a algumas de suas opiniões e expõe de modo extremamente
favorável o melhor lado do clima de convivência inter-racial imperante no
Brasil. Lamento, apenas, que não tenham compreendido que também
defendem apenas opiniões e que no campo da investigação científica o que
permite selecionar as opiniões não são as convicções de origem
etnocêntrica, mas a convergência dos resultados positivos de pesquisas
autônomas, igualmente rigorosas. Quanto ao mais, não é só a democracia
racial que está por constituir-se no Brasil. É toda a democracia na esfera
econômica, na esfera social, na esfera jurídica e na esfera política. Para que
ela também se concretize no domínio das relações raciais, é mister que
saibamos clara, honesta e convictamente o que tem banido e continuará a
banir a equidade nas relações de “brancos”, “negros” e “mestiços” entre si.
A chamada “tradição cultural brasileira” possui muitos elementos
favoráveis à constituição de uma verdadeira democracia racial. Esta ainda
não existe, porém, e nunca existirá se os dados das investigações científicas
não forem aceitos objetivamente e aproveitados de forma concreta na
construção de uma sociedade multirracial cujos modelos ideais não estão
(nem poderiam estar) no passado ou no presente, que dele flui e o reproduz
sob muitos aspectos.
O preconceito de não ter preconceito
O que há de mais evidente nas atitudes dos brasileiros diante do
“preconceito de cor” é a tendência a considerá-lo algo ultrajante (para quem
o sofre) e degradante (para quem o pratique). Essa polarização de atitudes
parece ser uma consequência do ethos católico, e o fato dela se manifestar
com maior intensidade no presente se prende à desagregação da ordem
tradicionalista, vinculada à escravidão e à dominação senhorial. No
passado, escravidão e dominação senhorial eram os dois fatores que
minavam a plena vigência dos mores cristãos, compelindo os católicos a
proclamar uma visão do mundo e da posição do homem dentro dele, e a seguir uma orientação prática totalmente adversa às obrigações ideais do
católico. Embora as transformações recentes não tenham sido
suficientemente profundas, o próprio desaparecimento da escravidão e da
dominação senhorial como forma de relação racial criaram condições
favoráveis ao desmantelo da ordem tradicionalista e à emergência de
atitudes, comportamentos e avaliações sociais mais conforme ao cosmos
moral do catolicismo.
Contudo, na situação imperante nos últimos quarenta anos (de 1927 até
hoje, particularmente focalizada pela pesquisa que realizei em colaboração
com o professor Roger Bastide), tem prevalecido uma considerável
ambiguidade axiológica. Os valores vinculados à ordem social
tradicionalista são antes condenados no plano ideal que repelidos no plano
da ação concreta e direta. Daí uma confusa combinação de atitudes e
verbalizações ideais que nada têm a ver com as disposições efetivas de
atuação social. Tudo se passa como se o “branco” assumisse maior
consciência parcial de sua responsabilidade na degradação do “negro” e do
“mulato” como pessoa, mas, ao mesmo tempo, encontrasse sérias
dificuldades em vencer-se a si próprio e não recebesse nenhum incentivo
bastante forte para obrigar-se a converter em realidade o ideal de
fraternidade cristão-católico. O lado curioso dessa ambígua situação de
transição aparece na saída espontânea que se deu a esse drama de
consciência. Sem nenhuma espécie de farisaísmo consciente, tende-se a
uma acomodação contraditória. O “preconceito de cor” é condenado sem
reservas, como se constituísse um mal em si mesmo, mais degradante para
quem o pratique do que para quem seja sua vítima. A liberdade de preservar
os antigos ajustamentos discriminatórios e preconceituosos, porém, é tida
como intocável, desde que se mantenha o decoro e suas manifestações
possam ser encobertas ou dissimuladas (mantendo-se como algo “íntimo”;
que subsiste no “recesso do lar”; ou se associa a “imposições” decorrentes
do modo de ser dos agentes ou do seu estilo de vida, pelos quais eles “têm o dever de zelar”). Embora o “negro” e o “mulato” façam contraponto nesses
arranjos pelos quais o sistema de valores está sendo reorganizado, eles não
são considerados de maneira explícita. Ao contrário, ficam no background,
numa confortável amnésia para os “brancos”. Assim, a pressão
verdadeiramente compulsiva, que poderia dar outro conteúdo às vacilações
e às ambiguidades axiológicas relacionadas com as avaliações raciais, acaba
sendo neutralizada ab initio. Os aspectos verdadeiramente dramáticos e
injustos da situação são eliminados, atenuados ou esquecidos, como se não
competisse ao branco operar com uma balança de dois pratos.
Não é meu objetivo analisar essa complexa polarização. Gostaria de
indicá-la para situar aquilo que merece atenção especial neste debate. Do
ponto de vista, e em termos da posição sociocultural do “branco”, o que
ganha o centro do palco não é o “preconceito de cor”. Mas uma realidade
moral reativa que bem poderia ser designada como o “preconceito de não
ter preconceito”. Minado em sua capacidade de agir acima das normas e dos
valores ideais da cultura, em vez de condenar a ideologia racial dominante,
construída para uma sociedade de castas e de dominação escravista, e além
do mais incompatível com os requisitos econômicos, psicossociais e
jurídico-políticos da sociedade de classes em consolidação, o “branco”
entrega-se a um comportamento vacilante, dúbio e substancialmente
tortuoso. Ao contrário do branco “racista”, não possui fé em suas razões ou
omissões; a ideologia racial dominante mantém-se menos pelas
identificações positivas, que pelos subterfúgios através dos quais ela se
insere em tudo o que o “branco” acredita, pensa ou faz. Surge, assim, o
espantalho da “questão racial” como um risco da imitação, das influências
externas ou do complexo do negro. Ignorando a natureza do drama real das
populações negras e mestiças, o papel que a escravidão teve para criar esse
drama, os deveres da fraternidade cristã, os imperativos da integração
nacional numa sociedade de classes etc., o “branco” propende a um típico
ajustamento de “falsa consciência”. Em lugar de procurar entender como se manifesta o “preconceito de cor” e quais são seus efeitos reais, ele suscita o
perigo da absorção do racismo, ataca as “queixas” dos negros ou dos
mulatos como objetivação desse perigo e culpa os “estrangeiros” por
semelhante “inovação estranha ao caráter brasileiro”.
Portanto, o que fica no centro das preocupações, das apreensões e,
mesmo, das obsessões é o “preconceito de não ter preconceito”. Através de
processos de mudança psicossocial e sociocultural reais e sob certos
aspectos profundos e irreversíveis, subsiste uma larga parte da herança
cultural, como se o brasileiro se condenasse, na esfera das relações raciais, a
repetir o passado no presente. Esse mecanismo adaptativo só se tornou
possível porque as transformações da estrutura da sociedade, apesar da
extinção da escravidão e da universalização do trabalho livre, não afetaram
de modo intenso, contínuo e extenso o padrão tradicionalista de
acomodação racial e a ordem racial que ele presumia. Todavia, o simples
fato de que tal mecanismo tenha vigência indica uma realidade histórica
tormentosa. Se não existe um esforço sistemático e consciente para ignorar
ou deturpar a verdadeira situação racial imperante, há pelo menos uma
disposição para “esquecer o passado” e para “deixar que as coisas se
resolvam por si mesmas”. Isso equivale, do ponto de vista e em termos da
condição social do “negro” e do “mulato”, a uma condenação à
desigualdade racial com tudo que ela representa num mundo histórico
construído pelo branco e para o branco.
A “democracia racial” como mito e realidade
A ideia de que existiria uma democracia racial no Brasil vem sendo
fomentada há muito tempo. No fundo, ela constitui uma distorção criada no
mundo colonial, como contraparte da inclusão de mestiços no núcleo legal
das “grandes famílias” – ou seja, como reação a mecanismos efetivos de
ascensão social do “mulato”. O fundamento pecuniário da escravidão e
certos efeitos severamente proscritos, mas incontornáveis da miscigenação, contribuíram para que se operasse uma espécie de mobilidade social
vertical por infiltração, graças à qual a composição dos estratos raciais
dominantes teve de adquirir certa elasticidade.
No entanto, mau grado a extensa variabilidade do fenômeno ao longo do
tempo e do espaço, tomou-se a miscigenação como índice de integração
social e como sintoma, ao mesmo tempo, de fusão e de igualdade raciais.
Ora, as investigações antropológicas, sociológicas e históricas mostraram,
em toda parte, que a miscigenação só produz tais efeitos quando ela não se
combina a nenhuma estratificação racial. No Brasil, a própria escravidão e
as limitações que pesavam sobre o status do liberto convertiam a ordem
escravista e a dominação senhorial em fatores de estratificação racial. Em
consequência, a miscigenação, durante séculos, antes contribuiu para
aumentar a massa da população escrava e para diferenciar os estratos
dependentes intermediários, que para fomentar a igualdade racial. É preciso
que se tenha em conta que na antiga sociedade escravista o “escravo” não
era uma entidade social mais necessária que o “liberto”. Existiam amplas
zonas de diferenciação social, concernentes a ocupações ou a atividades que
só o homem semilivre poderia realizar e que não interessariam ao homem
livre dependente. O mestiço, com frequência, ofereceu o contingente
demográfico que permitia saturar tais posições sociais e que eram essenciais
para o equilíbrio do sistema de dominação escravista. Fora e acima desse
nível, a miscigenação teria de envolver a transmissão da posição social das
parentelas senhoriais, com suas propriedades, possibilidades de mando e
probabilidades de poder. Esse fenômeno se deu, mas em escala muito
reduzida e quase sempre sob a influência de fatores fortuitos, já que a
resistência contra tal efeito era consciente, obrigatória e organizada. O
contrário seria abolir a própria estrutura em que repousava a diferenciação,
a integração e a continuidade da ordem racial pressuposta pelo regime
escravista vigente.
Por isso, à miscigenação corresponderam mecanismos mais ou menos
eficazes de absorção do mestiço. O essencial, no funcionamento desses
mecanismos, não era nem a ascensão social de certa porção de negros e de
mulatos nem a igualdade racial. Mas, ao contrário, a hegemonia da “raça
dominante” – ou seja, a eficácia das técnicas de dominação racial que
mantinham o equilíbrio das relações raciais e asseguravam a continuidade
da ordem escravista. Os casos que afetavam a composição das “grandes
famílias” não constituíam problema. Não só eram pouco numerosos: as
famílias possuíam recursos suficientes para educar os mestiços à imagem da
figura do senhor. Por conseguinte, eles eram socializados para serem e
agirem como “brancos”, o que eles eram, de fato, social, jurídica e
politicamente falando. O problema aparecia no outro nível: com os libertos,
negros ou mestiços e com seus descendentes. No contexto da sociedade
escravista, esses tipos humanos já apareciam associados a oportunidades
sociais que equivaliam, formalmente, a uma mudança de status. Além
disso, entregues a si mesmos, eles trabalhavam com frequência (a menos
que fossem absorvidos pela economia de subsistência) pela conquista de
posições sociais mais altas, intensificando os estreitos mecanismos de
mobilidade social vertical de que dispunha a sociedade escravista. A
questão consistia, literalmente, em obter a identificação desses indivíduos
aos interesses e valores sociais da “raça dominante”. Como o controle do
início e do fim de tais mecanismos se concentravam nas mãos de
representantes dessa “raça”, tal problema foi resolvido de forma pacífica e
eficiente. Criou-se e difundiu-se a imagem do “negro de alma branca” – o
protótipo do negro leal, devotado ao seu senhor, à sua família e à própria
ordem social existente. Embora essa condição pudesse ser, ocasionalmente,
rompida no início do processo, nenhum “negro” ou “mulato” poderia ter
condições de circulação e de mobilidade se não correspondesse a
semelhante figurino. Daí o paradoxo curioso. A mobilidade eliminou
algumas barreiras e restringiu outras apenas para aquela parte da “população de cor” que aceitava o código moral e os interesses inerentes à
dominação senhorial. Os êxitos desses círculos humanos não beneficiaram
o negro como tal, pois eram tidos como obra da capacidade de imitação e da
“boa cepa” ou do “bom exemplo” do próprio branco. Os insucessos, por sua
vez, eram atribuídos diretamente à incapacidade residual do “negro” de
igualar-se ao “branco”. Essas figuras desempenharam, dessa maneira, o
papel completo da exceção que confirma a regra. Forneciam as evidências
que demonstrariam que o domínio do negro pelo branco é em si mesmo
necessário e, em última instância, se fazia em benefício do próprio negro.
Por aí se vê o que resultou da ordem social vinculada à escravidão. Como
não podia deixar de suceder, miscigenação e mobilidade social vertical
operavam-se dentro dos limites e segundo as conveniências daquela ordem
social, na qual elas preenchiam funções sociais relevantes para a
diferenciação e a continuidade da estratificação racial engendrada pela
escravidão. Após a Abolição, sem que se manifestasse qualquer tendência
ou processo de recuperação humana do negro e do mulato, esses fenômenos
foram focalizados à luz dos requisitos econômicos, jurídicos e políticos da
ordem social competitiva. Passou-se a ver nesses fenômenos a matriz da
democracia racial e a fonte de solução pacífica para a questão racial no
Brasil. À parte o que haja de verdade em tais verbalizações, o fato é que
ainda hoje a miscigenação não faz parte de um processo societário de
integração das “raças” em condições de igualdade social. A universalização
do trabalho livre não beneficiou o “negro” e o “mulato” submersos na
economia de subsistência (o que, aliás, também aconteceu com os
“brancos” que fizessem parte desse setor); mas, nas condições em que se
efetuou, em regra prejudicou o “negro” e o “mulato” que faziam parte do
sistema de ocupações assalariadas, mais ou menos vitimados pela
competição com o emigrante. O resultado foi que, três quartos de século
após a Abolição, ainda são pouco numerosos os segmentos da “população
de cor” que conseguiram se integrar, efetivamente, na sociedade competitiva e nas classes sociais que a compõem. As evidências a respeito
são conclusivas30 e indicam que ainda temos um bom caminho a andar para
que a “população de cor”, sob hipótese de crescimento econômico contínuo
e de persistência da livre competição inter-racial, alcance resultados
equivalentes aos dos brancos pobres que se beneficiaram do
desenvolvimento do país sob o regime do trabalho livre.
Acresce não só que não se processou uma democratização real da renda,
do poder e do prestígio social em termos raciais. As oportunidades surgidas
foram aproveitadas pelos grupos melhor localizados da “raça dominante”, o
que contribuiu para aumentar a concentração racial da renda, do poder e do
prestígio social em benefício do branco. No contexto histórico surgido após
a Abolição, portanto, a ideia da “democracia racial” acabou sendo um
expediente inicial (para não se enfrentarem os problemas decorrentes da
destituição do escravo e da espoliação final de que foi vítima o antigo
agente de trabalho) e uma forma de acomodação a uma dura realidade (que
se mostrou com as “populações de cor” nas cidades em que elas se
concentraram, vivendo nas piores condições de desemprego disfarçado,
miséria sistemática e desorganização social permanente). O “negro” teve a
oportunidade de ser livre; se não conseguiu igualar-se ao “branco”, o
problema era dele – não do “branco”. Sob a égide da ideia de democracia
racial justificou-se, pois, a mais extrema indiferença e falta de solidariedade
para com um setor da coletividade que não possuía condições próprias para
enfrentar as mudanças acarretadas pela universalização do trabalho livre e
da competição. Ao mesmo tempo, assim que surgiram condições para que o
protesto negro eclodisse (logo depois da Primeira Grande Guerra e, em
particular, no fim da década de 1920), tais manifestações foram proscritas
como se constituíssem um “perigo para a sociedade”. Em consequência, as
primeiras manifestações espontâneas do “negro” na luta por certas
condições de igualdade racial em bases coletivas eclodiram no vazio, não
sensibilizaram o “branco” e não chegaram a dinamizar nenhum mecanismo eficiente (ou tendência atenuada que fosse) de democratização racial da
renda, do prestígio social e do poder.
Esse quadro revela que a chamada “democracia racial” não tem nenhuma
consistência e, vista do ângulo do comportamento coletivo das “populações
de cor”, constitui um mito cruel. Ainda assim, mau grado os contornos
negativos desse quadro, existem certos elementos potencialmente
favoráveis à emergência e à consolidação de uma autêntica democracia
racial no Brasil. Primeiro, na economia de subsistência, para onde refluiu
grande parte da população de origem escrava ou mestiça, o nivelamento é
um fato incontestável e contribuiu (ou está contribuindo) para eliminar os
efeitos econômicos, sociais e culturais das diferenças raciais. Segundo, o
desenvolvimento econômico recente (inicialmente, da industrialização
acelerada no Sul, a partir de 1945; em seguida, com a política de
recuperação econômica do Nordeste e de outras áreas em que a população
mestiça é preponderante) tem favorecido, mais que no passado, a
“população de cor”. Os dados mostram que os seus componentes contam,
atualmente, com oportunidades comparáveis às aproveitadas pelos
imigrantes no fim do século passado e no começo do século XX. Embora
isso já seja uma desvantagem, significa oportunidades de emprego e de
integração no sistema de classes. Terceiro, com a desagregação da ordem
escravista, se não houve um aumento rápido da tolerância racial, por causa
da persistência do antigo padrão tradicionalista de relações raciais, ocorreu
pelo menos um abalo nos focos que mantinham as barreiras sociais que
separavam as “raças”. Daí resultou um abrandamento ou uma atenuação dos
critérios intransigentes de avaliação racial, que prejudicavam o “negro” e o
“mulato” de forma irremediável e sistemática. Esses três elementos abrem
novas possibilidades, pois com a crescente oportunidade de emprego o
negro conta, pela primeira vez, com probabilidades de ascensão social que o
classificam na própria estrutura da sociedade de classes; e com as
tendências de suavização dos critérios de avaliação racial o negro deixa de ser, inexoravelmente, a mera “exceção que confirma a regra”. Essas
potencialidades são significativas e, se continuarem a se expandir, o Brasil
poderá converter-se na primeira grande democracia racial do mundo criado
pela expansão da civilização ocidental moderna.
As perspectivas futuras
Essas conclusões são altamente promissoras. Entretanto, são notórios os
efeitos de certas influências que contrariam a viabilidade e a normalidade
de tal desenvolvimento. As peculiaridades do Brasil, a esse respeito,
também são notáveis. O risco, no caso brasileiro, não procede (pelo menos
por enquanto) do agravamento das tensões raciais e das perspectivas (pelo
menos imediatas) de uso crônico do conflito racial como técnica de
mudança. Ele provém da persistência de estruturas arcaicas que atravessam
mais ou menos incólumes as grandes transformações que estão afetando a
sociedade brasileira. Aqui, é preciso atentar para o fato de que a
modernização não se processa de forma igualmente homogênea em todas as
esferas da vida social. A implantação da ordem social competitiva teve
consequências profundas, principalmente para o desenvolvimento
econômico e a orientação do capitalismo numa direção típica do mundo
moderno. Todavia, a ordem social competitiva não se impôs por igual em
todo o Brasil. De um lado, seu desenvolvimento rápido coincidiu com a
expansão do café e com o surto urbano-industrial do Sul. Ela beneficiou os
círculos da “raça dominante” que ocupavam posições estratégicas na
estrutura de poder econômico e político e, numa extensão um pouco menor,
de início, os imigrantes europeus. De outro lado, ela alimentou o
comportamento inovador das elites no poder e dos grupos ascendentes de
modo confinado. Ninguém se preocupou com as questões que caíam fora
das exigências mais prementes das condições econômicas, políticas e
jurídicas da expansão do capitalismo (no âmbito da proteção do café e do
estímulo ao surto industrial). As contradições sociais herdadas do passado e que entravavam a integração do “negro” e do “mulato” à ordem social
competitiva emergente não interessavam senão à “população de cor”, de
resto a única diretamente prejudicada por aquelas contradições. Não é de
estranhar, pois, que os setores favorecidos pela dinamização do
desenvolvimento capitalista voltassem as costas ao drama humano dos
descendentes dos ex-escravos e, ainda mais, que ignorassem as implicações
negativas da falta de integração da sociedade nacional no nível das relações
raciais. Eles não se mostraram sensíveis a outras manifestações do mesmo
fenômeno em níveis que os afetavam de forma mais direta, como o da falta
de integração do mercado em escala nacional e o da falta de integração
política da Nação. No conjunto, a política que fomentaram revelou-se
eficiente no plano restrito do crescimento econômico mais acessível, mas
não levava em conta o problema do equilíbrio da sociedade nacional como
uma ordem multirracial.
Em consequência, a reintegração do sistema de relações raciais ficou
entregue a processos sociais espontâneos. Na conjuntura histórico-social
que abarca os três quartos de século da era republicana, isso significou que
qualquer mudança estrutural na esfera das relações raciais iria depender do
impacto do crescimento econômico, do desenvolvimento urbano e da
expansão do regime de classes. Ora, até 1945, grosso modo, esses
fenômenos tiveram por cenário um palco limitado: o Sul do Brasil,
especialmente o eixo Rio–São Paulo e os brancos que comandavam a
economia e a política dessa região, com os contingentes de imigrantes que
se incluíram na torrente histórica. Operou-se, pois, num contexto de
mudança socioeconômica relativamente acelerada, uma grande
concentração social, regional e racial da renda, do prestígio social e do
poder. Os dois resultados gerais desse fenômeno se exprimem: 1º) na
absorção do antigo padrão de relação racial pela sociedade de classes; 2º) na
estagnação relativa de outras áreas do país e, em particular, das áreas em
que prevalecia a economia de subsistência. A isso correspondeu, naturalmente, uma tendência generalizada de persistência de fatores
arcaicos e arcaizantes na esfera das relações raciais. De um lado, porque a
ordem social competitiva não expurgou a sociedade brasileira de avaliações
raciais inconsistentes com o regime de classes e, dado o estímulo à
concentração racial da renda, do prestígio social e do poder, incentivou
novos focos de dinamização do “preconceito de cor”, segundo formas mais
explícitas e chocantes que no passado. De outro lado, porque a relativa
estabilidade das outras regiões contribuiu poderosamente para conservar
mais ou menos intactos vários aspectos da ordem tradicionalista que
colidiam com a integração e o desenvolvimento de uma sociedade nacional.
Entre esses aspectos estava, naturalmente, o das relações raciais. O único
setor que poderia contribuir para a difusão de avaliações raciais igualitárias,
que era o da economia de subsistência, estava bloqueado e o nivelamento
social que ele fazia era um nivelamento por e para baixo, pois “brancos” e
“negros” se confundiam dentro dele como parte da “ralé” ou da “gente
baixa”.
O perigo potencial de semelhantes desenvolvimentos tem sido percebido
socialmente. Primeiro, porque as disparidades de distribuição social da
renda forçaram distinções sociais que se tornaram demasiado rígidas em
comparação com o que se admite consensualmente. Como essas distinções
eclodem com maior nitidez nas relações de “brancos” ricos com “negros”
ou “mestiços” pobres, surgiu o temor acentuado de que elas “introduzam no
Brasil o conflito racial”! Segundo, porque as mesmas disparidades agora
envolvem brancos com tradições culturais diferentes. Descendentes de
imigrantes de várias origens fazem parte das elites no poder e, embora
compartilhem da ideologia racial dominante, fazem-no em função das
tradições culturais que transplantaram de outras comunidades nacionais. Por
aí também se instilam formas de avaliação e de comportamentos que
colidem com a propensão de decoro e de harmonia aparente que as famílias
tradicionais brasileiras sempre procuraram fomentar no trato com o “negro”. Terceiro, porque a ascensão social do negro e do mulato está se
processando, de maneira crescente, de forma que dificulta a preservação das
antigas técnicas de socialização e de controle do negro e do mulato. Não só
muitos repelem os conhecidos mecanismos de acomodação racial inerentes
à mobilidade por infiltração; a propensão do “novo negro”, mais ou menos
sensível às exigências da ordem social competitiva, entra em conflito
crescente com a manipulação de seus interesses, sentimentos e aspirações
de acordo com o modelo da “exceção que confirma a regra”. Esse “novo
negro” aspira a viver como o “branco” de nível social equivalente e prefere
isolar-se socialmente a praticar um comércio racial que prejudicaria sua
concepção da dignidade humana. Nesse foco surgem as evidências que
atormentam mais profundamente e desorientam as avaliações dos círculos
conservadores da “raça dominante”, pois veem nessa propensão uma
rebeldia “contra o branco” e um “perigo racial” a ser contornado.
O exemplo fornecido pelo que aconteceu em São Paulo em conexão com
o segundo ciclo da revolução industrial mostra que a mudança social
espontânea tem probabilidades de sanar essas pequenas fontes de tensões.
Depois de 1945, o crescimento econômico constante e a necessidade de
procurar a mão de obra dentro da sociedade nacional abriu muitas portas
que antes estavam fechadas ao “negro” e ao “mulato”. Mesmo firmas que
fazem restrições abertas ao “trabalhador de cor” tiveram de proceder de
modo mais ou menos tolerante. Isso facultou a inclusão ao sistema de
trabalho a maior número de “pessoas de cor”; e, de outro lado, ajudou a
provocar migrações internas que tendem a redistribuir “negros” e
“mestiços” dentro do país (o que, aumenta, concomitantemente, a
visibilidade do “homem de cor” e sua tolerância relativa por segmentos
mais ou menos exclusivistas da “raça dominante”). Contudo, esse processo
é muito lento. O seu resultado de maior envergadura foi o aparecimento de
uma classe média de cor (sob muitos aspectos uma classe média aparente),
que não revela muita disposição a romper com os bloqueios que impedem o aproveitamento mais rápido do “homem de cor” e anulam ou restringem os
efeitos de sua mobilidade social vertical. Há matéria para pensar-se,
portanto, em riscos potenciais. Na medida em que os diferentes círculos da
“população de cor” passem a participar ativamente das aspirações de
emprego, níveis de vida e oportunidades de ascensão social que se tendem a
universalizar graças ao desenvolvimento urbano, é presumível que a
tolerância do “negro” e do “mulato” diante das “injustiças sociais” que
sofrem irão evoluir da passividade à agressividade. Doutro lado, a questão
racial também afeta o equilíbrio da sociedade nacional. Não poderá haver
integração nacional, em bases de um regime democrático, se os diferentes
estoques raciais não contarem com oportunidades equivalentes de
participação das estruturas nacionais de poder.
A conjuração desses riscos só poderá ser obtida através de uma radical
mudança de atitudes diante da questão racial. Importa, em primeiro lugar,
que se inclua o “negro” e o “mulato” (como outras “minorias étnicas,
raciais ou nacionais”) na programação do desenvolvimento socioeconômico
e nos projetos que visem aumentar a eficácia da integração nacional. Dada a
concentração racial da renda, do prestígio social e do poder, a “população
de cor” não possui nenhuma vitalidade para enfrentar e resolver seus
problemas materiais e morais. Cabe ao governo suscitar alternativas, que
viriam, aliás, tardiamente. Nessas alternativas, escolarização, nível de
emprego e deslocamento de populações precisariam ganhar enorme relevo.
Em suma, aí se necessita de um programa de combate à miséria e a seus
efeitos no âmbito dessa população. Em segundo lugar, seria necessário que
o “negro” e o “mulato” mudassem suas atitudes diante dos dilemas do
“homem de cor”. Como os únicos interessados diretos nos resultados dessa
integração, deveriam devotar-se a tal objetivo com maior tenacidade e
discernimento, seja para conquistar uma posição na sociedade nacional
como e enquanto “grupo”, seja para forçar ajustamentos mais frutíferos por
parte dos “brancos”. Em terceiro lugar, cabe aos próprios “brancos” um esforço de reeducação, para que deixem de falar em “democracia racial”
sem nada fazer de concreto a seu favor e fazendo muito no sentido
contrário. Será difícil que o governo ou os próprios componentes da
“população de cor” consigam êxito diante da indiferença do “branco” nesse
assunto. É preciso que se compreenda que uma sociedade nacional não
pode ser homogênea e funcionar equilibradamente sob a permanência
persistente de fatores de desigualdade que solapam a solidariedade
nacional. Além disso, tem de evoluir para noções menos toscas e egoísticas
do que vem a ser uma democracia. Nada disso se conseguirá dentro de um
prazo curto, porém, através dos efeitos da mudança social espontânea. O
que ela podia produzir está patente e mostra que, em vez de eliminarmos as
contradições, aumentamos as tensões antigas e criamos outras novas, de
potencialidade destrutiva ainda maior. Convém, pois, que se inicie um
programa nacional voltado para o dilema social das minorias que não têm
condições autônomas para resolver rapidamente os problemas de sua
integração à ordem econômica, social e política inerente à sociedade
nacional.
Bibliografia suplementar
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Apêndice
1) Remoto o risco de segregação racial originário
da arregimentação negra31
Enquanto se dizia não existir preconceito, os sociólogos Roger Bastide e
Florestan Fernandes se embrenhavam nas pesquisas que culminaram nas
conclusões contidas em Relações raciais entre brancos e negros em São
Paulo, livro de análise das manifestações do preconceito de cor.
E enquanto se diz, pura e simplesmente, que “não existe o problema do
negro”, o professor Florestan Fernandes prepara-se para defender sua tese justamente a propósito do problema do negro, estendendo suas pesquisas a
Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Florestan Fernandes tem, por outro lado, opinião formada sobre as
entidades que surgiram recentemente ou estão surgindo para aglutinar os
elementos negros na capital e no interior em torno das chamadas
“reivindicações da raça”.
Acompanhando os trabalhos que se desenvolvem na Associação Cultural
do Negro, nos teatros experimentais (de orientações diversas), na Abase, na
Federação dos Brasileiros de Cor (que congrega cidades no sul do Estado) e
outras entidades oriundas da reação do elemento negro diante do
preconceito, Florestan Fernandes afirma que “esses movimentos nascem de
necessidades sociais imperiosas nas populações negras”, conclusão baseada
na pesquisa realizada por ele com seu antigo professor, Roger Bastide.
Após a abolição
“Durante o período da escravidão” – diz Florestan Fernandes –, “o negro
viveu em estado de dependência social tão extrema que não chegou a
participar, autonomamente, das formas de vida social organizadas mínimas,
como a família e outros grupos primários, de que se beneficiavam os
brancos. A Abolição ocorreu em condições que foram verdadeiramente
‘espoliativas’, do ponto de vista da situação de interesse dos negros. Estes
perderam o único ponto de referências que os associava ativamente à nossa
economia e à nossa vida social. Em consequência, viram-se convertidos em
‘párias’ da cidade, formando o grosso da população dependente de São
Paulo nos três primeiros decênios do século XX. Esses fatos foram
descritos por vários viajantes e estudiosos, tendo merecido análise mais
completa da parte de Bastide e do sociólogo norte-americano Lowrie. Para
participar das garantias e dos direitos sociais, consagrados por nosso
sistema de vida, os negros tiveram que desenvolver um esforço próprio de
autoeducação e de autoesclarecimento, em escala coletiva. Alguns líderes mais esclarecidos e bem informados, apoiados por companheiros que
percebiam a importância desses empreendimentos para a população negra,
desde 1930 vêm difundindo ensinamentos que mostram as vantagens
inerentes à assimilação de formas de organização das atividades sociais
dominantes no meio ambiente. Assim, realizaram campanhas para a
reabilitação da ‘mãe solteira’, grave problema por que aumenta o número
de menores desamparados e dificulta o casamento ou a constituição da
família; para o incentivo da responsabilidade do pai na educação dos filhos
e na manutenção do lar; para o abandono dos ‘porões’ e dos ‘cortiços’ e a
aquisição da casa própria; para a valorização da aprendizagem de profissões
acessíveis aos negros, tendo em vista suas habilitações; para o combate ao
analfabetismo; para a participação mais vigorosa e consciente nas
atividades políticas etc. Esses movimentos sofreram altos e baixos,
paralisando-se, ou arrefecendo-se na ‘ditadura’, ganhando novos alentos
aqui e acolá, graças às condições mais ou menos favoráveis de vida de uma
pequena classe média negra em São Paulo. Assim, para resumir: esses
movimentos nascem de necessidades sociais próprias da população negra da
capital e traduzem a mobilidade ou os sucessos de alguns de seus setores,
na competição com os brancos e na ascensão social.”
Não por privilégios, mas contra privilégios
Prosseguindo, acentua o prof. Florestan Fernandes que “esses movimentos
correspondem a fins socialmente úteis”, que alargam “as esferas dentro das
quais nosso estilo de vida é posto em prática”.
“Em outras palavras, eles se baseiam em móveis e em aspirações sociais
que, bem-sucedidos, farão dos negros melhores cidadãos. Há quem pense
que o negro luta por privilégios, através desses movimentos. Mas isso não é
verdade: eles lutam contra privilégios, que os mantiveram afastados, em
detrimento de segurança e de nosso progresso, dos direitos fundamentais do
homem em nossa ordem social. A esse respeito, convém frisar que não lutam contra pessoas ou grupos, que não os anima a ambição de prejudicar
o branco ou combater os valores e instituições sociais que lhe conferem
riqueza, poder ou estabilidade. As impulsões psicossociais, inerentes a seus
‘movimentos de arregimentação’, conduzem, ao contrário, a alvo bem
diferente: o de permitir ao negro ter acesso mais livre e equitativo a esses
valores e instituições. Não são, portanto, movimentos conduzidos pelo
propósito de aumentar a área de conflitos sociais de nossa sociedade. O que
seus fins sociais conscientes pressupõem é o alargamento efetivo da área de
acomodação, pela integração do negro às oportunidades econômicas,
políticas, educacionais e sociais, conferidas aos brancos sem restrições.
Parece-me que isso evidencia que são infundados os receios, de certas
camadas sociais, de que eles redundem em ‘perigos’ políticos ou raciais. No
fundo, o negro tomou a si a tarefa de lutar contra esses perigos, enfrentando
com seus recursos e sem nenhuma manifestação mais forte de simpatia ou
de compreensão, a gigantesca responsabilidade de preparar-se para a vida
numa ordem social democrática.”
Os movimentos e a segregação
Respondendo à pergunta sobre se tais movimentos de arregimentação
poderiam produzir uma situação de segregação racial comparável à
existente nos Estados Unidos, declara o prof. Florestan Fernandes que “o
desfecho da competição e do conflito nas relações entre grupos raciais
distintos depende de vários fatores e condições sociais”.
“Pelo que sabemos, com base na pesquisa efetuada em São Paulo –
acrescentou – esse risco existe, pois ainda não se sabe como as diferentes
camadas da população branca poderão reagir à ascensão social do negro.
Contudo, é preciso ponderar duas coisas. Primeiro, se isso chegasse a
ocorrer, não seria por ‘culpa’ dos movimentos de arregimentação dos
negros. O isolamento espacial, cultural e social, em casos dessa natureza,
constitui um produto dinâmico do tratamento dispensado às minorias raciais e étnicas, demonstrando a incapacidade da ordem social em evoluir na
direção de padrões integrativos de reconstrução social. Sob esse aspecto,
pois, o perigo potencial da segregação poderia ser admitido. Ele não seria
causado pelo negro, no entanto, que passaria a sofrer os efeitos da situação
global nas atitudes e no comportamento dos brancos. Esse é o problema. Os
‘movimentos de arregimentação’ são apenas uma parcela da situação global
e a reação desfavorável dos brancos não seria provocada apenas por eles. A
segunda coisa que precisa ser ponderada diz respeito ao caráter eventual
desse presumível perigo. Não é certo que ele venha a ocorrer, sendo muito
variadas e fortes as pressões em sentido contrário. Entre essas, cumpre pôr
em relevo: as condições concretas da competição do negro com o branco,
que não são de molde a criar dificuldades insuperáveis para este, dadas as
oportunidades crescentes oferecidas pelo sistema ocupacional; a
inexistência de alvos definidos de oposição racial, por parte do negro, que
não pretende desalojar o branco das posições sociais em que ele se
encontra, mas compartilhar com ele dos direitos e garantias sociais; as
tendências ideológicas e utópicas que valorizam, no meio branco, a
integração racial; o fortalecimento do regime democrático, que ampara
politicamente aquelas tendências. Por isso, presumo que não devemos temer
esses ‘movimentos’, mas colaborar para que eles definam melhor e
alcancem realmente os seus alvos construtivos, tão importantes para um
país novo e heterogêneo como o Brasil.”
Apêndice
2) Brasil está bem longe de ser uma democracia
racial32
Realiza-se, em Brasília, um seminário sobre segregação racial, promovido
pela ONU. O prefeito Plínio Catanhede, durante a solenidade de instalação
do seminário, disse que “era uma honra ter Brasília como sede para discussão de um dos graves problemas do mundo atual”. O representante da
Suécia, entre outras coisas, afirmou que não existe conflito racial no Brasil.
Mas será mesmo verdade que aqui não existe tal conflito? Partimos de um
princípio elementar na questão do segregacionismo: – Existe preconceito
racial em nosso país? Esta e outras perguntas são respondidas pelo
professor Florestan Fernandes, catedrático da Cadeira de Sociologia I, da
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.
Tolerância e democracia raciais
Inicialmente, o prof. Florestan Fernandes abordou a questão da existência
ou não de “democracia racial” no Brasil. Aliás, esse tema é debatido no seu
último livro (A integração do negro na sociedade de classes, capítulos 3, 5
e 6): “Na verdade, nos acostumamos à situação existente no Brasil e
confundimos tolerância racial com democracia racial. Para que esta última
exista não é suficiente que haja alguma harmonia nas relações sociais de
pessoas pertencentes a estoques raciais diferentes ou que pertencem a
‘raças’ distintas. Democracia significa, fundamentalmente, igualdade social,
econômica e política. Ora, no Brasil, ainda hoje não conseguimos construir
uma sociedade democrática nem mesmo para os ‘brancos’ das elites
tradicionais e das classes médias em florescimento. É uma confusão, sob
muitos aspectos farisáica, pretender que o negro e o mulato contem com
igualdade de oportunidades diante do branco, em termos de renda, de
prestígio social e de poder.
O padrão brasileiro de relação racial, ainda hoje dominante, foi construído
para uma sociedade escravista, ou seja, para manter o ‘negro’ sob a sujeição
do ‘branco’. Enquanto esse padrão de relação racial não for abolido, a
distância econômica, social e política entre o ‘negro’ e o ‘branco’ será
grande, embora tal coisa não seja reconhecida de modo aberto, honesto e
explícito”.
Mito social
Continuando a responder sobre a falada “democracia racial”, acrescentou:
“Os resultados da investigação que fiz, em colaboração com o professor
Roger Bastide, demonstram que essa propalada ‘democracia racial’ não
passa, infelizmente, de um mito social. E um mito criado pela maioria e
tendo em vista os interesses sociais e os valores morais dessa maioria; ele
não ajuda o ‘branco’ no sentido de obrigá-lo a diminuir as formas existentes
de resistência à ascensão social do ‘negro’; nem ajuda o ‘negro’ a tomar
consciência realista da situação e a lutar para modificá-la, de modo a
converter a ‘tolerância racial’ existente em um fator favorável a seu êxito
como pessoa e como membro de um estoque ‘racial’”.
Tipos de preconceito racial
Estabelecido que existe preconceito racial no Brasil, o prof. Florestan
Fernandes esclareceu:
“De fato, existem várias formas socioculturais de preconceito racial. O
que há de mal, conosco, consiste no fato de que tomamos como paralelo o
tipo de preconceito racial explícito, aberto e sistemático posto em prática
nos Estados Unidos. Todavia, os especialistas já evidenciaram que existem
vários tipos de preconceito e, pelo menos um sociólogo brasileiro, o
professor Oracy Nogueira, se preocupou em caracterizar as diferenças
existentes entre o preconceito racial sistemático, que ocorre nos Estados
Unidos, e o preconceito racial dissimulado e assistemático, do tipo do que
se manifesta no Brasil. Já tentei, de minha parte, compreender
geneticamente o nosso modo de ser. Segundo penso, o catolicismo criou um
drama moral para os antigos senhores de escravos, pois a escravidão colidia
com os ‘mores’ cristãos. Surgiu daí, presumivelmente, a tendência a
disfarçar a inobservância dos ‘mores’, pela recusa sistemática do
reconhecimento da existência de um preconceito que legitimava a própria
escravidão”.
“Negro” versus “branco”
Florestan Fernandes continua: “Sem a ideia de que o ‘negro’ seja
‘inferior’ e necessariamente ‘subordinado’ ao ‘branco’, a escravidão não
seria possível num país cristão. Tomaram-se essas noções para dar
fundamento à escravidão e para alimentar outra racionalização corrente,
segundo a qual o próprio negro seria ‘beneficiado’ pela escravidão, mas
sem aceitar-se a moral da relação que se estabelecia entre o senhor e o
escravo. Por isso, surgiu no Brasil uma espécie de preconceito reativo: o
preconceito contra o preconceito ou o preconceito de ter preconceito. Ao
que parece, entendia-se que ter preconceito seria degradante e o esforço
maior passou a ser o de combater a ideia de que existiria preconceito no
Brasil, sem se fazer nada no sentido de melhorar a situação do negro e de
acabar com as misérias inerentes ao seu destino humano na sociedade
brasileira. Acho que aqui seria bom que se lessem os trabalhos recentes
publicados por sociólogos, antropólogos e psicólogos, mais ou menos
concordantes, e, em particular, que o ‘branco’ se reeducasse de tal maneira
que pudesse pôr em prática, realmente, as disposições igualitárias que ele
propala ter diante do ‘negro’”.
Discriminação e segregação
À pergunta se existiria “discriminação” e “segregação” raciais no Brasil,
disse:
“A discriminação que se pratica no Brasil é parte da herança social da
sociedade escravista. No mundo em que o ‘negro’ e o ‘branco’ se
relacionavam como escravo e senhor, esse último tinha prerrogativas que
aquele não possuía – nem podia possuir, como ‘coisa’ que era e ‘fôlego
vivo’, uma espécie de ‘instrumento animado das relações de produção’. A
passagem da sociedade escrava para a sociedade livre não se deu em
condições ideais. Ao contrário, o negro e o mulato viram-se submergidos na
economia de subsistência, nivelando-se, então, com o ‘branco’, que também
não conseguia classificar-se socialmente, ou formando uma espécie de escória da grande cidade, vendo-se condenados à miséria social mais
terrível e degradante”.
Abolicionismo não aboliu
Reportando-se ao abolicionismo, Florestan Fernandes acentua: “Apesar de
seus ideais humanitários, o abolicionismo não conduziu os ‘brancos’ a uma
política de amparo ao negro e ao mulato. Como o demonstram os resultados
da análise pioneira de Roberto Simonsen, em trabalho magistral, nos
momentos mais duros da transição existiram fazendeiros que defendiam a
ideia da indenização. Nenhum deles se levantou em prol da indenização do
escravo ou do liberto e, em consequência, os segmentos da população
brasileira que estavam associados à condição de escravo ou de liberto
viram-se nas piores condições de vida nas grandes cidades. Foram
reduzidos a uma condição marginal, na qual se viram mantidos até o
presente. Somente depois de 1945 começaram a surgir oportunidades reais
de classificação na estrutura da ordem social competitiva, ainda assim, para
número limitado de indivíduos potencialmente capazes de terem êxito na
competição socioeconômica com os brancos”.
Segregação dissimulada
A seguir, disse o famoso sociólogo: “A discriminação existente é um
produto do que chamei ‘persistência do passado’, em todas as esferas das
relações humanas – na mentalidade do ‘branco’ e do ‘negro’, nos seus
ajustamentos à vida prática e na organização das instituições e dos grupos
sociais. Para acabarmos com esse tipo de discriminação, seria necessário
extinguir o padrão tradicional brasileiro de relação racial, e criar um novo
padrão realmente igualitário e democrático de relação racial, que conferisse
igualdade econômica, social, cultural e política entre negros, brancos e
mulatos. As mesmas ideias podem ser aplicadas à segregação. Esta foi
praticada no passado senhorial, apesar da convivência por vezes íntima, entre senhores e escravos. Fazia parte de duplo estilo de vida que separava
espacial, moral e socialmente o ‘mundo da senzala’ do ‘mundo da casa
grande’”.
“A segregação do ‘negro’ é sutil e dissimulada, pois ele é confinado ao
que os antigos líderes dos movimentos negros de São Paulo chamavam de
‘porão da sociedade’. As coisas estão se alterando, nos últimos tempos, mas
de forma muito superficial e demorada. Para atingirmos a situação oposta,
implícita no nosso mito de democracia racial, o negro e o mulato
precisariam confundir-se com o branco num mundo de igualdade de
oportunidades para todos, independentemente da cor da pele ou da extração
social. É pouco provável que isso se dê sem que os próprios negros e
mulatos tenham uma consciência mais completa e profunda de seus
interesses numa sociedade multirracial, em que eles constituem uma
minoria deserdada e proscrita.”
Florestan Fernandes concluiu, observando que “foi preciso quase três
quartos de século para que negro e mulato encontrassem, em São Paulo,
perspectivas comparáveis àquelas com que se defrontaram os imigrantes e
seus descendentes. Quanto tempo terá que correr para que consigam
tratamento igualitário numa sociedade racialmente aberta? Essa pergunta
me parece fundamental. Os ‘negros’ devem preparar-se para respondê-la e
os ‘brancos’, para ajudá-los, solidariamente, a pôr em prática as soluções
que a razão indicar, sem subterfúgios e com grandeza humana”.
27 Artigo escrito para O tempo e o modo, Lisboa, para ser publicado no número de novembro-dezembro de 1966.
28 A parte essencial dessa bibliografia vai reproduzida a seguir, como contribuição do autor aos leitores interessados em aprofundar a presente análise.
29 Cf. Agostinho Marques Perdigão Malheiro, A escravidão no Brasil: ensaio histórico-jurídico-social, Rio de Janeiro, Tipografia Nacional, 1866, vol. I, p. 206-208.
30 Sobre o assunto cf. especialmente L. A. Costa Pinto, O negro no Rio de Janeiro, cap. III; Florestan Fernandes, A integração do negro à sociedade de classes, p. 100-133.
31 Entrevista solicitada e publicada por Elias Raide, autor da nota introdutória: Diário da Noite, 9/4/1958.
32 Partes de uma entrevista publicada por A Gazeta, 27/8/1966. Reproduzida em F. Fernandes, J. B. Borges Pereira e O. Nogueira, A questão racial brasileira vista por três professores, São Paulo, Escola de Comunicações e Artes – USP, 1971.
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