O Negro no Mundo dos Brancos

Florestan Fernandes · Capítulo 13 de 15

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O Negro no Mundo dos Brancos

Contribuição para o Estudo de um Líder Carismático

Capítulo XI

 

 

Contribuição para o Estudo de um Líder

 

Carismático137

 

I – Introdução

 

O presente trabalho, como indica o próprio título, constitui uma simples

contribuição para o estudo do culto criado por e desenvolvido em torno de

João de Camargo, em Sorocaba. Os dados expostos foram recolhidos in

loco, durante o mês de julho de 1942. Os resultados da pesquisa não foram

publicados naquela época em virtude do meu interesse pelo problema.

Pretendia realizar novas pesquisas e elaborar um estudo sistemático a

respeito das atividades de João de Camargo, a organização da Igreja Nosso

Senhor Bom Jesus da Água Vermelha e a integração do “culto” ao sistema

sociocultural de Sorocaba. Contudo, outros trabalhos atraíram minha

atenção, e os dados recolhidos conservaram-se inúteis, perdidos no meu

fichário.138 Pensando no interesse que eles poderiam ter para os

especialistas, resolvi publicá-los, mesmo em uma forma sociográfica.

Na coleta dos dados, feita evidentemente depois da morte de João de

Camargo, fui auxiliado e esclarecido por Natalino e Antônio Cirino, dois

discípulos dele, e principais zeladores da Igreja no período em que a visitei.

Outras informações foram obtidas de moradores da cidade ou extraídas de

escritos sobre João de Camargo. Durante minha permanência em Sorocaba,

fui também muito auxiliado por Luís Castanho de Almeida, competente

historiador e folclorista conhecido de sobejo, a quem aproveito o ensejo

para agradecer algumas informações, aproveitadas neste trabalho.

 

II – Dados biográficos

João de Camargo nasceu em Sarapuí, bairro dos Cocais, onde foi cativo

dos Camargo de Barros. Em julho de 1858 foi batizado, tendo como

madrinha Nossa Senhora das Dores. Sua mãe era uma negra cativa, um

pouco desvairada, chamada Francisca, mas conhecida por “nhá Chica” e

“Tia Chica”, que também fazia algumas práticas de curandeirismo

(informações obtidas de dona Eugênia Marília de Barros, descendente dos

Camargo de Barros, que vive em uma casa, perto da Igreja, mandada

construir por seu primo João de Camargo). Por intermédio de sua “sinhá”,

dona Ana Tereza de Camargo, católica praticante e muito devota, foi João

iniciado no catolicismo. Trabalhou nos serviços da casa e depois na lavoura,

como cativo, tendo com certeza recebido influências de sua mãe e doutros

escravos, nesta época. Depois da libertação, até 1893, quando fez parte do

batalhão de voluntários paulistas, que formou ao lado do governo, em

Itararé, trabalhou como doméstico em várias famílias. Casou-se, nessa

época, com uma mulher branca, do Pilar, e continuou na mesma vida até

1905. Nessa data passou a trabalhar numa olaria, de onde passou, em 1906,

a trabalhar como camarada num sítio do bairro do Cerrado. Em 1906, já

“profetizado”, como diz o povo, construiu a pequena capela em frente à

estrada da “Água Vermelha”. Daí em diante, dedicou-se exclusivamente à

sua “missão”. Todavia, em contraste com a versão oficial, que circula entre

os crentes, soube o seguinte por seu primo, o “nhô Dito”: “João de Camargo

curava antes de ser ‘profetizado’, desde muito, mais só aqui e ali”. Isso

confirma a hipótese da influência de sua mãe e de algum companheiro

negro, cativo como ele.

 

III – A carreira de João de Camargo e

 

desenvolvimento do culto

A versão oficial da carreira de João de Camargo é um pouco diferente,

pelo menos no que toca à revelação e a aplicação dos seus poderes

sobrenaturais. Ela está difundida tanto no círculo dos crentes quanto entre os simples admiradores – isto é, pessoas que não acreditavam nos seus

dotes extranaturais, mas o admiravam, em virtude da bondade que revelava

no trato com os necessitados ou com os doentes.

 

a) Antecedentes da “profetização” e do culto

Em 1859, Alfredo, um menino de 8 anos, filho de um comerciante

português, chamado João Buava, foi levar ao pasto um cavalo, o qual servia

para a entrega de encomendas, na padaria de seu pai. Amarrou a rédea em

sua cinta e foi pela estrada a fora, montado em pelo, no animal. No caminho

começou a caçar com um bodoque. Ao fazer os movimentos para matar um

pássaro, perdeu o equilíbrio e caiu do cavalo, espantando-o. Como estava

preso pela cintura às rédeas, foi esfacelado contra o chão, na disparada do

animal, o qual só parou perto do córrego das Águas Vermelhas, onde havia

uma porteira. Ali acharam o que restava do corpo do infeliz menino e

ergueram uma cruz em sua memória.

 

b) A “profetização” e o culto

Era devoção de João de Camargo acender uma vela ao pé daquela cruz,

coisa que ele fazia toda vez que tinha oportunidade. Aí ele inicia uma nova

fase de sua vida, passando de curandeiro sem “ponto” fixo, a curandeiro

“instalado”. Nesse lugar, o primeiro passo para essa transformação foi a

“profetização”. Dizem os informantes que, em 1906, quando foi fazer sua

devoção diante da “cruz de Alfredinho”, cansado depois de um dia de

trabalho intenso, deitou-se à sombra de uma árvore, após ter acendido a

vela, e adormeceu. Então o espírito do menino Alfredo teria apresentado

toda a cena de sua morte, revelando-lhe, também, a “sua missão”, dizendo-

lhe que seria o “guia” e “protetor” de João de Camargo.

 

“Ouvia a voz que dizia:

Nascestes de novo, João;

Por seres tu tão humilde,

Vou te dar a proteção.”139

 

Nessa ocasião já aparece a obstinação de João de Camargo pelos números,

particularmente o número cinco, pois o espírito manda-o acender cinco

velas e ordena-lhe a construção de uma capela, consagrada ao culto de

Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim. Ao mesmo tempo, teria visto também

o espírito de Monsenhor João Soares do Amaral, falecido em 21 de

fevereiro de 1900, na terrível febre amarela que assolou Sorocaba e na qual

aquele sacerdote demonstrou um desvelo caritativo e único, para com os

doentes.

Dando cumprimento à inspiração recebida, João de Camargo mandou

erigir, em 1907, uma capelinha no lugar indicado e no altar colocou a

imagem de N. S. Bom Jesus do Bonfim, em cujas mãos amarrou uma fita

vermelha, a qual caía até o chão. A princípio, para “ouvir a voz oculta”

(parte dos seus processos de cura), ajoelhava-se, segurando a fita entre as

mãos, assumindo um aspecto concentrado e imponente.

O desenvolvimento do culto, a partir de tão modesto começo, foi rápido.

João de Camargo achava que tinha fundado uma igreja, “apartada com

água, pedra e verdade”.140 Tinha consciência de uma missão exclusivamente

dedicada ao bem, e por isso criou adeptos. A sua igreja, para ele, acabou

sendo a Igreja. Ao lado de suas práticas de curanderismo, desenvolveu o

culto católico às imagens dos santos, e, mesmo, organizou também traços

da cultura africana, fundidos ao espiritismo (cf. adiante).

Ao voltar da primeira procissão, em louvor de N. S. B. Jesus do Bonfim,

fez a sua primeira pregação, em que se dirige aos crentes como “Irmãos de

crença da igreja negra e misteriosa da Água Vermelha”. Fala também de sua

“profetização” e diz ser encomendado ao Espírito Santo, e que não sabe se é

através do espírito de Alfredinho ou de Monsenhor João Soares que opera

as curas: “só Deus sabe”, afirma.

Na mesma oração prega o fatalismo e a submissão a Deus: “Não podemos

dizer nem certificar; só podemos pensar e em Deus esperar”.141 Termina desejando que as “forças benéficas do Divino Mestre dê a todos saúde e

prosperidade”.

Apesar de seu passado de cativo e alcoólatra, sob este aspecto por todos

conhecido, o número de crentes cresceu com pasmosa rapidez. É verdade

que seus discípulos, que continuam a zelar pela igreja, negam o seu passado

de alcoólatra. Mas ele mesmo disse, na sua pregação, ter recebido ordem

para não beber mais, “para ser percebido e conhecer a Deus”, sendo esta

uma das causas de sua fobia contra o álcool, o qual combatia com todas as

forças e em todas as oportunidades, amparando-se na fé. Aos crentes

proibia toda espécie de bebida.

O seguinte “viso”, escrito a tinta e em letra maiúscula, emoldurado e

colocado no interior da igreja, pode esclarecer melhor a sua posição em

relação ao culto e aos crentes:

“Crendo no que eu creio seremos irmãos e descrendo no que eu creio nem

parentes seremos, nem com este nem com aquele posso ter amizade.

Principia do mindinho até o porte maior. De Deus não sou amigo. Só

humilde empregado aonde Deus me pois.

Ora pro nobis, mizerere nobis, Dominus o Bispo. E o padre e o amor a

igreja me declarou: – eu não sou padre e nem nada com ele tenho, cada qual

em suas obrigações quem arrecebe e Deus e nada mais podemos saber.”

Soube que ele costumava chamar os santos católicos pelo nome comum,

quando diante de crentes. Mas que, entre os iniciados, chamava-os por

nomes diferentes. Esforcei-me por conseguir alguns, mas não foi possível.

Um de seus mais fiéis discípulos, o sr. Natalino (branco), sem querer, disse-

me um: o de São Benedito, o qual João de Camargo chamava de

Rongondongo.

Além do culto católico, aos santos, feito normalmente, embora sem a

intervenção do padre, e ofício da missa, João de Camargo atribuía, e com

ele os crentes, poderes sobrenaturais aos números. Os números prediletos

eram o 3 e o 5, mas dava maior importância ao segundo.

Como foi indicado acima, sobre três coisas fundou sua igreja: “água,

pedra e verdade”. Conforme informações obtidas de crentes, ele teria,

mesmo, empregado os números, depois de certo tempo, nas “guias”. Esse

fato é confirmado pelo seguinte cartão, estampado por Francisco Gaspar na

primeira página de seu citado livro:

 

“N. 3

A casa da verdade diz:

A numeração do século

E dos seus princípios

Foi demarcada e sempre

Seja feita, ou, que torne a

Remarcar o N. 3

 

João de Camargo”.

 

Mas é o número cinco o “número” por excelência, para ele. Era o número

da igreja e o da banda de música. Isso explicou-me outro discípulo, dos

mais amados e fiéis, o sr. Antônio Cirino, do seguinte modo: “Todas as

igrejas têm grau dez. A que João de Camargo construiu tem grau quinze.

São cinco graus mais forte que as outras”. Acreditam, os seus crentes, que é

a igreja mais “forte” do mundo. O próprio João de Camargo dizia que, por

isso, a igreja era viva e que as estátuas eram de barro, mas tinham mais

força, porque também eram vivas. Cirino afirmou-me que João de Camargo

lhe asseverara: “as imagens são de barro, mas eu falo com elas, e logo tem

uma voz que me responde”.

Outra coisa interessante na igreja de João de Camargo é uma

reminiscência da cultura africana: um culto litolátrico. Um dos três

fundamentos da sua igreja, como foi visto, é a pedra. Mas isso não o é

apenas de um modo simbólico: João de Camargo estava de fato interessado

em reunir certo número de pedras, necessário para fazer o “culto das

pedras”. As pedras para este culto fetichista ele as procurava em Santos e em Campo Grande. Algumas têm o aspecto de cascalho polido, na parte

superior, que é branca, enquanto a inferior é negra. Há, também, lascas de

pedras, das quais obtive uma amostra. Quando começou o culto das pedras,

colocou-as no altar de Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim; depois criou

um altar ao lado direito do “trado” (cf. adiante), onde as colocou.

Posteriormente, dedicou o culto das pedras a S. Pedro, mas deixou-as no

mesmo lugar. Cirino e Natalino me informaram que o culto iria ser solene

quando ele tivesse conseguido o número suficiente de pedras.

Constantemente, disse-me Natalino, João de Camargo ia a Santos por

“ordem da Igreja”, onde aprendia todos os “segredos do mundo e da

Igreja”. Mas, continuou o informante, “tiravam-lhe tudo”; quando subia a

serra um espírito lhe dizia: “sabias tudo e agora não sabes mais nada”, mas

“ele não sabia só para contar aos outros”. Pareceu-me que sua ida a Santos

se prendia a um culto particular, a Calunga. Como Natalino se recusou a dar

outras informações, não consegui elemento para confirmar a hipótese. Em

síntese, os dados expostos evidenciam um amplo sincretismo, em que se

pode constatar a existência de elementos da religião católica, do espiritismo

e do fetichismo africano.

A Igreja Nosso Senhor Bom Jesus da Água Vermelha, como o povo

chama a primitiva Igreja Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim, registrada

como associação espírita, conserva usos do culto católico: culto às imagens

dos santos, as mesmas rosas, genuflexão diante das imagens, altar-mor,

procissões, pregações etc. ao mesmo tempo, notam-se elementos da cultura

africana na fusão processada: o culto das pedras, por exemplo. A litografia,

cultura africana, tanto pode ser um traço do culto fetichista sudanês a

Xangô, como um traço de religião banto. No primeiro caso, a pedra adorada

seria “a pedra do raio”, conforme Arthur Ramos;142 mas a segunda hipótese

parece-me ser a mais provável, por causa da predominância do elemento

banto nessa região, e porque as pedras não são “pedras de raio”. Luciano

Gallet já observara que os cabindas adoravam “as pedras, os

paralelepípedos e as lascas de pedra”.143 A pedra que trouxemos ainda dá

mais consistência à hipótese. Além disso, há outros elementos, como os

nomes africanos com que designava os santos, quando entre os iniciados,

como acontece com São Benedito, o qual ele chamava de Rongondongo.

Até agora, este santo era conhecido apenas por Lindongo, conforme registra

João do Rio.

Também na ordem do culto dos santos cristãos, como se verá adiante, ao

estudarmos as “guias”, pode-se fazer aproximações às práticas jeje-nagô,

nos candomblés, com a seguinte ressalva: na Igreja Católica não é usual

fazer-se o culto a determinado santo, em um predeterminado dia da semana,

como a quinta-feira. Fazendo-se as necessárias transposições, obtém-se esta

correspondência:

 

Jeje-nagô – João de Camargo

Sexta-feira – Obatalá – Sagrado Coração de Jesus.

Sábado – Iemanjá – Nossa Senhora das Dores.

Domingos – Todos os Orixás144 – Todos os santos.

 

Considerando-se o que foi indicado acima, a coincidência com o culto

católico é apenas aparente, como, por exemplo, o culto das almas às

segundas-feiras.

Doutro lado, deve-se considerar, como observa A. Ramos, que o preto

banto já tinha em sua cultura traços que muito se aproximavam do

espiritismo, como o culto Orodére, em Benguela. Por isso é facilmente

explicável a quase predominância de traços de espiritismo, misturados no

culto criado por João de Camargo. Além disso, a influência do espiritismo

tende a aumentar, graças ao grande número de “centros” existentes em

Sorocaba, e também porque muitos dos seus discípulos eram espíritas,

frequentadores assíduos de tais “centros”.

Outro traço que, segundo me parece, ele herdou de seus companheiros

escravos é o “quarto dos milagres”, em que, à maneira do que se faz na Bahia, na Igreja de Nosso Senhor de Bonfim, na capela dos ex-votos, e em

Aparecida, no Estado de São Paulo, ele acumulou centenas de fotografias,

algumas fundas, muletas, braços e mãos de cera etc.

Como João de Camargo se utilizou de “guias”, traços da cultura africana

dos malês, como se verá adiante parece evidente que a fusão foi ampla,

incluindo elementos de culto católico, espírita e banto, predominantemente,

das culturas africanas jeje-nagô e musulmi.

 

IV – Evolução da Igreja atual e o “quarto de

 

milagres”

Acompanhando o desenvolvimento da crença e o concomitante aumento

de adeptos, João de Camargo foi ampliando suas instalações. Desse modo

contribuiu, inconscientemente, para tornar bizarro o culto e a estética da

igreja. Da capelinha de 1906, passamos, lentamente, às atuais dependências

da igreja. Depois da construção da capelinha, João de Camargo mandou

construir uma casa pequena, para servir de cobertura a um poço, que fora

aberto por sua ordem, no lugar. Deste poço tirava, a princípio, a “água

milagrosa”, utilizada com finalidades curativas.

Mas, já no ano imediato, a capela não comportava o número de fiéis e

crentes. João de Camargo precisou ordenar nova construção, criando uma

capela maior em frente da outra. Ficava no sentido da estrada, dando a

frente para quem vinha da cidade e a parede lateral esquerda para a

capelinha.

Em consequência do contínuo aumento de prestígio, e do extraordinário

afluxo de romeiros, João de Camargo teve necessidade de ordenar novas

reformas. A respeito destas não consegui datas exatas. Mas sei, de fontes

fidedignas, que são posteriores a 1910 e conheço a ordem segundo a qual

foram realizadas.

A igreja apresenta duas cruzes, tem sinos, à maneira das igrejas católicas,

um dístico em que se lê – “Oremos a Deus”, abaixo do qual está um coração de reboque, pintado de vermelho. Tem um terraço gradeado, onde

tocava a corporação musical número cinco, ao domingos e feriados.

É preciso notar que as reformas feitas depois de 1908 não eliminavam as

antigas dependências. Estas eram aproveitadas, derrubando-se apenas as

paredes internas, estabelecendo-se assim a comunicação entre a nova e a

antiga “capela”. O desenvolvimento desta igreja tem qualquer coisa da

evolução das nossas ruas antigas, fazendo-se ao sabor das necessidades. Por

isso, a igreja de João de Camargo apresenta um quê de bizarro, em sua

arquitetura; das três salas principais, destinadas ao culto dos santos, por

exemplo, apenas a primeira, logo na entrada, estaria regularmente situada.

Nesta localiza-se o altar-mor, em que colocaram N. S. Bom Jesus do

Bonfim. Ao lado desta primeira sala, está outra sala mais espaçosa, também

destinada ao culto. A terceira sala fica atrás da primeira, dando acesso a

uma espécie de corredor, onde há um presepe que nunca se desarma, e a

uma saleta, onde se amontoam várias estátuas, sobre um altar, também

destinado ao culto, e onde está um Senhor exposto de modo permanente. Da

segunda sala, passa-se a outras duas saletas, onde se cultua uma infinidade

de santos e também Sacco e Vanzetti etc.

Ao lado direito da igreja está o “quarto dos milagres”, que é o maior de

todos. Como as paredes da igreja, as deste quarto aparecem forradas de

fotografias, algumas com “antes” e “depois”.

A fotografia em que se veem os senhores Cirino e Natalino dá uma visão

nítida da porta de entrada, onde se pode ler: “Deus abençoa quem entra” e

“Jesus encaminhe quem sae”. Em cima, no vidro semicircular da bandeira,

João de Camargo mandou escrever a ordem em que dava consultas, durante

a semana:

“Consulta desde terça, quarta, quinta e sexta das 7 horas até 1 hora e

meia”. Ao redor da igreja, João de Camargo, fez construir, com os recursos

conseguidos através das esmolas e dádivas dos romeiros, 18 casas, as quais

deu a gente pobre para morar (alguns parentes de cor e várias pessoas amigas ou conhecidas, que precisavam do seu auxílio), reservando-se ainda

alguns alojamentos para peregrinos pobres.

Na porta da igreja estavam afixados dois avisos, em letra comercial,

escritos, um com tinta vermelha e outro com tinta azul. Apenas o primeiro

era inteligível. Vejamo-lo:

“Quem fala aqui na Igreja é João de Camargo. Em nome do senhor bom

Jesus da verdade, não se venda mais azeite.

Nosso Senhor não faz negócio.

Está escrito com vermelho na porta para todos ler, entender e na Igreja

crer.

As ordens são estas, que sou obrigado cumprir.

São Salvador.

Cópia 29-1-42”.

 

Esse azeite era vendido por “ordem” do espírito de monsenhor João

Soares. Como alguns vendedores fizeram trapaça, João de Camargo proibiu

a sua venda.

A igreja está legalizada como “Associação Espírita CAPELA NOSSO

SENHOR DO BONFIM”, tendo como finalidade “praticar o espiritismo

sob o ponto de vista religioso, teórica e praticamente”. Isso em tese. De

fato, realizavam o culto segundo a forma descrita acima. Muita gente já diz

somente “Igreja Bom Jesus da Água Vermelha”.

Além dos retratos das pessoas, e de algumas cartas recebidas da Europa,

do Sul e do Norte do Brasil, e da Argentina, guardadas num quadro, João de

Camargo tinha pelas paredes retratos de pessoas gratas, como Getúlio

Vargas, João Pessoa, Afonso Pena, Pinheiro Machado, Carlos Gomes,

Monsenhor João Soares, Papa Pio X, Cardeal Arco-Verde, dele mesmo etc.;

possuía também imagens várias, como a do Papa Pio X, a de Sacco e

Vanzetti etc. Para enfeitar um pouco mais a igreja, internamente, colocava

entre os santos serviços para licores, aparelhos de chá, pratos para doces

etc., tudo misturado com os ditos santos, velas e lâmpadas elétricas. É preciso discernir: esses objetos não se destinavam ao culto, constituíam

simples enfeites.

Acredito que João de Camargo reuniu em sua igreja quase todos os santos

do agiológio cristão. Em alguns altares há imagens de 15 a 20 santos,

quando não mais. Algumas foram feitas por ele mesmo, quando no começo

de sua carreira, de barro (Padre Mestre, um velhote de barro, parecendo um

padre rezando missa e assim aparatado, com uma coroa de enfeite na cabeça

e um par de óculos sobre os olhos; N. S. Jesus dos Aflitos; N. S. das Dores).

Santos pretos tinha uma porção: São Bom Jesus dos Pretos, Santa Ifigênia,

São Elestão, N. S. Aparecida, São Benedito etc. Prediletos dos negros, São

Jorge e São Miguel também fazem parte do culto. De seu culto particular

era Santa Quitéria, que mandou desenhar a tinta preta, de escrever, na

parede de um quarto contíguo ao seu dormitório. Da sua cama João de

Camargo a via, vestida de vermelho, como a ornamentou, e “conversava

com ela”.

Uma das gravuras mostra o interior da nova igreja. Vê-se o altar-mor e

João de Camargo. A parte anterior foi pouco ou quase nada modificada.

Mas o lugar em que ele se encontra encostado, na fotografia, está bem

diferente, porque mandou construir um tapume grande de madeira; ao

recinto entre o tapume e o altar-mor, em que dava consulta por uma

pequena abertura, chamava de “trado”.

 

V – Os processos de cura e os poderes

 

sobrenaturais

João de Camargo tratava seu doentes com “água milagrosa” e com “óleo

santo”, nos quais mergulhava uma “guia”. Essa água, na época da

capelinha, ele tirava do poço, aberto ao lado da mesma. Depois mandou

abrir um poço dentro da igreja nova usando sua água durante algum tempo.

Por fim, mandou fazer um encanamento, para água do rio São José, o qual chegava aos fundos da igreja. Essa era a água milagrosa, utilizada com

finalidades curativas.

O óleo podia ser de qualquer procedência ou tipo, de oliva ou de algodão,

de acordo com os recursos do crente que o levava. Durante muito tempo

vendeu-se óleo na porta da igreja; como houve “explorações”, João de

Camargo acabou proibindo a venda.

Também fazia curas com raízes e, mesmo, ainda se conservavam na igreja

muitas raízes que não foram usadas; mas este não era o seu processo

predileto de cura. Mais que as raízes, usava ervas em muitas curas, por

meio de chás etc. Neste caso, geralmente combinava três qualidades de

ervas, ou mandava tomar chás, feitos de três ervas diferentes, cada uma

empregada isoladamente, durante uma semana.

As “guias”, a princípio, consistiam num retângulo de papel onde João de

Camargo escrevia “letras enigmáticas”, no dizer do novelista Antônio

Francisco Gaspar,145 que as viu nessa época. Depois passou dos

“papéizinhos” para os “cartõezinhos”; costumava numerar as “guias” ou

então apor nelas o nome do santo do dia. Este era o seu processo de cura

predileto, pois chegou a mandar fazer carimbos com o nome dos santos;

bastava-lhe carimbar o cartão e mergulhá-lo na “água milagrosa”, ou no

“óleo bento” (que ele próprio benzia). A ordem do culto dos santos, durante

a semana, era a seguinte:

 

Segunda-feira – Dia das Almas Benditas – (Não dava “guias”);

Terça-feira – Dia de São Miguel – Dava “guias”;

Quarta-feira – Dia de Nossa Senhora do Carmo – idem;

Quinta-feira – Dia do Santíssimo Sacramento – idem;

Sexta-feira – Dia do Sagrado Coração de Jesus – idem;

Sábado – Dia de N. S. das Dores – idem;

Domingo – Dia de Todos os Santos, não dava “guias”, nem consultas. Só

permitia visitas à Igreja.

O santo do dia era o patrono do trabalho e da cura, na última fase deste

desenvolvimento, levando o cartão, isto é, a “guia”, as suas propriedades

benéficas à água ou ao óleo, atuando, desse modo, diretamente sobre o

crente. Usualmente, o “óleo bento” escapava a essa ordem, porque a pessoa

já o trazia com o nome de São Roque, como o determinava João de

Camargo. O “tratamento” repousava essencialmente na crença dos fiéis e

dos romeiros. João de Camargo insistia nisto, afirmando aos seus fiéis que

era através da fé deles mesmos que ele poderia curar.

Pelos “remédios” indicados, João de Camargo nada cobrava, pois,

segundo seus lema: “na minha casa santa e misteriosa, o remédio é feito e

será dado de graça” segundo uma informação de Francisco Gaspar (“O

mistério da água vermelha”, p. 64).

Como indiquei acima, penso que essas “guias” são uma sobrevivência da

cultura africana dos malês, pois, conforme Arthur Ramos,146 os malês “não

se separavam de seus talismãs ou mandingas” os quais eram “fragmentos ou

versetos de Alcorães, escritos em caracteres árabes, num pedaço de papel,

pequenas tábuas, ou em outros objetos que eles guardavam como gris-gris”.

Na mesma página, pouco mais adiante, Arthur Ramos esclarece ainda mais

o referido comportamento pondo em evidência a função mágica dessas gris-

gris. Os musulmis, “nas suas feitiçarias costumavam escrever numa táboa

de madeira, lavando-a depois com água que infundia virtudes poderosas em

quem a bebesse”. Talvez fosse deste tipo as “letras enigmáticas” que

Francisco Gaspar assinalou.

João de Camargo também gostava de impressionar os crentes, mormente

os mais chegados, procurando revelar os poderes sobrenaturais de que

estaria dotado. Antônio Cirino relatou-me uma destas passagens, que ele

assistiu, mas de modo obscuro. Por isso gostaria de transcrever a descrição

feita por Genésio Machado,147 da “cerimônia de Cocais”, feita numa manhã

chuvosa no cemitério desta cidade: “João de Camargo prepara-se para a

solenidade mandando distender nos braços da cruz maior uma toalha comprida, que tinha escrito a pontos de linha vermelha 25 versos referentes

ao bem-aventurado Espírito Santo, trazendo a sua cabeça envolta em uma

toalha branca. Daí vai até a parede do lado direito da capelinha, e com mão

espalmada, três vezes dá três pancadas, espaçadas, formando um triângulo e

risca três vezes com lápis roxo, depois torna ao pé da cruz e já atuado dita-

me o seguinte”: (o resto é uma mensagem “recebida” por João de Camargo,

que nada tem de interessante).

A título de exemplificação, registrei algumas versões de curas, feitas por

João de Camargo, correntes no lugar:

1) “Havia uma preta limpa que trabalhava de lavadeira na casa de uma

família rica. Tinha gente que queria fazer mal para ela. Convidaram ela para

ir almoçar um dia na casa deles e ela foi. No dia seguinte, ela estava com

dores de garganta, mas assim mesmo foi trabalhar. Na hora do almoço,

estava que nem engulia um tico de água. Ela ficou uns dias assim doente.

Não havia remédio de doutor que a curasse. Então mandou alguém pedir a

João de Camargo que tivesse dó dela e desse um jeito naquilo. Ele mandou

um ‘guia’ e um pouco de ‘água milagrosa’, que a água passava. Mas ela

estava quase morrendo de fraqueza, por isso foi procurar ‘nhô’ João. Então

João de Camargo deu um copo de água, que ele tinha numa moringuinha,

para ela. Ela bebeu e daí a pouco cuspiu um osso com duas cabeças, que

estava entalado na garganta. Isso eu vi com meus próprios olhos e vi o filho

dela entregar o tal osso para João de Camargo” (contado por Antônio

Cirino).

2) De uma pessoa de Bauru, em visita à igreja, ouvi a seguinte: “Minha

mulher estava doente de erisipela e não havia cura com os médicos.

Corremos tudo: os de lá de S. Paulo, e quando já estava desanimado me

contaram que em Sorocaba tinha um homem que curava todas as doenças.

Tomei um automóvel e trouxe minha mulher para cá. Ele disse que nós

podíamos voltar para Bauru, que ele mandava o remédio. Que de três vezes

ela ficava boa. Ele mandou primeiro um chá, para ela tomar, com um ‘guia’; depois de uma semana, mandou outro. Na outra semana mandou

outro chá, com o seu ‘guia’. Ela já estava quase curada, quando chegou o

terceiro chá. Agora ela está completamente boa”. (A pessoa não me quis

contar que chá era; disse-me que era uma “porção de ervas”.)

Exemplo de cura através de “óleo bento” é o da menina cuja fotografia

tive oportunidade de examinar. Disseram-me que a mãe dela friccionou óleo

bento na parte inchada do rosto e que lhe deu “água milagrosa” para beber:

“pronto, em 3 meses estava boa”.

João de Camargo também era tido, pelos crentes, como um grande

médium, capaz de se entender com forças sobrenaturais e de saber tudo o

que acontece ou está por acontecer. Era tal a certeza e a convicção dos

crentes, a este respeito, que conforme me disseram várias pessoas nem

pensar mal dele elas podiam, pois ele logo sabia quem era e o que pensara

dele. Natalino disse-me que ele “recebia tudo do além, de Monsenhor João

Soares e de outros espíritos protetores”. A princípio ele “recebia” apenas da

alma de Alfredinho. Já na sua primeira pregação, porém, diz não saber

quem lhe “enviava” as “mensagens”, se a alma da criança, ou se o espírito

de Monsenhor João Soares. Somente Deus, na sua opinião, sabia quem era.

Nesta época ainda se ajoelhava diante da imagem de N. S. Bom Jesus do

Bonfim, segurando na fita escarlate que pendia de suas mãos, para

“receber”. Com o incremento da própria influência passou a receber as

“ordens” de espíritos mais “elevados”, como os santos. No auge de sua

importância e influência, já recebia em qualquer lugar, não precisando se

ajoelhar para “falar” com os santos. Poderia, e chegava, mesmo, a “recebê-

los” na sua cama. Mais tarde passa a “receber ordens” também do Espírito

Santo, e quase no fim, até de Deus. Este mesmo foi suplantado, pois, já no

fim e no apogeu de sua carreira, considerado “taumaturgo”, “missionário da

fé” etc., recebe as “ordens” da Igreja, uma entidade ampla e abstrata, que

segundo me parece, para ele e para os crentes iniciados, está acima do

próprio Deus. Foi, por assim dizer, uma totalização das entidades sobrenaturais. Talvez isto se explique pelo fato de se encontrarem na igreja

as imagens dos santos, do Espírito Santo, quadros das Almas e do próprio

Deus, passando o termo a designar, em uma síntese sui generis, o conjunto

de forças divinas, atribuídas aos santos e a Deus: a Igreja.

A “Igreja mandou”, costuma dizer ele aos discípulos, quando queria fazer

uma novidade ou fazer uma cura. Também por “ordem da igreja”, disse-me

o sr. Natalino, ele costumava ir a Santos. Lá aprendia “todos os segredos do

mundo e da Igreja”, mas, quando subia a serra, “tiravam tudo”, dizendo-lhe

um espírito: “sabias tudo e agora não sabes mais nada”. Mas ele “não sabia

só para contar aos outros”, concluiu Natalino.

Quando dava consultas entrava no Trado, para receber o Sírio de Deus. O

“trado” estava sob o altar-mor, de Jesus do Bonfim, e era todo fechado,

tendo só uma pequena abertura, à maneira da janela, por onde ele respondia.

Foi construído de madeira e está envernizado com uma tinta escura. É ao

seu lado esquerdo que está o “culto das pedras”. Designava o recinto desse

modo (Trado) porque lá “ele traduzia a palavra divina em palavra mortal”.

“Sírio era a palavra de Deus, que só ele escutava.” Havia duas entradas para

o “trado”: uma para quem viesse de seu quarto; outra, para quem estivesse

na sala contígua à principal. Lá havia tudo. “Papéis de pedido”, jogados

pelo chão, imagens, crucifixos, terços, retratos, santinhos, raízes, fitas,

objetos de enfeite, um pombo grande, feito de madeira, e um pequeno,

talvez simbolizando o Espírito Santo, aquele prateado e este pintado de

amarelo e verde, com uma fita branca amarrada ao pescoço etc.

Ao contrário dos espíritas, não dava “sessão de mesa”, disse-me Natalino.

Mas “ele conhecia todos os poderes espirituais e materiais, pois o seu lema

era que ‘Não digo sem que me digam’”. Pelo menos assim o entendiam os

seus seguidores. Também não ultrapassava os limites “da lei”, fazendo só o

que a “Igreja mandava” e “não dava ordem”, sem a ter recebido, pois

afirmava: “Deus ainda não me disse”.

Sobre os seus poderes de vidência e mediúnicos conheço descrições

interessantes:

1) “Uma vez cheguei na igreja de João de Camargo e vi as músicas da

banda se queimando. Eu fui correndo falar para ele, mas ele me disse: ‘foi

eu quem pôs fogo nas músicas. Me mandaram queimar, eu queimei’. E

então? Agora o que os músicos vão tocar? Ele me respondeu: ‘Isso eu não

sei. Mas se me mandaram queimar as músicas é porque me vão mandar

outras’. ‘Na verdade mandaram outras, porque todos os dobrados da banda

quem escrevia era ele’” (A. Cirino).

2) “Ele sabia tudo. A pessoa nem precisava de falar nada. Uma vez foi

uma preta, que veio de fora, procurar o João de Camargo. Assim que ele viu

a preta mandou que ela se sumisse dali. “O que você quer fazer aqui não

faz”, disse ele à preta. Ela foi saindo. Ele adivinhou que ela queria que ele

fizesse bruxedo para alguém, mas ele não fazia isso” (idem).

3) “Uma ocasião o meu cunhado esqueceu de prender um papagaio que

ele tinha, de estimação. O papagaio desapareceu. Ele ficou aflito e

procurou-o por todo o lado. Quando já estava desanimado, foi procurar o

João de Camargo. Contou o caso para ele. João de Camargo disse-lhe para

não ficar aflito, porque o papagaio estava numa árvore alta, no seu próprio

quintal. O meu cunhado voltou para casa, foi correndo no quintal, pegou

uma escada e subiu na árvore. O papagaio lá estava, entalado.” (De “uma

pessoa que não acredita” em João de Camargo). Casos assim são inúmeros,

correndo por toda a cidade, e constituem uma espécie de lendário, em torno

de sua figura e de suas atividades curativas e religiosas.

Procurei descobrir, para completar as informações, as músicas que ele

“recebia”. O maestro disse-me que elas não tinham letras e eram todos

dobrados. Eis os nomes de alguns destes dobrados: “Padre João Soares”,

“Santo Patrocínio”, “Nosso Novo Deputado”, “Amoroso Maracara”. Eram

tocados pela banda, quando saíam em procissão, ou nas festas, em

domingos e dias santos, perto da igreja. A banda chamou-se durante muito tempo “Banda Número Cinco”. Ultimamente chamava-se “Banda São

Luís”, vestindo os componentes um fardamento vistoso.

 

VI – O líder carismático e a sociedade

Como acentuei na introdução, o presente trabalho tem um caráter

sociográfico: seu objetivo exclusivo consiste em pôr ao alcance dos

especialistas e dos interessados as informações que consegui recolher a

respeito de João de Camargo e do culto por ele organizado. As descrições

mostram como suas atividades de curandeiro transformaram-se e

ampliaram-se, e como lentamente se modifica, através da criação e do

desenvolvimento do culto, a própria personalidade do chefe religioso negro.

João de Camargo tornou-se líder carismático, apoiando-se em numerosos

sectários e dirigindo pessoalmente o culto religioso dentro da igreja por ele

fundada. Além disso, ficou evidenciado o processo de formação do culto,

constituído de valores procedentes de religiões negras, do catolicismo e do

espiritismo. Contudo, há algumas ligações entre as atividades de João de

Camargo e o meio social em que ele vivia, que merecem ser indicados

explicitamente aqui. Não creio que tais indicações exorbitem o propósito

meramente documentativo que anima este ensaio. De acordo com os

materiais já expostos, acho que seria suficiente tratar de três problemas

básicos: 1) as sobrevivências africanas em Sorocaba; 2) a ação recíproca de

João de Camargo sobre o meio social e deste sobre ele; 3) evidências de um

“culto post mortem”.

Como se sabe, a população negra de Sorocaba chegou a ser bastante

elevada no passado, graças à importância daquela zona, como centro de

produção agrícola e de troca. Aluísio de Almeida extraiu de um livro da

Cúria Diocesana interessantes indicações a respeito: em 1840, em 3428

habitantes da vila, existiam 1181 escravos; e dos 8053 habitantes dos

bairros, 2010 eram escravos.148 Portanto, os negros escravos constituíam

34% da população da vila e 25% das populações dos bairros. De acordo com as informações, fornecidas no referido trabalho pelo mesmo autor, a

escravaria de alguns proprietários que tinham casa na vila era grande. Um

deles possuía 65 escravos, “quase todos moços de 30 anos, sendo 19

crianças”, e outro, 60 escravos. A escravaria de outras famílias

mencionadas era menor (39 escravos e dois agregados; 29 escravos; 17

escravos e um agregado).149 Esses escravos provinham do Congo, Angola,

Bengala e Moçambique (entre 1720 e 1820, pouco mais ou menos); depois

de 1820, até o término do tráfico, são indicados como “gentios da Costa de

Guiné”.150 Aliás, os pretos com que conversei, que trabalharam como

escravos, consideram-se Gentio da Guiné. Contudo, é difícil determinar

com precisão a origem das populações negras de Sorocaba, pois durante o

século XIX entraram muitos escravos na região, provenientes da Bahia e do

Rio de Janeiro. Os trabalhos de mineração atraíram, também, quando da

Guerra do Paraguai, escravos procedentes do Piauí, os quais pertenciam ao

Estado.

Atualmente, a proporção de cor na população de Sorocaba é diferente. Em

virtude das lacunas da documentação estatística oficial (fornecida pela

prefeitura ou obtida pelo censo estadual). Tentei aplicar uma técnica de

observação direta. Contei a frequência de uma igreja e do cinema, no

domingo, e fiz outras contagens em zonas centrais e em horas de maior

movimento (antes das oito e depois das 17 e 18 horas). O resultado médio

geral foi 14,7%, ou seja, aproximadamente 15% de pretos e pardos na

população da cidade.

Esses dados fornecem, é óbvio, uma boa pista para o sociólogo. O fato de

os negros de procedência banto terem constituído, no passado, uma porção

tão importante da população de Sorocaba é, em si mesmo, muito

significativo. Os indivíduos levam consigo, para onde se deslocam, os

valores sociais que estão incorporados à própria personalidade. Por isso, a

primeira hipótese sugerida ao especialista pelo confronto dos dados

históricos à situação atual consiste em admitir a possibilidade de preservação de “sobrevivências africanas”. Infelizmente, as condições em

que realizei a pesquisa não favoreceram – ao contrário, prejudicaram – a

exploração sistemática desta pista. Consegui, apenas, colher alguns dados a

respeito da macumba, das congadas e dos batuques em Sorocaba.151 A

presente discussão permite, no entanto, situar de modo conveniente os

dados expostos noutra parte deste artigo. A origem africana de certos traços

do culto religioso “criado” por João de Camargo é bastante provável. De

acordo com semelhante ponto de vista, ele não só incorporou tais

sobrevivências à sua “religião” como ainda se beneficiou do prestígio

conferido por elas. Em outras palavras, é bastante provável que João de

Camargo tenha encontrado no conhecimento de valores de origem africana

e na observância dos mesmos no culto religioso que desenvolveu, um ponto

de apoio inicial extraordinariamente forte, capaz de atrair por si mesmo um

número relativamente grande de seguidores. Esta hipótese não implica,

necessariamente, a exclusão da possibilidade de reconhecimento inicial dos

dotes e poderes carismáticos de João de Camargo, por parte dos seguidores;

apenas insinua que tal reconhecimento provavelmente foi menos claro e

decisivo no começo do que posteriormente, quando a personalidade do

antigo escravo já era aceita e se impunha como a de um líder religioso.

Percebe-se, aqui, como a personalidade de João de Camargo reflete o

meio social em que viveu e foi educado. Do ponto de vista técnico, porém,

esta proposição do problema tem pouco alcance. Estabelece, na verdade,

uma conexão entre a formação e o desenvolvimento da personalidade de

João de Camargo e as situações sociais por ele enfrentadas, típicas de uma

sociedade culturalmente heterogênea e em mudança. Mas conexões desta

espécie podem ser encontradas na vida de outros indivíduos de cor preta,

radicados em Sorocaba; elas são normais, no sentido de resultarem de

condições de existência social em uma sociedade estratificada e de passado

escravocrata. O problema específico diz respeito à sensibilidade às

solicitações do meio social, revelada por João de Camargo. É nisto que ele se distingue profundamente dos antigos companheiros e dos demais

indivíduos, que ocupavam na estrutura social de Sorocaba uma posição

idêntica ou paralela à sua, conservando-se porém mais ou menos “cegos” às

mesmas solicitações.

A interpretação esbarra, no entanto, com uma dificuldade intransponível.

Falta-nos dados, brutos ou explorados cientificamente, sobre o tipo

psicológico de João de Camargo. Contudo, os acontecimentos e sucessos

significativos em sua vida, relatados por seus biógrafos, esclarecem parte

do problema. É evidente a existência de uma ligação bastante estreita entre

os desajustamentos sociais e a revivência de valores mágicos e religiosos

tradicionais no comportamento de João de Camargo. Parece-me provável

que as situações críticas por ele enfrentadas encaminharam-no para a

experiência religiosa e mística, abrindo-lhe o caminho para a

autoconsciência dos próprios dotes sobrenaturais e para a sua qualidade de

“eleito” e de “predestinado”. Não é difícil, doutro lado, compreender o

sentido dos ajustamentos desenvolvidos através da experiência religiosa.

Esta aparece nitidamente como uma técnica de solução de desajustamentos

pessoais e de conflitos, com base e apoio na tradição. Por isso, aplicando-a

com sucesso, João de Camargo obteve uma autêntica reabilitação pessoal;

em outras palavras, conseguiu uma nova avaliação de sua pessoa e de sua

conduta, por meio da qual se modificaram as atitudes negativas existentes a

seu respeito.

A carreira de João de Camargo é um interessante exemplo, além disso,

das formas assumidas pela transformação da personalidade sob o influxo da

vida grupal. Depois que se alteraram os critérios de avaliação e de

reconhecimento sociais de suas aptidões e capacidades pessoais, João de

Camargo colocou-se sucessivamente em novas categorias de atuação social,

conforme foi visto acima, ampliando e transformando assim seja o próprio

círculo de relações sociais, seja a natureza mesma destas relações. À

medida que passava de uma categoria social para outra, modificavam-se também os quadros sociais dentro dos quais agia e pensava. Com o

incremento do prestígio e da influência pessoal, como líder carismático,

ampliava paralelamente o edifício da Igreja e passava a “receber” espíritos

mais “fortes” – transição do espírito de Alfredinho, para o de Monsenhor

João Soares, deste para os santos, para o Espírito Santo, depois para Deus e

finalmente para a Igreja. O processo psíquico liga-se pois intimamente às

alterações sofridas na forma de atuação social de João de Camargo,

refletindo tanto a elevação de status dentro da estrutura social de Sorocaba,

quanto a situação criada por atribuições especiais, definidas em termos de

dominação carismática.

Na relação indivíduo-sociedade, há outro aspecto que cumpre ser

analisado aqui. Tratam-se dos resultados sociais da atuação de João de

Camargo. Em primeiro lugar, os indivíduos que se dedicavam ao

curanderismo e à macumba viram-se apanhados em uma nova rede de

relações competitivas. João de Camargo iniciou um combate sem tréguas a

semelhantes competidores, procurando desacreditá-los aos olhos dos

crentes e seguidores, e estabelecendo uma distinção bastante nítida entre o

que ele próprio fazia e as atividades dos curandeiros e macumbeiros. Como

se sabe, a macumba desenvolvera-se seriamente em Sorocaba. O primeiro

“feitiço” registrado na história local ocorreu na fazenda de dona Gertrudes,

progenitora de Rafael Tobias de Aguiar, em 1841. A fazenda chamava-se

Passa Três, lugar que hoje se chama estação Brigadeiro Tobias, e os

protagonistas da “mandinga” foram dois pretos, escravos e africanos. Eis

como me relatou o fato o sr. Cônego Luís Castanho de Almeida, que

encontrou uma descrição do acontecimento nos Arquivos da Câmara

Municipal: “Dois escravos, os quais vieram de Moçambique e foram

batizados em Sorocaba, passando a chamar-se Calixto e Alexandre,

desavieram-se com o feitor da fazenda e por isso resolveram matá-lo. Os

dois cativos reuniram-se a outros e fizeram o ‘feitiço’ diante de uma

imagem de Cristo, a cujos pés puseram pinga e mandioca.

Entrementes, o feitor que estava na cidade festejando o Natal voltou e deu

com eles fazendo a coisa. Os dois escravos, então, avançaram sobre o feitor,

matando-o a golpes de enxada”. Posteriormente, o recurso à macumba não

só se conservou como tomou proporções aparentemente sérias. Segundo os

“falatórios” dos moradores da cidade, alguns curandeiros aproveitavam-se

frequentemente da credulidade dos clientes. Contaram-me, entre outros, o

caso de uma jovem de 14 anos, violada por um curandeiro que lhe deveria

“fechar o corpo” com azeite. Parece que a proliferação de curandeiros e

macumbeiros foi responsável pela severa campanha de repressão ao

curanderismo e à macumba, organizada pela polícia de Sorocaba. Em todo

caso, é evidente que João de Camargo desempenhou uma função muito

mais relevante neste sentido. Praticamente, o exercício de curas

sobrenaturais foi monopolizado por ele; doutro lado, combatia a

“macumba” abertamente, impedindo que os seus crentes e seguidores se

utilizassem dos processos da “magia negra” e da “macumba”. Soube que

expulsava facilmente os frequentadores de sua igreja: era suficiente que

desconfiasse dos intuitos da pessoa em questão. O seu secretário afirmou

que João de Camargo era inimigo irreconciliável dos “feiticeiros”, “gente

ruim, que só quer o mal dos outros”. Propagando diretamente as suas ideias,

conseguia criar nos crentes e seguidores atitudes semelhantes.

Além disso, pregava contra o alcoolismo, o roubo etc., exercendo certo

controle no comportamento dos fiéis. Ele próprio citava-se como exemplo

dos males do alcoolismo e da possibilidade de supressão do vício. No

âmbito ecológico, são notáveis as consequências da construção da capela (e

depois da igreja) e da criação do culto. Os informantes me asseveram que

ele deu vida ao bairro da Água Vermelha. Este bairro situa-se a dois

quilômetros da cidade e conheceu de fato uma época de floração de

construções, devido à Igreja de João de Camargo. Ainda agora se vê um

bom número de casas, construídas nas imediações da igreja por sua

iniciativa. Apareceram pensões destinadas aos crentes, “por ordem de João de Camargo”, bem como restaurantes. Mandou abrir uma escola, ABC,

subvencionada por ele próprio, para as crianças do lugar. E fazia outras

obras humanitárias, pois dispunha de muito recursos. Informações

absolutamente fidedignas revelam que recebia diariamente de 300 a 400

consulentes, de Sorocaba e arredores ou ainda de outras regiões do Estado

de São Paulo e do Brasil, e uma média de 50 a 100 cartas. Por isso, podia

mandar recolher, nas pensões das redondezas ou da cidade, os peregrinos

paupérrimos, e dar habitação, roupa e comida a vários pobres. Nesta

categoria de beneficiados, quase todos pretos, entravam os seus parentes;

subvencionava também o estudo de algumas pessoas na Escola Normal de

Sorocaba, no Ginásio etc. Alguns destes protegidos eram pretos, sendo

alguns deles seus afilhados. Informaram-me que o número de pretos do

lugar aumentou: chegavam da cidade ou de municípios circunvizinhos,

atraídos pela fama e pelo prestígio de João de Camargo. Por isso, quando

realizava festas ou procissões, contava com um bom número de seguidores

em disponibilidade.

Parece que as ligações do “povo” com João de Camargo não acabou com

sua morte. No dia do seu enterro, dizem os moradores do lugar, havia umas

quatro mil pessoas acompanhando o féretro. Foi, no entender destes

informantes, “o enterro mais acompanhado em Sorocaba”.

É corrente entre os crentes que se pode alcançar “graças”, rezando diante

do seu túmulo. Dizem, mesmo, que muitos já têm obtido verdadeiros

milagres, por esse meio. Constatei apenas a existência de romarias ao seu

túmulo. Vi muita gente em volta dele, no cemitério; e verifiquei que o

número de velas acesas também é grande, pois havia uma verdadeira pasta

de cera, no chão. Todavia, não se restringe ao túmulo a crença de que João

de Camargo continua a curar, a “fazer milagres”, mesmo depois de morto.

Prova é o seguinte “caso”, que uma pessoa (Natalino) me contou: “Havia

uma moça na cidade que tinha perseguições espirituais, por espíritos

pesados. Um dia acordou e surpreendeu-se fazendo o pelo sinal. Então apareceu ‘nhô’ João que disse que ela se livraria da perseguição, se

continuasse a fazer sua fé religiosa. A moça não o conhecia e veio me pedir

uma descrição dele e disse que era a mesma aparição que ela teve,

acordada, quase ao amanhecer. Ela continuou a fazer a sua fé, acendeu

algumas velas a João de Camargo, pouco depois estava completamente

curada”.

 

137 Publicações prévias: Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, vol. CXXXVIII, 1951 (com ilustrações); F. Fernandes, Mudanças sociais no Brasil, São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1960, p. 360-381.

138 Os dados recolhidos foram parcialmente aproveitados por Roger Bastide, que estuda em seu trabalho, além das atividades de João de Camargo, a de outros, que se dedicaram também ao curamento e ao “profetismo religioso” (cf. Roger Bastide, A macumba paulista, Sociologia, no 1, Boletim LIX, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1950, p. 51-112; sobre João de Camargo, p. 91-94 e 105).

139 Da “Vida do servo João de Camargo, humilde missionário da fé”, em verso, de autoria de José Barbosa Prado, Sorocaba, 1941, p. 27.

140 Antônio Francisco Gaspar, “O mistério da água vermelha”, novela, Sorocaba, 1925, apud, p. 39.

141 Apud Francisco Gaspar, op. cit., p. 39.

142 Arthur Ramos, O negro brasileiro, 2. ed., São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1940, p. 45.

143 Luciano Gallet, O negro na música brasileira, p. 58; apud Arthur Ramos, op. cit., p. 101.

144 Arthur Ramos, op. cit., p. 74.

145 Op. cit., p. 39.

146 Op. cit., p. 83.

147 João de Camargo e seus milagres, São Paulo, 1928, p. 88-89.

148 Cf. Aluísio de Almeida, Sorocaba, 1842. Documentação Social, São Paulo, Tip. Cupolo, 1938, p. 59.

149 Cf. Aluísio de Almeida, op. cit., p. 60-63.

150 Dados fornecidos pelo sr. Cônego Luís Castanho de Almeida, historiador e folclorista de Sorocaba, muito conhecido por seus excelentes ensaios, sob o pseudônimo de Aluísio de Almeida. Os dados foram conseguidos através de uma pesquisa nos Arquivos da Cúria Diocesana, gentilmente feita a meu pedido pelo ilustre historiador.

151 Os dados sobre a macumba em Sorocaba serão indicados adiante; quanto às congadas e ao batuque, cf. o meu artigo “Congadas e batuques em Sorocaba”, Sociologia, vol. V, nº 3, 1943, p. 242-254.

 

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