O Negro no Mundo dos Brancos
Imigração e Relações Raciais
Capítulo V
Imigração e Relações Raciais52
Os estudiosos estão acostumados com um duplo contraste. A escravidão
é geralmente apontada como um obstáculo à imigração; e esta é geralmente
representada como um fator de expansão do trabalho livre e do capitalismo.
Por isso, é bem conhecida e tem sido muito enfatizada sua relação com a
crise do sistema de produção escravista que ela precipitou.
Neste trabalho, o autor não pretende cogitar desses problemas. Tomando a
cidade de São Paulo como fonte de suas indagações empíricas, apenas quer
responder a certas perguntas, que tomam por objeto o passado recente e o
presente. O que representou a imigração, entendida sociologicamente como
fator estrutural e dinâmico, para a perpetuação ou a alteração das
acomodações raciais? Doutro lado, ela contribuiu ou não, assim entendida,
para alterar os padrões de relações raciais propriamente ditos?
Portanto, o plano a ser seguido na exposição é simples e direto. Ele gira
em torno de três questões básicas, decorrentes daquelas perguntas: 1) como
a imigração interferiu nas formas preexistentes de acomodação do negro e
do mulato à estrutura econômica da comunidade; 2) como o negro e o
mulato reagiram à presença e às influências perceptíveis dos imigrantes ou
de seus descendentes das primeiras gerações; 3) o que a imigração
representou para a persistência ou a alteração do sistema de relações raciais.
Em nenhum ponto as conclusões puderam ser aprofundadas, desenvolvidas
ou fundamentadas empiricamente. No entanto, elas demonstram algo de
relativo interesse teórico e prático. A imigração se adaptou às
inconsistências do sistema brasileiro de relações raciais. Por conseguinte,
não concorreu sequer para eliminar ou modificar os elementos arcaicos ou
arcaizantes que impedem a inclusão dessas relações nos processos socioeconômicos e culturais que estão produzindo a modernização da
comunidade. Se ela possui algum significado maior a esse respeito, isso se
deve ao fato de ter contribuído poderosamente para criar um fundo no qual
a livre competição e a democracia tendem a se converter em valores sociais.
Este aspecto, porém, é demasiado amplo e ao mesmo tempo demasiado
evidente para ser submetido proveitosamente à discussão.
O desalojamento das populações negras
A aceleração da imigração constitui, no início, uma função da
desagregação do regime servil. Assim quando se evidencia que o trabalho
escravo devia ser substituído pelo trabalho livre, o volume da imigração
sofre uma alta brusca considerável. O montante de imigrantes entrados em
São Paulo nos últimos cinco anos do século XIX equivale a mais de quatro
vezes e meia o total de imigrantes entrados ente 1827 e 1884! Em seguida,
essa aceleração atinge o seu ponto culminante na história da imigração em
São Paulo como função dos requisitos humanos da reorganização do
sistema de trabalho. Por causa das exigências de mão de obra da lavoura, os
efeitos de tal reorganização se fizeram sentir agudamente nos anos
subsequentes à Abolição (de 1889 a 1899). Mas todo o período que vai do
último quinquênio do século XIX até 1930, aproximadamente, constitui um
período de substituição rápida dos padrões de organização das atividades
econômicas ou de introdução, consolidação e expansão da economia
baseada no trabalho livre. Os seguintes dados indicam as tendências desse
movimento imigratório:53
Os estudos demográficos feitos por Samuel Lowrie mostram que não
houve, strictu sensu, substituição populacional de nativos por imigrantes.
Não obstante, principalmente no que concerne à cidade de São Paulo (e não
ao Estado de São Paulo, em geral), a urbanização também significou, de
modo extenso e profundo, europeização. E parece fora de dúvidas que, com
relação aos segmentos negro e mulato da população urbana, ocorreu de fato
substituição populacional propriamente dita. As aparências do fenômeno
foram disfarçadas pela intensa mobilidade da “população de cor” e pelos
acréscimos resultantes do excesso de entradas sobre as saídas, os quais
caracterizam as migrações internas do negro e do mulato nesse período.54
Para os fins da presente análise é suficiente pôr em relevo os processos
histórico-sociais de significação estrutural. Dessa perspectiva, seria preciso
distinguir três grandes tendências globais que revelam que o impacto da
imigração sobre os segmentos negro e mulato da população paulistana varia
com o período histórico que se considere.
Há, em primeiro lugar, a longa fase (aproximadamente de 1827 a 1885),
em que a imigração foi sufocada pelas contingências socioeconômicas do
regime servil. Nessa fase, o imigrante não ameaça os padrões de
acomodação racial decorrentes da escravidão. Como sugere com razão
Couty,55 o trabalho escravo eliminava, economicamente, o trabalho livre.
Enquanto possuísse o escravo, o senhor tinha o maior empenho em explorá-
lo tão intensa e extensamente quanto lhe fosse possível. Todavia, a presença do imigrante não foi totalmente neutra. Em todo o Brasil, o
desenvolvimento econômico da agricultura, sob o regime servil, provocava
e condicionava a formação de núcleos urbanos e, dentro destes,
determinava certa diferenciação do sistema ocupacional. São Paulo não
constituiu exceção a essa tendência. Mas atravessou-a sob condições
histórico-sociais peculiares. Enquanto cidades como o Recife, São Salvador
e mesmo Rio de Janeiro ofereceram oportunidades de reabsorção do ex-
agente de trabalho escravo como liberto, em pleno regime da escravidão,
nos diferentes setores dos serviços urbanos, das ocupações artesanais ou do
pequeno comércio, em São Paulo se estabeleceu precocemente a tendência
a canalizar tais oportunidades na direção dos imigrantes.
Por conseguinte, embora a população da cidade abrigasse grande número
de libertos,56 estes não lograram aproveitar as oportunidades de trabalho
livre inerentes à ordem social escravocrata e senhorial de maneira
vantajosa. Ao contrário, como mostram os anuários e as estatísticas, os
imigrantes concentrados na cidade absorveram as oportunidades
ocupacionais de maior interesse econômico. Em consequência, o número de
libertos que lograram conquistar um nicho vantajoso na estrutura
socioeconômica da cidade foi relativamente pequeno,57 em contraste com o
que sucedeu em outras cidades brasileiras, nas quais os “mestiços”
chegaram a ser considerados, por isso, os elementos demográfica e
economicamente mais importantes para o futuro do Brasil. Portanto, antes
do colapso do regime servil, o negro e o mulato sofreram de maneira bem
definida os efeitos negativos da concorrência com os imigrantes. Perderam
as únicas vias acessíveis de classificação estável e garantida no conjunto de
ocupações livres vinculado à estrutura e ao funcionamento da economia
escravista. Esse fato teve uma significação dinâmica específica, pois a ele
se prende o caráter implacavelmente devastador que a imigração iria
assumir para os diferentes estratos da “população de cor”.
Em segundo lugar, deve-se considerar a fase de consolidação e de rápida
expansão da ordem social competitiva, que vai, aproximadamente, de 1885
a 1930. Nesse período, embora sem operar como um fator direto, exclusivo
ou dominante, a imigração adquire o significado e as proporções de uma
calamidade social para o negro e o mulato. A escravidão não prepara o seu
agente de trabalho senão para os papéis socioeconômicos do escravo e do
liberto no seio da ordem social escravocrata. Quando esta entra em crise e
se desintegra, com ela também desaparecem as únicas condições
econômicas e socioculturais que protegiam e garantiam os ajustamentos
socioeconômicos do “negro” ao sistema de trabalho. De repente, e sem estar
preparado para os papéis socioeconômicos do homem livre, o “negro” viu-
se numa cidade que se torna, rapidamente, a principal cidadela da revolução
burguesa no Brasil. Em consequência, sua falta de aptidão para o trabalho
livre, a competição inter-racial e o estilo urbano de vida é agravada pela
presença de massas de estrangeiros, ávidos por absorverem as
oportunidades econômicas existentes (ou em emergência) e totalmente
preferidos no mercado de trabalho. Acresce que o próprio “negro” tinha de
aprender a agir socialmente como trabalhador livre e a lidar com o mundo
da economia urbana sem ter tempo para isso. As coisas caminharam
depressa demais. De modo que o desajustamento do “negro”, que poderia
ser um fenômeno transitório, converteu-se em desajustamento estrutural.
Em vez de ser reabsorvido pelo sistema de trabalho urbano e pela ordem
social competitiva, ele foi repelido para as esferas marginais desse sistema,
nas quais se concentravam as ocupações irregulares e degradadas, tanto
econômica quanto socialmente.
Dentro de tal contexto, pois, o termo “desalojamento das populações
negras” não significa que o imigrante tenha absorvido ocupações ou
posições econômicas antes pertencentes ao “elemento negro”. Semelhante
afirmação não possuiria significação histórica precisa, já que no período de
transição se alteraram os padrões de relações de trabalho e os padrões de organização do sistema de produção. “Desalojamento”, no caso, quer dizer
pura e simplesmente que, no decorrer das transformações ocorridas, o
“elemento negro” perdeu a situação de mão de obra privilegiada (ou
inevitável) em diversos tipos de trabalho manual e artesanal ou de
atividades econômicas (em regra, associadas com os serviços urbanos e
com o pequeno comércio). Tal situação, como consequência fundamental da
Abolição, transferiu-se para o “branco”, o que queria dizer, naquele
contexto, sensivelmente para o “branco estrangeiro”. Alguns dados são
suficientes para indicar a natureza e o sentido do referido processo. Em
1893, por exemplo, os imigrantes entravam com 79% do pessoal ocupado
nas atividades manufatureiras; com 85,5% do pessoal ocupado nas
atividades artesanais; com 81% do pessoal ocupado nas atividades de
transporte e conexas; com 71,6% do pessoal ocupado nas atividades
comerciais. Sua participação nos estratos mais altos da estrutura
ocupacional ainda era pequena (pois só 31% dos proprietários e 19,4% dos
capitalistas eram estrangeiros). Contudo, achavam-se incluídos nessa
esfera, ao contrário do que sucedia com o negro e o mulato. Mesmo na área
dos serviços menos compensadores, eles compareciam com cotas altas
(eram estrangeiros 58,3% do pessoal ocupado nos serviços domésticos; e
32% do pessoal ocupado nos serviços agrícolas). Em conjunto, 71,2% do
pessoal absorvido na estrutura ocupacional da cidade eram estrangeiros.58
Embora a concorrência do imigrante afetasse toda a população nativa,
somente os negros e os mulatos sofreram o impacto como uma espécie de
cataclisma social. Eliminados do mercado de trabalho ou expulsos para a
sua periferia, os “homens de cor” viam-se condenados ao desemprego
sistemático, ao trabalho ocasional ou à retribuição degradada, tendo de se
acomodar a um estilo de vida que associava, inexoravelmente, a miséria à
desorganização social.59
Em terceiro lugar, deve-se considerar a fase que se consolida depois de
1935, em que as migrações internas adquirem maior importância como fonte de mão de obra. Nessa fase, a aceleração do crescimento econômico
deu origem a novas oportunidades ocupacionais, largamente aproveitadas
por elementos nativos. A conquista de uma ocupação permanente e, de
modo correlato, de uma fonte estável de ganho (ou de renda) deixou de ser
algo tão problemático para o negro e o mulato. Inaugura-se, então, uma
tendência mais definida no sentido da absorção da “população de cor” pelo
sistema de ocupações instituído pela universalização do trabalho livre.
Todavia, as oportunidades concentram-se na esfera dos serviços menos
valorizados e menos compensadores numa economia urbana. Ainda assim,
com mais de cinquenta anos de atraso, o negro e o mulato transpassam o
umbral da nova era, começando a participar normalmente das garantias
econômicas asseguradas pela ordem social competitiva. Os resultados de
um levantamento, feito em 1951, indicam como se manifesta essa tendência
(na amostra considerada): no artesanato, 29,39%; nos serviços domésticos,
20,76%; no funcionalismo público, 9,18%; na indústria (como operários
qualificados ou semiqualificados), 8,13%; nos serviços de escritório,
7,08%; no comércio (como balconistas, pracistas etc.), 4,46%; em serviços
oscilantes ou ocasionais, 3,93%; em atividades de horticultura e
jardinagem, 2,33%; em outras ocupações, 14,69%.60 Isso evidencia que
mesmo a proletarização, no seio da “população de cor”, vem a ser
fenômeno incipiente. Aliás, os dados do censo de 1940 indicam algo
análogo (embora indiretamente), pois para 15 261 empregadores “brancos”
(97,04%) existiam 123 empregadores “pretos” ou “pardos” (0,78%). Para
ser equiparável às proporções demográficas assinaláveis pelo mesmo censo,
este número deveria ser 13,5 vezes maior! Não obstante, proletarização
incipiente e emergência de “famílias negras de classe média” traduzem uma
realidade nova, que assinala a cessação dos efeitos inibidores da imigração
sobre os processos de absorção ocupacional e de classificação social sobre o
negro e o mulato.
Esse rápido escorço suscita duas ponderações. Primeiro, é inegável que a
imigração constituía uma força revolucionária de alto teor construtivo. Se
ela produziu efeitos negativos ou mesmo destrutivos para as populações
negras, isso se deve às peculiaridades que cercam a destituição do cativo e a
formação da ordem social competitiva. Segundo, as condições de formação,
consolidação e desenvolvimento da ordem social competitiva não
favoreceram a rápida neutralização do impacto negativo ou destrutivo da
imigração sobre os ajustamentos socioeconômicos das populações negras.
Ao contrário, elas engendraram um contexto econômico, sociocultural e
político que prolongou a duração e ampliou a intensidade do referido
impacto. Essas conclusões comprovam, mais uma vez, que as influências
sociodinâmicas da imigração dependem, estrutural e funcionalmente, da
organização do meio social. Não é a imigração, em si mesma, que produz
esta ou aquela consequência, mas o modo pelo qual é convertida em fator
histórico-social que determina a natureza, a variedade e o grau de
persistência dos seus efeitos diretos ou indiretos.
A reação do negro e do mulato
A reação do negro e do mulato à presença do imigrante varia ao longo do
tempo. Movidos por disposições de integração social e com frequência
postos à margem das relações de competição, mais ou menos confinadas ao
mundo dos brancos, o negro e o mulato tendem a dar vazão aos seus
ressentimentos a partir das frustrações sofridas nas duas esferas. Por isso, o
caráter das reações variam historicamente, em virtude do modo pelo qual as
possibilidades de integração social e de competição inter-racial se
configuraram socialmente. Grosso modo, é possível distinguir-se quatro
polarizações reativas características.
No período escravista, a presença do imigrante introduziu um elemento
perturbador no horizonte cultural do escravo e, de maneira geral, nas
autoavaliações do “negro”. Tanto para o senhor quanto para o escravo ou o liberto, o imigrante se define, inicialmente, como equivalente humano do
trabalhador servil. O imigrante repudiou essa classificação, favorecido por
duas pressões concomitantes: 1) a crise progressiva do mercado de trabalho;
2) a impulsão para a implantação e a universalização do trabalho livre.
Doutro lado, suas tradições culturais e aspirações sociais amparavam-no
contra o autoritarismo ou mandonismo dos senhores. Estes se viram
compelidos a rever suas atitudes e comportamentos, pois os imigrantes
cingiam-se às obrigações contratuais e exigiam o seu cumprimento, com
apoio na ação dos consulados. Em consequência, antes da desagregação
completa da ordem social escravocrata e senhorial, o imigrante desfrutava
de posições e de papéis econômicos, sociais e legais típicos de uma
estrutura competitiva. Isso representava salário no nível do trabalho
livremente contratado, respeito humano mínimo e garantias sociais de
autonomia da pessoa do trabalhador ou dos membros de seu grupo
doméstico. O escravo, por ser privado quase totalmente dessas vantagens ou
por gozá-las de forma atenuada, e o liberto, por ser atingido pela
degradação social e econômica dos trabalhos de negro, reagiam a essa
situação de maneira tosca, mas violenta. A seguinte frase, colocada pelo
comentarista na boca de um escravo, dá uma ideia da natureza e do sentido
do inconformismo em questão: “Senhor é bom, não nos maltrata, mas
senhor que ficou rico e feliz, dá terra ao estrangeiro, paga-lhe o serviço e
deixa-nos como dantes”.61 Tratava-se de um inconformismo, porém, que
não lançava o escravo contra o imigrante. Ele passava a repudiar a condição
que o tornava vítima da espoliação escravista e pretendia exigir tratamento
análogo ao dispensado ao “estrangeiro”. Eis como dois comentários da
época focalizam tal tendência: “O escravo, por força das circunstâncias,
compara-se com o trabalhador livre; mede a distância profunda que o afasta
dele; compreende, então, a humildade de sua posição, sem que lhe sorria ao
longe a esperança de melhores dias; e dessa sua situação desanimadora
nascem todos os desatinos de que é capaz uma organização grosseira, todas as reações de que pode lançar mão um homem que se sente vilipendiado por
uma sorte inflexível. Isto significa claramente que, ao pé do trabalhador
livre e remunerado, ao pé do imigrante, é impossível o trabalho gratuito, o
trabalho escravo, feito para gozo exclusivo dos proprietários; que a
imigração, como instituição social, repele irresistivelmente a instituição
servil; que aquele grande fator do nosso progresso torna impossível o
escravo”.62 [Os escravos] “fogem e abandonam os estabelecimentos
agrícolas, porque seu espírito, que também acompanha a evolução, já não
compreende trabalho sem remuneração; porque sabe que o colono, que não
tem mais força muscular nem mais aptidão que ele para o serviço da
lavoura, forma pecúlio, tem gozos e vive muito melhor (...) A raça negra é
capaz de todos os sentimentos nobres, como as raças civilizadas”.63
No período que vai da Abolição (1888) ao fim da Primeira República
(revolução de 1930), o “negro” enfrentou em São Paulo as piores
vicissitudes que se poderiam imaginar.64 Nesse período, devem-se ressaltar
duas coisas. De um lado, a propensão do negro para lidar com a liberdade
de forma que envolvia extrema irracionalidade. Representando-se como
“dono de seu nariz”, pôs em prática ajustamentos que colidiam com a
natureza do trabalho livre, da relação contratual e com as bases
competitivas da nova estrutura social. Daí resultou um desajustamento
estrutural profundo, que concorreu severamente para eliminá-lo do mercado
de trabalho, mesmo na área dos “trabalhos de negro”. De outro lado, a
intensificação das tendências de concentração racial da renda, do prestígio
social e do poder. O abolicionismo faz parte de uma revolução social
tipicamente do branco e para o branco. Em consequência, a ordem social
competitiva não concretizou, de imediato, nenhuma das esperanças de
correção das iniquidades raciais do antigo regime. Agrava-as, inicialmente,
de forma extrema e por vezes chocante. Ao contrário do “negro”, o
imigrante estava inserido no seio desse processo, pelo qual se deu a
revolução burguesa em São Paulo.65 Por isso, ele adquiriu, rapidamente, uma situação de classe e conseguiu usá-la como meio adaptativo de
competição e de mobilidade social. O “negro” viu-se comprimido entre
essas duas pressões contraditórias. Uma eliminava-o pelo menos do núcleo
do sistema de trabalho e da classificação no seio da ordem social
competitiva; outra marcava nitidamente esse efeito, tornando-o ostensivo e
fragoroso pelo aparente êxito fulgurante de um “igual” (pois as
semelhanças externas e imperfeitas do ponto de partida animavam essa
representação no meio negro). Como não possuía mecanismos para
absorver psicológica e socialmente as frustrações resultantes, o “negro”
exprimiu seu ressentimento de maneira amarga e destrutiva. Então,
surgiram e difundiram-se (no aludido meio negro) certas representações
ambivalentes, cultivadas em alguns de seus estratos sociais até hoje. O
imigrante era visto como o companheiro, que “comeu o pão que o diabo
amassou” com o negro, sofrendo com ele os infortúnios da miséria. Mas, ao
mesmo tempo, era desse “tipo de gente orgulhosa”, que se esquece dos
amigos e os abandona à própria sorte quando “sobe”. Em particular, os
imigrantes seriam responsáveis pela “política de rejeição da prata da casa”,
pois só apoiariam e protegeriam “outros estrangeiros como eles”. Em
conexão com tais avaliações, de caráter universal, apareceu uma forte
tendência a imputar a existência do “preconceito de cor” ao estrangeiro, que
o teria introduzido no país.66 Contudo, tais representações não chegaram a
se converter em fator de hostilidade sistemática. Em virtude das condições
anômicas de vida social e de sua reduzida envergadura competitiva, o negro
e o mulato raramente se viam em situações de confronto efetivo ou
irremediável com os imigrantes e seus descendentes. Portanto, essas reações
faziam parte do folclore do negro. Mas, sociologicamente, não passavam de
artifícios para resguardar a integridade ou o equilíbrio do ego. Em qualquer
circunstância, forneciam explicações plausíveis e impessoais para os
“êxitos” de uns e os “fracassos” de outros. Somente isso, não se
relacionando visivelmente com tensões ou conflitos abertos. Esse dado é relevante, porque patenteia algo essencial. Mesmo onde e no nível em que a
reação ao imigrante atingiu maior intensidade negativa, ela não conduziu a
defini-lo, socialmente, como inimigo e não acarretou a necessidade de tratá-
lo como e enquanto tal.
No período que se inicia com a crise estrutural da Primeira República, o
negro e o mulato também se projetaram de modo irregular e tímido, mas
confluente nas tendências de reconstrução social que abalavam a sociedade
brasileira. Esforçaram-se mesmo por tomar posição diante dessas
tendências em termos raciais, através de seus movimentos sociais de maior
vulto, de 1927 a 1948, aproximadamente. Foram levados, assim, a
equacionar historicamente os objetivos e as aspirações sociais da “gente
negra” na luta consciente e organizada contra fatores e efeitos da
concentração racial da renda, do prestígio social e do poder. Como
estabelecia o Manifesto à gente negra brasileira, “O PROBLEMA NEGRO
BRASILEIRO É O DA INTEGRALIZAÇÃO ABSOLUTA, COMPLETA,
DO NEGRO, EM TODA A VIDA BRASILEIRA (POLÍTICA, SOCIAL,
RELIGIOSA, ECONÔMICA, OPERÁRIA, MILITAR, DIPLOMÁTICA
etc.); O NEGRO BRASILEIRO DEVE TER TODA FORMAÇÃO E
TODA ACEITAÇÃO, EM TUDO E EM TODA PARTE, DADAS AS
CONDIÇÕES COMPETENTES (que devem ser favorecidas) FÍSICAS,
TÉCNICAS, INTELECTUAIS, MORAIS, EXIGIDAS PARA A
‘IGUALDADE PERANTE A LEI’”. “O Brasil precisa absolutamente
cessar de ter vergonha da sua raça aqui dentro e lá fora, na vida
internacional” (...) “Por isso, repetimos, nós devemos lutar por uma
Associação Negra, porém – atenda-se bem! – radicalmente brasileira e
afirmadora da Tradição, e a qual se estenda para onde quer que exista o
problema”.67 Dentro do contexto emocional e lógico de semelhante visão da
realidade, o “negro” atacou, diretamente, os fatores da desigualdade racial e
os efeitos dela que concorriam para perpetuá-la indefinidamente. Seu
inconformismo assume, por isso, uma forma socialmente construtiva, levando-o a explicar-se por que a “igualdade perante a lei” não produzia
consequências práticas e a desmascarar, com penetração e objetividade, o
mito da inexistência do preconceito de cor no Brasil. Nessa situação, o
negro e o mulato não se voltaram contra o imigrante. Este era diluído na
estrutura do sistema que produzia a concentração racial da renda, do
prestígio social e do poder. Embora se mantivessem as noções de que o
imigrante propendia a preterir “a prata da casa”, favorecendo seus
conterrâneos e preservando comportamentos preconceituosos ou
discriminativos, os movimentos sociais introduziram uma avaliação
inesperada e revolucionária do “êxito dos imigrantes”. Os líderes desses
movimentos tiveram, por uma razão ou por outra, experiências mais ou
menos profundas com famílias estrangeiras, especialmente as italianas.68
Em consequência, podiam avaliar melhor as razões do “êxito dos
imigrantes” e, ao mesmo tempo, exercer influência no sentido de incentivar
o “negro” a desenvolver formas construtivas de imitação. Foi nesse
contexto que surgiram as preocupações no sentido de valorizar a família
integrada, a cooperação doméstica, a poupança sistemática, a aquisição da
casa própria, a proscrição da irresponsabilidade sexual do homem, o “culto
da mãe negra” etc. Tomando o imigrante como ponto de referência, o
“negro” descobriu que lhe faltavam as técnicas sociais que poderiam
permitir sua integração na sociedade e assegurar as bases da competição
inter-racial. Portanto, o estrangeiro reponta, aqui, sob dupla condição: a) de
branco, pura e simplesmente, que devia ser percebido e representado como
qualquer outro branco (inclusive o de origem nacional); b) como fonte de
emulação (como o imigrante enfrentara dificuldades análogas às do
“negro”, este poderia repetir as façanhas daquele). Os ataques explícitos
surgem polarizados em torno dos interesses sociais do próprio “negro”.
Com frequência, vinculavam-se às acusações feitas às famílias tradicionais,
que teriam “sacrificado o negro” a uma “política de imigração” construída
para proporcionar vantagens econômicas. Mas também se prendiam a casos concretos de exteriorização do “preconceito de cor” pelos imigrantes.
Então, eram combatidos, em escala direta e particular, em razão da natureza
das ocorrências que suscitavam os conflitos ou desentendimentos.
Por fim, no período que se poderia designar como o da “segunda
revolução industrial” em São Paulo, especialmente da década de 1940 em
diante, o ritmo do crescimento econômico se refletiu nas oportunidades de
trabalho e nas tendências de classificação do “negro” na estrutura
socioeconômica da comunidade.69 O “negro” como que repete, embora em
condições competitivas mais duras e menos promissoras, o passado do
imigrante. Ele se projeta nos segmentos da população que fazem parte da
torrente e são agentes do drama histórico. Todavia isso não se dá nem de
forma homogênea nem muito intensamente. Apenas uns poucos logram
varar os níveis da concentração racial da renda, do prestígio social e do
poder, atingindo posições socialmente equivalentes às dos brancos que se
classificam na ordem social competitiva. No entanto, são uns poucos que
aumentam continuamente. O que significa que se trata de uma tendência
configurada e constante, da qual se pode presumir que, mantidas certas
condições histórico-sociais e econômicas, irá favorecer definidamente a
integração progressiva do negro e do mulato a situações de classes típicas.
O que interessa, nesse amplo processo, é a aparição de um novo tipo de
“negro” – que traz consigo uma nova mentalidade, um novo
comportamento e novas aspirações sociais. Esse “negro” se beneficiou dos
influxos construtivos dos antigos movimentos sociais; aprendeu graças a
estes movimentos a não temer o branco e a ter algum discernimento sobre
os fatores extrapessoais da desigualdade racial. Todavia, por causa de sua
identificação com os propósitos de mobilidade social vertical que pode
explorar efetivamente, volta as costas e chega a combater os alvos
humanitários dos movimentos sociais, preferindo usar a experiência
acumulada na concretização de objetivos diretos, pessoais e egoísticos. Esse
“novo negro” deixa de valorizar o branco, socialmente, como e enquanto branco: vê o branco em função de sua situação de classe e pode repudiá-lo,
se acha que está numa “posição inferior”. Doutro lado, como possui
tirocínio pessoal sobre o funcionamento das instituições e os critérios do
peneiramento numa sociedade competitiva, é menos propenso a
supervalorizar o poder de determinadas pessoas. Daí resulta não só que
propende a restringir o entusiasmo diante do estrangeiro simplesmente por
causa da cor; também tende a restringir as retaliações infundadas a respeito
da “proteção dos conterrâneos”. Além disso, como penetra, de fato, na
estrutura das relações competitivas, acaba forçando a ruptura do equilíbrio
das acomodações raciais. No confronto com o estrangeiro ou com seus
descendentes, isso assume particular importância. Tanto o imigrante e seus
descendentes quanto o “negro” são levados a reforçar as representações
tradicionalistas, talvez como mecanismo superficial de autodefesa e de
neutralização de conflitos potenciais. Apesar disso, os casos que puderam
ser analisados sistematicamente sugerem que o “negro” propende a adotar
atitudes e comportamentos bastante racionais, tendo-se em vista a natureza
dos interesses sociais do indivíduo isolado. Em vez de agravar as tensões,
provocando acusações frontais e rompimentos irremediáveis, preferem
“contornar a situação”. Se sentem prejudicados por “determinados
estrangeiros”, procuram apoio noutros brancos e tentam, assim, a superação
dos fatores das tensões pessoais. A importância desses dados é óbvia. Eles
indicam que os fatores relacionados com as origens nacionais ou étnicas dos
imigrantes são secundários na motivação e na organização das relações
competitivas do “negro” com o “branco”.
Os resultados globais da discussão deste tópico comprovam, pois, a
existência de uma tendência universal e constante. Nas diferentes
constelações histórico-sociais, em que se mediu e se defrontou com o
“imigrante”, o “negro” não se lançou contra o estrangeiro. Mesmo quando
as influências deste foram percebidas e representadas como especificamente
desfavoráveis, elas nunca chegaram a ser elaboradas, de forma sistemática, em termos agressivos e de oposição. A razão disso parece simples. O que
interessa ao “negro”, em qualquer uma dessas fases, não é a posição do
imigrante e dos seus descendentes na estrutura da comunidade, mas o fato
de ele próprio não estar, ou de estar apenas parcialmente inserido nessa
estrutura. O seu inconformismo se orientou, portanto, invariavelmente na
mesma direção: a extensão das vantagens da sociedade aberta a todos os
segmentos da “gente negra”. As reações do “negro” contra o imigrante são
absorvidas por essa tendência, a qual dilui e reelabora socialmente os
motivos de frustração ou de agressão, convertendo-os em disposições ativas
de acomodação racial e em anseios de integração em bases igualitárias.
A imigração e a ordem racial
A imigração não contribuiu para alertar, nem de modo imediato nem a
longo prazo, a estrutura do sistema preexistente de relações raciais. Ela
ajudou a acelerar, a partir da década de 1880, a desagregação do regime
servil. Mas ela própria aparece e se intensifica, no século XIX, como
produto histórico da crise da mão de obra e das relações de trabalho no
mundo social escravista.
A explicação desse fenômeno é relativamente simples. As rápidas e
intensas transformações que afetaram a estrutura do desenvolvimento de
São Paulo não repercutiram nem na posição do negro na ordem social nem
nos padrões de relações raciais. No fundo, a transformação de status,
pressuposta na passagem da condição de cativo ou de liberto para a de
cidadão,70 não encontrou suportes econômicos, sociais e políticos que lhe
dessem realidade histórica. Foi uma operação semântica; ou, como diria um
dos líderes do pensamento liberal, “uma ironia atroz”. Ela deu forma e
consolidou, nas regiões em crescimento econômico intenso, a última
espoliação sofrida pelo escravo, pelo ingênuo e pelo liberto, praticamente
expurgados do sistema de trabalho sem quaisquer compensações
econômicas ou garantias sociais.71 Por isso, o “negro” iria continuar o drama humano do “escravo”, sendo necessário mais de meio século para
que essa situação começasse a se alterar. Os padrões de relação racial
tradicionalista72 permaneceram quase intatos, nesse meio século, mantendo
um clima de interação racial que diferia muito pouco daquele que imperava
na situação histórica precedente.
Esse pano de fundo ajudou a preservar atitudes e avaliações raciais
transplantadas pelos imigrantes com suas heranças culturais. Em sua
maioria, quaisquer que fossem suas procedências, eles não tinham
experiência no trato com o “negro” e viam-no etnocentricamente, como se
fosse inferior ao branco nos planos biológico, psicológico e cultural. Era
fácil dissimular tais coisas, por trás dos padrões de relação racial impostos
pelo meio ambiente. No entanto, tais atitudes e avaliações não “criaram” o
preconceito e a discriminação raciais, nas formas que se apresentam na
sociedade brasileira. Ambos surgiram muito antes, como parte e em
resposta à necessidade de dar fundamento moral e de legitimar socialmente
a escravidão e suas consequências numa sociedade de mores cristãos.73 E se
mantiveram ao longo da formação e do desenvolvimento da ordem social
competitiva, por causa da persistência, no início, e do agravamento, em
seguida, da concentração racial da renda, do prestígio social e do poder (ou
seja, da própria desigualdade racial). Sob outros aspectos, o imigrante não
precisou lançar mão nem de um nem de outro como recurso para defender
probabilidades de ascensão social, resguardar certos níveis de renda ou
proteger determinados estilos de vida. O “negro” não chegou, em nenhum
momento, a ser uma ameaça para o branco, os seus valores sociais ou o seu
destino humano.
Não obstante, por quatro motivos diferentes a imigração agravou o clima
das relações raciais. O primeiro deles diz respeito à maneira de redefinir os
“costumes do país”. Na sua ânsia de não discrepar dos brasileiros, os
imigrantes tentavam ajustar-se às situações de convivência com o “negro”
mantendo a fórmula de que, por “ser inferior, o preto não deixa de ser gente”. Essa fórmula só podia ser aplicada com êxito onde e quando as duas
partes observassem os fundamentos da relação racial tradicionalista, que
conferia ao “negro” uma posição heteronômica. Por falta de experiência, e
também porque nem sempre a distância social ajudava o difícil jogo que
assim se criava, o imigrante falhava na aplicação da fórmula e via-se presa
de sua armadilha. O “negro” começava a “tomar liberdades”, a “ser
confiado demais”, a “ficar atrevido”, a “não medir distâncias”, a “explorar a
boa-fé da gente”, a “se meter na vida dos outros” etc. Dentro em pouco, o
imigrante aprendia a sua lição; e passava a outro extremo. Procurava “evitar
o negro”, mediante atitudes e comportamentos relativamente discrepantes e
ostensivos, embora excluíssem exteriorizações que pudessem ser entendidas
como “insultuosas” ou “degradantes”. Ainda assim, isso representava
observância divergente, mas com agravamento do tratamento racial
convencional.
O segundo motivo prende-se a certas modalidades de “exploração do
negro” que foram, consciente ou inconscientemente, postas em prática por
muitos imigrantes na época mais árdua de sua luta por “fazer a América”.
Nas fases iniciais de acumulação de capital, o imigrante dependia de formas
de cooperação que redundavam na obtenção do trabalho necessário ao custo
da subsistência do trabalhador. Esse artifício só podia ser aplicado com
êxito no âmbito da família e da cooperação doméstica. Graças à abundância
de menores “negros” abandonados e à predisposição de muitas progenitoras
de “dar uma profissão” aos filhos, o negro e o mulato acabaram caindo nas
malhas desse artifício (o qual, aliás, também era frequente entre as famílias
brancas tradicionais, mesmo durante o primeiro quartel do século XX). Em
termos de socialização, isso representou uma vantagem sensível para os
menores. Muitos aprenderam a ler e a contar, adquiriram um ofício e o que
seria a vida humana num “lar organizado”. Essa experiência, no conjunto,
iria ser muito útil a alguns dos líderes dos movimentos sociais, que se
desenvolveram no “meio negro”. Todavia, em alguns planos ela produziu consequências perturbadoras. A partir da mocidade, o “irmão de criação”
descobria que sua condição real não lhe dava o direito de ter aspirações
análogas aos demais. As relações de companheirismo desmoronavam. Em
seu lugar, ficavam amargura, frustração e, por vezes, ódio implacável. Do
lado do branco, as reações de autodefesa fomentavam retaliações
convencionais (do tipo, “não se pode dar a mão a um negro”, “gente
ingrata”, “gente que cospe no prato em que come” etc.). O negro ou o
mulato iam mais longe, pois sentiam que sua segurança e aspirações não
tinham sentido, o que os levava, com frequência, a colocar as esperanças
nos movimentos de protesto coletivo.
O terceiro motivo é antes indireto e envolve a imigração de modo parcial.
O incremento da população e a consequente europeização da cidade não
tiveram, com referência aos brancos nativos, o caráter de uma substituição
populacional propriamente dita.74 Com respeito ao negro, porém, a
substituição populacional assumiu caráter específico e drástico.75 Por essa
razão, os fenômenos de anomia social, que se desenrolaram no “meio
negro”, encontram uma de suas raízes nesse processo, que condiciona e
agrava o desalojamento das populações negras. Esse assunto precisa ser
trazido à baila, aqui, em virtude de duas implicações particularmente
importantes. De um lado, a esses fenômenos de anomia se associaram
desajustamentos crônicos, que provocaram o aumento da visibilidade do
negro e do mulato como “desordeiros”, “vagabundos”, “bêbedos”,
“ladrões” etc. Ora, foi essa visibilidade que alimentou a perpetuação dos
antigos estereótipos raciais e que canalizou a redefinição social do “negro”
em sentido ultradesfavorável. Embora o imigrante não seja nem pessoal
nem moralmente responsável pelo que aconteceu, a sua presença relaciona-
se de modo facilmente perceptível a todo o processo. De outro lado, o negro
e o mulato, quando questionam a imigração, tendem a focalizá-la de ângulo
emocional e moral, à luz desse impacto. Ela não foi a única (nem mesmo a
principal) causa do fenômeno; e, sob vários aspectos, também não passa de efeito da mesma série de fatores que conduziram à desagregação da
sociedade servil e à revolução burguesa. Mas o “negro” que viveu na cidade
durante esse período (e por vezes também os seus descendentes) não se
liberta da compulsão de relacionar sua vergonha aos feitos do imigrante. No
caso, este não se converte em bode expiatório. Contudo, surge como a peça
que explicaria o aparecimento e as proporções do drama que se abateu
sobre a “gente negra”.
O quarto motivo opera ao longo de toda a situação de contato racial e
parece ser, sob o ponto de vista dinâmico, o mais importante de todos.
Trata-se dos efeitos diretos ou indiretos da ascensão social sobre as
avaliações e as relações raciais. Sob muitos aspectos, a situação do
imigrante sempre foi parecida com a do negro e do mulato. Ele teve um
ponto de partida bem modesto, apesar de ser branco; e lutou, com
frequência tenazmente, para classificar-se socialmente e, em seguida, para
desfrutar os benefícios da mobilidade social. No entanto, em virtude de
possuir algum domínio (ou domínio completo) sobre as técnicas sociais que
organizam as relações humanas numa sociedade competitiva, o imigrante
logrou bem depressa os dois objetivos. O que interessa ressaltar, no
momento, é que se estabeleceu uma nítida diferença entre o imigrante
“pobre” e o imigrante “rico”. Ao subir socialmente, o imigrante atravessa
um período de crise, no qual rompe com as ligações materiais e morais que
o prendem ao seu antigo mundo social. Ao contrário das famílias brasileiras
tradicionais, principalmente daquelas que não perderam status através de
todas as transformações ocorridas na cidade, o imigrante não possui
prestígio social suficiente para enfrentar as exigências do nível social
adquirido, mantendo ligações aparentemente espúrias com o passado. Elas
suscitam nele o temor da degradação social, como se a visibilidade do
“negro” afetasse e se comunicasse àqueles que são vistos em sua
companhia. Além disso, a tendência a evitar o “negro” no mencionado
período de crise se converte numa espécie de convenção. Como escreveu em seu relatório uma das pesquisadoras, o imigrante e seus descendentes
acabam, assim, construindo um mundo “no qual não existe lugar para o
negro”. Ambos os efeitos apontados não são produtos de sua tradição
cultural. Eles derivam, antes, das complicadas tensões provocadas pela luta
pela ascensão social numa sociedade de classes. Todavia, os outros círculos
humanos não veem as coisas por esse prisma. O branco nativo, de classe
alta, pura e simplesmente desaprova o que ele entende ser uma
“manifestação intolerável de preconceito racial”; o “negro de classe média”,
por sua vez, se choca com o caráter mais ou menos acintoso que a evitação
assume no comportamento dos imigrantes. Portanto, em dois níveis sociais
o imigrante acaba sendo descrito como se estivesse “introduzindo
preconceitos de raça” no Brasil. A imigração é posta em causa, embora ela
só se prenda, pelo que se sabe, de modo indireto aos focos de tensão.
Os resultados da análise, nesta parte do presente trabalho, sugerem
claramente que a imigração não contribuiu, de fato, para incluir as relações
raciais na esfera de mudança social e de modernização. Ao contrário, onde
ela não se adaptou, por seus efeitos diretos ou indiretos, ao sistema
preexistente de relações raciais, ela o agravou, estimulando a persistência
de ajustamentos inter-raciais preconceituosos e discriminatórios. Todavia,
nada dá fundamento à propensão de atribuir-se aos imigrantes a
“introdução” do preconceito e da discriminação raciais na cidade. Pelo
menos nos limites das manifestações conhecidas de ambos os fenômenos, a
esse respeito os imigrantes absorvem atitudes e comportamentos
previamente incorporados aos padrões brasileiros de relações raciais. Ao
que parece, a imigração tornou-se um fator neutro em face da
democratização das relações raciais porque o que se poderia chamar de
“problema negro” não chegou a afetar o desenvolvimento da ordem social
competitiva. Deixando de ser mão de obra privilegiada e, por qualquer
razão, fator ou impedimento de crescimento econômico, o “negro” perdeu
importância histórica para o branco. Nada poderia envolver os imigrantes, portanto, nas malhas dos interesses ou dos valores sociais que se
vinculariam com a implantação da democracia racial. A imigração também
teria sido neutra com referência à própria estrutura do sistema de relações
raciais, não fossem as circunstâncias históricas que a convertiam,
espontânea e inevitavelmente, num fator de concentração racial da renda,
do prestígio social e do poder. Foi graças a essa razão, aliás, que ela
contribuiu para agravar, de maneira evidente, as aparências e a realidade da
desigualdade racial. Contudo, aqui é preciso distinguir condições, causas e
efeitos no emaranhado contexto histórico-social considerado. O imigrante
não se introduziu – nem se viu introduzido – numa estrutura de competição
racial com o negro e o mulato. Se a imigração repercutiu dramaticamente
nas manifestações da desigualdade racial, isso se deu porque ela era um dos
fatores da aceleração do crescimento econômico e do desenvolvimento
social da comunidade. Os grupos que contavam com posições mais ou
menos vantajosas na estrutura de poder e de competição, também
contavam, naturalmente, com as oportunidades mais vantajosas de
participação nesses dois processos. Na verdade, como a estrutura do sistema
de relações raciais excluía o “negro” de tais oportunidades, os brancos
praticamente monopolizaram as vantagens dela decorrentes. Tudo isto quer
dizer que a imigração apenas agravou, como e enquanto fator histórico, as
diferentes expressões assumidas pela desigualdade racial na vida social do
negro e do mulato.
Bibliografia sumária
ARAUJO FILHO, J. R. “A população paulistana.” A cidade de São Paulo,
Associação dos Geógrafos Brasileiros. São Paulo, Cia. Editora Nacional,
1958.
AZEVEDO, Salvio de Almeida. “Imigração e colonização no estado de São
Paulo”, Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, ano IV, vol. LXXV, 1941,
p. 105-157.
BASTIDE, Roger e Fernandes, Florestan. Brancos e negros em São Paulo.
2. ed., São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1959.
BRUNO, Ernani da Silva. História e tradições da cidade de São Paulo. Rio
de Janeiro, 1954 (3 vols.).
CAMARGO, José Francisco. Crescimento da população do estado de São
Paulo e seus aspectos econômicos. Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1952 (3 vols.).
CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil
meridional. São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1962.
COUTY, Louis. Le Brésil en 1884. Rio de Janeiro, Lino e Faro, 1884;
L’esclavage au Brésil. Paris, Librairie Guillaumin et Cie., 1881.
FERNANDES, Florestan. A integração do negro à sociedade de classes.
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo,
1964.
IANNI, Octavio. As metamorfoses do escravo. São Paulo, Difusão Europeia
do Livro, 1962.
LOWRIE, Samuel H. “O elemento negro na população de São Paulo”,
Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, ano IV, vol. XLVIII, junho de
1938, p. 5-56; Imigração e crescimento da população no estado de São
Paulo. São Paulo, Escola de Sociologia e Política, 1938.
MATOS, Odilon Nogueira de. “São Paulo no século XIX.” A cidade de São
Paulo, op. cit.
MORSE, Richard. Formação histórica de São Paulo. De comunidade à
metrópole. 2. ed., São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1970.
SANTOS, José Maria dos. Os republicanos paulistas e a abolição. São
Paulo, Livraria Martins Editora, 1942.
SIMONSEN, Roberto. “As consequências econômicas da abolição”,
Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, ano IV, vol. XLVII, 1938, p. 257-
268.
52 Trabalho apresentado a The Conference on Race and Class in Latin America During The National Period, organizado pelo dr. Magnus Mörner sob o patrocínio de Cornell University e Columbia University, através do Institute of Latin American Studies; realizado em Nova York, entre 16 e 18 de dezembro de 1965. Publicação prévia em inglês, M. Mörner, Race and Class in Latin American, Nova York, Columbia University Press, 1970, p. 122-142; em português, pela Revista Civilização Brasileira (nº 8, 1966, p. 75-95).
53 “Movimento migratório no estado de São Paulo”, São Paulo, 1937, Boletim da Diretoria de Terras, Colonização e Imigração, p. 29-75.
54 Sobre os fenômenos em questão: Roger Bastide e Florestan Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, cap. 1; Florestan Fernandes, A integração do negro à sociedade de classes, cap. 1.
55 Cf. Le Brésil en 1884 e, principalmente, L’esclavage au Brésil, passim.
56 Cf. R. Bastide e F. Fernandes, loc. cit.
57 Cf., a respeito, Ernani da Silva Bruno, História e tradições da cidade de São Paulo, e Richard Morse, Formação histórica de São Paulo.
58 Relatório apresentado ao cidadão dr. Cesário Motta Júnior, Secretário dos Negócios do Interior do Estado de São Paulo pelo diretor da Repartição da Estatística e Arquivo Dr. Antonio de Toledo Piza, em 31 de julho de 1894, p. 68 e 71-72.
59 Cf. F. Fernandes, A integração do negro à sociedade de classes, cap. 2.
60 Idem, p. 426.
61 A Província de São Paulo, 9/11/1887.
62 O Correio Paulistano, 13/11/1887.
63 O Correio Paulistano, 16/11/1887. Sobre o assunto, cf. também José Maria dos Santos, Os republicanos paulistas e a abolição, p. 315-316.
64 Cf. F. Fernandes, A integração do negro à sociedade de classes, p. 118-198.
65 Idem, ibidem, especialmente p. 30 e ss.
66 Outra tendência alternativa, igualmente forte, inverte a explicação. O “preconceito de cor” seria adquirido no Brasil graças às influências das famílias tradicionais sobre os imigrantes.
67 Arlindo Veiga dos Santos, Manifesto à gente negra brasileira (2/12/1931), transcrito como consta no original.
68 José Correia Leite, por exemplo, um dos principais líderes desses movimentos, poderia ser tomado como ilustração.
69 Cf. F. Fernandes, op. cit., p. 415-452.
70 Além dos trabalhos citados na nota 2, p. 133, vejam-se também Octavio Ianni, As metamorfoses do escravo, caps. 5 e 7, e Fernando Henrique Cardoso, Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, caps. 5 e 7.
71 Cf. F. Fernandes, A integração do negro à sociedade de classes, p. 30 e ss.; Roberto Simonsen, “As consequências econômicas da escravidão”.
72 Sobre esse padrão em São Paulo, cf. F. Fernandes, op. cit., cap. 3.
73 Cf. R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, cap. 2, passim.
74 Cf. esp. Samuel H. Lowrie, Imigração e crescimento da população no estado de São Paulo.
75 Cf. F. Fernandes, op. cit., p. 81-118.
OceanofPDF.com