O Negro no Mundo dos Brancos
Segunda Parte
O IMPASSE RACIAL NO BRASIL
MODERNO
OceanofPDF.com
Capítulo IV
A Persistência do Passado50
Introdução
Na situação de contato racial imperante no Brasil evidenciam-se muitos
problemas sociológicos, de grande significação humana e científica. O
Brasil vive, simultaneamente, em várias “idades histórico-sociais”.
Conforme a região do país que se considere e o grau de desenvolvimento
das comunidades da mesma região, podemos focalizar cenas que relembram
os contatos dos colonizadores e conquistadores com os indígenas ou
registrar quadros que retratam o aparecimento tumultuoso da “civilização
industrial”, com suas figuras típicas, nacionais ou adventícias. Presente,
passado e futuro entrecruzam-se e confundem-se de tal maneira que se pode
passar de um estágio histórico a outro pelo expediente mais simples: o
deslocamento no espaço.
Ora, a cada estágio histórico corresponde uma situação humana. O
observador ingênuo pensa estar num mundo culturalmente homogêneo. E,
de fato, certos polarizadores impregnam as situações mais contrastantes de
um substrato psicossocial e sociocultural comum. Mas, na realidade, cada
situação humana organiza-se, estrutural e dinamicamente, como um mundo
material e moral com sua feição própria. Sem dúvida, as várias situações
humanas possíveis põem à luz, no conjunto, os diferentes padrões de
integração sociocultural da sociedade brasileira, ao longo de sua formação
e de sua evolução no tempo e no espaço. Mas cada uma delas, de per si, só
pode ser compreendida e explicada pelo próprio padrão de integração
sociocultural e pelo modo dele vincular-se com as tendências atuantes de
modernização daquela sociedade.
Projetadas contra esse pano de fundo, as relações étnicas e raciais e o
significado da cor na vida humana apresentam-se sob diversas facetas.
Escolhemos, para debater neste trabalho, o exemplo que nos parece ser o
mais indicado para uma caracterização sucinta do que se poderia entender
como o dilema racial brasileiro. Trata-se da situação do negro e do mulato
na cidade de São Paulo. Esta cidade não se singulariza pela alta proporção
de negros ou de mestiços de negros e brancos na população global. Ao
contrário, sob esse aspecto conta entre as comunidades urbanas brasileiras
em que essa proporção é relativamente baixa. Ela é significativa por outros
motivos. De um lado, porque se inclui na última região do Brasil em que a
escravidão desempenhou funções construtivas, como alavanca e ponto de
partida de um longo ciclo de prosperidade econômica, que se iniciou com a
produção e a exportação de café. De outro lado, porque foi a primeira
cidade brasileira que expôs o negro e o mulato às contingências típicas e
inexoráveis de uma economia competitiva em expansão. Em consequência,
ela permite analisar, com objetividade e em condições quase ideais, como e
por que a velha ordem racial não desapareceu com a Abolição e o término
legal do regime de castas, prolongando-se no presente e ramificando-se
pelas estruturas sociais criadas graças à universalização do trabalho livre.
Desigualdade Racial e Estratificação Social
O dilema racial brasileiro, na forma em que ele se manifesta na cidade de
São Paulo, lança suas raízes em fenômenos de estratificação social. Tendo-
se em vista a estrutura social da comunidade como um todo, pode-se
afirmar que, desde o último quartel do século XIX até hoje, as grandes
transformações histórico-sociais não produziram os mesmos proventos para
todos os setores da população. De fato, o conjunto de transformações que
deu origem à “revolução burguesa”, fomentando a universalização, a
consolidação e a expansão da ordem social competitiva, apenas beneficiou,
coletivamente, os segmentos brancos da população. Tudo se passou, historicamente, como se existissem dois mundos humanos contínuos, mas
estanques e com destinos opostos. O mundo dos brancos foi profundamente
alterado pelo surto econômico e pelo desenvolvimento social, ligados à
produção e à exportação do café, no início, e à urbanização acelerada e à
industrialização, em seguida. O mundo dos negros ficou praticamente à
margem desses processos socioeconômicos, como se ele estivesse dentro
dos muros da cidade, mas não participasse coletivamente de sua vida
econômica, social e política. Portanto, a desagregação e a extinção do
regime servil não significou, de imediato e a curto prazo, modificação das
posições relativas dos estoques raciais em presença na estrutura social da
comunidade. O sistema de castas foi abolido legalmente. Na prática, porém,
a população negra e mulata continuou reduzida a uma condição social
análoga à preexistente. Em vez de ser projetada, em massa, nas classes
sociais em formação e em diferenciação, viu-se incorporada à “plebe”,
como se devesse converter-se numa camada social dependente e tivesse de
compartilhar de uma “situação de casta” disfarçada. Daí resulta que a
desigualdade racial manteve-se inalterável, nos termos da ordem racial
inerente à organização social desaparecida legalmente, e que o padrão
assimétrico de relação racial tradicionalista (que conferia ao “branco”
supremacia quase total e compelia o “negro” à obediência e à submissão)
encontrou condições materiais e morais para se preservar em bloco.
Os fatores principais desse processo de demora sociocultural já são bem
conhecidos. Numa visão retrospectiva e sintética, os aludidos fatores podem
ser agrupados em quatro constelações histórico-sociais sucessivas (mas
interdependentes): 1º) as tendências assumidas pela transformação global da
comunidade; 2º) caráter sociopático das motivações que orientaram o
ajustamento do “negro” à vida na cidade e à natureza anômica das formas
de associação que puderam desenvolver; 3º) inocuidade da reação direta do
negro e do mulato contra a “marginalização da gente negra”; 4º) aparecimento tardio e débil de correções propriamente estruturais do padrão
herdado de desigualdade racial.
Na primeira constelação, devemos considerar três grupos de fatores
histórico-sociais. Primeiro, a cidade de São Paulo não repete o padrão
tradicional de desenvolvimento geográfico e socioeconômico de outras
cidades brasileiras, que se expandiram sob a égide da exploração do
trabalho escravo. A inclusão de São Paulo na órbita da economia colonial
brasileira (baseada na exportação de produtos tropicais) ocorreu
tardiamente. Só com a produção de café no “Oeste Paulista” e graças à
intensificação progressiva da exportação desse produto ganhou a cidade
condições para deixar de ser um burgo rústico e para contar com fontes
regulares de prosperidade econômica. Por isso, somente a partir do último
quartel do século XIX ela sofre modificações que a convertem
propriamente em cidade, ao estilo de outros agregados urbanos da época.
Esse fator tem grande importância. Os centros urbanos provocavam certas
necessidades especiais que ampliavam a divisão do trabalho social. Neles
surgiam ocupações e serviços que alargavam a área de atividade construtiva
do escravo e, especialmente, que não podiam ser exercidos nem pelo
escravo nem pelo homem livre. O liberto desfrutava, assim, algumas
oportunidades econômicas que lhe permitiam integrar-se na estrutura
ocupacional das cidades e que forçavam os brancos a terem interesse pelo
seu adestramento e aproveitamento em tal área. Pode-se verificar como esse
mecanismo se manifestava em cidades como São Salvador, Recife ou Rio
de Janeiro, nas quais a população negra e, principalmente, mestiça
logravam a aquisição de um nicho relativamente vantajoso na organização
ecológica e econômica daquelas comunidades. A inclusão tardia da cidade
de São Paulo no núcleo da economia colonial brasileira representou uma
desvantagem para a população negra e mestiça dessa cidade, tanto escrava
quanto liberta. Isso porque o início da expansão econômica coincide com a
concentração crescente de imigrantes de origem europeia e com a crise do próprio regime servil. Poucos negros e mulatos puderam aproveitar as
oportunidades com que contariam em outras circunstâncias, e que lhes
permitiriam converter-se em artesãos, pequenos comerciantes etc. Ao
eclodir a Abolição, estavam distribuídos nas ocupações menos desejáveis e
compensadoras, pois as oportunidades melhores haviam sido
monopolizadas e absorvidas pelos imigrantes. Segundo, o movimento
abolicionista e todo o processo de desagregação do regime servil
assumiram, como teria de acontecer fatalmente, o caráter de uma
insurreição dos próprios brancos contra a ordem escravocrata e senhorial.
Esta embaraçava o desenvolvimento socioeconômico das regiões prósperas
do país e sufocava a expansão do capitalismo. Ainda que o abolicionismo
adquirisse o teor de um movimento humanitário, sua mola revolucionária
residia nos interesses e valores sociais prejudicados por causa da vigência
da escravidão. Doutro lado, os negros e os mulatos se inseriam nessa
insurreição como “objeto” e mera “massa de manobra”. Eles não puderam
projetar nela os seus anseios ou necessidades mais diretas e, com raras
exceções, ficaram relegados aos papéis secundários. Assim, o que se
poderia chamar de uma “consciência abolicionista” era antes um patrimônio
dos próprios brancos, que lideravam, organizavam e ao mesmo tempo
continham a insurreição dentro de limites que convinham à “raça
dominante”. Esse quadro geral produziu dois efeitos negativos ou
limitativos. Quanto aos brancos, favoreceu um processo paradoxal: na fase
aguda das transformações, a liderança do processo passou para as mãos dos
círculos mais conservadores, empenhados em atender aos interesses sociais,
econômicos e políticos dos grandes fazendeiros. Embora se negassem a
conceder aos fazendeiros qualquer indenização pelas perdas financeiras,
decorrentes da Abolição, ignoraram por completo a necessidade de pôr em
prática medidas que assegurassem um mínimo de proteção ao escravo ou ao
liberto e concentraram todo o esforço construtivo numa política que
garantisse a rápida substituição da mão de obra escrava. Por essa razão, no fim do Império e no início da República, o principal traço da política
governamental provinha do fomento da imigração por todos os meios
viáveis. Quanto ao negro, com a Abolição ele perdeu os liames
humanitários que o prendiam aos brancos radicais ou inconformistas e
deixou de formar uma consciência social própria da situação. Como foi
mais tutelado que agente do processo revolucionário, não tinha uma visão
objetiva e autônoma dos seus interesses e possibilidades. Converteu a
liberdade em um fim em si e para si, sofrendo com a destituição uma
autêntica espoliação – a última pela qual a escravidão ainda seria
responsável. A “explosão de alegria” logo iria ter um travo de fel; mas a
dignidade do “homem livre” parecia valer mais que qualquer outra coisa e,
de imediato, o “negro” dedicou-se intensamente ao afã de usufruir um dom
que, no passado, o excluíra da condição humana. Terceiro, a “revolução
burguesa” praticamente baniu o “negro” da cena histórica. Ela se
desenvolveu em torno de duas figuras: o fazendeiro de café, que viu seus
papéis sociais e econômicos se diferenciarem graças ao crescimento
econômico provocado pelos “negócios do café” e à expansão urbana; e o
imigrante, que se apropriava tenazmente de todas as oportunidades novas,
ao mesmo tempo que eliminava o “negro” das poucas posições
compensadoras que ele alcançara no artesanato e em alguns ramos do
pequeno comércio. Por isso, “o negro” não ficou apenas à margem dessa
revolução. Ele foi selecionado negativamente, precisando contentar-se com
aquilo que, daí por diante, seria conhecido como “serviço de negro”:
trabalhos incertos ou brutos, tão penosos quão mal remunerados. Em
consequência, achou-se numa estranha situação. Enquanto a prosperidade
bafejava todas as demais camadas da população, o “negro” sentiu-se em
apuros até para manter ou conquistar as fontes estáveis de ganho mais
humildes e relegadas.
Quanto à segunda constelação, devemos considerar cinco grupos de
fatores mais significativos. Primeiro, o negro não fora adestrado previamente, como escravo ou liberto, para os papéis socioeconômicos do
trabalhador livre. Por isso, ele não possuía nem o treino técnico, nem a
mentalidade, nem a autodisciplina do assalariado. Ao ver-se e sentir-se
livre, queria ser literalmente tratado como HOMEM, ou seja, como “alguém
que é senhor do seu nariz”. Tais disposições redundaram em
desajustamentos fatais para o negro e o mulato. De um lado, os
empregadores brancos se irritaram sobremaneira com as atitudes e os
comportamentos dos ex-escravos. Estes usaram predatoriamente a
liberdade. Supunham que, se eram “livres”, podiam trabalhar como, quando
e onde preferissem. Tendiam a afastar-se dos encargos do trabalho quando
dispunham de recursos suficientes para se manterem em ociosidade
temporária; e, em particular, mostravam-se muito ciosos diante de
admoestações, advertências ou reprimendas. Alegando que “eram livres”
(ou que “o tempo de escravidão já acabou”), pretendiam uma autonomia
que se chocava, fundamentalmente, com o regime de trabalho assalariado.
Esses desentendimentos seriam, naturalmente, transitórios. Mas, como
havia relativa abundância de mão de obra, em virtude do volume atingido
pela imigração, os empregadores agiram de forma intolerante,
demonstrando notável incompreensão diante do negro e do mulato. Parecia-
lhes que estes evidenciavam “falta de responsabilidade” e que os negros
seriam “imprestáveis” ou “intratáveis”, fora do “jugo da escravidão”. De
outro lado, o próprio negro pôs a liberdade acima de tudo, como se ela fosse
um valor intocável e absoluto. Por falta de socialização prévia, não sabia
avaliar corretamente a natureza e os limites das obrigações decorrentes do
contrato de trabalho. Este era visto como se perpetuasse a escravidão por
outros meios e como se, ao vender sua força de trabalho, o trabalhador
vendesse, simultaneamente, a sua pessoa. Daí resultou um desajustamento
verdadeiramente estrutural, agravado pelo fato de suas oportunidades de
trabalho serem as piores e de existir dois níveis de retribuição, com o que se
degradava o salário do trabalhador negro. Segundo, a abundância de mão de obra com melhor qualificação, como produto da imigração intensiva,
concorreu para modificar rapidamente a mentalidade dos empregadores e
suas propensões, mesmo a respeito da seleção dos trabalhadores agrícolas.
Antes, o negro era representado como o único agente de trabalho possível,
pelo menos com relação aos serviços degradados pela escravidão. Havia,
por isso, relativa tolerância diante de suas deficiências e real preocupação
em corrigi-las, como fosse possível. Ao se evidenciar que ele podia ser
substituído, inclusive com alguma facilidade nas regiões prósperas, e que
seu substituto era “mais inteligente”, “mais eficiente” e “mais laborioso”
(ou “industrioso”), aquelas disposições desapareceram. Portanto, de uma
hora para outra o negro viu-se condenado como agente de trabalho,
passando da categoria de agente privilegiado para a de agente refugado,
num momento em que ele próprio elevava suas exigências morais e se
tornava intransigente. De maneira quase automática, foi confinado à
periferia do sistema de produção, às ocupações indesejáveis, mal retribuídas
e socialmente degradadas. Terceiro, a escravidão despojou o negro de quase
toda sua herança cultural e socializou-o tão-somente para papéis sociais
confinados, nos quais se realizava o desenvolvimento da personalidade do
escravo e do liberto. Como consequência a Abolição projetou-o na esfera
dos “homens livres” sem que ele dispusesse de recursos psicossociais e
institucionais para se ajustar à nova posição na sociedade. Não conhecia
nem podia pôr em prática nenhuma das formas sociais de vida organizada
de que desfrutavam os brancos normalmente (inclusive a família e os tipos
de cooperação ou de solidariedade que ela condicionava socialmente). Para
usufruir os direitos do Homem Livre precisava despojar-se de sua segunda
natureza, constituída enquanto e como escravo ou liberto, e absorver as
técnicas sociais que faziam parte do “mundo dos brancos”. Fixando-se na
cidade de São Paulo, onde a urbanização rápida e o crescimento industrial
acelerado provocaram a expansão intensa da ordem social competitiva, essa
lacuna de origem especificamente sociocultural iria erigir-se numa barreira intransponível. A incapacidade de lidar eficazmente (ou de qualquer modo)
com as referidas técnicas sociais impediu o ajustamento às condições de
vida imperantes na cidade, colocando o negro à margem da história, como
se lhe fossem vedadas as oportunidades crescentes, sofregamente
aproveitadas pelos imigrantes e pelo trabalhador branco de extração
nacional. Quarto, em seguida à Abolição, a população negra converteu-se
numa população altamente móvel. Muitos componentes dessa população,
mais ou menos ajustados à vida na cidade, deslocaram-se para o interior de
São Paulo ou refluíram para outras regiões do país (o Nordeste e o Norte
principalmente, de onde procediam). Ao mesmo tempo, levas sucessivas de
negros e mulatos aninhavam-se como podiam nos porões e nos cortiços da
capital. No conjunto, as perdas foram amplamente compensadas pelos
ganhos, mas com nítida concentração de pessoas rústicas num ambiente que
exigia certas qualidades intelectuais e morais, requeridas pelo trabalho
assalariado e pela competição econômica. De per si desajustada, essa
população tinha de viver de expedientes, de salários insuficientes e
apinhada em alojamentos (que outra coisa não eram os porões e cortiços em
que habitavam) que não comportavam os moradores. O único elemento
dessa população que contava com emprego assalariado mais ou menos certo
era a mulher, que podia dedicar-se aos serviços domésticos. De modo que
ela se tornou, rapidamente, o esteio dos agrupamentos domésticos, já que
dela provinha o sustento parcial ou total da casa, a roupa e a comida do
marido ou do amásio e até o dinheiro com que estes enfrentavam as
pequenas despesas. O ócio do homem, que de início era um produto da
contingência e um protesto digno, transformou-se bem depressa, em
proporções consideráveis, em uma forma cavilosa e sociopática de
exploração de um ser humano por outro. Além disso, três quartas partes da
população negra e mestiça da cidade submergiram numa dolorosa era de
miséria coletiva, de degradação moral e de vida social desorganizada. O
abandono do menor, do doente ou do velho, a “mãe solteira”, o alcoolismo, a vadiagem, a prostituição, a criminalidade ocasional ou sistemática
repontaram como dimensões normais de um drama humano sem
precedentes na história social do Brasil. Nessas condições, o negro não
tinha elementos para cultivar ilusões sobre o presente ou sobre o futuro. E
ainda acumulava pontos negativos, pois o branco percebia e explicava
etnocentricamente os aspectos dessa situação de que tomava conhecimento,
através de cenas deprimentes, ou do noticiário dos jornais, imputando ao
próprio negro a “culpa” pelo que ocorria (como se o negro “não tivesse
ambição”, “não gostasse de trabalhar”, “fosse bêbedo inveterado”, “tivesse
propensão para o crime e a prostituição”, e “não fosse capaz de dirigir sua
vida sem a direção e o jugo do branco”). Contudo, o drama em si mesmo
não comoveu os brancos nem foi submetido a controle social direto ou
indireto; só serviu para degradar ainda mais a sua vítima no consenso geral.
Quinto, o negro e o mulato não dispunham de técnicas sociais que lhes
facultassem o controle eficiente de seus dilemas e a superação rápida dessa
fase de vida social anômica. Por sua vez, as demais camadas da
comunidade não revelaram nenhuma espécie de piedade ou de solidariedade
diante do drama material e moral do negro, enquanto a própria comunidade
como um todo nada podia fazer, já que não dispunha de uma rede de
serviços sociais suficientemente complexos para resolver problemas
humanos tão graves. A miséria associou-se à anomia social, formando uma
cadeia de ferro que prendia o negro, coletivamente, a um destino
inexorável. À degradação material correspondia a desmoralização: o negro
entregava-se a esse destino, sob profunda frustração e insuperável apatia.
Logo se difundiu e implantou um estado de espírito derrotista, segundo o
qual “o negro nasceu para sofrer”, “vida de negro é assim mesmo”, “não
adianta fazer nada” etc. O único ponto em que o negro não cedia
relacionava-se com a teimosa permanência na cidade. Como se fosse um
pária da era moderna, aceitava passiva e conformadamente o peso da
desgraça e os dias incertos que o futuro lhe reservasse.
Na terceira constelação, devemos considerar as causas e os efeitos dos
movimentos sociais, que se constituíram no meio negro de São Paulo.
Nenhum agregado humano poderia suportar, de modo totalmente inerte,
uma situação como a que a população negra e mulata enfrentou naquela
cidade. Aos poucos, foram-se esboçando e criando força algumas tímidas
tentativas de crítica e de autodefesa. Entre 1925 e 1930, essas tentativas
tomaram corpo e produziram seus primeiros frutos maduros, expressos
numa imprensa negra, empenhada em difundir formas de autoconsciência
da situação racial brasileira e do “abandono do negro”, e também em
organizações dispostas a levar o “protesto da gente negra” ao terreno
prático. Pela primeira vez na história social da cidade, negros e mulatos
coligavam-se para defender os interesses econômicos, sociais e culturais da
“raça”, buscando formas de solidariedade e de atuação social organizada
que redundassem em benefício da reeducação do negro, na elevação
progressiva de sua participação no nível de renda, no estilo de vida e nas
atividades políticas da coletividade e, por conseguinte, de sua capacidade
em converter-se em cidadão, segundo os modelos impostos pela sociedade
inclusiva. No entanto, os movimentos sociais só conseguiram atrair
pequenas parcelas da população negra e mulata da capital. Mau grado seu
alcance construtivo, o conformismo, a apatia e a dependência em relação
aos brancos bloquearam esse caminho de afirmação autônoma. Embora
chegassem a abranger parcelas de militantes encaradas como alarmantes
pelos brancos, os movimentos não serviram senão para criar um marco
histórico e redefinir as atitudes ou os comportamentos de negros e mulatos.
Desmascarando a ideologia racial dominante, eles elaboraram uma
contraideologia racial que aumentou a área de percepção e de consciência
da realidade racial brasileira por parte do negro. Doutro lado, acentuando
certas tendências igualitárias fundamentais, levaram o negro a empunhar a
bandeira da democracia racial, exigindo para si condições equitativas de
participação do nível de renda, do estilo de vida e das prerrogativas sociais das outras camadas da comunidade. Como as reivindicações eclodiam de
forma pacífica, elas não germinaram disposições de segregação racial e não
alimentaram tensões ou conflitos de caráter racial. Nesse sentido, eles
foram socialmente construtivos, difundindo novas imagens do negro,
recalibrando sua maneira de resolver seus problemas e tentando absorver as
técnicas sociais e aproveitar as oportunidades econômicas de que
desfrutavam os brancos. Responderam literalmente às exigências da ordem
social competitiva, afirmando-se como o único processo pelo qual a
população negra da capital tentou ajustar-se, coletivamente, às exigências
histórico-sociais do presente. Não obstante, tais movimentos, com os
objetivos que eles colimavam, não repercutiram construtivamente entre os
brancos. Estes se mantiveram indiferentes diante deles, erguendo um muro
de indiferença e de incompreensão, que anulou sua eficácia prática,
impedindo que eles contribuíssem, de fato, para ajustar o sistema de
relações raciais à ordem social competitiva. Além disso, os círculos mais
influentes, imbuídos de atitudes e avaliações tradicionalistas,
reinterpretaram os movimentos sociais surgidos no meio negro como um
“perigo” e como uma “ameaça” (como se eles “introduzissem o problema
racial no país”). Alguns defendiam o ponto de vista de que, se “a
negralhada ficasse à vontade”, depois “ninguém conseguiria conter essa
gente”. Por volta do Estado Novo, os movimentos foram proscritos
legalmente, sendo fechada a Frente Negra Brasileira, a principal
organização aparecida nesse período. Esboçaram-se, com a extinção do
Estado Novo, entre 1945 e 1948, algumas tentativas de reorganização
daqueles movimentos. Mas todas elas falharam redondamente, pois os
negros e mulatos em ascensão social passaram a dar preferência a uma
estratégia estreitamente egoísta e individualista de “solução do problema do
negro”. No fundo, a inexistência de mecanismos de solidariedade racial
privou o meio negro da lealdade e da colaboração altruística das ralas elites
que saíram de seus quadros humanos. Em um plano mais geral, porém, isso significa que a contribuição que os movimentos sociais poderiam dar à
modernização do sistema tradicional de relações raciais ficou
comprometida e neutralizada. A adaptação daquele sistema à situação
histórico-social imperante na cidade depende, agora, se não surgirem
alterações, dos efeitos lentos e indiretos da absorção gradual do negro e do
mulato à ordem social vigente.
Na quarta constelação, devemos considerar como a expansão da ordem
social competitiva repercutiu, a curto termo, na graduação das
oportunidades econômicas conferidas aos negros e mulatos. No período
imediatamente posterior à Abolição, as oportunidades foram monopolizadas
pelos brancos das antigas camadas dominantes e pelos imigrantes. Um
levantamento estatístico, realizado na cidade de 1893, indica de modo bem
claro essa tendência. Assim, sobre 170 capitalistas, 137 eram nacionais
(80,5%) e 33 estrangeiros (19,4%). Sobre 740 proprietários, 509 eram
nacionais (69%) e 231 estrangeiros (31%). Em certas profissões conspícuas,
tradicionalmente controladas pelas elites locais, o estrangeiro só aparece
esporadicamente. Isso acontecia, por exemplo, com a magistratura e a
advocacia. Mas, em outras profissões, mais ligadas ao progresso técnico, os
estrangeiros repontam em proporções significativas. É o que se pode inferir,
por exemplo, de profissões como a de engenheiros (127 nacionais para 105
estrangeiros), de arquitetura (23 nacionais para 34 estrangeiros), de
agrimensores (10 nacionais para 11 estrangeiros), de professores (274
nacionais para 129 estrangeiros) etc. Entre o chamado “pessoal das
indústrias”, o imigrante aparece praticamente como o agente privilegiado.
Excetuando-se as ocupações agrícolas, nas quais o elemento nacional
predominava (pois entrava com 1673, ou 68%, contra 783 estrangeiros, ou
32%), nas demais áreas urbanização equivalia, de fato, a europeização. Eis
os exemplos mais relevantes: serviços domésticos, 5 878 nacionais (41,6%)
para 8226 estrangeiros (58,3%); atividades manufatureiras, 774 nacionais
(21%) para 2 893 estrangeiros (79%); trabalhos de artesãos e artífices, 1481 nacionais (14,4%) para 8760 estrangeiros (85,5%); atividades de transportes
e conexos, 1998 nacionais (18,9%) para 8527 estrangeiros (81%);
atividades comerciais, 2680 nacionais (28,3%) para 6776 estrangeiros
(71,6%). Tendo-se em vista tais atividades, em média 71,2% das ocupações
estavam sob controle dos estrangeiros. Como, por outras informações
esparsas, fica-se sabendo que era mínima a participação do negro nesse
quadro ocupacional, especialmente nos trabalhos qualificados e
semiqualificados, tem-se por aí uma pista indireta muito significativa. O
desenvolvimento econômico posterior da cidade corrigiu essa situação, mas
de maneira quase insignificante. De fato, só posteriormente a 1935, com a
intensificação das migrações internas, a “fome de braços” aumentou
acentuadamente as oportunidades ocupacionais da população negra e
mulata. A modificação foi, entretanto, mais quantitativa que qualitativa. Um
maior número de pessoas daquela população passou a ter alguma facilidade
na obtenção de fontes estáveis de ganho, embora tal coisa continue a dar-se,
predominantemente, na esfera dos serviços menos qualificados e mal pagos.
Um levantamento que fizemos em 1951 revela que o negro está
encontrando, em nossos dias, o ponto de partida que poderia desfrutar no
período da desagregação do regime servil, se não esbarrasse na competição
do imigrante. Na amostra estudada, escolhida ao acaso entre homens e
mulheres, descobrimos que 29% dos negros e mulatos distribuíam-se por
ocupações artesanais; e 21% empregavam-se em serviços domésticos.
Quanto a outras atividades, as seguintes indicações podem dar uma clara
ideia da situação: em serviços públicos, como bedéis, serventes e
escriturários, predominantemente, 9%; na indústria, boa parte como
encarregados de serviços brutos ou semiqualificados, 8%; em serviços de
escritórios, poucos datilógrafos, correspondentes ou contadores, 7%; no
comércio, e apenas alguns como balconistas ou chefes de seção, 4% etc. Em
suma, o quadro se alterou, mas muito pouco. O negro ainda se acha numa
posição muito desvantajosa na pirâmide ocupacional e possui fracas possibilidades de corrigir essa situação no futuro próximo. Aliás, a esse
respeito os dados do censo de 1940 também deveriam ser levados em conta.
Reunindo-se só as indicações mais significativas, poderíamos elaborar o
seguinte quadro:
Distribuição dos homens e mulheres de 10 anos e mais, segundo a posição
em algumas ocupações – Município de São Paulo (censo de 1940)
* Incluindo-se 394 indivíduos de cor não declarada.
Não obstante o caráter pessimista das conclusões que tais dados
possibilitam, em conjunto, as alterações decorrentes são de grande
significação. A aquisição de fontes estáveis de ganho, não importa em que
condição, ofereceu ao negro e ao mulato meios de integração da estrutura
ocupacional e, em consequência, uma situação favorável à absorção
gradativa das técnicas sociais anteriormente monopolizadas pelo branco.
Doutro lado, conquistaram simultaneamente um patamar para a
classificação ocupacional e a competição com o branco, que abre alguns
canais de mobilidade social vertical à população negra e mestiça. Não só os
negros e os mulatos podem “pertencer ao sistema”; também já podem “lutar para subir”, ou seja, para “melhorar a posição no sistema”. Por ralas e
débeis que sejam, as “elites de cor” ou as “classes médias de cor” aparecem
como uma realidade nova e terão chances de aumentar continuamente,
mantidas as atuais condições socioeconômicas.
As quatro constelações de fatores atuam na mesma direção e produzem
efeitos sociodinâmicos da mesma natureza. Eles mantêm a desigualdade
racial em níveis e segundo um padrão sociocultural estranho à ordem social
competitiva e a uma sociedade multirracial democrática. Como se o passado
se reproduzisse continuamente no presente, a concentração racial da renda,
do prestígio social e do poder engendra um arcabouço social que nada (ou
muito pouco) ostenta de competitivo, de igualitário e de democrático em
suas linhas raciais. Os brancos desfrutam de uma hegemonia completa e
total, como se a ordem social vigente fosse, literalmente, uma combinação
híbrida do regime de castas e do regime de classe. No que diz respeito à
integração do branco ao sistema de relações sociais, só o último regime
possui vigência plena. Quando se trata do negro ou do mulato, porém, os
dois regimes se combinam de formas variáveis, sempre fazendo com que
influências arcaicas operem livremente, revitalizando de modo extenso e
profundo uma ordem racial que já deveria ser uma relíquia histórica.
Preconceito e discriminação nas relações raciais
Esse pano de fundo pode passar por um “fenômeno natural”. Ocorre,
porém, que ele favorece a perpetuação e, sob certos aspectos, a
revitalização do padrão tradicionalista e assimétrico de relações raciais.
Esse padrão manteve-se por assim dizer intato até 1930, aproximadamente,
ou seja, meio século após a Abolição! E, ainda hoje, não se poderia dizer
que ele tenha entrado em crise irreversível ou que esteja em vias de
superação. Ele se preserva parcialmente, mas encontra reforços contínuos
na extrema desigualdade da situação econômica e do destino social dos dois
estoques “raciais” em presença. A alternativa do desaparecimento final desse padrão de relação racial só se concretizará historicamente a partir do
momento em que a população negra e mestiça da cidade consiga, em bloco,
situações de classe equivalentes às que são desfrutadas pela população
branca. O que significa o mesmo que admitir que isso sucederá quando a
ordem social competitiva estiver despojada das inconsistências econômicas,
sociais e culturais que se objetivam em torno das tendências de
concentração racial da renda, do prestígio social e do poder.
Em termos gerais, o busílis do “dilema racial brasileiro” – tal como ele
pode ser caracterizado sociologicamente através de uma situação histórico-
social de contato como a que predomina na cidade de São Paulo – reside
mais no desequilíbrio existente entre a estratificação racial e a ordem social
vigente que em influências etnocêntricas específicas e irredutíveis. No
entanto, o padrão de relação racial tradicionalista continha influências
sociodinâmicas etnocêntricas. E elas não desapareceram. Continuam fortes
e atuantes graças ao arcabouço social que preserva uma concentração racial
da renda, do prestígio social e do poder mais representativo de uma
“sociedade de castas” que de uma “sociedade de classes”.
Para os fins desta exposição, bastaria considerar alguns aspectos cruciais
dessa complexa situação. O preconceito e a discriminação surgiram na
sociedade brasileira como uma contingência inelutável da escravidão. Os
mores católicos proscreviam a escravidão do homem pelo homem. Além
disso, impunham ao senhor, como obrigação fundamental, o dever de levar
sua fé e a salvação ao escravo, o que os igualaria perante Deus. Para evadir-
se de tais obrigações ou torná-las inócuas, apelou-se para um processo
aberrante de racionalização sociocultural, que converteu a própria
escravidão numa relação aparentemente piedosa e misericordiosa. O
escravo seria um bruto, um ser entre as fronteiras do paganismo e da
animalidade, cuja existência e sobrevivência resultavam de uma
responsabilidade assumida generosamente pelo senhor. Por conseguinte, à
condição de escravo seria inerente uma degradação total, que afetaria por completo sua natureza biológica e psicológica. Como criatura “subumana”,
aparecia como “inferior” e “dependente”, impondo-se correlatamente a
condição social de senhor como um encargo material e moral. Tais
racionalizações, penosamente requeridas pelos mores religiosos, eram
duramente reforçadas por instituições tomadas ao direito romano, que
excluíam o escravo da condição de pessoa e conferiam ao senhor um poder
quase ilimitado. Nessa conexão de sentido, o preconceito contra o negro e o
seu descendente mestiço (pois a condição de coisa se transmitia pela mãe:
partus sequitur ventrem) configurava-se, socialmente, como uma entidade
moral. As marcas raciais possuíam, nesse contexto, um papel secundário ou
adjetivo, porque elas apenas serviam para indicar ostensivamente, como se
fossem um ferrete, os portadores da condição degradante e infamante de
escravo e, mais tarde, de liberto. No fundo, portanto, o preconceito, que se
tornava racial por uma contingência das origens biológicas dos escravos,
preenchia uma função racionalizadora. Cabia-lhe legitimar o que era
socialmente ilegitimável. Graças a ele, o senhor podia lidar liberalmente
com os mores de sua cultura e justificar-se moralmente, perante a sua
consciência religiosa e o consenso geral.
A discriminação, por sua vez, emergia e objetivava-se socialmente como
requisito institucional da relação senhor–escravo e da ordem social
correspondente. Como o fundamento da distinção entre o senhor e o
escravo procedia de sua condição social (e, portanto, de sua posição
recíproca), a discriminação se elaborou, primariamente, como um recurso
para distanciar socialmente categorias raciais coexistentes e como um meio
para ritualizar as relações ou o convívio entre o senhor e o escravo.
Palavras, gestos, roupas, alojamento, alimentação, ocupações, recreação,
ações, aspirações, direitos e deveres, tudo caiu no âmbito desse processo,
que projetou a convivência e a coexistência numa separação extrema, rígida
e irremediável de duas categorias sociais que eram, ao mesmo tempo, dois
estoques raciais. Além disso, os escravos formavam a massa da população, uma maioria potencialmente perigosa e, se pudesse explodir, incontrolável.
Eram, assim, percebidos e representados como “inimigos da ordem” pública
e privada. Para mantê-los sob o jugo senhorial e na condição de escravo,
acrescentava-se a violência como meio normal de repressão, de disciplina e
de controle. Nesse amplo contexto, não só as dimensões humanas do
escravo como “pessoa” foram ignoradas. Firmou-se o hábito inflexível de
colocá-lo e de mantê-lo em seu lugar, de forçá-lo violenta ou brandamente à
obediência e à passividade. Em suma, diferenciaram-se dois mundos sociais
distintos e opostos, entre dois estoques raciais que partilhavam de culturas
diferentes e possuíam destinos sociais antagônicos. Esses pontos precisam
ser retidos claramente, se se quiser entender a situação de contato racial
imperante no Brasil. As fontes de distinção e de separação não eram
primariamente raciais. Mas convertiam-se em tal, na medida em que atrás
do senhor estava o “branco” e, por trás do escravo, ocultava-se o “negro”
ou o “mestiço”.
É importantíssimo mencionar esses fatos. De um lado, porque eles
esclarecem as origens sociais remotas do preconceito e da discriminação
raciais no Brasil. De outro, porque eles delimitam as funções sociais e que o
preconceito e a discriminação raciais preenchiam na sociedade brasileira do
passado. Um servia para legitimar comportamentos e instituições
moralmente proscritos. Outro, para regular o convívio inter-racial,
submetendo todas as suas manifestações, mesmo as mais íntimas, a um
código ético verdadeiramente inflexível na preservação da distância
econômica, social e cultural existente entre o senhor e o escravo. Isso
sugere que, a partir de suas origens mais longínquas, o preconceito e a
discriminação possuem duas facetas. Uma, evidente, é estrutural e
dinamicamente social. O senhor e o escravo relacionam-se e opõem-se
como categorias sociais. Tanto o preconceito quanto a discriminação
vinculam-se, fundamentalmente, com a estrutura e o funcionamento de uma
sociedade de castas, na qual a estratificação racial respondia aos princípios de integração econômica e sociocultural da organização social. Outra,
menos aparente e dissimulada, é de cunho racial. Os senhores eram
extraídos do estoque racial branco e, em nome de seus interesses e valores
sociais, exerciam uma dominação social. O mesmo acontecia com os
escravos, selecionados no estoque racial negro ou entre mestiços, sem
interesses sociais autônomos e sujeitos a uma dominação social que era, ao
mesmo tempo, uma dominação racial.
A estratificação social pressupunha, pois, uma estratificação racial e a
ocultava. Como uma era inerente a outra, pode-se admitir a existência de
um paralelismo fundamental entre “cor” e “posição social”. No limite
histórico extremo, fornecido pela ordem social escravocrata e senhorial, os
princípios raciais como que se diluíam e desapareciam por trás dos
princípios sociais de integração da ordem social. Mas a análise pode
desfazer essa aparência, evidenciando as duas facetas da correlação entre
“estrutura social” e “estrutura racial” da sociedade. Doutro lado, em outras
polarizações esse paralelismo deixa de ser tão completo e as coisas ficam
evidentes por si mesmas. A importância da cidade de São Paulo, como caso
crucial para estudo do tema, consiste em que ela permite observar as várias
polarizações sucessivas desse paralelismo, desde a desagregação final do
antigo regime até a formação da sociedade de classes.
Pondo-se de lado a era da escravidão, que não nos interessa de imediato
nesta discussão, temos diante de nós três problemas marcantes. O primeiro
diz respeito à fase de transição, em que o padrão tradicionalista e
assimétrico de relação racial subsiste inalterado. O segundo refere-se ao que
acontece quando a ascensão social do negro provoca alguma espécie de
ruptura no paralelismo entre “cor” e “posição social”. O terceiro relaciona-
se com a existência ou não de probabilidades de incorporação do referido
paralelismo ao regime de classes sociais, o que redundaria na absorção da
desigualdade racial pela ordem social competitiva em expansão.
O primeiro problema pode ser ilustrado com o que ocorreu em São Paulo
entre 1888, data da Abolição, e 1930, aproximadamente. Nas condições
apontadas anteriormente, de exclusão quase completa da vida econômica
ativa, de desorganização social e de apatia, a população negra e mestiça
praticamente permaneceu num status equivalente ao do liberto na ordem
social escravocrata e senhorial. O padrão tradicionalista e assimétrico de
relação racial foi transferido em sua quase totalidade para a nova situação
histórico-social como se a alteração do estatuto jurídico do negro e do
mulato não se refletisse em suas prerrogativas sociais. Por sua vez, eles se
acomodavam passivamente às atitudes e aos comportamentos
preconceituosos ou discriminativos do branco, chegando, até, a se
desorientarem quando este agisse de forma diversa (digamos: “igualitária”
ou “democrática”). Ao mesmo tempo, os brancos, principalmente das
camadas altas ou em ascensão social, toleravam muito mal outro tipo de
reação por parte do negro e do mulato. Revelavam notável incompreensão e
extrema intransigência diante daqueles que “saíssem da linha”, pretendendo
tratar os brancos como se “fossem gente de sua laia”. Portanto, não era só o
padrão tradicionalista de relação racial que se mantinha em vigor. Toda a
estrutura social que o suportava, a ideologia racial que lhe dava sentido e as
funções sociais que ele preenchia preservavam-se com plena vitalidade no
plano das acomodações raciais.
Esses fatos são deveras significativos do ponto de vista sociológico. Eles
indicam duas coisas essenciais. Primeiro, que as inovações que afetam o
padrão de integração da ordem social nem por isso repercutem, de modo
direto, imediato e profundo, na ordenação das relações raciais. Onde
persiste o mundo tradicionalista brasileiro, é inevitável que sobreviva, mais
ou menos forte, o paralelismo entre “cor” e “posição social”, ainda que os
agentes humanos envolvidos neguem essa realidade. Segundo, o
preconceito e a discriminação raciais não emergem como subprodutos
históricos da alteração legal do status social do negro e do mulato. Ao contrário, a persistência de ambos constitui um fenômeno de demora
cultural: atitudes, comportamentos e valores do regime social anterior são
transferidos e mantidos, na esfera das relações raciais, em situações
histórico-sociais em que eles entram em choque aberto com os fundamentos
econômicos, jurídicos e morais da ordem social vigente. É preciso que se
note, neste passo, que as manifestações de preconceito e de discriminação
raciais nada têm que ver com ameaças por-ventura criadas pela
concorrência ou pela competição do negro com o branco, nem com o
agravamento real ou potencial das tensões raciais. Elas são expressões puras
e simples de mecanismos que mantiveram, literalmente, o passado no
presente, preservando a desigualdade racial ao estilo da que imperava no
regime de castas. Isso significa, naturalmente, que onde o tradicionalismo
se perpetua incólume, na esfera das relações raciais – por mais que se
propale o contrário – ele acarreta a sobrevivência tácita do paralelismo entre
“cor” e “posição social”.
O segundo problema merece maior atenção. Em dadas circunstâncias, o
negro e o mulato podiam sair da própria pele na ordem social escravocrata e
senhorial. Todavia, sob a condição de que se incorporassem ao núcleo legal
da família branca de prol ou que fossem aceitos como seus prepostos,
apaniguados, protegidos etc. Nesse caso, o indivíduo como que perdia,
parcialmente, sua identidade racial, e como que adquiria, também
parcialmente, a identidade social da família a que passava a dever sua
lealdade. Não se pode afirmar, como pensam muitos, que semelhante
alternativa acarretasse uma correção completa e definitiva da “cor” pela
“posição social”. Ao que parece, alargava-se, algumas vezes
consideravelmente, o âmbito de aceitação e de atuação social da “pessoa de
cor” no meio branco. Contudo, para muitos efeitos, o indivíduo precisava
saber guardar as aparências, mantendo-se “em seu lugar” quando fosse
necessário e desenvolvendo uma verdadeira política de sedução sistemática
dos ânimos daqueles brancos diante dos quais devia transigir incondicionalmente. Aí se equaciona um tipo de ascensão social, que se
poderia chamar de infiltração social propriamente dita. Através dele, abria-
se uma válvula de mobilidade vertical que, ao premiar o “mulato de talento”
ou o “negro notável”, produzia uma contínua e inexorável acefalização no
seio da “população de cor”. Tal mecanismo, não obstante, além de abranger
números reduzidos de personalidades, em nada contribuía para alterar a
situação racial ou para modificar a imagem do negro feita pelo branco. Os
personagens, selecionados por seus dotes singulares, eram manipulados
como “a exceção” que confirma a regra. O que eles fizessem de excepcional
não beneficiava a sua “raça”; era tido como algo que traía a influência ou a
herança psicobiológica e social do branco. Dizia-se, a respeito deles: “negro
de alma branca”, “negro só por fora”, “é branco por dentro”, “nem parece
negro” etc. Simultaneamente, se falhassem diante de alguma expectativa,
frisava-se: “logo se vê, negro quando não suja na entrada, suja na saída”,
“não se pode esperar outra coisa de um negro”, “é negro mesmo” etc. Ora, o
aparecimento de oportunidades estáveis de emprego e de ganho, bem como
de certas possibilidades de ascensão social, abertas pela ordem social
competitiva (especialmente nos últimos vinte anos), fizeram com que larga
parte das chamadas “elites de cor” ou “classes médias de cor” se
classificasse socialmente sem o bafejo do paternalismo do branco e sob
relativa independência dessa forma espúria de mobilidade social vertical.
Diante desse “novo negro”, o branco vê-se numa posição confusa e
residualmente ambivalente. O “novo negro” já é, em si mesmo, um tipo
humano relativamente complicado: possui uma mentalidade mais
secularizada e urbanizada, não teme a livre competição com o branco e,
sobretudo, pretende “vencer na vida” a todo custo. Rompe os cordões
materiais ou morais com seu “ambiente de origem”, negando-se a conviver
com os “negros pobres”, a respeitar a solidariedade agreste, que torna o
“negro rico” uma vítima indefesa dos amigos ou parentes “em
necessidade”, e a manter um nível de vida modesto. Refuga o “negro desleixado”, que seria o fator da eterna degradação do negro pelo branco; e
combate os movimentos sociais de cunho racial, assoalhando que o
“problema não é esse” e que eles podem se tornar contraproducentes, ao
despertar ilusões entre os próprios negros e ao fomentar a animosidade do
branco. Absorve e exagera a mentalidade do branco, que toma como
modelo de suas realizações, e põe em prática um puritanismo ingênuo, mas
duro, que o eximiria de qualquer crítica e o purificaria de qualquer fonte
extrapessoal de degradação moral. Cultiva a delicadeza e a afabilidade,
como técnica de suavização de suas atitudes autoafirmativas, mas também
como expressão do seu modo de ser, de pensar e de medir a grandeza
humana. Por fim, é intransigente diante dos brancos que pretendam
congelá-lo, aplicando-lhes o padrão tradicionalista de relação racial, pois as
anuências nessa esfera redundariam em perda dos proventos esperados – a
conquista do “lugar a que faça jus”. Visto em conjunto, ele se apresenta
como o principal agente humano de modernização das relações raciais na
cidade. Pois objetiva uma forma ativa e constante de repulsa às
manifestações tradicionais do preconceito e da discriminação raciais.
Através desse tipo humano, evidenciam-se três dados essenciais.
Primeiro, no momento em que o negro rompe com os estereótipos e com as
conveniências dissimuladas, impondo-se socialmente por seus méritos
pessoais, por sua riqueza e por seu prestígio, quebra-se inevitavelmente
uma das polarizações que permitia disfarçar o paralelismo entre “cor” e
“posição social”. Então, as linhas de resistência à cor se manifestam com
relativa clareza. O preconceito e a discriminação raciais sobem à tona sem
máscara. Não só algumas das restrições, que pareciam confusamente
associadas à posição social, precisam ser postas a nu em termos de cor.
Como, ainda, em situações competitivas o branco acaba tendo de apelar, de
modo mais ou menos aberto, para atitudes ou comportamentos que se
chocam com a tradição de decoro e envolvem o apelo ao etnocentrismo
como recurso de autodefesa. Segundo, algo oposto também se evidencia com nitidez, embora de forma aparentemente menos extensa e intensa. Os
brancos de propensão realmente tolerante e igualitária procuram amparar
esse “novo negro”, resguardando-o dos efeitos da pressão indireta e
estimulando-o a prosseguir em suas ambições. Mau grado certo grau
variável de ambivalência de atitudes e uma consciência deformada da
realidade racial, tais brancos hostilizam o farisaísmo do preconceito e da
discriminação raciais dissimuladas, ao mesmo tempo que procuram, embora
por vezes insatisfatoriamente, “dar a mão ao negro que merece”. Por isso,
como produto reativo da emergência do “novo negro” e pelo impacto de sua
personalidade ou de seu sucesso, alguns círculos da população branca
também se envolvem de maneira mais profunda na modernização dos
padrões vigentes de relações raciais. Terceiro, o meio negro propriamente
dito não reage uniformemente ao êxito do “novo negro”. Amigos e parentes
do mesmo nível social podem ficar entusiasmados e oferecer uma base
emocional e moral, que serve como uma espécie de caixa de ressonância e
de fonte de estímulos às pessoas em causa. No entanto, mesmo no próprio
nível social surgem apreciações mais ou menos malévolas, que minimizam
ou ridicularizam as pretensões e as realizações do herói. Nos demais
círculos de suas relações no meio negro, principalmente abaixo do nível
social adquirido, a reação dominante combina ressentimento com
satisfação. O êxito acaba levando à ascensão social e esta converte-se em
ruptura. Por isso, os antigos amigos e parentes ficam ansiosos; numa
estranha reação amorosa, condenam aqueles a quem amam. Fora e acima
das relações de caráter pessoal, porém, o êxito é enfatizado com
entusiasmo. Prevalece a ideia de que aquilo que um negro pode fazer outro
também pode. Forma-se, assim, um folclore do negro em ascensão, que
serve de estímulo aos que aspiram idênticos objetivos. Os próprios heróis
desse folclore, contudo, afastam-se do “antigo ambiente”, isolando-se do
seu meio originário e procurando construir, laboriosamente, o prestígio do
“negro direito”, de “posição social” e que “é gente”. Esta reação, mais ou menos típica, divorcia o principal elemento humano do meio negro das
grandes “massas de cor”, impelindo-o a ignorar a importância vital de
movimentos que poderiam redundar na aceleração da democratização das
relações raciais.
O terceiro problema coloca-nos diante de um enigma. É impossível prever
o que vai acontecer no futuro remoto, em matéria de relações raciais. Parece
provável que as tendências dominantes levem, a longo termo, à implantação
de uma autêntica democracia racial. De imediato, porém, certas ocorrências
repetidas fazem temer pelo desfecho dessas tendências. Pelo que vimos, o
fator verdadeiramente profundo, que produziu algumas alterações
significativas no contexto histórico-social das relações raciais, vem a ser o
desenvolvimento socioeconômico espontâneo. Ora, ele foi evidentemente
insuficiente, até hoje, para promover o reajustamento da ordem racial
herdada do passado aos requisitos da sociedade de classes. A tal ponto isso
é verdadeiro, que em muitos círculos sociais e, simultaneamente, nos
diversos grupos étnicos ou nacionais que o compõem existe nítida
propensão a dar acolhida e a pôr em prática velhos procedimentos
preconceituosos e discriminativos. Há quem tenha medo de perder prestígio
social “aceitando o negro”; há também os que só aceitam o negro na órbita
do convencional, afastando-se deles na área da verdadeira amizade e da
comunhão afetiva; há, por fim, os que sustentam a todo custo certas
representações arcaicas, repudiando qualquer possibilidade de incluir-se o
negro em posições que envolvam o exercício de liderança e de dominação.
Deixando-se de lado a questão do intercasamento, que esbarra com
resistências e avaliações quase incontornáveis na presente conjuntura, dados
como esses sugerem o tipo de risco que sobe à tona. A concentração racial
da renda, do prestígio social e do poder, as tendências muito débeis de
correção dos efeitos negativos que ela provoca inexoravelmente e as
propensões etnocêntricas e discriminativas poderão facilitar a absorção
gradual do paralelismo entre “cor” e “posição social” pelo regime de classes. Parece indubitável que essa ameaça existe. O pior é que ela
constitui uma realidade que só pode ser combatida de forma consciente e
organizada. E não parece que, mantidas as condições atuais, tal tipo de
reação societária encontre viabilidade histórica. Para os segmentos brancos
da sociedade, o que importa, vitalmente, não é o destino da democracia
racial, mas a continuidade e o ritmo de expansão da ordem social
competitiva. Mesmo o problema da democracia em nível político não se
coloca como um dilema para esses círculos humanos. Os segmentos negros
e mulatos da sociedade, por sua vez, não possuem elementos para
desencadear e generalizar o estado de espírito por uma defesa consciente,
sistemática e organizada da democracia racial. Os seus setores pobres, por
absoluta falta de meios apropriados; as chamadas “elites de cor”, porque
elas não percebem ou se percebem não acham vantajoso comprometerem-se
diante de semelhantes objetos que afetam mais o futuro da comunidade que
o presente delas próprias. Por conseguinte, a democracia racial fica
entregue ao seu destino, sem ter campeões que a defendam como um valor
absoluto. Se a formação e o desenvolvimento espontâneo das classes sociais
enredarem a desigualdade racial na desigualdade inerente à ordem social
competitiva, então ela estará fatalmente condenada. Continuará a ser um
belo mito, como se dá na atualidade.
As considerações expostas apanham apenas alguns aspectos das
manifestações e dos efeitos do preconceito e da discriminação nas relações
raciais. Mas esses aspectos são suficientes para atestar o que pretendíamos:
como e por que a ordem social competitiva não absorveu e eliminou, rápida
e definitivamente, o padrão de relação racial herdado do passado senhorial e
da escravidão. É que os homens e as sociedades que eles formam nem
sempre se modernizam por inteiro. Às vezes, elementos e fatores arcaicos
continuam a existir e a operar além de sua era histórica, exercendo
influências negativas na evolução da personalidade, da cultura e da própria
sociedade. Esse parece ser o caso de São Paulo, embora ela seja a cidade mais moderna e desenvolvida do Brasil. Na esfera das relações raciais, ela
ainda está muito comprometida com o passado, indecisamente imersa num
período de transição que se prolonga indefinidamente, como se os negros
devessem aguardar para se igualarem aos brancos, o advento espontâneo de
uma Segunda Abolição51.
Conclusões
Os resultados da presente análise são óbvios. Eles mostram-nos, de um
lado, que existe um dilema racial brasileiro e que ele possui um caráter
estrutural. Para enfrentá-lo e corrigi-lo, seria preciso mudar a estrutura da
distribuição da renda, do prestígio social e do poder, estabelecendo-se um
mínimo de equidade econômica, social e cultural entre “brancos”, “negros”
e “mulatos”. Também revelam, de outro lado, que a emergência e o
desenvolvimento de uma ordem social competitiva não constituem, em si
mesmos, garantia de uma democratização homogênea da renda, do prestígio
social e do poder. As oportunidades que os dois processos histórico-sociais
criam são aproveitadas de forma desigual pelas diversas categorias sociais e
raciais em presença. A experiência histórica analisada comprova que as
categorias sociais melhor localizadas na estrutura econômica, social e de
poder tendem a monopolizar as vantagens reais e a capitalizar os proventos
verdadeiramente compensadores da mudança social. Em consequência, a
democratização inerente aos dois processos contêm duas faces. Uma delas
deixa patente que as grandes massas têm acesso a certos benefícios gerais,
que melhoram sua participação em nível médio de renda, de padrão de vida
ou de uso do poder político. Outra deixa patente que pequenos grupos se
inserem mais ou menos privilegiadamente nesse processo, mantendo ou
alcançando níveis de participação da renda, do padrão de vida ou de uso do
poder político que ultrapassam as proporções médias. Nesse sentido, nas
fases de formação e de expansão inicial da ordem social competitiva
surgem tendências muito fortes de agravamento das desigualdades econômicas, sociais e políticas, em termos de classe, de raça ou de região.
A persistência ou a eliminação gradual dessas desigualdades passam a
depender do modo pelo qual as demais categorias sociais reagem,
coletivamente, às deformações que assim se introduzem no padrão de
integração, de funcionamento e de evolução da ordem social competitiva.
Esses aspectos da realidade sugerem, queiramos ou não, um quadro
realmente complexo, no qual se elevam dois problemas centrais. Um deles
diz respeito aos tipos de homens que “fazem a história”. De que camadas
sociais eles são extraídos, o que eles representam em termos de interesses
econômicos, sociais ou políticos e de identidades ideológicas, nacionais ou
raciais? No caso em apreço, tais homens provinham de categorias sociais
muito diversas – representantes das antigas elites ou seus descendentes,
imigrantes ou seus descendentes, elementos selecionados em populações
nacionais migrantes etc. Todos tinham em comum a ânsia do
enriquecimento, da conquista do êxito e do exercício do poder. Para eles, os
valores ideais da ordem social competitiva não possuíam nenhuma sedução.
Limitavam-se a manipulá-la como um meio para atingir aqueles fins de
forma racional, rápida e segura. Portanto, eles “fizeram história”, mas
ignorando a coletividade e os seus problemas humanos. Expurgaram a
equidade de seu horizonte cultural e, com isso, não tinham perspectiva para
aquilatar o drama humano do negro (ou outros dramas igualmente
pungentes e dignos da “ação histórica”). Desse ângulo, verifica-se não só
que o negro deixou de contar no processo histórico, como se fosse banido
da vida social comum. Descobre-se algo pior: a democracia, que fornece ao
mesmo tempo o suporte jurídico-político da ordem social competitiva e sua
única fonte de controle moral, deixou de inspirar exatamente àqueles que
“faziam a história”.
Outro problema refere-se à modernização (e, em particular, às suas
repercussões no plano das acomodações raciais). É difícil que a
modernização possa alcançar proporções equilibradas, igualmente extensas e profundas em todos os níveis da vida social organizada. Ela acompanha o
poder relativo e a vitalidade dos grupos interessados em determinadas
mudanças socioculturais e progride em virtude da capacidade que eles
logram de concretizá-las historicamente. Por isso, a cidade de São Paulo
conheceu uma rápida transformação de sua fisionomia urbana e de sua
organização econômica, enquanto ficou variavelmente presa ao passado em
outras esferas das relações humanas ou do desenvolvimento institucional.
As relações raciais se incluíram neste último setor, apresentando um índice
de estagnação surpreendente e perigoso. Para que semelhante situação se
altere, é preciso que ocorra, com elas, o mesmo que sucedeu em face de
outras esferas da vida social que se modernizaram rapidamente: os grupos
humanos diretamente afetados (ou interessados) devem tomar consciência
social dessa situação e tentar modificá-la de forma organizada. Isso
significa, em outras palavras, que é do próprio negro que deveria partir a
resposta inicial ao desafio imposto pelo dilema racial brasileiro. Ele precisa
mobilizar-se para defender alvos imediatos: uma participação mais
equitativa nos proventos da ordem social competitiva; e para visar alvos
remotos: a implantação de uma autêntica democracia racial na comunidade.
Agindo socialmente nessa direção, ele despertaria os brancos, dos diferentes
níveis sociais, para o alcance de uma causa da qual depende, de maneira
notória, o funcionamento e o desenvolvimento balanceados da ordem social
competitiva.
Desta perspectiva, compreende-se melhor o quanto a modernização das
relações raciais depende do grau de racionalidade e da capacidade de
atuação social de certos grupos humanos. Bloqueado pela ideologia racial
elaborada pelos brancos e seduzido pelo afã de “pertencer ao sistema” – isto
é, de identificar-se como possível ao próprio branco – o negro permanece
historicamente neutro, negando-se como fator humano de mudanças
socioculturais que tem de gravitar, fatalmente, em torno de suas
insatisfações e aspirações histórico-sociais. Assim, ele aparece como a principal vítima da cadeia invisível, resultante da persistência do passado.
Torna-se incapaz de interagir socialmente, de maneira positiva, com as
exigências do presente e deixa de afirmar-se, na medida do possível, em
defesa e na construção do seu futuro humano.
Referências bibliográficas
O leitor interessado encontrará, nas duas obras seguintes, fundamentação
empírica e interpretativa para as considerações sociológicas expendidas
neste trabalho, bem como referências bibliográficas sobre outras
publicações, pertinentes ao assunto: Roger Bastide e Florestan Fernandes,
Brancos e negros em São Paulo (2. ed., São Paulo, Cia. Editora Nacional,
1959; 1. ed., 1955); Florestan Fernandes, A integração do negro à
sociedade de classes (São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
da Universidade de São Paulo, 1964).
50 Trabalho apresentado à Conference on Race and Color, organizado por The American Academy of Arts and Science e The Congress for Cultural Freedom; e realizado em Copenhagen, entre 6 e 11 de setembro de 1965. Publicação prévia pelos organizadores da conferência em inglês e francês. Publicação definitiva in John Hope Franklin (org.), Color and race, Boston, Houghton Mifflin Company, 1968, p. 282-301.
51 Expressão tomada de manifestações de intelectuais negros racialmente inconformistas.
OceanofPDF.com