O Negro no Mundo dos Brancos
O Teatro Negro
Capítulo IX
O Teatro Negro115
O lançamento de uma coletânea de peças teatrais, organizada por Abdias
do Nascimento,116 obriga-nos a pensar de novo o teatro negro brasileiro ou,
pelo menos, a relação que o teatro possa ter com os problemas humanos do
negro no Brasil. Nesse livro, não é sem um rompante de orgulho que
Abdias desvenda que “os antecedentes mais remotos de textos para negros,
formalmente elaborados, estão no teatro grego. Ésquilo escreveu As
suplicantes, odisseia das cinquenta filhas de Danau, trigueiras de pele,
queimadas pelo sol do Nilo”; e que as últimas tentativas de construir esses
textos encontram representantes negros, incluídos em sua coletânea, através
de Rosário Fusco, Romeu Crusoé e ele próprio, e outros dramaturgos, como
Nelson Rodrigues, Tasso de Oliveira, Agostinho Olavo, Lúcio Cardoso,
Joaquim Ribeiro e José de Morais Pinho, brancos “duma perspectiva de
sentido popular” (p. 23-24).
Esse livro contém rica contribuição à compreensão do negro e dos véus
com que o branco encobre uma realidade racial pungente; e bem poderia ser
visto como uma “documentação” para a análise psicológica e sociológica
das tensões e conflitos raciais no Brasil. Contudo, gostaria de abordar
aspectos que assumem maior importância histórica para nós, porque
definem melhor o que devemos esperar da inteligência negra em formação
e afirmação. Seja-me permitido começar com uma citação, talvez extensa,
mas necessária: “A literatura dramática para os negros está em plena fase de
criação, e, certamente, não é estranho a esse fenômeno a era nova que o país
atravessa, de desenvolvimento e autoconscientização. Sem dúvida, estamos
assistindo ao encerramento da fase do caos para o negro ex-escravo.
Assumindo, no Brasil, as consequências e as implicações que a Negritude contém, ele afia os instrumentos da sua recusa, engendrada na espoliação e
no sofrimento: recusa da assimilação cultural; recusa da miscigenação
compulsória; recusa à humilhação; recusa à miséria; recusa à servidão. O
Teatro Experimental do Negro é isto: um instrumento e um elemento da
negritude. Seu único valor absoluto é a generosidade” (p. 25).
Essas afirmações partem de Abdias do Nascimento e levam-nos,
diretamente, para a problemática do teatro experimental do negro. As peças
reunidas na coletânea seriam, por assim dizer, um episódio, ligado à
contingência das relações entre meios e fins. O essencial não é a peça
teatral, mas o drama coletivo de uma “raça” e de seus descendentes
mestiços. Sem dúvida, ele tem razão. Os “dramas para negros”, escritos por
negros ou por brancos, são testemunhos. Eles indicam o que os homens
pensam e, de forma mais sutil, o que a sociedade faz com o seu
pensamento. Todavia, tomando-se em conta as peças coligidas (para só
depois voltarmos ao assunto central), parece que estamos longe do
equacionamento normal do que é a Negritude para os poetas negros da
língua francesa. Para falar com franqueza, sempre encarei a Negritude
como um produto intelectualístico. Isso não quer dizer que a considere algo
artificial e inútil; ao contrário, ela foi o caminho pelo qual se criou a
consciência revolucionária da condição do negro, em face da dominação
colonial, dos dilemas morais da civilização cristã e tecnológica e do destino
do mundo negro, liberado das fontes de sua alienação humana e da
vergonha aniquiladora dos “outros”. Se não quisermos confundir as coisas,
devemos ser claros: a Negritude, associada à poesia negra que encontrou
seu veículo na língua francesa, foi também favorecida por outras condições
intelectuais, que converteram certos poetas negros de nossa era em alguns
dos maiores poetas de todos os tempos. Sartre percebeu com grandeza esse
fato. Embora suas variações sobre a Negritude não nos convençam, pelo
menos quanto à necessidade e à universalidade do fenômeno, ele apontou
com lucidez: 1º) o que a condição humana do negro representou para o aparecimento e o florescimento de uma poesia revolucionária, que rompe
todos os limites dos padrões estéticos e poéticos dos brancos (e mesmo da
língua francesa, onde ela lhe serviu de veículo); 2º) o que significa essa
poesia como forma de consciência, de luta e de superação, pela qual o negro
reivindica o seu passado, toma sobre si a responsabilidade do seu destino no
presente e procura fundir esse destino à coexistência com seus algozes no
futuro, sem dar as faces a beijar e sem nenhum falso puritanismo, como um
ato puro de vitalidade e de confiança nos “estilos africanos de vida”. “À
absurda agitação utilitária do branco, o negro opõe a autenticidade recolhida
de seu sofrimento; por ter desfrutado o horrível privilégio de tocar no fundo
da desgraça, a raça negra é uma raça eleita”.117 Aqueles poetas apareceram
como vates de uma “raça eleita”, para expurgá-la e redimi-la. Só a poesia
poderia fornecer meios para elevar de tal modo o homem na idade da
máquina. Só o poeta negro poderia recuperar e retemperar os dons criadores
da intuição genuinamente poética.
Agora, como vincular a literatura dramática brasileira a esse clima
intelectual, com suas complexas raízes culturais e suas delicadas
complicações morais? Quem leia a coletânea de Abdias do Nascimento
logo constata uma coisa: os dramaturgos são negros e brancos, ainda que se
possa, legitimamente, duvidar da “negritude” dos que são negros e da
“branquitude” dos que são brancos, dentro de nossas concepções de “raça”
e de “cor”. A mim isso sugere algo incontestável: o intelectual negro
brasileiro tem de preparar-se para um desafio bem mais difícil que aquele
com que arrastou o poeta negro das rebeliões africanas e das lutas
anticolonialistas. Doutro lado, o intelectual branco brasileiro não pode
ignorar esse desafio e voltar-lhe as costas, porque estamos todos
empenhados em compreendê-lo, defini-lo e superá-lo, para realizarmos de
forma autêntica e completa a representação do homem inerente à
civilização pela qual propugnamos historicamente. Aí se colocam questões
quase impossíveis. O branco consciente da situação histórico-cultural brasileira tem de resguardar as condições que permitam ao negro ser mais
negro entre nós, não para separá-lo de si – mas para respeitá-lo, para
conquistar uma perspectiva da qual possa valorizá-lo como ho-mem e amá-
lo como criatura humana. E a recíproca é verdadeira. O negro precisa lutar
para ser aceito como negro, preservar sua concepção do homem e sua
herança cultural. Não para segregar-se, mas para fundir-se e perder-se, sem
disfarçar-se ou ser destruído, no fluxo de crescimento de uma Nação que
ainda se envergonha das grandezas de suas origens étnicas, raciais e
culturais.
Nesse sentido, seria possível compreender e explicar a preocupação do
intelectual brasileiro pela Negritude – como um estado de espírito de
redenção do branco, no sentido evangélico, e de ascensão do negro a tudo o
que lhe foi proibido ou negado. Contudo, como já aconteceu nas diferentes
fases da luta antiescravista, esse estado de espírito tem de ser universal na
sociedade brasileira. No passado, “lutar pelo negro” constituía um mandato
da raça branca, como a ele se referiu Nabuco; hoje, “lutar pelo negro” é
uma missão com que se defrontam os próprios negros, embora as suas
aspirações nos afetem tanto quanto a eles próprios e nós façamos, ativa ou
passivamente, parte do processo que se desenrola aos nossos olhos. Nesses
termos, solidariedade e integração representam, meios e alvos, e nenhum
branco está isento de compartilhar das opções que dão sentido ao “protesto
negro”, configurando-o como realidade histórica. Analisando as peças
teatrais reunidas em Dramas para negros e prólogos para brancos à luz de
semelhantes convicções, deduzi que é inviável outra fórmula, qualquer que
ela seja, para a situação brasileira. Na verdade, Romeu Crusoé, Rosário
Fusco e Abdias do Nascimento, os três dramaturgos “negros”, não atingem
senão o que Sartre caracterizou como modalidades de “negritude objetiva”:
a valorização da experiência humana e de suas fontes psicológicas, sociais e
culturais no mundo do negro. Ora, todas as demais peças, de autores
“brancos”, não fazem outra coisa, mesmo a tentativa de “recuperação folclórica” contida em Aruanda. Por curioso que seja, onde o jogo dos
símbolos poderia nos levar acidentalmente mais longe, como em O filho
pródigo, em Sortilégio e em Anjo negro, temos de novo o “branco”
irmanado com o “negro” na busca de uma penetração mais profunda no
cosmos moral produzido pela miscigenação e pelas injustiças flagrantes ou
disfarçadas da “democracia racial” brasileira.
Tudo isso nos leva, naturalmente, a ter de refletir sobre o próprio
problema do teatro negro no Brasil. A ideia de um teatro experimental
nasce de uma formulação moderna e positiva: a questão está em saber como
manejá-la. A rigor, o teatro que possuíamos (excetuando-se certas
manifestações de teor folclórico ou popularesco e a presença deformada ou
autêntica do negro no antigo teatro erudito brasileiro), como as demais
manifestações intelectuais, era de brancos e para brancos. Engendrar um
teatro negro significa dar oportunidade de formação e de afirmação
artísticas ao negro – algo em si mesmo revolucionário, que implicava
revisões de estereótipos negativos para o negro e na eliminação progressiva
de barreiras que proscreviam o negro de nossa vida intelectual produtiva e
criadora. Mas um teatro experimental tem de visar a outros fins. Ou seja, ao
dar canais de expressão à capacidade criadora do negro e ao redefinir
representações sobre suas aptidões intelectuais ou morais, ele precisa
concorrer para modificar alguma coisa em determinada direção. Isso
levanta várias questões, ligadas à elaboração dos dramas, à composição dos
auditórios e às influências educativas do teatro.
Por várias vezes refleti seriamente sobre esse assunto e nunca consegui
aliviar-me de certas perplexidades. Um dos pontos que me preocupou
deveras diz respeito à ligação entre o teatro erudito e o teatro popular, com
suas implicações operativas: se há grande interesse em atrair para esse
teatro todos os brasileiros, há interesses especialíssimos de fomentar o
comparecimento em massa do negro e de expandir as bases de recrutamento
do artista negro nessa massa de espectadores. Nesse caso, o teatro deveria ser ainda mais revolucionário, quebrar as cadeias que o prendem ao nosso
teatro europeizado ou norte-americanizado, tornando-se na medida do
possível espontâneo, muito plástico e recuperando elementos da tradição
africana que inseriam o drama diretamente nas condições tribais e de
existência. Outro ponto vincula-se ao conteúdo desses dramas. Há a
preocupação de evitar-se o “exótico”, como estilização ou como estímulo
estético; mas onde se tem explorado com vigor o incentivo pela tomada de
consciência? Onde o desmascaramento ou a descrição simbólica foram
mais longe, ambos permaneceram na periferia, em grande parte porque se
resolveram os problemas da representação pelo artista negro, mas não se
tinha possibilidade sequer de equacionar o outro problema, o do auditório e
da participação do negro no público orgânico do teatro brasileiro. Por fim, a
própria função ultraestética desse teatro impõe-se como acintoso desafio.
Está certo que temos de pensar no homem brasileiro – e não no “branco” ou
no “negro”. Porém, segundo que medidas? O “branco” muitas vezes
procura uma catarse, uma justificação ou uma compensação; e o “negro” –
o que o teatro deve oferecer-lhe como incentivo, fonte de reeducação e
meio de integração na liberdade? Ao ler esse belo livro, constatei que essas
perplexidades respondem a motivos e a causas difíceis de alterar, porque
provêm de uma situação histórico-cultural que se transforma com
demasiada lentidão e muito pela rama. Em contrapeso, o negro marca a sua
presença, conduzindo o teatro em novas direções, propondo novos liames
entre a vida e a arte.
115 Publicação prévia: O Estado de S. Paulo, Suplemento Literário, nº 268, 10/2/1962.
116 Abdias do Nascimento, Dramas para negros e prólogo para brancos, Antologia de Teatro Negro-Brasileiro, edição do Teatro Experimental do Negro, Rio de Janeiro, 1961; contém: “prólogo para brancos”, de Abdias do Nascimento, p. 7-27; e as seguintes peças: O filho pródigo, de Lúcio Cardoso; O castigo de Oxalá, de Romeu Crusoé; Auto da noiva, de Rosário Fusco; Sortilégio, de Abdias do Nascimento; Além do Rio (Medea), de Agostinho Olavo; Filhos de santo, de José de Morais Pinho; Aruanda, de Joaquim Ribeiro; Anjo negro, de Nelson Rodrigues; O emparelhado, de Tasso de Oliveira.
117 Jean-Paul Sartre, “Orfeu negro”, Reflexões sobre o racismo, trad. de J. Guinsburg, São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1960, p. 137.
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