O Negro no Mundo dos Brancos

Florestan Fernandes · Capítulo 2 de 15

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O Negro no Mundo dos Brancos

Introdução

 

Este livro reúne vários escritos, publicados em períodos diferentes. A

maioria foi redigida entre 1965 e 1969. No entanto, alguns foram

elaborados em época mais distante (em 1942 e 1943 ou em 1951 e 1958). O

tema central e dominante consiste sempre na situação do negro e do mulato

na sociedade brasileira, vista a partir de São Paulo. Esta cidade é mais

tipicamente brasileira do que parece, no sentido do que foi tradicional ou,

no oposto, do que é moderno, oferecendo um bom campo para o estudo do

padrão brasileiro de relações raciais. Como se pode ver, através dos livros

de A. Taunay, H. de Freitas, A. Ellis Jr., R. Morse, E. Silva Bruno, G. Leite

de Barros e tantos outros, a cidade teve um longo passado de vida

tradicional, da qual despertou para urbanizar-se e industrializar-se

rapidamente e para se converter em uma “metrópole tentacular”. Por isso,

nela deparamos com as duas dimensões, que articulam as experiências e

contatos raciais seja ao tronco comum do regime escravocrata e senhorial,

seja às transformações mais avançadas da “sociedade competitiva” e da

“civilização industrial” no Brasil.

Por essa razão, quando planejamos nossa investigação, o professor Roger

Bastide e eu demos grande atenção aos dois focos (vistos e ligados como

tendências que chegam a tornar-se concomitantes, em um processo contínuo

– e não como polos extremos e estanques de um suposto gradient

sociocultural, situado fora e acima do tempo e do espaço, como é de gosto

de uma sociologia descritiva, que teve a sua voga no Brasil). Também não

tentamos explicar o presente pelo passado, o que seria irreal numa

sociedade de classes em formação e em rápida expansão. Porém,

combinamos a análise sincrônica à análise diacrônica, num modelo quase

dialético de fusão da perspectiva histórica com a perspectiva estrutural-

funcional. Em consequência, o passado e o presente foram reconstruídos conjuntamente e interligados nos pontos de junção, em que a sociedade de

classes emergente lançava suas raízes no anterior sistema de castas e

estamentos ou nos quais a modernização não possuía bastante força para

expurgar-se de hábitos, padrões de comportamento e funções sociais

institucionalizadas, mais ou menos arcaicos. Assim, tornou-se possível

compreender como o preconceito e a discriminação raciais, no modo

segundo o qual se manifestam no Brasil, se explicam diferentemente,

segundo se considere a organização da sociedade senhorial e escravocrata;

os efeitos da lentidão com que negros e mulatos foram incorporados ao

sistema de classes; ou os complexos de valores, atitudes e orientações de

comportamento vinculados aos estilos de vida dos diversos segmentos

sociais ou dos vários grupos étnicos e raciais, mais ou menos determinados

por situações de classes, consolidadas ou não. A intenção foi ligar a

desintegração do sistema de castas e estamentos à formação e à expansão

do sistema de classes, para descobrir como variáveis independentes,

constituídas por fatores psicossociais ou socioculturais baseados na

elaboração histórica da “raça” ou da “cor”, poderiam ser e foram realmente

recalibrados estrutural e dinamicamente. Há, por trás dessa posição

interpretativa, uma arrojada atitude científica, que impunha aos autores que

o complexo “cadinho de relações raciais” (que se constituiu e se

transformou, complicando-se incessantemente, em torno da cidade), fosse

considerado como um fato total, ou seja, sob todos os aspectos que

pudessem ser relevantes para uma descrição sociológica e uma

interpretação causal focalizadas sobre certos problemas fundamentais.

Algumas análises, que não puderam ser cabalmente completadas nos

trabalhos em cooperação com Roger Bastide, foram retomadas em obra

posterior, escrita com sua generosa anuência. Apenas os materiais relativos

aos aspectos psicológicos, explorados tangencialmente nas abordagens

desenvolvidas ou nelas discutidos de forma limitada, sofreram uma

exploração que não faz jus aos materiais recolhidos.25

Os ensaios aqui reunidos não foram redigidos conforme um propósito

preestabelecido. Preparados ao sabor das circunstâncias, eles giram,

predominantemente, em torno dos resultados empíricos e teóricos da

pesquisa feita em São Paulo, com Roger Bastide. Embora eu tenha

suplementado a pesquisa posteriormente, colhendo mais material de campo

e dando maior atenção às coleções de jornais do “meio negro” ou às fontes

estatísticas, o fulcro das questões debatidas acha-se no projeto inicial da

investigação.

Os seis primeiros trabalhos e o último capítulo prendem-se diretamente à

temática daquele projeto, embora a natureza do “problema racial brasileiro”

seja considerada de uma forma mais livre, direta e abstrata, em virtude dos

tipos de público a que se destinavam. Eles contêm uma contribuição nova

em dois pontos. Primeiro, porque focalizam a nossa peculiar resistência ao

reconhecimento das “barreiras de cor” e a nossa negligência típica do

“impasse racial” de forma específica. Partindo dos resultados da

investigação, era possível movimentar a discussão com maior liberdade e ir

mais ao fundo das coisas, através de reflexões que são por assim dizer

pedagógicas. O conhecimento produzido tem a sua lógica e ela poder ser

explorada racionalmente: no primeiro livro, com Bastide, e no segundo

livro, a verdade consistia numa verdade empiricamente aproximada. A

verdade assim estabelecida abre novos caminhos ao entendimento da

situação e, quiçá, sua transformação. O sociólogo, considerado

individualmente, pode fazer muito pouco em ambas as direções. Consciente

disso, aumentei o meu esforço numa direção educativa, em si mesma

visceralmente contrária à perpetuação do nosso farisaísmo racial. Segundo,

porque tentei empreender uma sondagem horizontal, com os precários

dados estatísticos disponíveis, com o intuito de verificar os limites dentro

dos quais a extrema desigualdade racial existente em São Paulo vem a ser

mais geral do que se supõe, repetindo-se em outras unidades da federação.

O que se conhecia sobre a universalização do trabalho escravo e do padrão básico de relação racial assimétrica fazia presumir que a concentração

“racial” da renda, do prestígio social e do poder constituía um fenômeno

generalizado. Os resultados da sondagem comprovaram a hipótese,

demonstrando que a maior miscigenação e a maior visibilidade do “negro”

e do “mulato”, em condições de suposta tolerância humana “ideal”, não se

associam a transformações estruturais significativas na participação racial

(e, portanto, na estratificação racial).

Em consequência, temos de admitir que o mito da democracia racial

fomenta outros mitos paralelos, que concorrem para esconder ou “para

enfeitar a realidade”, e que esses mitos são perfilhados sem base objetiva,

mesmo pelos “negros” e pelos “mulatos”. Se as evidências pertinentes à

Bahia, Pernambuco e Minas Gerais, por exemplo, suscitam reflexões

amargas, o que dizer dos dados relativos ao Rio de Janeiro? Costa Pinto

havia considerado as tendências descritas com grande penetração e

honestidade científica. Todavia, os dados sobre a participação educacional

(ou, seria melhor dizer, a falta de participação educacional) sugerem um

quadro sombrio (frequentemente suscitado em vão pelos esporádicos

movimentos sociais que eclodiram no “meio negro” carioca). O que é

surpreendente, para mim, é que na pesquisa efetuada em São Paulo ouvimos

uma frequente romanticização do Rio de Janeiro e das presumíveis

“melhores condições humanas” abertas ao negro e ao mulato, seja em

termos de tratamento pessoal, seja em termos de oportunidades concretas de

ascensão social e da acomodação inter-racial “democrática”. Essa

comparação entre estados presumivelmente tão diferentes levanta um

problema fundamental para futuras investigações: até que ponto o “negro” e

o “mulato” estão socializados não só para tolerar, mas também para aceitar

como normal e até endossar as formas existentes de desigualdade racial,

com os seus componentes dinâmicos – o preconceito racial dissimulado e a

discriminação racial indireta? A perpetuação indefinida do status quo racial

brasileiro possui dois polos. Os efeitos estáticos das orientações de comportamento dos “brancos”; e uma modalidade de acomodação racial,

por parte dos “negros” e dos “mulatos”, que já descrevi como capitulação

passiva. A substância do equilíbrio racial da sociedade brasileira procede do

modo pelo qual os dois polos se articulam com um mínimo de fricção (uma

fricção que pode, inclusive, ser identificada, condenada e absorvida, sem

nenhuma alteração da ordem racial existente). Ora, enquanto persistir esse

padrão de equilíbrio, persistirá a desigualdade racial, pois a ascensão do

“negro” e do “mulato” se dará dentro de um processo de acumulação de

vantagens que privilegia o “branco”. Doutro lado, ele manterá os dois

ingredientes da anulação do “negro” e do “mulato”: a) o solapamento e a

neutralização dos movimentos sociais voltados para a democratização das

relações raciais e, em consequência, para uma efetiva igualdade entre as

“raças”; b) o fortalecimento das técnicas de acefalia dos estratos raciais

heteronômicos ou dependentes (os tão conhecidos mecanismos de

mobilidade social seletiva, numa linha ultraindividualista, e de aceitação e

compensação dos “negros” e “mulatos” que funcionam como a exceção que

confirma a regra). Ambos os ingredientes trazem consigo formas invisíveis

de corrupção, já que quebram as lealdades de cunho social, étnico ou racial

que se identificam com os interesses da “coletividade negra” e convertem a

“democracia racial” existente em um bom negócio para os indivíduos que

usufruem a condição de exceção que confirma a regra. Nessas condições, o

aparecimento e a influência de movimentos sociais de “protesto negro” é

quase um milagre e a sua sobrevivência se torna impossível. Não há espaço

econômico, sociocultural e político para “defender a causa”. Os

movimentos surgem e se afirmam no vazio político das grandes

transformações da sociedade inclusiva, decaindo e desaparecendo

posteriormente, por falta de suporte no “meio negro”. Eles não podem

expandir-se e crescer por si próprios, não logrando vencer, ao mesmo

tempo, a hostilidade ou a incompreensão do pólo “branco” e a inatividade

do polo “negro”. Nesse sentido, não são apenas os “brancos” que bloqueiam a desintegração da ordem racial superposta à ordem social da sociedade

nacional brasileira. Embora desejem igualdade racial, justiça e

reconhecimento, o “negro” e o “mulato” estão na raiz da neutralização do

impacto racial de processos acelerados de mudança social progressiva.

Os outros seis ensaios estão presos a motivos mais heterogêneos e

fortuitos. Eles focalizam a significação das pesquisas sociais recentes sobre

relações raciais; ventilam alguns dilemas do poeta negro ou do teatro que se

pretende voltar para o negro; e situam temas relacionados com a presença

do negro em nosso folclore e nos quadros da religião popular. Esses

trabalhos têm vinculações explícitas ou implícitas com os outros sete

ensaios. Quando menos, porque possuem o denominador comum, nascido

das preocupações morais e políticas de quem os escreveu. Mas eles são

úteis aos leitores que se interessam pela “conta redonda”. Mais que nos

outros ensaios, neles se evidenciam certos “porquês”. Por exemplo, se a

pesquisa sociológica pode penetrar mais profundamente as orientações do

comportamento coletivo se ela se excluir da problemática material e moral

dos agentes humanos estudados e dos processos de que eles participam, de

transformação de suas condições de existência (tenham êxito ou não).

Doutro lado, teríamos um mau conhecimento dos fatos se nos ativéssemos

às manifestações restritas do preconceito e da discriminação raciais. Não

veríamos a situação global nem poderíamos ver o homem total. Em nossa

pesquisa, o que havia de fundamentalmente idêntico, nas motivações de

Roger Bastide e nas minhas: sempre pretendemos atingir primeiro o homem

e suas condições gerais de existência; e, em seguida, penetrar, pelos

meandros da psicologia individual e dos grandes processos da sociedade

global, o confronto das raças e os seus limites. Por isso, demos tanta

importância ao estudo de caso, às histórias de vida, à reconstrução histórica

e às informações quantitativas disponíveis, como o ponto de partida da

análise de substrato, que imprimiria sentido ao estudo intensivo de situações

concretas de convivência de “brancos” e “negros”. A poesia, o teatro e a religião permitem chegar ao homem negro, às suas ambições e frustrações

mais profundas, e ao que há de irremediável e de irredutível no

empobrecimento humano e cultural de uma sociedade que converte a

democracia racial em um falso idealismo. Além disso, todos esses temas –

com a orientação imprimida à coleta de dados: pesquisamos brancos e

negros, porém criamos situações individuais e coletivas para ouvir

intensamente negros e mulatos, aprender com eles e ganhar uma

compreensão profunda de sua visão da sociedade brasileira – indicam que a

condição humana do “negro” e do “mulato” não foi subestimada. Não

fizemos, como alguns supuseram depois, tábula rasa da herança cultural,

das orientações de valor e das identificações psicossociais predominantes

no “meio negro”. Se certos materiais não foram utilizados ou explorados, de

forma visível, isso não se deve a que eles tenham sido ignorados. É que,

postos em xeque, eles não se revelaram explicativos, tendo-se em vista as

manifestações descritas do preconceito e da discriminação raciais. Os que

pensam que há algum fundo de veracidade nas expectativas e estereótipos

que justificam as atitudes, as orientações de comportamento e as avaliações

raciais dos “brancos”, provavelmente procuram nos elementos ancestrais da

cultura e do comportamento do negro uma explicação para “o seu fracasso”

ou para o malogro do “protesto negro”. Contudo, nem mesmo a capitulação

passiva poderia ser imputada ao que se poderia considerar original e

profundamente negro no comportamento do negro e do mulato. Na área de

contato com o branco, onde o negro não aparece despojado dos valores de

seu mundo social próprio, suas identificações morais ou culturais não

possuem nenhuma eficácia e não contam para nada na determinação do

ciclo de ajustamento inter-racial. Nessa área, o negro vive nos limites de sua

segunda natureza humana e tem de aceitar e submeter-se às regras do jogo,

elaboradas para os brancos, pelos brancos e com vistas à felicidade dos

brancos.

Três questões marginais exigem o pronunciamento do autor, nesta

introdução. Primeiro, os resultados que servem de base às análises dizem

respeito a situações transcorridas há quinze ou vinte anos. Eles são válidos

para o Brasil dos nossos dias? Eles não seriam a parte transcorrida do

passado recente ou do presente que está desaparecendo? Sobre isso não há a

menor dúvida. Os dados reportam-se a situações transcorridas e vividas:

muito do que se disse (ou do que se poderia dizer, com fundamento em suas

evidências) já é histórico. Todavia, os ritmos históricos da sociedade

brasileira não são nem tão intensos nem tão rápidos a ponto de exigirem

uma completa revisão de dados, hipóteses e conclusões. Ao contrário, como

já escrevemos algures, esses ritmos mostraram-se muito lentos quanto às

estruturas raciais do sistema social. Desaparecidas a escravidão e a

imperiosa necessidade de organizar o sistema de trabalho com base na mão

de obra negra, o negro deixou de ser um problema histórico para o branco e

deixou, por conseguinte, de contar em sua aritmética política. Ao revés do

que se pensa vulgarmente, a tenacidade das estruturas raciais continua a

mostrar-se maior do que seria desejável (não apenas em função dos

interesses dos estratos sociais em que “negros” e “mulatos” alcançam alta

participação, mas em função dos próprios dinamismos da sociedade

nacional como um todo). Por essa razão, os dados e conclusões possuem

pleno valor atual e as reflexões críticas, que eles suscitam, não se opõem

aos ritmos históricos. Quando menos, para que possamos transferir para a

alteração das relações raciais ritmos históricos que se firmaram em outras

esferas, seria necessário retomar tais reflexões críticas e inseri-las em

políticas concretas de transformação da ordem racial, que se superpõe à

ordem social da sociedade de classes em expansão.

Uma segunda questão envolve a própria natureza dos trabalhos aqui

reunidos. Tomem-se o segundo e o terceiro capítulos como exemplo:

escritos para servir de base à comunicação oral, nesses estudos o

pensamento é pouco elaborado e desenvolvido. Os demais ensaios compartilham dessa condição. O leitor precisa trabalhar com o autor. O

que se oferece, explicitamente, é um mero ponto de partida. Quer o leitor

aceite ou se oponha às ideias aqui defendidas, é indispensável essa

colaboração, pela qual as implicações poderão se evidenciar e ser

entendidas. Isso não quer dizer que o leitor precise ir aos outros estudos,

mais completos, do autor ou de outros sociólogos. Esse passo depende,

naturalmente, dos interesses do próprio leitor. Informando-se mais, terá

maior base para compreender a complexa situação racial brasileira e para

compará-la com outras situações, análogas ou diferentes. Porém, ficando-se

no plano imediato deste livro e nas fronteiras do que ele se propõe divulgar,

especialmente os dois primeiros grupos de ensaios requerem que o leitor se

disponha a fazer o que o autor não podia, extraindo dos dados, das

conclusões (e mesmo das hipóteses) consequências que não foram expostas.

A terceira questão refere-se ao título do livro: O negro no mundo dos

brancos. Esse título choca-se com a ideia corrente, de que a sociedade

brasileira é o produto da atividade convergente de “três” raças,

suplementadas pelos “mestiços”. Comecei minha carreira intelectual

criticando essa visão convencional (em conferência feita em Assunção, em

1941). O que ela pode ter de verdade? Qual seria a “chance” dos povos

indígenas ou africanos de compartilhar as experiências históricas dos

colonizadores e seus descendentes? O Brasil que resultou da longa

elaboração da sociedade colonial não é um produto nem da atividade

isolada nem da vontade exclusiva do branco privilegiado e dominante. O

fato, porém, é que a sociedade colonial foi montada para esse branco. A

nossa história também é uma história do branco privilegiado para o branco

privilegiado, não importa se haja ou não alguma contradição entre a raça

genotípica e a raça fenotípica, ou entre as aparências e as realidades. O

argumento segundo o qual muitos brancos ficaram à margem do mundo

social que se criou pelo branco e para o branco – com a exploração

sistemática das outras raças e dos mestiços, que se classificavam (ou se desclassificavam) através delas – possui pouco valor nesta discussão.

Socialmente falando, ele não era branco e, a julgar por conhecimentos que

obtive ao longo de minha carreira profissional, continua a não ser

considerado socialmente como branco. Cheguei, mesmo, a ouvir uma

caracterização pública (de brasileiro racial e socialmente muito branco), em

uma cidade famosa do Nordeste, em que esse tipo de “homem branco” foi

caracterizado como “verdadeiro animal” (o equivalente da besta no regime

da escravidão). Contudo, isso carece de importância nessa discussão

preliminar. O negro foi exposto a um mundo social que se organizou para os

segmentos privilegiados da raça dominante. Ele não foi inerte a esse

mundo. Doutro lado, esse mundo também não ficou imune ao negro. Todos

os que leram Gilberto Freyre sabem qual foi a dupla interação, que se

estabeleceu nas duas direções. Todavia, em nenhum momento essas

influências recíprocas mudaram o sentido do processo social. O negro

permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para

tratá-lo como ser humano e como “igual”. Quando se dá a primeira grande

revolução social brasileira, na qual esse mundo se desintegra em suas raízes

– abrindo-se ou rachando-se por meio de várias fendas, como assinalou

Nabuco –, nem por isso ele contemplou com equidade as “três raças” e os

“mestiços” que nasceram do seu intercruzamento. Ao contrário, para

participar desse mundo, o negro e o mulato se viram compelidos a se

identificar com o branqueamento psicossocial e moral. Tiveram de sair de

sua pele, simulando a condição humana-padrão do “mundo dos brancos”.

Essa situação constitui, em si mesma, uma terrível provação. Que

equilíbrio podem ter o “negro” e o “mulato” se são expostos, por princípio e

como condição de rotina, a formas de autoafirmação que são, ao mesmo

tempo, formas de autonegação? No cume da ascensão social ou no fim de

um longo processo de aperfeiçoamento constante, o indivíduo descobre que

extrai o seu próprio valor, e o reconhecimento desse valor pelos outros,

daquilo em que ele não é, decididamente, nem negro nem mulato – mas BRANCO! Para os analistas superficiais, esse imperialismo da branquitude

é normal e necessário. Isso porque fomos levados a crer que a integração

nacional do Brasil depende dessa forma unilateral de realizar a nossa

unidade nacional. Nunca tentamos pensar numa direção diversa e imaginar

como poderia ser essa mesma unidade se, em vez de integrar por exclusão,

ela integrasse por multiplicação. De fato, tanto pode haver a união fundada

na imposição de cima para baixo quanto a união que se cria com base no

consenso e no respeito por diferentes culturas em contato. Quando se

compara o Brasil aos Estados Unidos, descobre-se que a unidade nacional

de sociedades com passado colonial recente tende para o primeiro padrão (o

que sucedeu em ambos os países). É uma unidade nacional em que se

perdem heranças culturais, que não podem ser harmonizadas às condições

em que os estratos dominantes tentam realizar a integração nacional através

da sua própria dominação estamental. Mesmo que, mais tarde, surjam novas

possibilidades de acomodação em bases democráticas, o mal já estará feito.

Não se pode recuperar o que se perde nem refazer os caminhos históricos da

integração econômica, sociocultural e política de uma sociedade nacional

cultural e racialmente heterogênea. Nós só admitimos maior interação

construtiva entre raças e heranças culturais distintas no nível das

comunidades de subsistência. Aí, crenças e religiões muito diferentes

puderam ser conciliadas e por vezes fundidas. Os trabalhos de Herskovits,

René Ribeiro, O. Costa Eduardo e Roger Bastide explicam por que isso

aconteceu: a herança cultural e as formas sociais correspondentes de

associação respondiam à necessidade de autoafirmação e de autorrealização

de um modo autônomo. O isolamento quebrou a inevitabilidade de uma

autoafirmação negadora e destrutiva. No entanto, isso ocorreu no nível dos

estratos da sociedade nacional que eram menos influentes na definição dos

rumos históricos da integração nacional. Pois, na verdade, todo o mundo

rústico brasileiro, no momento da decisão desses rumos, está sujeito ao

mesmo processo de derrocamento e de destruição, que paira sobre as culturas que divergem dos padrões “eruditos” ou “modernos” da

civilização.

O título, portanto, transcende ao livro, e levanta uma problemática que só

foi aflorada unilateralmente, nos ensaios coligidos. Na verdade, isso não me

preocupou. O intuito direto consistia em pôr em evidência o sentido global

e as consequências fatais do ajustamento do “negro” e do “mulato” à

sociedade brasileira. Antes de atingir a democracia – em termos parciais ou

completos: um processo para o futuro –, o negro e o mulato têm de aceitar a

padronização e a uniformização. Eles se perdem como raça e como raça

portadora de cultura. As portas do mundo dos brancos não são

intransponíveis. Para atravessá-las, porém, os negros e os mulatos passam

por um abrasileiramento que é, inapelavelmente, um processo sistemático

de branqueamento. “Unidade nacional”, “civilização moderna” e

dominação dos setores privilegiados da “raça branca” estão tão

intricadamente misturadas, que a socialização predominante institucionaliza

uma visão pobre e monolítica da dinâmica da economia, da sociedade e da

cultura. Por todas essas implicações, o título pareceu-me sugestivo e

verdadeiro, embora ele já tivesse sido aproveitado em outra obra (aliás,

publicada nesta mesma coleção: Roberto Cardoso de Oliveira, O índio e o

mundo dos brancos).26

Haveria muito a discutir-se a propósito desse tema geral. Não é necessário

fazê-lo, pelo menos por enquanto. Todavia, por que retomar um título como

esse, especialmente depois que os debates sobre a negritude praticamente

mostraram a condenação “oficial” de semelhante compreensão do assunto?

Ainda aqui, por amor à verdade e por lealdade a um conceito universalista,

aberto e humanístico de brasilidade. Pode-se fundar o nacionalismo

patrioteiro e estreito em uma noção fechada de integração nacional.

Entretanto, a utilidade desse nacionalismo é tão limitada quanto o

patriotismo dos círculos sociais que o defendem. Uma nação nova, que não

conseguiu sequer completar o ciclo democrático da revolução inerente à desintegração do regime de trabalho servil, não pode moldar o seu conceito

de brasilidade em modelos tão exclusivistas e tacanhos. Além disso, hoje

deve importar-nos menos o que perdemos, de forma irremediável, do que o

que não deveremos perder no futuro, imediato ou remoto. A democracia

racial não impõe a participação como um desafio passivo: para participar, o

negro e o mulato precisarão dar de si mesmos o que eles possuem de mais

criador e produtivo. A brasilidade, que herdamos do passado escravocrata e

das primeiras experiências de universalização do trabalho livre, é

demasiado estreita e pobre para fazer face aos dilemas humanos e políticos

de uma sociedade racial e culturalmente heterogênea. Temos de aprender a

não expurgar os diferentes grupos raciais e culturais do que eles podem

levar criadoramente ao processo de fusão e unificação, para que se atinja

um padrão de brasilidade autenticamente pluralista, plástico e

revolucionário. Portanto, há, por detrás do título, uma intenção que também

transcende o livro. O que pretendemos, para o nosso futuro imediato e

remoto, não é a fixação imobilista dos dois polos, separando o negro, de um

lado, e o mundo dos brancos, de que ele participa marginalmente, de outro;

mas que o mundo dos brancos dilua-se e desapareça, para incorporar, em

sua plenitude, todas as fronteiras do humano, que hoje apenas coexistem

“mecanicamente” dentro da sociedade brasileira.

Antes de encerrar esta introdução, gostaríamos de agradecer aos que

autorizaram a reprodução dos trabalhos coligidos neste volume. As fontes

originais (as editoras ou publicações, os organizadores de volumes etc.) são

enumeradas devidamente, em notas de rodapé, para que tal agradecimento

se torne efetivo. Outrossim, agradeço o interesse de meu colega e amigo,

professor Fernando Henrique Cardoso, pela inclusão deste livro em Corpo e

alma do Brasil. O mesmo agradecimento endereço a Paul-Jean Monteil,

mais um amigo dedicado e compreensivo que o editor.

São Paulo, 8 de setembro de 1971

Florestan Fernandes

25 Cf. Roger Bastide e Florestan Fernandes, O preconceito racial em São Paulo, São Paulo, Instituto de Administração da USP, 1951; os capítulos redigidos em colaboração com Roger Bastide foram publicados, parceladamente, pela revista Anhembi (vols. X-XI, números 30-34, 1953), editados em uma obra cooperativista (Editora Anhembi, Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo, 1955) e finalmente publicados em uma edição autônoma, que contém o projeto inicial da pesquisa e um estudo adicional, elaborado por Roger Bastide e Pierre Van den Bergue (Roger Bastide e Florestan Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, 2ª ed., São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1959 e Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, São Paulo, Tipografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, 1964; 2ª ed. revista, São Paulo, Dominus Editora/Editora da Universidade de São Paulo, 2 vols., 1965).

26 A primeira edição de O negro no mundo dos brancos veio à lume em 1972 pela Difusão Européia do Livro dentro da Coleção Corpo e Alma do Brasil, dirigida por Fernando Henrique Cardoso. (N. E.).

 

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